17.4.18

TRUMP PARECE QUERER BRINCAR DE KENNEDY

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


A tevê estatal russa aconselhou a população a armazenar alimentos e água tendo em vista um risco próximo de guerra nuclear. Se considerarmos que a Rússia tem um dos mais acurados sistemas de informação do mundo, isso significa que a espionagem da potência em virtual paridade nuclear com os Estados Unidos detectou uma vontade firme de algum insano do lado norte-americano de atacar algum dos pontos vitais para a segurança russa. Não é um Kennedy, mas um brincalhão chamado Trump.

É uma tragédia para a humanidade. Em algum momento na campanha e na vitória eleitoral de Donald Trump se podia supor que esse homem de negócios de ridícula truculência nas propostas de política interna olharia o exterior apenas como oportunidade de negócios para os interesses nacionais norte-americanos. Mas talvez tenha sido desviado dessa intenção em razão da estúpida obsessão dos democratas em provar que os russos ajudaram de alguma forma sua campanha. Para provar o contrário, Trump quer humilhar a Rússia.

Sabe-se que na Casa Branca houve dissidência em relação ao bombardeio da Síria. Os geopolíticos belicistas norte-americanos não perdem oportunidade para tentar atrair os russos para um confronto em terceiro país. No início, ao tempo da infame primavera árabe comandada por Hillary Clinton, a Rússia não pode proteger seus aliados, como a Líbia, porque estava às voltas com seus próprios problemas internos. A Líbia esquartejada pelos EUA, França e Inglaterra tornou-se um supridor de centenas de milhares de refugiados para a Europa.

Assim como o Iraque, a Líbia produzida pela “comunidade ocidental” foi e continua sendo retalhada em milícias, cada uma comandando um poço de petróleo, e sem governo central respeitado. A Ucrânia foi dividida ao meio por bandidos apoiados pelos EUA, salvando-se apenas a parte leste, esta finalmente apoiada pela Rússia, que impediu a transformação da Criméia numa colônia americana. Então chegou a vez de outro aliado russo, a Síria, ser atacada por terroristas acobertados pelo poderio norte-americano, e pelos próprios EUA. Acaso o ataque final seja à Coreia do Norte, depois de sua oferta de paz?

Isso vai se prolongar indefinidamente? Os jogos de guerra de antes da era nuclear indicavam que não poderia haver estabilidade de poder entre potências hegemônicas concorrentes. Isso, contudo, era antes da era nuclear. Na era nuclear encontramos uma situação de dissuasão mútua efetivada pela certeza da destruição recíproca em caso de guerra. Na verdade, o poderio nuclear “arrasador” dos Estados Unidos é irrelevante diante de um poder quantitativamente menor, porém qualitativamente equivalente. Numa guerra nuclear, e este é o recado russo, não é preciso destruir os EUA duas vezes, basta uma.

O recado foi dado há um mês, em Moscou, quando Putin apresentou seu arsenal de armas nucleares indestrutíveis para uma platéia mundial. É muito difícil imaginar que isso tenha sido produto do orgulho ou da vaidade. É um recado direto aos geopolíticos belicistas norte-americanos para que não cruzem a “linha vermelha”. Ao contrário do que alguns deles acreditam, não há guerra nuclear parcial. Belicistas norte-americanos dos anos 60 e 70 acreditavam numa guerra “acordada”, na qual apenas alguns alvos de parte a parte seriam atingidos. Isso é um besteirol.

Mais tarde, na era Reagan, a moda era pregar uma “guerra nuclear protegida”, entregando os aliados e protegendo o território norte-americano. Nesse contexto veio a chamada “guerra nas estrelas”, cientificamente tão inviável que ninguém mais se lembra dela depois da era Reagan. Agora, a proposta Trump é uma incógnita na medida em que não se sabe exatamente quem tem a hegemonia interna da Casa Branca, os belicistas ou os economicistas. Em qualquer caso, inventar que a Síria atacou com armas químicas, antes da verificação da ONU, não é suficiente para fazer os russos ignorarem um aliado fiel e útil, e capitular aos EUA.