9.6.18

A JOGADA PSICOLÓGICA

MARCELO MÁRIO DE MELO -


Reagir a um assalto é besteira. O negócio é entregar tudo e pronto. Agora há situações em que é possível desmontar psicologicamente o assaltante. Por exemplo, numa situação em que, se ele der um tiro, certamente, será preso, coisa que sabe e não deseja. É preciso saber jogar com isso.

O cidadão pensava assim, até que chegou o dia da prova dos nove. Entrou no apartamento deixando a porta somente encostada. De repente, irrompeu um cara com a pistola apontada. Aí ele partiu para aplicar a sua teoria psicológica.

- Me passa dinheiro, celular, relógio, aliança e tudo mais que dê nessa sacola aí. Vai enchendo. E se vacilar, te dou um tiro na testa.

- Meu amigo, você chegou na hora certa, porque eu estou doido pra receber esse tiro. Pode apertar o gatilho que eu agradeço. Não vou lhe entregar nada, nem encher sacola nenhuma. Quero o tiro. Recebi ontem os exames e estou com o câncer tomando conta do corpo todo. A previsão é de mais uns seis meses de vida tendo de passar por quimioterapia, sofrer muito e terminar morrendo entubado numa cama de hospital. Então decidi me suicidar e estava só procurando o jeito. Você agora chegou com a solução. Pode atirar que resolve o meu caso. Eu não vou lhe entregar nada. nem encher sacola nenhuma. Só vou fechar os olhos. Espero que, depois do tiro, você possa escapar, porque há um quartel da polícia logo aí em frente. Pode atir...

Não terminou a frase. O corpo tombou acompanhando o estampido e o voo do assaltante do vigésimo andar ao asfalto. Tratava-se de um depressivo-suicida-claustrofóbico, que preferia morrer a ser preso e vivia buscando uma situação que o obrigasse a matar-se, inapelavelmente. Cometer um crime explícito na frente de um quartel foi a solução encontrada para livrar-se da prisão e da vida.