1.7.18

PARENTE LEGOU AOS MERCADOS GLOBALIZADOS A DESTRUIÇÃO DO CAPITALISMO IMPRODUTIVO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS - atualizado às 20h12 -


Há uma piada antiga, e de certo mau gosto, segundo a qual um menino de Hiroshima pensou que era culpado pela bomba atômica porque puxou a descarga no momento exato em que ela explodiu.

Pedro Parente, o inventor da vinculação dos preços dos derivados de petróleo ao mercado externo, que tinha como objetivo último entregar às multinacionais o mercado brasileiro de combustíveis e a própria Petrobrás, não suspeitou das conseqüências de aumentar aceleradamente o preço do diesel.

Ao contrário do menino de Hiroshima, que não tinha culpa pela bomba, Parente e sua política insana de preços, que ainda perdura, vai fazer explodirem os mercados especulativos pelo mundo à fora. Lembra-me um texto atribuído a Shakespeare, que tomo como inspiração. Diz meu texto inspirado no dele:

Por causa da vinculação do preço do diesel aos preços internacionais por Pedro Parente, os caminhoneiros entraram em greve.

Por causa da greve dos caminhoneiros acompanhada de um lockout dos patrões, o sistema de transporte parou.

Por causa da paralisação do sistema de transporte, o Governo entrou em pânico, deu um subsídio ao diesel e concordou em editar uma tabela de preços mínimos dos fretes.

Por causa da tabela dos fretes, considerada inconstitucional pelos empresários do agronegócio, que mantêm estoques de uma safra recorde, prevê-se novo lockout, pelo que vão disparar os preços dos mercados futuros da soja e do milho no Brasil.

Por causa da cadeia especulativa nos mercados à vista e a prazo manipulando preços da soja e do milho, à subida dos preços no Brasil corresponde uma derrubada em Chicago, neste caso em decorrência da forte taxação chinesa de produtos norte-americanos em resposta a seu protecionismo industrial, no vórtice da batalha comercial entre as duas potências, a militar e a econômica.

Por causa, num segundo momento, da lentidão da chegada do subsídio ao diesel de 46 centavos e da revolta do agronegócio à tabela de fretes exigida pelos caminhoneiros e consentida pelo governo, há um nó no mercado, e vem aí uma disparada dos preços da soja e do milho nos mercados à vista do Brasil, e uma queda nos Estados Unidos, o que torna inevitável que sejam chamadas as margens nos mercados de derivativos não só nos Estados Unidos mas nas bolsas globalizadas do mudo;

Por causa da chamada de margens, alguns pagarão e absorverão o prejuízo, caindo fora dos mercados especulativos, tirando dinheiro deles e debilitando-os; outros ficarão numa posição inicialmente neutra; e muitos quebrarão. Será preciso, então, que o “bom” Governo de cada um dos países atingidos, praticamente todos do ocidente, enterre neles alguns trilhões de dólares para salvar os especuladores. Por causa da crise de 2008, só nos Estados Unidos de Obama foram queimados na sustentação da especulação 27 trilhões de dólares, mais de um terço do PIB mundial, com o pretexto de salvar o sistema.

Uma vez despedaçado o Reino da Especulação, seus restos terão de se defrontar com um governo norte-americano que, como se adiantou na campanha eleitoral, não tem qualquer simpatia por Wall Street, já que Trump está sob influência direta do sistema produtivo, ao qual pertence. Como conseqüência, o sistema financeiro especulativo mundial terá sua oportunidade de falir ou de voltar à normalidade dos anos 60 com apoio da grande máquina produtiva chinesa, que reforçará seu próprio capitalismo regulado e contribuirá para regular o ocidental.

E pensar que tudo isso foi causado pela decisão de Pedro Parente, acobertado por Michel Temer, de vincular os preços dos combustíveis produzidos e comercializados pela Petrobrás aos preços internacionais, com o objetivo claro de criar condições lucrativas para as empresas petrolíferas estrangeiras no mercado interno e viabilizar a privatização fatiada da Petrobrás, que efetivamente iniciaram, inclusive no ramo dos dutos de gás.

Essa sucessão de eventos caóticos prenuncia o que os físico-matemáticos chamam de Atrator Estranho na Teoria do Caos, os hindus de Avatara, os judeus e maometanos de profetas, e os cristãos de redentor: é o momento de um grande resgate pela força externa materializada num ser humano comum. Do contrário, permaneceremos indefinidamente no reino da jogatina neoliberal improdutiva, amaldiçoada como o Reino de Mamon pelo Papa Francisco.

Portanto, ou nos salvamos seguindo alguma forma de inspiração metafísica, ou sucumbiremos na nossa própria destruição material, numa cascata interminável de eventos caóticos. No nosso caso, produzida exclusivamente pelo neoliberalismo encarnado em Michel Temer e sua equipe , tendo Parente feito o papel de um prego- de forma similar ao que Shakespeare colocou na boca de Henrique III numa peça clássica:

Por causa de um prego perdi a ferradura;
Por causa da ferradura perdi o cavalo;
Por causa do cavalo perdi a batalha;
Por causa da batalha perdi a guerra;
Por causa da guerra perdi o Reino.
E tudo por causa de um prego!

*José Carlos de Assis, é assessor de Economia Política do Senador Roberto Requião - Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “O universo neoliberal em desencanto” com Francisco Antônio Doria, Ed. Civilização Brasileira, RJ.