26.8.18

A EXPLORAÇÃO DA PEDOFILIA PARA COBRIR OS CRIMES DOS BANCOS

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Não pense que há qualquer sentido de piedade em relação a crianças vítimas de pedofilia por parte de sacerdotes acobertados por bispos. A verdadeira piedade trataria essa questão com extrema discrição a fim de proteger as vítimas de abusos. A exposição pública dos fatos tem um único objetivo: desmoralizar a Igreja Católica no momento em que ela se volta com coragem inaudita contra o sistema financeiro especulativo que escraviza o mundo.

Leia o documento da Congregação para a Doutrina da Fé, recentemente aprovado pelo Papa Francisco, sob o título “Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro”. É o maior libelo contra a especulação financeira jamais produzido por uma instituição eclesiástica, sem paralelo inclusive em meios laicos. Tenho sido um crítico da financeirização; contudo, não faria nada melhor.

Os mais ingênuos dirão que não existe relação entre as duas situações. Afinal, a pedofilia é um crime contra crianças, e tem que ser coibido. Contudo, sobre que espécie de crimes estamos falando? São crimes atuais? Ou são crimes de vinte, trinta anos atrás? Há em sua divulgação um certo sentido de vingança que só posso associar à conveniência política de torná-los públicos exatamente agora como diversionismo, ou seja, para desviar a atenção.

Observe a visita do Papa à Irlanda: teve vários significados, tanto do ponto de vista dos temas tradicionais da Igreja quanto do ponto de vista do ato de humildade praticado pelo Papa Francisco em relação aos padres pedófilos. Tudo bem, há nisso um sentido de justiça histórica. Contudo, compare o tempo que a televisão tem dado ao assunto, de forma recorrente, com o tempo que ela não deu ao documento sobre as distorções do sistema financeiro.

Na verdade, a imprensa mundial, não apenas a Globo, ignorou o documento papel sobre a financeirização. E não haverá ninguém que me convença de que a denúncia pública da pedofilia histórica só ganhou cobertura imediata da grande mídia, e continua a ganhar sistematicamente, para desmoralizar a Igreja como entidade ética, no momento em que ela ataca o sistema financeiro que escraviza o mundo ocidental, não o protegido sistema chinês.

Não é coincidência que a Polícia da Austrália tenha aberto um inquérito a respeito de acobertamento de pedofilia contra o cardeal que responde pelas finanças do Vaticano. É uma forma pouco sutil de avisar até onde a liberdade ética do Papa pode ir. Ao desenterrar esses mortos, a Polícia, consciente ou inconscientemente a serviço do capital financeiro especulativo, dá a este último os meios para esconder seus próprios e imensos pecados.

Papa Francisco é um homem de extraordinária coragem. Decidiu expor a Igreja a um risco de cisma, mantendo a liberdade de seu pontificado, em vez de subordinar-se à parte mais espúria do capitalismo, o capitalismo financeiro especulativo. Imagino que ele está dando um passo calculado. Pedindo publicamente perdão pela pedofilia na Igreja, ele confia em que, com o tempo, o tema torna-se trivial, fora das manchetes. Isso liberará suas mãos para atacar onde importa: a escravização do mundo por Mamon, o deus dinheiro.