23.8.18

NÃO TENHO NEM MINHA CASA NEM MINHA VIDA

ALCYR CAVALCANTI -

O Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo (Gilberto Gil).

Em cada esquina, debaixo de cada marquise, embaixo de viadutos o número de despossuídos, aqueles que nada tem aumenta assustadoramente e vem tornar a público a total ausência de um plano de habitação, seja a nível municipal, estadual ou federal. Nem todos são migrantes vindo do Nordeste como nos anos 60, fugindo da seca em busca da terra prometida, o Rio de Janeiro com as belezas cantadas em prosa e verso. Muitos deles são ex-moradores da Baixada Fluminense ou de morros cariocas que sem um teto para dormir, sem um trabalho para sustento procuram nas sobras das latas de lixo, e da caridade dos passantes para sobreviver. Com um desemprego em torno de 15% e de subempregados em uma percentagem bem maior a maioria desiste e vai para as ruas de uma cidade que já foi maravilhosa.


As marquises da Avenida Presidente Vargas abrigam centenas deles, homens, mulheres e crianças, todos sem nenhuma perspectiva de alguma melhoria, por menor que seja. Histórias de vida são contadas e vão desaparecer na poeira do tempo, como a de Roberto um "intelectual não orgânico" que prefere um bom livro a um punhado de moedas, que pouco iriam resolver a sua tristeza de ter perdido quase tudo, só não perdeu a sua dignidade. Ele não faz distinção de autor, best seller ou principiante, com sua vista aguçada vive debaixo dos viadutos da cidade em busca somente da passagem do tempo, ele só quer se informar. Alguns procuram o prazer efêmero na cachaça ou em mal muito maior uma droga que pode ser mortal, o crack, passam então a viver, ou melhor caminhar sem direção, como zumbis. Outros pelo contrário, movidos pela revolta e pelo descaso das autoridades que a ninguém representam, a não ser a seus grupelhos que querem se eternizar nas benesses do poder, praticam pequenos furtos, e na calada da noite surrupiam fios de qualquer espécie, tampas de bueiro, manilhas metálicas para vender por qualquer trocado em ferros velhos que se abastecem da desgraça alheia.

Em contrapartida moradores lesados, ficam sem telefone, internet ou mesmo sem eletricidade e desafogam ameaçando os pobres coitados. Muitos foram afastados pela força das armas. Pouco tempo depois voltaram, a necessidade de um abrigo foi mais forte. O atual prefeito Marcelo Crivella é também, segundo seus adeptos, um pastor das almas. Mas infelizmente tem se mostrado pouco sensível à triste realidade, talvez porque eles não tem mais título de eleitor e nem foram recadastrados.