3.8.18

O GLOBO DEFENDE A LEI DA ANISTIA E ESQUECE OS CRIMES COMETIDOS PELA DITADURA DE 64

MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND -


Apoiador incondicional do golpe empresarial militar de abril de 1964, o jornal O Globo em sua edição desta quinta-feira (2)  declara em editorial ser contrário a rever a lei de anistia. O editorial em um só instante  se refere aos crimes contra a humanidade, cometidos em larga escala por militares e civis ao longo dos 21 anos do regime autoritário.

É importante que fique bem claro que a ditadura não cometeu poucas arbitrariedades e que o assassinato do jornalista Wladimir Herzog  foi um dos crimes que agora o Comitê Interamericano de Direitos Humanos está a exigir do Estado brasileiro que seja investigado e os responsáveis sejam  devidamente punidos, se estiverem vivos, se não, que as identidades sejam conhecidas pelo povo brasileiro. O  incrível é que decorridos tanto tempo os crimes sigam impunes, mas isso O Globo não menciona.

Em um momento em que parte da opinião pública deixa-se envolver por apoiadores daqueles tempos sombrios, é fundamental que a lei da anistia seja revista e os crimes contra humanidade, não  apenas o cometido contra Herzog, sejam punidos.

O Globo na prática  faz cair por terra uma autocrítica feita por ter apoiado a ditadura de 64, pois quem defende a continuidade da lei da anistia, consequentemente a impunidade, está exatamente livrando a cara dos responsáveis pelas atrocidades que o jornal da família Marinho sempre apoiou.

Na verdade, o  tema revisão da lei da anistia é um divisor de águas, ou seja, torna claro quem defende a impunidade e quem ainda quer que os responsáveis pelas atrocidades sejam punidos e conhecidos. O que se deve lamentar é que isso acontece muito tempo depois dos fatos acontecerem, resultando que muitos criminosos morreram impunes.

Não se deve alegar que os ainda vivos, por terem idade avançada, não devem ser investigados e punidos. Na história recente da humanidade, por exemplo, criminosos nazistas que se esconderam, quando localizados  foram submetidos a julgamento e cumpriram, ou ainda cumprem, pena, apesar da idade avançada.

Em vez de condenar uma eventual revisão da lei da anistia, usando inclusive argumentos pífios,  O Globo faria melhor se lembrasse de fatos que envolveram figuras como, por exemplo, Klaus Altmann, descoberto na Bolívia e extraditado para ser julgado e condenado pelos crimes cometidos durante a II Guerra Mundial.

O Globo poderia informar em suas páginas que em países da América do Sul, como, por exemplo,  na Argentina, Chile, Uruguai, criminosos do tempo das ditaduras foram julgados e condenados  pelo que fizeram. Houve também os que tinham a mesma posição que O Globo, ou seja, eram contrários a qualquer tipo de punição, alegando que não se poderia rever o passado ou utilizando argumentos do gênero.

O que se lamenta em termos  de Brasil é que o tema aqui apresentado aconteça tanto tempo depois. Apesar disso, fica valendo o termo popular “antes tarde do  que nunca”, apesar da oposição de O Globo, que no caso tem, na prática, a mesma posição que um candidato presidencial que tanto combate. É preciso que a opinião pública tome conhecimento de todos esses fatos, para que não se deixe enganar e embarque na onda da desinformação.