11.10.18

UM PETISTA QUE IGNORA A POLÍTICA DE PLENO EMPREGO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


É patético o comportamento eleitoral dos dois candidatos presidenciais diante do maior drama social vivido pelo Brasil atualmente, o alto desemprego. Para Bolsonaro o problema simplesmente não existe. Para Haddad parece ser apenas uma questão estatística. Não há alma no discurso de ambos em termos de um comprometimento real com uma política de extinção do alto desemprego no Brasil. Tratam do assunto como um incômodo social trivial, não um problema político de primeira grandeza, afetando milhões de pessoas.

O mais extraordinário, no caso de Haddad, é que não tem conseguido sequer contrapor o baixo desemprego nos governos do PT, exceto no último ano de Dilma, aos altíssimos níveis de desemprego e subemprego no governo Temer. Parece que está com medo de assumir uma política de pleno emprego, talvez por um sentimento íntimo de incompetência na solução do problema. A conseqüência disso é uma certa deserção já notada entre economistas da corrente progressista da campanha do petista.

Existe uma razão profunda nesse comportamento de Haddad que se liga à situação política mundial. Meses atrás, antes de se configurar a campanha eleitoral, escrevi que a desgraça de muitos países, e notadamente da Europa, é que seus líderes, em geral, são ignorantes de economia. Foi por ignorância de economia que os países da União Européia aceitaram as imposições da Alemanha na criação do euro, o que condenou praticamente todos eles a uma situação permanentemente crítica de alto desemprego por falta de demanda.

No nosso caso tivemos líderes familiarizados com economia mas que efetivamente nada sabiam do assunto. Fernando Henrique deixou em seu rastro uma alta taxa de desemprego, produto de uma política cujo controle transferiu a economistas neoliberais, mas que provavelmente não era a seu gosto de sociólogo. Lula foi bafejado pela sorte: certamente que não foi graças a Lula, a Palocci ou a Guido Mantega que o desemprego caiu nos anos 2002-2010, mas ao fantástico desempenho das exportações de primários para a China.

Não há grandes heróis nem bandidos nessa história. Há uma situação histórica mundial que empurrou nossos presidentes para decisões equivocadas, nem sempre conscientes das conseqüências internas e dos benefícios para classes e categorias especiais. O que fica, porém, é a necessidade de conhecimentos fundamentais de economia por parte dos líderes, ou ao menos dos seus principais assessores. Não sei se Bolsonaro tem conhecimento do que exatamente propõe Paulo Guedes. E não sei o que Haddad está formulando de sua parte; o que se tornou público é muito ruim.

Guedes tem um programa. Não adianta criticá-lo pelo fato de esse programa não afetar o principal problema social e político do país. Ele diz que o combate ao desemprego vai resultar da recuperação da confiança do empresariado na política fiscal equilibrada. Isso é uma patacoada. Mas funciona junto aos pobres. Funciona justamente porque não diz nada.

Ademais, as pessoas que votaram em Bolsonaro, e estão inclinadas a votar de novo, não estão atrás de uma proposta: estão atrás da politização de comportamentos e de uma vingança contra as elites pelo alto desemprego e subemprego.

O único objetivo programático de um candidato presidencial do PT, dito partido dos trabalhadores, deveria ser um compromisso absoluto com uma política de pleno emprego, que ele deve anunciar imediatamente para ter credibilidade. É isso que o distinguiria de Bolsonaro.

Promessas de reforma da previdência, de política fiscal equilibrada, de reforma da saúde e de educação, tudo isso é muito bonito, mas não diz respeito ao problema imediato, que é o alto desemprego. Já Bolsonaro está numa zona de conforto. Ele não precisa de prometer emprego. Ninguém espera dele isso.