2.11.18

O IGBIN E O RITMO DO MUNDO

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Um dos ritmos mais nobres do candomblé de keto é o Igbin. Ele é o toque dedicado a Oxalá, mais especificamente a Oxalufã (do iorubá orisá olufon; orixá senhor de Ifón - localidade próxima a Oxogbó, na Nigéria). Oxalufã é a manifestação de Oxalá como um ancião, dotado da sabedoria dos mais velhos, que baila de forma lenta e curvada, apoiado em um bastão sagrado, o opaxorô. Para que o bailado seja possível, o toque do tambor se caracteriza pela lentidão e, ao mesmo tempo, pelo desenvolvimento contínuo do ritmo.

Igbin é também o caramujo africano que, ao lado do ebô (alimento com milho branco), é a principal oferenda feita a Oxalá. O ritmo do Igbin se assemelha ao lento caminhar do caramujo que carrega a própria casa. Ao longo do toque, o rum - o mais grave dos tambores - faz uma série de desenhos rítmicos que acompanham as sutis variações do bailado lento do orixá. Durante o bailado, Oxalufã bate com o opaxorô no chão no mesmo compasso do desenho feito pelo rum.

O Igbin é um toque de paciência, observação e perseverança. Solene em sua lentidão de caramujo, forte na celebração do poder dos mais velhos, desenha os mitos sem acelerar o passo, sempre no sentido da criação da vida, da arte e do axé; atributos de Oxalá.

Babá, com a sabedoria do tempo da lesma e a mirada dos fazeres do artesão, recolhe a pressa, descansa no limiar dos tempos, não para, e ensina a beleza do recolhimento e do passo paciente como caminho de afagar, criar, abraçar e refazer cotidianamente o mundo.

Fonte: Facebook /Foto do craque Wigder Frota. Alegoria de Leandro Vieira. Mangueira/2017.