30.12.18

INTERVENÇÃO MILITAR NÃO RESOLVEU PROBLEMA DA VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO

ALCYR CAVALCANTI -

Foram 314 dias de combate ao crime em que a invasão às favelas foi a principal estratégia. Para o secretário Nunes "foi mais um choque de gestão".


A violência no Estado do Rio de Janeiro continua um sério problema que desafia o futuro governador, o Juiz  Wilson Witzel. O aparato militar não conseguiu resolver o problema da criminalidade que atormenta os cariocas. A política de segurança é baseada essencialmente no conceito da "War on Drugs" a Guerra Contra as Drogas, que foi implantado pelo Governo Nixon e logo aplicado na Colômbia no combate ao cartéis, em especial ao Cartel de Medellin dominado pelo maior narcotraficante de todos os tempos, o "barão da droga" Pablo Emílio Escobar Gavíria. O falso conceito de que ao acabar com as drogas traria  em consequência o fim da criminalidade é um erro que traz em sequência uma série de erros. Nunca se matou tanto em função deste combate inglório, que tem vitimado não só criminosos, mas agentes da lei e pessoas inocentes, muitas crianças foram tombadas ao longo dos confrontos. Na Colômbia os "barões da droga" saíram, mas o narcotráfico atua de forma pulverizada, sem o confronto Cali x Medellin, toneladas são exportadas para muitos países de uma forma muito bem organizada, que contribui para irrigar uma das maiores fontes de lucro de todo o planeta.

Na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro existem mais de 950 favelas, todas elas sem urbanização, saneamento, frentes de trabalho, pouca ou nenhuma assistência médica. Para os estrategistas de segurança a criminalidade estaria exclusivamente localizada nas favelas, especialmente nas mega favelas consideradas "Zonas Vermelhas", conceito da Escola Superior de Guerra-ESG, onde o inimigo deve ser combatido e em certos casos exterminado prontamente. O velho mito da marginalidade magnificamente estudado pela antropóloga Janice Perlman permanece. O estigma que persegue os moradores das localidades, daqueles que consideram as favelas fonte de todos os males, um tumor social que deve ser extirpado cirurgicamente é a norma de conduta. Na maioria das invasões bélicas, devido ao desconhecimento do terreno, ou mesmo por imperícia por parte dos agentes da lei, muitos inocentes mesmo crianças tem sido abatidos pelas chamadas balas perdidas.  Um dos problemas mais sérios é o envolvimento de agentes de segurança com a corrupção, problema que foi atacado e reduziu um pouco os altos índices, mas que terá de ser enfrentado pela facilidade da circulação de dinheiro em espécie que envolve esse tipo de negócio, feito às sombras.


Para o secretário de segurança Richard Nunes "A intervenção foi mais um choque de gestão com o propósito de reestruturar os órgãos do que tratarmos da criminalidade do dia a dia".Em um balanço feito após a intervenção militar, que veio logo após o carnaval carioca, em 16 de fevereiro foi verificado que os resultados obtidos ficaram muito longe do desejado. Foram 314 dias de intervenção onde o roubo de cargas e de veículos caíram de 8.301 ano passado para 6675 no ano de 2018, embora ainda estejam em um patamar significativo. Os índices de mortes violentas não foram reduzidos, há muito tempo que a policia carioca não matava tanto. Para o aplicativo Fogo Cruzado de fevereiro até dezembro foram mais de oito mil registro de confrontos, mais de três mil em relação ao ano de 2017.

Para muitos analistas a decretação da intervenção militar foi mais uma questão midiática para desviar o foco dos desmandos da gestão da "Era Temer" que comemorou com a célebre frase dita pelo presidente: "Foi um golpe de mestre", mas que na prática obteve poucos resultados.  O juiz Wilson Witzel que vai tomar posse em primeiro de janeiro declarou que vai intensificar o combate à criminalidade através do conceito da Guerra Contra as Drogas"com artefatos mortais, uma estratégia que poderá levar a um combate sem fim, onde não haverá nem vencedores nem vencidos. Todos sairão derrotados.