26.12.18

MEU ANO NOVO BRASILIANO

LUIZ ANTONIO SIMAS -

A comemoração do Ano Novo no primeiro dia de janeiro é relativamente recente. Ao longo dos tempos e das diversas civilizações, a data de celebração de um novo ciclo é diversa. Os babilônicos costumavam comemorar o novo ano no equinócio da primavera; os assírios e egípcios realizavam os festejos em setembro; os gregos celebravam o furdunço em finais de dezembro; os velhos persas escolheram março.


Chineses, japoneses, judeus e muçulmanos ainda têm datas próprias e motivos diferentes para comemorar a virada; como os quechuas de Twianacu, que comemoram o novo ano no inicio do ciclo agrícola, em junho.

Os hindus da Índia pegam pesado. Dependendo da região do país, onde prevalece o calendário lunar, há os que datam os meses pela lua cheia e os que fazem isso pela lua nova. Breve esclarecimento: na tradição hindu o ano começa com o retorno de Lakshmi, a deusa da prosperidade, que em certo momento do ciclo se empirulitou. Para que a deusa encontre o caminho de volta, as casas e ruas são iluminadas e fogos de artifício são utilizados. A data da volta da deusa, todavia, muda de acordo com a região do país.

Entre os povos ocidentais, a data de primeiro de janeiro tem origem entre os romanos (Júlio César a estabeleceu em 46 A.C.). Só em 1582, com a adoção do calendário gregoriano, a igreja católica oficializou o primeiro dia de janeiro como o início do novo ano no calendário ocidental.

Para os cariocas, o hábito de se comemorar a virada na praia começou com os umbandistas, que durante muitos anos ocupavam sozinhos as areias para louvar Iemanjá. A iniciativa de se fazer a festa na praia de Copacabana partiu da turma que acompanhava Tancredo da Silva Pinto, o Tata Tancredo, líder religioso, sambista (foi fundador da Deixa Falar do Estácio) e personagem fundamental da cultura do Rio de Janeiro.

Como, portanto, cada cultura estabelece marcos e datas diferentes para a mudança de ciclo, acho que continuarei dando pouca pelota para o primeiro de janeiro. A verdade é que escrevi essa presepada toda apenas para dizer que no meu imaginário o novo ciclo começa sempre na quarta-feira de Cinzas e o meu rito de virada, esquecimento, memória e renovação, é o Carnaval.

O novo ano, ao menos na minha percepção emocional do que é o ciclo, começará, como sempre, na quarta-feira de Cinzas.

O ANO NOVO É...

A cerveja gelada, o fígado em ordem, o coração nos conformes, os amigos presentes, a bola na rede, a mão na roda, Pixinguinha na vitrola, Exu centroavante, Ogum de ronda, Xangô no apito, o camarão no prato, o moleque na escola, o samba no terreiro e o dia bonito.

O papo na esquina, o botequim aberto, a televisão desligada, a pipa no ar, a rua sem carro, o trem no trilho, a barca no mar, a canoa no rio; o Rio. A casa de vila, a troça, a taça, a prosa, a sanfona, a folia, o dia, a água gelada, o Buraco Quente, Nelson Cavaquinho, Odé de frente e peixe assado. Mais feira, menos mercado.

A festa de Cosme, a festa na Penha, o traçado, o trabalho leve, a cantiga breve, o subúrbio livre, o livro. A paz, o pão, o pião, o rodopio, o batuque, o desvio, o truque sem trambique. O batuquejê, o acarajé e o tremelique.

A comida farta que anda sumida: pirão, mocotó, rabada, pururuca, dobradinha. Para quem preferir, boa salada. O prazer sem tempo e sem tristeza; o desejo de dizer, movido a birinaites, numa mesa do Adônis, do Brasil, de qualquer parte, com patriótica certeza: a minha pátria é a língua à milanesa!

Cachaça, vinho, manga, reza, bamba, Bimba, candonga, sunga, pinga. Toque de bola, vento, varanda, gol da virada. A criança brincando, o homem sorrindo, a mulher amada.

É isso.