24.12.18

PEQUENINO

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Ilustração: Cândido Portinari: Sagrada Família.
Não sou cristão. Além disso, sou ressabiado crítico de instituições religiosas de todos os tipos. Ritualizo a vida e insisto em lançar sobre as festas populares um olhar afetuoso, sobretudo quando percebo que, onde amiúde campeia a escassez, as celebrações podem reconduzir as pessoas ao intangível, ao encantamento, ao espanto diante do que não pode ser racionalmente mensurado no mundo e nos humaniza radicalmente.

É por isso que lanço sobre a história de Jesus Cristo - não ao Messias, mas ao mito incontornável da nossa cultura em todas as dimensões subjetivas que ele pode alcançar - um olhar carinhosamente humano.

Jesus Cristo transformou água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, não custa lembrar, para não acabar com a festança da turma em Canaã. Disse também, no jantar com o fariseu escroto, que o mal nunca é o que entra, mas o que sai da boca do homem: não fez distinções à mesa e quebrou todos os tabus alimentares (aqui tenho que confessar certa inveja: os tabus alimentares da religião em que cresci não são moles).

O problema, para mim, é que tem quem insista em transformar o Cristo em um chatonildo, inimigo dos fuzuês, dos birinaites e das alegrias. Cristo (o meu, insisto) era um farrista do bem, e não um carola enxabido ou um pregador insulso. É por isso que me amarro no Jesus da Nazaré que me parece ter sido filho de Ogum. Aquela porrada nos vendilhões do templo é uma clássica reação dos filhos do guerreiro; o orixá que trocou a suntuosidade da coroa pelas folhas do dendezeiro. A coroa de rei é o mariwô!

É por isso, ainda, que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus amigos e camaradas e com qualquer um que seja gente de bem. E não sento em mesa de bar - um templo - com fariseus que queiram ditar regras e impor grosseiramente suas verdades.

Costumo me comover com as festas cristãs: o Círio de Nazaré, em Belém do Pará, pela vitalidade que preserva; a Festa da Penha, no Rio de Janeiro, pelo que representou para o povo da cidade; as festa dos santos de junho e o ciclo da Natividade. Nelas os cantos, louvores, comidas, leilões de prendas, namoros, cheiros, dádivas e bordados, falam de afetos celebrados que permitem a subversão- pelo rito - da miudeza provisória da vida.

O meu Jesus Cristo, afinal, é o jesuscristinho dos presépios mais precários, das bandinhas de pastoris e lapinhas do Nordeste, dos enfeites formosos das moças dos cordões azul e encarnado e das folias que alumbram de brasilidades os fuzuês que, no mês de janeiro, homenageiam - entre cachaças, cafés e bolos de fubá gentilmente servidos pelos donos da casa - os Reis do Oriente.

Ele, o Cristo dos meus delírios, se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos do Círio do que nas batinas sacerdotais e nos ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia. Deve respeito - e é respeitado - a Tupã, Zambiapungo e Olorum. Estaria hoje ao lado dos fodidos que não tem Natal.

Meu Cristo, enfim, é pedrinha miudinha. Joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo pra noite chegar, descansa feito João Valentão e adormece como menino brasileiro.

A vista não pode alcançar a belezura de suas miudezas.

Fonte: Facebook/Ilustração: Cândido Portinari: Sagrada Familia