1.1.19

A ELITIZAÇÃO DO FURDUNÇO, HISTÓRIAS DE RÉVEILLON

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Só para lembrar: o hábito carioca de comemorar a virada na praia começou com os umbandistas, que durante muitos anos ocupavam sozinhos as areias para louvar Iemanjá. A iniciativa de fazer a festa na praia de Copacabana partiu da turma que acompanhava Tancredo da Silva Pinto, o Tata Tancredo, líder religioso, sambista (foi fundador da Deixa Falar do Estácio) e personagem fundamental da cultura carioca.

Era bonito ver a orla ocupada pelos terreiros e a noite iluminada por velas. O furdunço não excluía ninguém. Conheço ateus, católicas, crentes, budistas, flamenguistas, tricolores, bacalhaus e botafoguenses que, por via das dúvidas, garantiam ano bom recebendo passes de caboclos e pretas velhas nas areias, com direito a cocares, charutos e sidra de macieira.

Hoje a confraternização nas areias virou atração turística bacana, atrai gente de tudo quanto é canto, gera divisas e garante a ocupação da rede hoteleira. Em contrapartida, os atabaques foram silenciados e os terreiros buscaram alternativas para continuar batendo em praias fora dessa "centralidade turística", driblando ainda a intolerância do bonde da aleluia.

A elitização do furdunço é evidente nos espaços reservados nas areias, controlados por grupos privados. Um crime contra a cultura carioca.


Mojubá, Tata Tancredo (foto acima), patriarca do Omolokô, herói civilizador da nossa gente!

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A CHEGADA DE SINHÁ PUREZA (Uma história verídica de Réveillon)

Em certa ocasião os moradores do conjunto em que minha tia-avó morava resolveram fazer um Réveillon. No meio da festa o Dr. Valadão, advogado sério, calado, metido a intelectual, se transformou completamente. O homem, uma reserva moral, emburacou na sidra de macieira de terceiro escalão e perdeu as estribeiras. É justo dizer que a esposa do esnobe, prenunciando a catástrofe, fez vários alertas no estilo: “Valadão, você não está acostumado.”

Pois houve finalmente um momento em que o homem pirou. Aos primeiros acorde de ‘Sinhá Pureza’, um carimbó de Pinduca que fez um sucesso estrondoso nos anos setenta (“vou ensinar a Sinhá Pureza, a dançar o meu sirimbó / Sirimbó que remexe, mexe/ sirimbó da minha vovó”), Sua Excelência deu um grito, jogou a sidra para o alto e começou a tirar a roupa.

Enquanto ameaçava ficar pelado, o homem gritava algo como “eu sou a Sinhá Pureza; nesse ano que está começando, eu só quero ser chamado assim”. Incontrolável, o doutor só acabou contido pela entidade de uma vizinha. Apesar de católica (apostólica romana, como gostava de frisar) e detestar macumba, a dona invariavelmente recebia um caboclo na noite de Réveillon que urrava e saía dando consultas, passes com baforadas de charuto e esporro em todo mundo. O caboclo enquadrou o doutor Valadão.

A festa passou e o distinto voltou a vestir a carranca de advogado sério e impenetrável, além de ameaçar meter um processo em todo mundo que o chamasse de Sinhá. Ameaçou também processar a fábrica da sidra de macieira, mas desistiu. Seis meses depois daquele Réveillon, Sinhá Pureza mudou-se de mala e cuia com a família para destino ignorado. Ninguém mais soube dele. (l.a.s/ publicada no livro "Coisas Nossas")

Fonte: Facebook