5.1.19

SANTOS REIS: O COMEÇO DO CARNAVAL E A ORIGEM DO BAFO DA ONÇA

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Minha avó gostava de fazer a simpatia das sementes de romã na festa de Santos Reis, no dia 6 de janeiro, com o argumento de que o babado é tiro e queda contra a pindaíba. A romã aparece em várias culturas como uma fruta capaz de garantir a prosperidade e a fecundidade, em virtude de sua grande quantidade de sementes. A tradição judaica garante que são 613 sementinhas; mesmo número dos “mitzvotis”, os provérbios sagrados da Torá. O suco de romã é tomado em regiões da Índia como um propiciador da fertilidade feminina. O Brasil herdou de Portugal a tradição de que devemos retirar da romã nove sementes no Dia de Reis, com rogações a Baltazar, Gaspar e Belchior. Três sementes devem ser comidas, três devem ser ofertadas e três devem viver dentro de carteiras onde se leva o dinheiro.

Ilustração: Cândido Portinari. Os Reis Magos
No calendário católico, o Natal marca o encerramento do Advento (as quatro semanas que antecedem a celebração do nascimento de Jesus) e anuncia a Epifania (a manifestação de Cristo aos Reis Magos do Oriente). A nossa tradição do Dia de Reis é ibérica. A festa é muito forte na Espanha e em Portugal, onde grupos de foliões visitam as casas dos devotos com estandartes e instrumentos musicais. Munidos de violas, pandeiros, reco-recos, sanfonas, chocalhos, cavaquinhos e triângulos, os foliões entoam músicas em louvação aos Santos Reis e recebem, em troca, oferendas propiciatórias ao festejo.

Geralmente, as folias formam-se em consequência de promessas feitas e graças alcançadas pela ação dos magos. O pagamento da promessa inclui a obrigação de angariar recursos financeiros para manter uma folia por até sete anos. Além dos músicos e cantores, muitas folias são compostas por palhaços, dançarinos e personagens das tradições locais, transformando-se em autos dramatúrgicos de celebração comunitária.

Os palhaços são personagens que não podem faltar. A tradição diz que a função deles é a de distrair durante a folia, pelas brincadeiras, os soldados de Herodes, impedindo que os milicos encontrem a Sagrada Família, que para escapar da matança dos inocentes se pirulitou para o Egito. Outra versão diz que os palhaços mascarados representam soldados de Herodes que se converteram ao cristianismo. Para fugir do castigo que isso geraria, já que Herodes teria cuspindo vespa contra os convertidos, eles se disfarçam.

Nas festas e nos folguedos populares o que não pode faltar é comida. Veio da Europa a nossa tradição do bolo de Reis, normalmente preparado com frutas cristalizadas. Em algumas regiões de Portugal, o bolo é servido com uma fava escondida. Quem encontra a fava — ou algum outro brinde — deve ser o responsável pelo bolo do ano seguinte. Tradição similar ocorre na Itália, na França (quem acha a fava é coroado rei por um dia) e nos países de colonização francesa. Na Espanha, é hábito a criança colocar um sapato na janela (costume entre nós enraizado no Natal) com alguma oferenda aos Reis. Na manhã seguinte, o sapato amanhece com doces e presentes deixados pelos magos do Oriente.

O Rio de Janeiro, pra quem não sabe, mantém grupos de folias ativos em comunidades como as dos morros Santa Marta, Formiga e Mangueira, e em diversas cidades do interior do estado. Por aqui, para variar, a folia emendou com o carnaval. O Dia de Reis está de certa forma, na origem do Bafo da Onça, instituição das mais importantes na história da cidade.

O Bafo foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos 1950. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria; um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça-pintada.

Seu Tião tinha ainda o hábito, depois de um período contrito, de começar a tomar umas biritas fortes no dia de Santos Reis. Para ele, a data marcava o fim do Natal e o início das festas de Momo. Os trabalhos só eram encerrados na Quarta-feira de Cinzas. Ocorre que o seu Tião pegava pesado na cana, não gostava de escovar os dentes durante as festividades e acabava ficando com um hálito de carniça. Durante uma das carraspanas, amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveram criar um bloco de carnaval. Todos saíram fantasiados de onças-pintadas. O nome do bloco, é evidente, nasceu prontinho.

Das Folias de Reis ao Bafo da Onça é a celebração comunitária da vida que se manifesta. O fuzuê no meio do perrengue, a crença na dádiva, a beleza precária e miúda da manjedoura pobrezinha e de uma birosca no Catumbi, ainda são capazes de afirmar que alguma coisa há de nos salvar da desumanização voraz que nos consome. Viva os Santos Reis do Oriente e Evoé!

*Fonte: Facebook/Texto: Luiz Antonio Simas. Do "Almanaque Brasilidades".