19.2.19

FRUTO PROIBIDO

MIRANDA SÁ -

“Proibir algo é despertar o desejo” (De Montaigne)


O meu pessoal do Twitter anda citando tanto a Bíblia que resolvi lembrar o livro do Gênesis, trazendo no início a criação da humanidade no Paraíso. No chamado de Jardim do Éden, antes de criar o homem e a mulher Deus plantou duas árvores, a “Árvore da vida” e a “Árvore da Ciência do Bem e do Mal”.

As religiões judaica e cristã creem que a árvore da Ciência teve os seus frutos proibidos ao casal por Deus e que haveria punição pela infringência da proibição; a expulsão do Paraíso.

A Bíblia conta que a mulher, Eva, tentada pela serpente, desobedece a ordem divina, come do fruto, gosta, e convenceu o seu companheiro, Adão, que também o comeu.

Então, o decreto de Deus foi para valer. Na época, não havia o Grande Sinédrio dos judeus, nem o Sínodo dos bispos católicos, nem o Supremo Tribunal Federal no Brasil, para absolver os transgressores. Eles foram expulsos.

A queda da dupla primordial nos deixou como herança o “pecado original”, que criminaliza a imperfeição humana, mas é perdoado pelo catolicismo através do batismo; e o castigo divino nos impôs o trabalho e a morte: “Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás”.

Este tema religioso é muito pesquisado culturalmente e explorado na literatura, poesia e romance, na pintura clássica, na música e nas artes cênicas, cinema e teatro. Lembro o antigo filme “Fruto Proibido” de Clark Gable e Spencer Tracy (1940) e do excelente álbum de Rita Lee (1975).

A atração humana pela proibição é um fato irretorquível. A Inquisição dançava e rolava com o librorum prohibitorum – bula papal que proibia livros e, com isso, fazia uma propaganda danada deles, passados secretamente de mão em mão.

Foram proibidas obras de cientistas, filósofos, enciclopedistas ou pensadores como Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Giordano Bruno, Nicolau Maquiavel, Erasmo de Roterdão, Baruch de Espinosa, John Locke, Berkeley, Denis Diderot, Blaise Pascal, Thomas Hobbes, René Descartes, Rousseau, Montesquieu, David Hume e Immanuel Kant.

Romancistas e poetas foram interditados, entre eles, Heinrich Heine, John Milton, Alexandre Dumas (pai e filho), Voltaire, Jonathan Swift, Daniel Defoe, Vitor Hugo, Emile Zola, Stendhal, Gustave Flaubert, Anatole France, Honoré de Balzac.

A queima de livros promovida na Era Nazista promoveu Freud, Brecht, Jung, Reich e Chaplin; e a “caça às bruxas” de McCarthy nos EUA levantou a bola de escritores e roteiristas de filmes até então desconhecidos pelo grande público.

Na nossa época, também o autor Dan Brown, que por criticar a Opus Dei, teve o seu romance “O Código Da Vinci” igualmente impedido; e o besteirol de J. K. Rowling, “Harry Potter”, foi censurado sob acusação de “promover a bruxaria entre as crianças”…

Não dá para esquecer que os governos lulo-petistas influenciados pelo movimento afro-midiático proibiu nas escolas o grande autor de livros infantis Monteiro Lobato, medida que foi criticada pela grande maioria dos brasileiros.

Por isso, aflige-me o surgimento da idiotia “proibitória” numa campanha anticomunista, ao meu modo de ver, extemporânea: Outro dia, citei um belíssimo pensamento do grande poeta brasileiro Carlos Drumond de Andrade, e um tuiteiro enviou-me uma mensagem para me alertar, taxando CDA de comunista…

Vemos agora centenas de tuítes, combatendo um filme besta, financiado via Lei Rouanet por ideologia pelo governo lulopetista. Essa fita, sem propaganda, passaria despercebida sem interessar a ninguém.

Lembro Clarice Lispector dizendo que “O pecado me atrai, o que é proibido me fascina”, e assim, repetindo continuadamente a condenação, a proibição e as propostas de boicote, cria-se a atração de um tema e um personagem para os quais o povo está se lixando.