21.2.19

O DESTINO DO BRASIL APÓS A ERA FUGAZ DO BOLSONARISMO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Jair Bolsonaro conseguiu o impensável: colocou a Rede Globo na posição do maior perseguido político no Brasil. Acusada, com razão, de ter sido esteio do poder conservador e neoliberal desde a ditadura até o governo Dilma, ela ajudou a destruir a Presidenta ao aliar-se à conspiração golpista que a derrubou. Agora a Globo aparece como vítima nos áudios de Bolsonaro e Bebianno. Ou como “inimigo” que não se pode deixar entrar no Planalto. Antes, via-se a Globo como manipuladora de informações. Agora ela fala abertamente em vídeos.

Evidentemente que, tendo um “inimigo” tão poderoso, Bolsonaro está com seus dias contados na Presidência. Isso não se deve apenas ao poder da Globo. É que a Globo opera num terreno fértil. Seus estrategistas, acostumados a domar presidentes depois de eleitos, jamais imaginaram que, ao sustentar Bolsonaro na campanha eleitoral, elegeriam para a Presidência uma figura tão bossal, despreparada, contraditória, politicamente primitiva, incapaz de governar um país tão grande e tão complexo como o Brasil. Os opositores de Bolsonaro hoje são legiões. Nas elites e no povo.

O fato é que Bolsonaro vê a Presidência não como um processo político dinâmico, mas como uma “coisa” estática que se pode mover para qualquer lado segundo seus preconceitos individuais. Acha que, virtualmente, “ganhou” a Presidência nas eleições. Fazer dos filhos idiotas partícipes das decisões do Planalto para ele é uma coisa normal, pois o Planalto, na sua concepção, é condomínio familiar conquistado contra os “inimigos” do PT, os progressistas, os esquerdistas e os simpatizantes. Essa é sua batalha, é para isso que o messias veio ao mundo – contraditoriamente, antes com apoio da Globo, agora traída.

O rei morreu, viva o rei! Entretanto, qual será esse novo rei?

Há algumas hipóteses girando por aí no domínio da especulação. A primeira é aplicar uma tutela a Bolsonaro, mais rigorosa que a atual, por parte dos generais do governo. Não é simples, pois existem dois inconvenientes: pelo que se conhece dele, Bolsonaro é intutelável. A fórmula só daria certo se o amarrassem nos fundos do Alvorada, costurassem sua boca e lhe impedissem o acesso ao tuíter. Do contrário, insistiria em governar e dar palpite na administração que vê como de sua propriedade, gerando uma crise a cada volta do calendário, como já acontece hoje.

Os militares do governo poderiam induzir Bolsonaro a renunciar. Ou dariam uma sinalização ao Congresso para promover um processo de impeachment contra ele. Não é difícil encontrar razões constitucionais para isso. Entretanto, estariam todos os militares do governo confortáveis com a hipótese de Mourão assumir a Presidência? Há os que o consideram extremamente autoritário, arrogante, pretensioso, voluntarista. Talvez seja um exagero. Na dúvida, prefiro acreditar nas afirmações bastante prudentes sobre política externa e interna que ele tem feito contradizendo seu capitão e o bisonho Ministro das Relações Exteriores.

Em qualquer hipótese, o problema central não é tanto a recomposição do Governo, mas qual será a performance do Governo recomposto, sobretudo em economia. Ter quatro generais no Planalto, oito nos ministérios e 46 militares em postos de primeiro e segundo escalão não é uma garantia de harmonia e estabilidade política, ou de eficiência do governo. As contradições vão aflorar da mesma forma como num governo civil que administra uma sociedade complexa de 210 milhões de habitantes, em profunda crise econômica e social. E o pomo da discórdia certamente será a economia.

Os generais do poder pensam que são liberais ou neoliberais, mas os cursos militares não possibilitam uma compreensão mesmo superficial dessas ideologias. O neoliberalismo não é uma ciência, mas uma doutrina. Como tal ele prega o estado mínimo e a solução pelo livre mercado de todos os problemas econômicos e sociais da sociedade. Não sei se o espírito positivista de nossos militares, encravado em suas raízes, justificariam, por exemplo, um aprofundamento ainda maior da crise econômica e social em que estamos e a entrega do patrimônio e dos valores nacionais.

O ponto chave é saber que destino darão a Paulo Guedes. Se sancionarem suas propostas radicais de política econômica muito provavelmente, em prazo curto, haverá uma resposta da sociedade na forma de convulsões sociais, uma haitização do Brasil, independentemente do destino que vier a ser dado à tal reforma da Previdência. Augusto Heleno não tem todos os meios iniciais de Augusto Pinochet. Mas Guedes tentará provar aos militares que, para salvar o Brasil, será necessário uma escalada de endurecimento do regime que pode chegar a um neoAI-5.

Mas Mourão poderá legitimar-se convocando um grande pacto social e político para encaminhar reformas reais no país, de baixo para cima. Em primeiro lugar, convocando a sociedade para o debate aberto e urgente de uma política de pleno emprego, atacando o principal e mais agudo problema social do país, o desemprego. No mesmo movimento poderá convocar a sociedade para uma cruzada abrangente de resgate físico e social das periferias metropolitanas, eliminando a mais antiga chaga da realidade sócio-econômica brasileira. Nesse caso, não teríamos nenhum escrúpulo em apoiar um regime militar institucional!