19.2.19

OS MILITARES BRASILEIROS NÃO USAM BLACK-TIE

JOÃO CLAUDIO PITILLO -


Quando Vargas insistiu que o Brasil participasse da guerra contra o fascismo em 1944 e depois se negou a enviar esse mesmo exército para lutar na Coréia contra os comunistas em 1953, queria ele que os militares brasileiros aprendessem a distinguir os interesses da nação dos interesses do “grande irmão”. Com o advento da Guerra Fria e os sucessivos governos subservientes à Washington que dominaram o Brasil depois do suicídio de Getúlio Vargas em 1954, as forças armadas brasileiras tiveram o seu papel relegadas à polícia política e tropa de choque, visando o “inimigo interno”, aquele criado pelo Pentágono e idealizado por Hollywood.

Convertidos a força auxiliar dos interesses imperialistas, logo os militares brasileiros foram mobilizados para garantir o sucesso do “primeiro mundo”, aquele que eles não faziam parte. Em 1957 os nossos homens foram enviados ao Egito para garantir que o Canal de Suez continuasse a ser a Champs-Elysee dos “civilizados”, enquanto os egípcios permanecessem como domadores de camelo. Foi contra o nacionalismo do presidente Gamal Abdel Nasser que as tropas brasileiras e os demais integrantes da UNEF (United Nations Emergency Force) passaram cerca de 10 anos no Egito.

Nesse mesmo período os militares brasileiros foram lançados em outra absurda aventura, o alvo da vez foi a República Dominicana. A fim de garantir o “american way of life” em terras caribenhas, os brasileiros fizeram parte da Força Armada Interamericana ou IAPF em inglês. Foram eles enviados para combater o nacionalismo do presidente Juan Boch, que tentava fazer uma Reforma Agrária para por fim a miséria. Por um ano as tropas brasileiras fizeram o papel de seguranças da United Fruit Company, garantindo que não faltassem bananas na Casa Branca e que Boch não governasse, até que um fantoche estadunidense assumiu.

Parece haver uma grande dicotomia entre os nossos militares e os conceitos de “independência”, “autonomia”, “soberania” e “nacionalismo”, porque eles em grande medida têm uma compreensão muito sazonal de como e onde emprega-los. Os velhos manuais da Escola da Américas ainda são efetivos entre os militares brasileiros, levando-os a preferirem a “Pacificação” de Caxias do que a Legalidade de Lott. Ao entrar na Segunda Guerra Mundial ao lado das forças Aliadas, o Brasil se tornou signatário da Carta do Atlântico, que entre seus oito pontos, havia a garantia da autodeterminação. Ponto basilar na formação da ONU. Foi a partir desse conceito que o presidente João Goulart declinou do convite feito pelo seu colega estadunidense John Kennedy para cerrar fileiras contra Cuba em 1962:

“A defesa da autodeterminação dos povos, em sua máxima amplitude, tornou-se o ponto crucial da política externa do Brasil, não apenas por motivos de ordem jurídica, mas por nele vermos o requisito indispensável à preservação da independência e das condições próprias sob as quais se processa a evolução de cada povo. É, pois compreensível que desagrade profundamente à consciência do povo brasileiro qualquer forma de intervenção num estado americano inspirada na alegação de incompatibilidade com seu regime político, para lhe impor a prática do sistema representativo por meios coercitivos externos, que lhe tiram o cunho democrático e validade”.1


Nem o fim da Guerra Fria foi motivo para as forças armadas brasileiras abandonarem a Doutrina de Segurança Nacional e compreenderem a importância do nacionalismo na América Latina como um contraponto ao imperialismo. Em 2004 depois de mais um golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos, o Haiti teve o seu presidente eleito Jean-Bertrand Aristide deposto. De imediato o país foi mergulhado no caos, que o colocou entra as nações mais pobres do mundo. Novamente foram os militares brasileiros fazer o serviço de manutenção dos interesses estadunidenses. Integrados a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), as forças brasileiras permaneceram 13 anos naquele país, regressando para casa em 2017, sem deixar saudades nos haitianos. Segundo os militares, o legado da missão no Haiti foi o aprimoramento do operativo de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), isto é, os militares brasileiros foram ao Haiti treinar o que pretendem aplicar em seu povo.

Com a subida de Bolsonaro ao poder, os militares brasileiros se juntaram a demanda dos Estados Unidos por mais petróleo e decidiram apoiar a tentativa de golpe de Estado contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Ignorando mais uma vez o conceito de autodeterminação dos povos, as autoridades brasileiras passaram a repetir o mantra entoado por Washington, de que o nacionalismo de Maduro é uma ameaça e por isso precisa ser bloqueado, sabotado e depois golpeado. Para tanto contam com a ajuda de um general brasileiro para “comandar” o SouthCom e servir cafezinho no Pentágono.

Se o nacionalismo e a unidade latino-americana já faziam pouco sentido para os militares brasileiros, agora com um presidente que presta continência para a bandeira americana é que todo e qualquer pensamento crítico será defenestrado do meio militar. As forças armadas brasileiras seguem o destino das nossas riquezas, usadas e abusadas para a alegria do “grande irmão”. Ordens para os pobres e Progresso para os ricos, quem discordar? GLO nele!

1 http://www.institutojoaogoulart.org.br/noticia.phuda p?id=5309