13.2.19

YES, NÓS TEMOS BANANA!

JOÃO CLAUDIO PITILLO -


O raiar de 2019 trouxe uma nova tentativa de golpe de Estado na Venezuela, o fantoche da vez é o deputado Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente da República Bolivariana da Venezuela. Tal atitude foi orquestrada pelo Grupo de Lima a mando da Casa Branca, dos 14 países do Grupo, 11 submeteram suas diplomacias a essa aventura golpista para a felicidade de Washington. Isso não é novidade em nosso continente, nas décadas de 50, 60 e 70, a OEA calou-se e até mesmo consensualizou com os diversos golpes de Estados promovidos pelos estadunidenses contra os interesses dos povos latino-americanos. Ou seja, não é novo assistirmos latino-americanos sendo cúmplices das barbaridades estadunidenses contra o seu próprio povo.

O que temos de novo nesse processo é a submissão total do Itamaraty aos ditames de Washington. Nas décadas de 50 e 60 em plena Guerra Fria, o Brasil foi instado a participar da luta na Coréia e se posicionar contra Cuba, tanto Vargas quanto Jango disseram não, mostrando independência e lucidez. Bolsonaro não só se submeteu aos Estados Unidos, como procura ser um dos artífices do Golpe de Estado contra o presidente Nicolás Maduro, coisa única em nossa história. Já que a diplomacia brasileira tem um retrospecto de não intervenção em assuntos externos e máxima discrição em temas que dizem respeito ao continente Americano. Ao se postar contra um país irmão em favorecimento dos interesses imperialistas estadunidenses, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo inaugura um paradigma de submissão, servilismo e golpismo no Itamaraty.

Ao tomarem posse o presidente Bolsonaro e o ministro Araújo, afirmaram ambos, que o Brasil iria rumar sem “viés ideológico”, como se isso fosse possível. Entretanto, o que leva então o governo a apoiar a aventura golpista de Guaidó contra o presidente Maduro, o amor à democracia? Claro que não, o presidente Bolsonaro que já se posicionou diversas vezes a favor da ditadura brasileira, da tortura e dos grupos de extermínio não tem o menor apreço por esse conceito. Então o que ganharia o Brasil com a destituição de Nicolás Maduro? Uma pergunta que não pode ser respondida pelo Itamaraty sem invocar o tal “viés ideológico”, coisa que o novo governo jurou combater.

Com o fracasso da política intervencionista estadunidense na Síria, Líbia, Afeganistão e no Irã, Mister Trump redirecionou a sanha por petróleo dos Falcões do Pentágono para a Venezuela. País que nas últimas duas décadas vêm tentando desenvolver uma política progressista, combinada com uma economia independente, coisa que a Casa Branca combate há quase um século em nosso continente. A independência política e econômica de qualquer país latino-americano é encarada pelo U.S. Department of State como a perda de uma das estrelas de sua bandeira, por isso deve ser evitado de qualquer maneira.

A Revolução Bolivariana em marcha na Venezuela intima um processo perigoso para o imperialismo, já que propõe uma unidade política em prol da superação do subdesenvolvimento, isso leva inevitavelmente a uma revisão radical da relação econômica, política e cultural que os países latino-americanos mantem com Washington e com Bruxelas. A reversão da dependência que os países centrais submetem os países latino-americanos levaria os mesmos a um salto qualitativo e a quebra do “status quo” dos Estados imperialistas, comprometendo toda a Ordem Mundial. Por isso as experiência de desenvolvimento autônomo e nacionalismo revolucionário tem sido sabotadas em nosso continente a quase 200 anos.

O governo brasileiro que se apresentou em Davos de maneira tacanha, além de não empolgar o Capital Estrangeiro, demostrou tamanha fragilidade que constrangeu a imprensa do mundo todo. Foram muitos artigos e reportagens afirmando o despreparo e a falta de altivez dos representantes brasileiros, com destaque para o presidente Bolsonaro que fez um discurso fraco e nada propositivo. A vergonha que a diplomacia brasileira foi exposta depois de Davos só não é pior do que a aventura que se somou com o Grupo de Lima. O Brasil teima em apoiar um golpista do terceiro escalão da Direita venezuelana, que tenta governar um país pela internet e sob a proteção da embaixada colombiana em Caracas. Lamentavelmente o governo Bolsonaro não está preocupado com o nível de exposição e constrangimento que está expondo a diplomacia brasileira.

As vergonhas que estão comprometendo o Itamaraty nesse primeiro mês de governo Bolsonaro não se limitam ao processo venezuelano e nem à medíocre participação em Davos, elas se estendem na fala dos ministros, o chanceler Araújo afirmar ser o Aquecimento Global uma teoria de marxistas, já a ministra Damares (Mulheres) atribui a cientistas holandeses a prática de manipulação de órgãos sexuais de recém-nascidos naquele país, para que sejam adultos voltados para o sexo. E segue se agravando quando a submissão a Israel é tamanha, que os militares brasileiros foram preteridos para realizarem o resgate das vítimas de Brumadinho, para que militares israelense pudessem colher os louros da fama.

A agenda entreguista do governo Bolsonaro transformou o Itamaraty em uma Torre de Babel, onde vendilhões, traidores, fanáticos religiosos, conspiradores, alarmistas, derrotistas, adesistas e toda a espécie de desequilibrados de cunho conservador, se misturam em uma espécie de disputa para saber quem mais se curva aos gringos por menos. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil está entregue a uma pessoa que não acredita no cargo que ocupa e ainda é comandado por um presidente que nunca acreditou no Brasil e muito menos nos brasileiros. Até mesmo a ditadura de 1964, que golpeou o presidente João Goulart para evitar que o Brasil se tornasse autônomo, mostrou mais firmeza e profissionalismo quando esteve no comando do Itamaraty, mesmo tendo a Casa Branca como sua tutora.

Hoje chegamos a um grau de servilismo tão grande, que a única coisa que ouviremos do Itamaraty comandado por Araújo e Bolsonaro nos próximos quatro anos é: “Yes, nós temos bananas!”

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João Claudio Platenik Pitillo, Doutorando em História Social pela UNIRIO, Pesquisador do Núcleo de Estudos das Américas da UERJ e Especialista em Segunda Guerra Mundial.