16.3.19

BOTEQUIM

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Emiliani Di Cavalcanti ilustra uma cena de botequim. Tabelo com o Di e digo que não se conta a história do Rio de Janeiro sem a saga dos seus botequins e a importância que eles têm como espaços de sociabilidades. Tire da cidade o impacto civilizatório dos seus bares e teremos um Garrincha sem a bola. Aprendi com os mais velhos que um botequim é feito de memórias, aspirações, anseios, sonhos, desilusões, conquistas, fracassos retumbantes, alegrias e invenções da vida daqueles que passaram por suas mesas e balcões. Um lugar é também o resultado das experiências intangíveis, matéria da memória acumulada, e vai muito além da fachada, dos alicerces e dos salamaleques da decoração. Acontece que a fúria do contemporâneo, afeita aos grandes negócios, esmaga o intangível, vê a tradição apenas como simulacro e despreza o que não é mensurado pelas expectativas do mercado.

Os sabichões que manjam de etimologia, como Houaiss e Villar, garantem que a origem remota da palavra botequim é o termo grego “apothéké” (depósito); que originou também botica, biblioteca e bodega. Está aí resumida a definição de um bom botequim: um centro de manutenção e circulação do saber, como as bibliotecas; um lugar onde se preparam medicamentos para o corpo e a alma, como as boticas (e apotheké é farmácia em alemão); e uma taberna onde se come e se bebe com simplicidade, sabor e sustância, como as velhas bodegas. Só isso já dá um tratado sobre a cidade de proporções substanciais.

Em “ngúni”, idioma do grupo linguístico zulu falado em alguns lugares do sul da África, não há palavra que designe parentesco a partir do sangue. A expressão que define a relação de parentesco é “ubudlelane”: os que comem juntos. É na mesa, no balcão, no compartilhamento da comida, na união pela celebração da festa, que a ideia de parentesco se estabelece. Os botequins mais vagabundos são como lares propiciadores de relações familiares, entre ampolas geladas, mandurebas e petiscos dinamizadores da celebração gordurosa da vida em comunidade. Sim, estou apenas buscando uma justificativa para ficar mais tempo no balcão. O que tenho de parente não está no gibi.

Fonte: Facebook