19.3.19

MENINOS SOLTANDO PIPAS

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Portinari pintou uma série de "meninos soltando pipas" e eu sigo no embalo. Dentre os saberes universais dos humanos —falo daqueles que não têm fronteiras —, está o de empinar pipas; a arte de domar os ventos e rabiscar os céus. Há quem afirme que a invenção da pipa foi chinesa e tem pra mais de 3.000 anos. Aulo Gélio, gramático latino, escreveu nas “Noites áticas” que Aquitas de Tarento, matemático amigo de Platão, foi o inventor da primeira pipa. Há quem defenda que foram hindus, polinésios, fenícios ou egípcios os inventores. A conclusão a que chego é que diversas civilizações inventaram e empinaram papagaios. Ou deliro que as pipas são anteriores aos homens e foram elas que nos inventaram para que alguém as empinasse. 

As pipas provavelmente foram criadas como dispositivos militares de sinalização. Em suas variações e cores, transmitiam códigos de combate. Acabaram virando brinquedos de fabular os céus ou invenções que buscam atrair, sobretudo no Oriente, sortilégios diversos: afastam maus espíritos, atraem a prosperidade (quando feitas em forma de dragão), rogam por vida longa (quando em forma de tartaruga) etc.

No Brasil, se bobear, a pipa tem mais nomes que o diabo no “Grande sertão, veredas”: cafifa, pandorga, papagaio, pepeta, piposa, cangula, curica, morcego, banda de asa, frecha, catita, barrilote, navio, garanhoto, pecapara. A suru é fabricada apenas com duas varetas, a arraia possui formato de losango e não tem rabiola. A baianinha é retangular; o pião tem modelo em triângulo; jereco e catreco são aquelas mais fuleiras, feitas no improviso. Amo as últimas, milagrosas como as plantas nascidas nas fendas dos muros.

Fonte: Facebook