27.3.19

MITO

MIRANDA SÁ -

“A totalidade do humano, e não um simples aspecto do homem, está presente no mito” (Gaston Bachelard)


O genial Charles Chaplin, filosofando, nos deixou um pensamento comovente: “A única coisa tão inevitável quanto a morte é a vida”; e o notável psicólogo franco-austríaco Paul Diel no seu estudo sobre o simbolismo da mitologia grega, resume: “O mistério da vida inclui o mistério da morte”.

Como Sigmund Freud, criador da psicanálise, Diel também teve origem austríaca e desenvolveu o método da análise introspectiva e a psicologia da motivação. Houve discordâncias entre os dois sobre o “Complexo de Édipo”, oferecendo um interessante estudo comparativo sobre o simbolismo do mito.

Faz tempo que psicanalistas e psicólogos sobem o Monte Olimpo – a morada dos deuses -, para aprender ali a incorporação psíquica dos mitos no inconsciente da pessoa humana. Freud encontrou ali a história de Édipo, filho de Laio e Jocasta, que mata o pai para ficar com a mãe, e descreveu a atração amorosa do menino com a mãe e a consequente hostilidade com o pai, que possui a mãe.

É o “Complexo de Édipo”, que, estendido à identificação da filha com a mãe, desejando eliminá-la inconscientemente para possuir o pai, chamou-se Complexo de Édipo Feminino. Mais tarde, aprimorando a teoria freudiana sobre o desenvolvimento psicossexual das meninas, o pai da psicologia, Carl Jung, deu-lhe o nome de Complexo de Electra, deusa filha de Agamemnon e Clitemnestra.

Vê-se assim como é cativante a Mitologia, onde se situam Édipo e Electra, mitos olímpicos. Não precisamos nos aprofundar no seu estudo para aprender que nela tudo gira em torno do antagonismo entre o espírito e a matéria.

Com o casal primordial, Urano e Gaia, personagens simbólicas do Céu e da Terra, o criacionismo mitológico entrou como a origem da humanidade em todas religiões orientais; nas judaico-cristãs, a dicotomia espírito-matéria fica entre o paraíso e a realidade, com o castigo no Inferno e a recompensa no Céu.

No Livro do Gênesis, a criação é semelhante a saga de Prometeu, filho incestuoso de Urano e Gaia; traz Adão perdendo o Paraíso por ter comido a maçã em desobediência a Deus, e, do outro lado, Prometeu cai por ter roubado o fogo dos deuses para dar aos homens. O castigo dos dois atinge todos os seus descendentes.

O mito grego, porém, criou um novo parentesco para perdoar o filho de Prometeu e o “pecado original” inventado por São Tomaz de Aquino reconhecendo a imperfeição humana de Adão, foi adotado pela Igreja Católica que absolve os seus descendentes no confessionário…

Para Paul Diel, como a culpabilidade dos heróis é mitigada pela justiça mitológica e pelos cânones católicos, as ações humanas, objeto de desvelo, apagam a luz que iluminava e dessa maneira os mitos se banalizam.

A própria Mitologia banaliza a ganância no caso do rei Midas, que embora vivesse em abundância, era um avaro vicioso e incorrigível; a sua maior diversão era contar moedas de ouro.

Um dia, num passeio, Baco sentiu falta de Sileno, seu pai de criação que se perdera, bêbado, da comitiva olímpica. Camponeses acharam o velho e levaram-no a Midas que o reconhecendo levou-o ao castelo oferecendo-lhe dadivosa hospedagem.

Quando acompanhou Sileno são e salvo à presença do Deus do Vinho, Midas teve como recompensa o direito de fazer qualquer pedido, que seria atendido. O sovina solicitou que “tudo em que tocasse virasse ouro”… Baco realizou o desejo e o Rei morreu de inanição porque todo alimento que pegava se metalizava.

A banalização leva o povão a criar mitos; felizmente são manias passageiras, como os dois minutos de fama que levam abestados se amostrar diante das câmeras de tevê ou o desfile das doidivanas que penduram argolas no nariz e pintam os cabelos de verde piscina…

No Brasil surgiu uma caricatura de Mídias, o pelego Lula da Silva, que os seus parceiros  o fizeram “um mito” e levaram-no ao poder, com o direito de transformar em propina tudo o que assinasse. Assim foi feito, e ele está preso por isso…