2.3.19

POESIA - MITIFICAÇÃO; DESAMORAGEM

MARCELO MÁRIO DE MELO -


Mitificação.

Estou nu e paralisado de frio.
Mas meu corpo é grande demais aos teus olhos
e não vês tuas roupas me possam ser agasalho.

As feridas do meu rosto derramam sangue e pus
e meus olhos secos são cristais de lágrimas.
Mas reténs de mim uma face bordada
com os fios e capuchos
das nuvens onde me imaginas e me contemplas
e não vês tuas mãos me possam untar as feridas.

As aves de rapina em torno de mim esvoaçam
visando vazar os meus olhos.
Mas imaginas sejam elas somente
o cortejo com que a natureza me reverencia no Olimpo
e não ensaias acenos apupos
que facilmente poderiam afastá-las.

Cada dia te sentes menor diante de mim
e despejas aos meus pés
o cesto das tuas fraquezas e admirações.

Sobre minha terrena e limitada humanidade
construíste um gigante com camadas de vazio e de barro
e sob essa carcaça me encontro prisioneiro e só
profanado pela tua inútil adoração.

***
DESAMORAGEM

A saudade
resseca a lágrima
no cristal dos olhos
morto-vivos.

A nuvem cinza
se cola à pele da vigília
e atrela treva
à polpa do sonho.

O peso do corpo
se elefantiza
enterrando os pés
na inércia movediça.

Os maxilares
trituram
os dentes da lembrança
mastigando os lábios.

A janela sem paisagem
o prato vazio na mesa
a cratera na cama
o pão do amor ausente.

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Marcelo Mário de Melo é poeta, escritor, jornalista, intelectual pernambucano, ativista político. Nasceu em Caruaru, foi para o Recife com nove anos de idade. Integrou-se ao PCB aos 17 anos, foi fundador do PCBR em 1968, atuou na clandestinidade, teve a prisão preventiva decretada em 1970, foi preso político em Pernambuco de março de 1971 a abril de 1979. Filiou-se ao PT em 1980, desfiliou-se em 1990 e reintegrou-se em 1994, sem ter se ligado a nenhum outro partido no intervalo, “o que equivale a um segundo casamento com a mesma mulher”, como ele mesmo costuma dizer. Escreve principalmente poemas, histórias infantis, mini-contos e textos de humor.