25.3.19

SAMBA

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Os corpos em transe no "Samba", obra maior de Di Cavalcanti, ilustram o trecho de um texto antigo - Transitando no transe - que continuo assinando:


"Para mim a macumba designa um complexo de saberes encantados conduzidos por encantadoras e encantadores do mundo e o transe é poderoso elemento de descolonização do corpo. O colonialismo é um elemento normatizador e disciplinador dos corpos, domesticador de suas potências. É no controle do corpo que o colonialismo atua de forma mais impactante (o corpo como fonte potencial de pecados da catequese, o corpo como instrumento de trabalho da escravidão, o corpo dominado das mulheres, o corpo necessariamente viril dos homens). Clamo, por isso, por mais estudos sobre o samba, o futebol e o funk que encarem essa questão do transe corporal como elemento de descolonização potente a partir do cruzamento com os complexos macumbeiros. Ou Garrincha driblando não é caboclo de pena? Ou a cabrocha sambando não transita para o insondável terreiro em que o corpo fala?

Tenho ainda a forte impressão de que as juremações e umbandas trabalham com um princípio pouco percebido e que dá pano pra manga: os elementos da natureza também entram em transe quando submetidos a procedimentos de encantação. O caboclo não mora na folha. A folha é que recebe o caboclo quando o ponto certo sai da boca preparada.

O estado de trânsito, a possibilidade de ir, é a chave do babado. Os corpos em transe são aqueles que transitam por instâncias de drible e encantamento inalcançáveis e incompreensíveis à retranca colonial . Por isso incomodam tanto." (via Facebook)