20.3.19

SILÊNCIO

MIRANDA SÁ -

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”
(Martin Luther King)


Já contei em outros artigos a minha paixão pelos sebos; possuo na minha estante várias obras de referência esgotados, e uns até proibidos, como o “Mein Kampf”, de Hitler; “Judeu sem Dinheiro” de Henry Ford; e “As Bases do Separatismo”, do filósofo paraibano Alírio Meira Wanderley.

Outro dia, num périplo pela Rua da Carioca e Praça Tiradentes, numa banca vendendo revistas a R$0,50, encontrei a edição 2453 da IstoÉ de 14 de dezembro de 2016 com uma chamada de capa que me atraiu: “Dilma mandou Odebrecht pagar R$ 4 milhões a Gleise”.

Como é sempre legal ver a delação de Marcelo Odebrecht, que veio fragmentada e sempre meio apagada na grande mídia, levei a revista para conferir a matéria assinada pela jornalista Débora Bergamasco. Nela, me impressionaram o texto e o conteúdo.

Eu não sabia que a Procuradoria tinha aberto inquérito para tornar o poste de Lula inelegível, ela que foi salva pela vergonhosa fraude do ministro Lewandowsky e o senador Renan Calheiros no impeachment. Nunca ouvi falar nisso; assunto abafado e bem abafado nos sigilos em que certos setores da Justiça abrem para privilegiados;

Segundo a reportagem, o caminho da propina para a então senadora pelo Paraná obedeceu a um esquema mafioso. Gleise ficou devendo R$ 4 milhões ao marqueteiro Oliveiros Domingos Marques Neto que atuou na campanha eleitoral que a elegeu; e pediu socorro a Dilma.

A Presidente mandou Edinho Silva, tesoureiro do PT, procurar a Odebrecht; o petista foi à empreiteira e lá foi acertado o esquema da transação, realizada posteriormente no gabinete da Senadora lá no Senado.

O resto é silêncio, como nas palavras que o grande Shakespeare pôs na boca de Hamlet, “Quando todos que conheço se forem, o que restará? Vazio. Silêncio. Sim, o resto é silêncio…” A peça inspirou um romance do escritor gaúcho Érico Veríssimo de onde foi extraído um curta metragem produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre com roteiro de Angel Palomero.

O verbete Silêncio é substantivo masculino de origem latina, silentĭum,ĭi derivado do verbo silēre – ‘calar-se, não dizer palavra’. Cientificamente, silêncio é a ausência total ou relativa de sons audíveis, mas o comum é a privação, voluntária ou não, de falar, de publicar, de escrever ou manifestar os próprios pensamentos.

Para mim, o escritor português de primeira ordem, Camilo Castelo Branco, é que matou a pau ao escrever que “O silêncio é uma confissão”, e assim atestamos a culpabilidade de Dilma neste caso, pois ela calou-se; se fosse mentira teria processado a jornalista e a IstoÉ, não é mesmo?

E do silêncio misturado com segredo e sigilo, ficamos sem saber se a impichada é ou não é processada pela Procuradoria Geral da República, como deveria ser pela criminosa compra da Refinaria de Pasadena.

Neste cenário, a reportagem que me custou R$ 0,50 num sebo da Praça Tiradentes revela um dos crimes praticados pelo lulopetismo que, somados ao drama da herança maldita da Era Lula e o passo de cágado processos judiciais no STF, é semelhante ao filme norte-americano de 1991, “O Silêncio dos Inocentes”.

Encontram-se no caso em pauta e na película, as metafóricas presenças do Dr. Hannibal Lecter, brilhante psiquiatra e assassino canibal em série, e o astuto pelego Lula da Silva, mentor de uma governança para as empreiteiras que jorrava propinas para o PT e os parceiros.

O Silêncio dos Inocentes é o nosso silêncio, o preocupante silêncio dos bons, pior do que os gritos dos maus, porque nos satisfaz conhecer uma gota d’água no noticiário ignorando o poço onde as coisas que escondidas de nós…