12.4.19

CEMITÉRIO DE GENTES APRESSADAS

LUIZ ANTONIO SIMAS -


1 - A cidade foi construída soterrando cemitérios indígenas. Foi reformada soterrando cemitérios de africanos. O que salvou o Rio minimamente foi a macumba, chamando tupinambás e pretos novos e velhos para viver nas giras de lei, pitando cachimbos e lançando flechas encantadas.

2 - A umbanda é a maior aventura civilizatória carioca, de braços dados com o samba. A macumba é a mais potente saída - corporal, epistêmica, encantada, sofisticada, surpreendente - contra a asfixia do colonialismo e o carrego da cidade.

3 - O Rio de Janeiro é um monumento ao horror (pau que bate no corpo) subvertido pelo tambor (pau que bate no couro). E agora temos uma gente que traz toda a carga genocida e escravocrata, desencantada, no poder.

4 - O axé da cidade está disperso. O Maracanã, um assentamento, foi destruído. Terreiros são depredados o tempo todo. Flechas, pedras, cachimbos, folhas, tambores, águas sagradas, defumadores.: tudo é destruído pelos boçais.

5 - Nós estamos trocando a mais radical, insinuante, sofisticada, desafiadora, experiência ontológica de estar originalmente no mundo - a civilização da macumba - por uma merda desencantada, doentia, simplória, boçal, que está matando tudo.

6 - Ou criamos estratégias de restituição do axé, ou viveremos mortos em um cemitério de gentes apressadas, surradas e desencantadas, incapazes de driblar a morte como Garrincha driblava um João qualquer. A flecha voa!

Fonte: twitter