10.4.19

POESIA - TUDO NÃO

MARCELO MÁRIO DE MELO -



Há momentos em que a gente
escala desculminâncias
montanhas de irrelevâncias
movediçando as passadas
os erros as trapalhadas
contratempos redundantes
os desencontros gritantes
cutros-circuitos sem conta
tudo que assoma desmonta
e retorna ao rés do chão
o pé desencontra a mão
um olho o outro desolha
a chama esfria e molha
a chave se quebra dentro
à frente um pé de coentro
pra se armar o balanço
tudo com ranhura e ranço
a porta fecha na cara
a espoleta dispara
antes da hora acertada
a terra é deslavrada
no momento da colheita
a cama é toda desfeita
a casa desarrumada
a roupa toda amassada
o mapa todo borrado
cerração de lado a lado
pedra de sal no café
ponta de prego no pé
nota errada na canção
em rota de contramão
tudo que na vida roda
a crueldade da poda
cortando no pé do tronco
rugido rosnado e ronco
em vez da palavra nua
spray cinzento na lua
treva mascarando o sol
apagado o farol
e nenhum letreiro aceso
o azar muito coeso
repetindo seu refrão:
multitudo sempre não!