31.5.19

A PEDRA

MARCELO MÁRIO DE MELO -


Ela não era uma pedra grande que desse para fazer pedregulho ou formar muralha. Nem pedra pequena que se pudesse pegar e atirar. Nem pedrinha que entra no sapato. Em forma de bola grande, tinha de ser apanhada com as duas, fazendo força. Por isso não era muito mexida e ficava mais à vontade.

Não era uma pedra parada no meio do caminho, nem ficava somente olhando as coisas na beira da estrada. Vivia rolando e ralando a pele no chão da vida. Observava os jeitos e os dramas das pedras de todos os tipos. Tirava conclusões e gostava de ensinar o que aprendia.

As pedras grandes e imóveis, dinamitadas, vazadas em túneis nas suas entranhas, gerando pedregulho de obras em estradas ou virando pedrinhas para canteiros e caminhos ou sendo misturadas com cimento nas britadeiras das construtoras. As pedrinhas frágeis que, pisadas, viram pó.

A tristeza das pedras usadas para matar passarinho e ferir pessoas. Das pedras tumulares. Das pedras amarradas aos corpos dos assassinados jogadas no rio. Das pedras usadas para construir muros dividindo povos. Das pedras para fazer trincheiras. A amargura do coração de pedra.

A alegria da pedra se abrindo na caverna para entrar luz. Da pedra saindo dos rins. Da pedra de David na testa de Golias. A inveja das bolinhas de gude na brincadeira das crianças e se espalhando no chão para derrubar os cavalos dos soldados que vêm espancar o povo na rua.

Pedrinhas e montanhas rochosas. Utilidade das pedras. Variedade das pedras. Pedras de alicerces e calçadas. Seixos. Pedra de sabão. Pedra ume. Pedra pome. Pedra de sal. Pedra de sangue. Pedras esculpidas. Pedras preciosas. Diamante, brilhante, rubi, esmeralda. O valor das pedras. A poesia das pedras.

Ela juntava histórias, poemas, analogias inspirados nas pedras, sinônimos e expressões pedrosas. As pedras do caminho. O caminho das pedras. Pedra sobre pedra. Construir sobre a pedra. Tirar leite de pedra. Pedreira, pedreiro, pedraça, pedraria, pedrada, pedregulho, pétreo, petrificado. Pedra d’água, pedra de fogo, pedra que canta, pedra de sangue, pedra de toque.

Vivendo a aprender e ensinar, ela era uma pedragoga. E também fazendo florescer, era uma pedraflor.

(Do livro no forno: FANTASCA – HISTÓRIAS)

OBS; a palavra Fantasca era usada por um camponês-filósofo analfabeto, companheiro de prisão,Francisco Ferreira de Lima (PB), o velho Chagas. Ele separava as coisas dos "Efenomi", as realidades, das coisas da Fantasca, a fantasia. Quando eu lhe perguntava algo, ele me indagava se queria que falasse por parábola ou por "Decraração". Gostava mais de falar por parábola.