23.5.19

CURRÍCULO VIRA-LATAS

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Não possui espírito de liderança, mas admite, dependendo do currículo da entidade, ser liderado por espíritos. Também não entende nada de gestão empresarial, não pretende exercer o empreendedorismo e se identifica com pessoas destituídas de competitividade.

Não usa ternos e gravatas, a não ser em desfiles de escolas de samba (quando for fantasia de ala) e enterros. O último caso se aplica apenas em virtude do desejo expresso do morto, firmado em cartório ou revelado a algum médium de mesa espírita.

Sabe tocar tambor com alguma competência. Evita palestras motivacionais e reuniões de condomínio, gosta de beber cerveja e desconfia dos destilados por ordem do caricaturista Cássio Loredano, que recebeu a mesma ordem do grande Nássara.

Não tem carro; conhece relativamente bem o repertório de Luiz Gonzaga; gosta de samba mas não é sambista (lhe faltam alguns fundamentos, dentre os quais a arte de sapatear no miudinho). Assistiu a Vila Isabel ganhar o Carnaval de 1988 com ‘Kizomba’ e acha que isso é um dado qualificador para alguma coisa. Queria morar em Pasárgada ou na Tupinicópolis do Fernando Pinto, mas anda se virando no Rio de Janeiro mesmo.

É um historiador de irrelevâncias. Gosta de lembrar que enquanto a grande História desfila nos parlamentos, a vida continua na cidade, entre uma ou outra rajada de tiros, suspiros dos namorados e um palavrão bem colocado para lamentar um gol perdido.

Acha que o que se passou no Mangue na República Velha, entre garrafas de cerveja, conhaques vagabundos e delírios suicidas, interessa mais que as tramoias urdidas nos gabinetes. Um samba do Noel instiga mais como documento a respeito da década de 1930 do que um discurso do Ministro do Trabalho. O voo imaginado de Besouro numa roda de capoeira diz mais sobre o Brasil que o andar marcial de um marechal de campo.

Sente a pulsação do tempo nos fraseados de Pixinguinha e nas cachaças ofertadas ao santo. Sua caravela não cruza oceanos, mas navega nas águas imundas do Rio Maracanã, o rio da aldeia. O caminho das Índias, afinal, é aquele que leva a uma Calicute diferente, com balcão, azulejos, copos americanos, linguiças e ovos coloridos tirando onda de especiarias.

Não votou no atual presidente, no atual governador e no atual prefeito, o que o qualifica mais ainda.

Fonte: Facebook