30.5.19

MEMÓRIAS: MINHA E DOS OUTROS

GERALDO PEREIRA -

Alguns leitores, como eu também, saudosistas, solicitam que essas pinceladas, dadas nas minhas memórias e nas dos outros, sejam publicadas num livro.

Não é que, revendo a minha papelada, recortes de jornais, revistas e livros, discos, dvds, cds, entrevistas e debates sobre tantos assuntos, que estão espalhados aqui comigo, no Rio de Janeiro, em Recife, há mais de seis décadas guardadas, com dezenas de fotos e entrevistas, com pessoas de todas as classes, focalizando assuntos diversos, alguns atuais, em décadas passadas e nos dias presentes. Me entusiasmei!

Não sei se este entusiasmo terá a força capaz de fortificar a minha vontade e concretizar o objetivo, antes da viagem sem retorno, que todos nós teremos que fazer um dia, seguindo o ciclo da vida, nascer, crescer, viver e morrer.

Dar um pouco mais de tempo ao tempo, amadurecer a ideia, um pouco mais, a fim de colocá-la em prática, sem correria e também sem ficar parado. Será que vale a pena? No mínimo, se constituirá, num retrato sem retoque daquilo que fiz, ou gostaria de ter feito.

Há pouco, relembrei-me, de episódios vividos, alguns projetos pessoais que tinham tudo para dar certo e deram errado. Outros que vacilei colocar em prática e que mais tarde me deram tantas alegrias.

Na vida é assim: fazemos, às vezes, coisas certas que dão errado; noutras fazemos coisas erradas que dão certo.

O homem é produto dos seus hábitos. Deles, pode se tornar senhor, ou escravo. Não sei porque repeti essas palavras, algumas vezes, nos cursos de Introdução à Oratória, Comunicação, História Política e Sindical do Brasil, que ministrei para sindicalistas e entidades sindicais do nosso País.

O homem que bebe e não domina o hábito de beber, ele fica escravo do seu hábito, torna-se um alcoólatra, digno de pena.

O homem que fuma é escravo do fumo. O homem que mente é um pobre coitado. Como confiar no que ele afirma? Já “o homem que lê vale mais”, dizia o saudoso, Monteiro Lobato, esse é senhor dos seus hábitos.

Sempre cultivei o hábito da leitura, correndo os poucos sebos do Recife, a procura das obras de Humberto de Campos, Coelho Neto, Graça Aranha, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Graciliano Ramos, não perdia as palestras e conferências dos intelectuais da Terra, como Gilberto Freire, Mauro Mota, Cristiano Cordeiro. As memórias é um ramo da literatura pela qual me apaixonei, mormente quando o autor, cita episódios pessoais, abordando qualquer assunto e sendo a ele fiel.

Iniciamos com o ex-ministro da Economia do Governo Sarney, Maílson da Nóbrega para o Ministério da Fazenda, o presidente José Sarney, perguntou-lhe “Haveria problemas em conversar com Roberto Marinho?”. “De maneira alguma, sou admirador dele, e gostaria dessa oportunidade”, a reunião seria naquela mesma tarde. No seu livro, autobiográfico, intitulado, “Além do feijão com arroz”, Editora Civilização Brasileira – 2010, com Louise I. Soutomaior e Josué Leonel. Nos diz, o autor: ‘Não sabia que o doutor Roberto, era influente a ponto de indicar o Ministro da Fazenda.”

Nos diz o doutor Maílson, que foram quase duas horas, no encontro com o todo poderoso Dr. Roberto. “Durante nossa conversa cordial, discorri sobre o tema, que já tratara com Sarney e muitos outros. Falei da necessidade de serem retomadas as negociações da Dívida Externa, de ser realizada uma reforma de Estado e de agir sobre a inflação. Ele parecia concordar. Depois da explanação, questionou-me sobre tudo. Parecia me sabatinar. Depois de quase duas horas, revelou: “Gostei muito”.

Saindo da sala, dei lugar a Antonio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações e amigo, tanto de Marinho, quanto de Sarney. Pediu para que eu o esperasse, gostaria de me acompanhar até o elevador. Na sala de espera, surgiu, ainda, mais uma dúvida. Será que ele fora enviado pelo presidente, para facilitar a aprovação do empresário ao meu nome? Depois de alguns minutos, ACM deixou o Dr. Roberto, confirmando que o empresário ficou com a impressão muito boa sobre mim. Muito bem.

De volta ao Ministério, ali pelas seis da tarde, apenas uns dez minutos, depois que sai do escritório da Globo, fui surpreendido pela secretária. “Parabéns!” Não entendi. Ao questioná-la, contraiu as sobrancelhas, me olhando com esquisito. Estava em dúvida, se eu estava sendo discreto demais, ou realmente não sabia. Hesitante, confessou: “porque o senhor é o novo ministro da Fazenda”, ao meu cenho franzido, esclareceu, deu no plantão do Jornal Nacional.

De Regina Echeverria no livro ‘Sarney – a biografia’. Texto Editores Ltda – Grupo Leya, 2011, página 450.

Dias antes de assumir a presidência da República, Itamar Franco, aceitou participar de um jantar, com Roberto Marinho. Ouçamos o ex-presidente, patrocinador do referido jantar, ocorrido no Hotel Glória, no Rio de Janeiro:

“O Itamar não queria que a imprensa soubesse, que eles iam jantar juntos. Quando chegamos ao Hotel Glória, eu falei para ele: ‘Não pense que você vai governar, sem falar com o Dr. Roberto, você precisar conversar com o Dr. Roberto’.”

Da saudosa Raquel de Queiroz e sua irmã Maria Luiza de Queiroz, no livro de memória “Tantos Anos”, nos diz a saudosa Raquel “... uma tarde, assistia eu a um comício em frente ao Teatro Municipal, e comigo estavam as meninas de tio Espiridião. Mirta se dizia de esquerda, porque andava meio aproximada, do Álvaro Paes Leme, paulista, nosso ‘camarada’ então. Era durante a revolução de 1932, em São Paulo, e nesse comício fui presa. Meses antes, conhecera eu Carlos Echenique, apresentado por Jorge Amado; Edson Carneiro, o sociólogo e outros baianos. Fiz, então, amizades, que se não duraram todas até hoje, é porque a morte os levou.

Bem, durante o comício, fui presa e levada para sede da Polícia, na rua da Relação ... lá fui posta, numa sala, onde já estavam duas moças, duas prostitutas, que haviam sido presas, porque faziam ‘trottoir’ na avenida. Não aceitaram de início, que eu tivesse sido presa por política, e uma delas me disse: “Você que está começando na vida, tenha cuidado. Olhe, não vai se apaixonar. A pior coisa da vida é se apaixonar. E também não pense em se regenerar, não. Regenerar é besteira. Eu por exemplo, arranjei um velho, casado, pai de família, sujeito distinto. Disse comigo: “Vou me regenerar. Vou ficar com esse velho, e o velho abriu falência e me botou no olho da rua, eu tive que começar tudo da estaca zero”.

Gregório Bezerra, quando deputado, 1947, discursa em defesa do seu mandato
“Nos primeiros dias de janeiro de 1946, enfrentei um sério problema. Não tinha roupa, para apresentar-me à Assembleia Nacional Constituinte, nem o dinheiro para a passagem. Faltava-me tudo. O povo soube dessa situação, cotizou-se a minha revelia e mandou um alfaiate tirar-me as medidas para confecção de 3 roupas. Além disso mandou-me três camisas três cuecas três pares de meia e um bom par de sapatos. Dinheiro para comprar uma passagem de avião, com os seguintes dizeres:

O povo do Recife e teus amigos enviam-te à Assembleia Nacional Constituinte, como seu legítimo representante, convictos de que saberás cumprir com o teu dever de patriota e de comunista. Longa vida, boa saúde e muitos êxitos. Recife, 15/1/46"

Ouçamos, é o que nos diz Gregório Bezerra, em suas ‘Memórias’, editado pela Civilização Brasileira, ele que havia sido preso, em 1935, cumpriu oito anos de prisão na Ilha de Fernando de Noronha e Ilha Grande no Rio de Janeiro, com o fim da Segunda Grande Guerra Mundial e a redemocratização, foi eleito Deputado Federal, o segundo mais votado, em todo o Estado de Pernambuco, pela legenda do Partido Comunista do Brasil.

*Geraldo Pereira é jornalista especializado em história política e sindical do Brasil, atuando por mais de 60 anos nos principais veículos de comunicação do país, ex-presidente do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e colaborador da Tribuna da Imprensa Sindical.