6.6.19

CANJIRAS CARIOCAS

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Canjiras cariocas foi um texto que publiquei no dia 23 de outubro de 2012. Nele propus que a cidade do Rio de Janeiro fosse pensada como um terreiro de macumba e tentei localizar rapidamente o lugar ocupado pelas festas. Relendo agora, numa varredura de textos do antigo blog, achei mais atual. Naquele momento a cidade parecia estar uma beleza.


As cidades falam e se revelam em suas esquinas ou na falta delas. Em geral, quando estou em uma cidade, gosto de inventá-la ao sabor do que vejo e não vejo nas ruas. Existem as cidades-shoppings, cidades-enfermarias, cidades-fábricas, cidades-cemitérios, cidades-bolsa de valores, cidades-presídios, cidades-autódromos. A minha aldeia, São Sebastião do Rio de Janeiro, é uma cidade-terreiro. E um terreiro de macumba; umbanda puxada para a encantaria, território encantado de gira de lei.

Ando meio cismado com essa ideia: a cidade do Rio de Janeiro pode ser pensada como um grande terreiro encravado entre a montanha e o mar. Baixam por aqui as falanges ameríndias, europeias e africanas - e se bobear dança todo mundo na mesma canjira. De vez em quando, eu diria até que muito frequentemente, os encantados de falanges diferentes saem no cacete e a curimba esquenta. O terreiro é disputado. Eventualmente, porém, as entidades se abraçam - e é aí que a gira (a roda ritual bordada pelos tambores) fica mais bonita e os pontos são firmados mais altos.

Os encantados, segundo a tradição, não tiveram morte física. Transmutaram-se em pedras de rio, areias e conchas de praias, troncos de sucupira, cipós de jitiranas, ondas do mar e cumes de montanhas. Imagino, portanto, um Estácio de Sá encantado no Pão de Açúcar, mil tupinambás encantados nas praias da Guanabara e Zé Pelintra ajuremado numa esquina perto da subida do São Carlos.

Vou mais longe na canjira: Pereira Passos está numa águia daquelas do Theatro Municipal. Cartola ajuremou-se numa pedrinha miúda da subida do Pendura Saia. Noel encantou-se em alguma garrafa de cerveja, com maestria. Jamelão virou jequitibá do samba. Estão todos por aí, prontos para baixar, dançar, dar conselhos, passes e o escambau. Registre-se que o terreiro é cheio de encosto de capitão do mato, de fardas e ternos bem cortados, querendo atrapalhar a firmeza do riscado da pemba.

Para entender o Rio de Janeiro, portanto, é necessário compreender e vivenciar as giras dos encantados - e a maior delas é o Carnaval. Para esclarecer melhor: não penso o Carnaval apenas como um fuzuê determinado pelo calendário. Vejo as festas como um conjunto de ritos em que as relações tensas e intensas entre as diferentes camadas sociais disputam espaços, criam formas de vida e morte.

A cidade vira território de afeições e ódios entre batuques, meneios de corpo, beijos, furtos, comidas e cantos. Morte e vida cariocas: terreiro. Entrudos, corsos, batalhas de confetes e flores, festa da Penha, rodas de capoeira, blocos de arenga, rodas de pernada, ranchos, cordões, grandes sociedades, bailes de mascarados, escolas de samba, onças do Catumbi e Caciques de Ramos dão pistas para se entender como as tensões sociais - disfarçadas ou exacerbadas em festas - bordam as histórias da cidade-terreiro; ou das cidades que formam o grande terreiro.

A festa foi espaço de subversão da cidadania roubada. Inventou-se na rua, como terreiro, a cidade negada nos gabinetes. Disciplinar a rua, ordenar o bloco e enquadrar a festa, por sua vez, foi a estratégia do poder instituído na maior parte do tempo. Continuará sendo, não se enganem com sorrisos fáceis. Do embate entre a tensão criadora e as intenções castradoras - e o jogo está longe de terminar - a roda dos encantados continua girando enquanto o coro come. Qual é a nossa falange?

Deixa a gira girar!

Fonte: Facebook