1.6.19

TRAPAÇA

MIRANDA SÁ -

“Se não se punirem os crimes, encorajar-se-á a desonestidade”. (Públio Siro)


Não perguntem o porquê, mas dou uma preferência especial aos velhos livros que procuro nos sebos, leio os que ainda não li e relei-o os que gostei e mantenho na estante como referência. Um poeta diria que a pátina do tempo valoriza o estilo.

Isto não quer dizer que desprezo os novos autores, somente aqueles que Carlos Drummond condenou ao dizer que “Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante”. Vejo isto na feira de livros usados armada na saída da Estação Carioca do Metrô para a Avenida Rio Branco; são dezenas de livros novos, com belas capas, amontoados nas barracas.

Nas minhas rondas pelo Centro do Rio atrás de acumular conhecimento, folheio tudo que me chama atenção e sempre tem algum livro que salta sobre o obstáculo do desprezo, e me faz comprador. Outro dia me ocorreu isto, ao encontrar uma referência inteligente sobre a patifaria.

A trapaça, já disse alguém, é uma das belas artes. E o escritor que me chamou atenção me parece estreante na literatura pois nunca vi o seu nome, e que não o cito porque dele só aproveitei um pequeno trecho que transcrevo: “Denunciar as patifarias de um indivíduo se chama delação; denunciar as patifarias da sociedade, chama-se anarquia”.

Sou do tempo em que Anarquia se escrevia com o “A” maiúsculo, e os anarquistas eram admirados por sua rebeldia, envolvendo grandes pensadores como Bakunin, Kropotkin, Malatesta, Max Stirner, Proudhon, Tolstoi e William Godwin, que, pelo menos para mim, dão gosto de ler.

Conhecendo-os, considero-lhes humanistas. É preciso não confundir estes filósofos utópicos ao condenável terrorismo dos nossos dias, nem à ralé vandálica tipo Black-Blocs. Pode-se discordar de Proudhon, ou de Tolstoi, mas há que reconhecer que eles merecem um lugar de honra nos capítulos da História do seu tempo…

Também são antológicos os confrontos de Bakunin e de Malatesta com Karl Marx, denunciando o autoritarismo e o coletivismo propostos como necessários para estabelecer uma sociedade igualitária e justa.

Voltando, porém, ao livro que comprei, seu autor traz um comentário cheio de números sobre o instituto da delação premiada, consagrado no Direito Positivo dos países civilizados. Uma informação valiosa, ao tomarmos conhecimento da delação de Antônio Palocci, o ex-ministro petista dos governos Lula e Dilma. É de fazer a gente explodir de raiva.

Palocci denuncia práticas criminosas inomináveis dos governos do PT. Dá detalhes das trapaças feitas pelos que ocuparam o poder federal por 16 anos, infiltrando os seus tentáculos em vários estados, como o Rio de Janeiro, que foi arrasado pela quadrilha Lula-Cabral.

Na operação Greenfield, deflagrada em 2016, os procuradores em Brasília ouviram de Palocci informações sobre a corrupção desenfreada dos hierarcas petistas nos fundos de pensão ligados a empresas estatais.

O ex-Ministro relatou mais tarde, em 2018, que Lula da Silva ordenou a dirigentes de fundos ligados a bancos e empresas estatais para investir sem fazer qualquer análise no projeto de criação da Sete Brasil, empresa que construiria os navios-sonda para explorar a área do Pré-sal e pronta para se tornar uma fonte de propinas.

Noutras revelações Palocci falou de vendas de medidas provisórias levantando recursos para as campanhas do PT; e explicitou a nomeação de Paulo Roberto Costa para a diretoria da Petrobras, a fim de garantir desvios para políticos dos partidos aliados.

Semana passada, Palocci foi convidado pela CPI do BNDES – um dos mais importantes órgãos de investigação da atualidade –, mas o ministro Edson Fachin, do STF, concedeu-lhe o direito de ficar calado.

É suspeitoso, porque no caso dos empréstimos criminosos para Cuba, Venezuela e ditaduras africanas, ele poderia entregar a chave para abrir a “caixa-preta” do banco. Com duas colaborações premiadas homologadas e uma terceira na espera, Palocci já goza das prerrogativas jurídicas; mas muitos dos envolvidos em crimes contra o Brasil continuam imexíveis. Dizem que isto é trapaça, e das boas!