12.6.19

UM DIVISOR DE ÁGUAS ENTRE O BEM ESTAR SOCIAL E A BARBÁRIE

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


A greve da próxima sexta-feira será o divisor de águas entre o projeto de bem estar social brasileiro em construção e a barbárie. Não é exagero. Se a greve não representar uma pressão real para a parada no programa neoliberal de Paulo Guedes contra a Previdência pública, serão rapidamente destruídos todos os direitos sociais relevantes assegurados pela Constituição há décadas. O que será colocado no lugar, o chamado regime de capitalização, é um verdadeiro embuste do trabalhador, como já demonstrei em vários artigos.

A ameaça concreta com que a Nação se defronta é repetir-se o esbulho da cidadania, num nível mais grave, em conseqüência da reforma trabalhista do ano passado. Prometeram emprego e desenvolvimento. O resultado já colhido é alto desemprego e recessão. Entretanto, ali já estava claro o propósito de desmontar a era Vargas, justamente a era que nos deu as bases do desenvolvimento econômico e social sem precedentes e sem sucessores - exceto, no caso da economia, o crescimento econômico durante o governo militar.

A composição do Congresso, com grande parte dos parlamentares iniciantes e despreparados, possibilitou que um tecnocrata não eleito, chegado ao Ministério da Economia por força da ignorância em economia de Jair Bolsonaro, empunhasse nas mãos poderes jamais conferidos a um ministro, creio que no mundo, para destruir legalmente não apenas a base social mas também a estrutura econômica do país. Tudo em nome do neoliberalismo. Tudo fundado numa ideologia onde não aparecem as pessoas. Tudo violando a nação e a Pátria.

É para parar esse processo que a greve assumiu caráter estratégico. Alguém tem que parar os dois loucos, o louco-mor e seu lugar-tenente. É preciso que o estalo de Vieira, como costuma dizer o senador Requião, toque o coração e a mente dos jovens parlamentares que chegaram à Câmara sem muito preparo, mas que podem reagir por intuição ao descalabro ameaçador. E que os oposicionistas os respeitem e esqueçam o besteirol presente no qualificativo de “coxinhas”, tratando com dignidade pares que podem vir para o lado de cá.

Anos atrás, creio que na época do impeachment, assisti a uma reunião de jovens da Mídia Ninja, em Brasília. Fiquei surpreso ao ouvir o discurso de uma delas, talvez de 20 anos, na defesa de um tratamento inteligente dos oponentes. “Nada de chamar de cozinhas”, dizia ela. “Isso não leva a lugar algum. Temos que usar argumentos convincentes para dizer que estamos certos”. Era uma moça de 20 anos. Vejo parlamentares maduros que não conseguem demonstrar essa perspicácia. Mas sem esse esforço a minoria formal não pode ganhar.

A destruição da era Vargas não está na retórica dos atuais mandatários, mas se está materializando em seus atos concretos. A retórica foi invocada uma vez, sim, com audácia, por Fernando Henrique Cardoso, ao justificar seu criminoso programa de privatização dizendo que liquidaria com ele a era Vargas. Achei aquilo uma bravata, e de fato foi. Não imaginava que seus sucessores, saltando Lula, viessem a fazer o resto do trabalho sujo. Assim, não é surpresa que o PSDB tenha pulado na frente para fechar questão na Câmara pela reforma da Previdência. A ideologia de seu patrono está por trás, além, claro, de algum ganho adicional.