11.6.19

UMA GREVE GERAL ÀS BORDAS DE UMA SITUAÇÃO LIMITE

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


A greve do dia 14 próximo promete ser, nas capitais mais importantes, um dos movimentos sociais de maior expressão política na história da República. Não é uma greve relativa apenas ao futuro, isto é, à depredação programada da Previdência Social. É uma greve relativa também ao presente tendo em vista os quase 14 milhões de desempregados e igual número de desalentados e subempregados que buscam desesperadamente meios de sobrevivência, como herdeiros da reforma trabalhista de Michel Temer.

Os movimentos sociais sempre são uma incógnita em sua expressão política. A greve por um dia reduz o risco da ameaça de demissão do grevista. Já a greve geral só existe em situações limite. As greves de trabalhadores industriais de 1917, comandadas por anarquistas e socialistas, ficaram na história como uma surpreendente queda de braço que resultou vitoriosa para os trabalhadores. Estavam em situação limite. Como estavam em situação limite os trabalhadores liderados por Lula nas greves de 78, 79 e 80, também vitoriosas.

Diante da propaganda massiva do Governo em favor da reforma previdenciária, grande parte dos trabalhadores está confusa. Disseram a eles que, sem a reforma, o país vai quebrar. Maria Lúcia Fatorelli, a heroína da denúncia da dívida pública enquanto sistema de expropriação de recursos contra o povo, mostrou que seria a reforma, esta sim, que quebraria o país. É só fazer as contas. Se há problemas fiscais hoje, imaginem se forem cortadas, como está planejado, a contribuição previdenciária dos patrões.
Na verdade, estamos diante da proposta por Paulo Guedes de uma guerra de classes, uma guerra de ódio, ressuscitando um conflito radical que parecia submerso desde Getúlio Vargas. Tudo é feito em favor do patrão, desobrigando-o dos compromissos de solidariedade da Previdência pública atual. O que se oferece em troca da destruição do sistema é o regime de capitalização, com o propósito descarado de tomar dinheiro dos pobres para colocar em fundos geridos pelos ricos, durante 40 anos, sem qualquer segurança de retorno.

Mas inocularam dúvidas na cabeça dos trabalhadores usando as técnicas de repetição de mentiras até que se tornem verdade. Foi assim que, na Alemanha nazista, o povo alemão se convenceu de que o judeu era a fonte de todo o mal. Aqui, a fonte do mal é a Previdência pública deficitária. Mentira. O déficit previdenciário é modesto e resultante exclusivamente da recessão, da queda do PIB e do alto desemprego. Como a Previdência pode preservar receita se há quase 14 milhões de desempregados, contribuintes potenciais em dobro junto com patrões?

Está muito claro que este Governo, que tem todos os instrumentos para combater o desemprego e a recessão, não faz isso porque não quer. De fato, ele usa a recessão e o desemprego que provocam como desculpa para promover privatizações e, desumanamente, para impor a reforma previdenciária. Uma previdência saudável não serve para ser privatizada. No caso da Petrobrás, outro crime, inventaram um projeto de descapitalização e redução de endividamento para, sem nenhuma justificação econômica, retalhá-la e privatizá-la aos pedaços.

Estamos, porém, muito próximos de uma situação limite. O dia 14 será um teste. Os trabalhadores sabem hoje o que foi a reforma trabalhista de Michel Temer com todas as suas conseqüência em termos de subemprego e queda da renda do trabalho. Foi vendida como para gerar emprego. Mas já não é algo que se pode recobrir com mentiras. Embora ainda não se vêem as conseqüências imediatas da reforma da Previdência, o debate trouxe esclarecimentos. E o resultado é definitivo: toda essa reforma deve ser rejeitada. Depois faremos outra, se for necessária, com ampla participação do povo, beneficiário e financiador dela.