1.7.19

O QUE SIGNIFICA O NOVO ENCONTRO KIM-TRUMP?

LUCAS RUBIO -

O líder da República Popular Democrática da Coreia dialoga com o Presidente dos EUA, 30 de junho de 2019.
Domingo (30) ocorreu um histórico encontro diplomático entre KIM JONG UN da Coreia do Norte e Donald Trump dos Estados Unidos. O encontro inesperado ocorreu na famosa fronteira próxima ao Paralelo 38, na região de Phanmunjom, zona da demarcação militar entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Isso com certeza foi bastante simbólico, afinal, em algumas semanas se marcarão os 66 anos da assinatura do armistício da Guerra da Coreia.

Questões rápidas:

1. Por que isso aconteceu?

A Coreia do Norte é um dos poucos países do mundo que conseguiu (e ainda consegue, como hoje provou) fazer os EUA sentarem amistosamente para discussão sadia de ideias, até mesmo manejando encontros fora do roteiro ou improvisados. Isso só acontece porque há décadas (e especialmente desde 2017) o país asiático possui armas nucleares de última geração que são capazes de chegarem a território americano e também porque o país jamais abandonou sua retórica de autodeterminação e preservação de suas características políticas e econômicas.

2. Esses encontros significam capitulação da Coreia do Norte? A desnuclearização significa o fim do socialismo na Coreia?

Não e não, pelo contrário: esses encontros demonstram a vitória da estratégia norte-coreana de não recuar de sua posição. A desnuclearização não significa rendição unilateral - o Norte interpreta como desnuclearização a retirada das tropas e armas nucleares dos EUA na Coreia do Sul em troca do fim do seu próprio programa nuclear. Lembrando que: um país que sabe construir bombas atômicas não 'esquece' como realizar esse processo como num passe de mágica. A Coreia do Norte seria capaz de se renuclearizar rapidamente, caso necessário.

Da mesma forma, a derrubada de sanções não significa abertura de mercados como uma Perestroika soviética; comercializar com o mundo produtos que não existem em seu território ou que são de difícil obtenção não tem qualquer problema e muito menos deturpa o caráter socialista da economia coreana.

3. Apertos de mãos de KIM JONG UN com Trump significam submissão ao imperialismo americano?

Jamais! Se a Coreia do Norte estivesse se submetendo ao imperialismo americano, não teria recusado várias vezes as propostas que ela não considera justas para se chegar a paz.

4. A quem interessa o conflito aberto na região?

O conflito bélico e aberto na Península Coreana não interessa aos norte-coreanos de jeito nenhum, pelo contrário: interessaria, em alguns cenários, ao lado americano que é sempre sedento por guerras.

O conflito na região causaria grande destruição e mortes e, na comparação de forças, nenhum dos dois lados sairia vitorioso, muito embora toda a Coreia provavelmente seria destruída ao passo que os EUA, embora fossem atingidos por armas nucleares, poderiam se manter parcialmente de pé. A escalada internacional do conflito também é algo a se imaginar.

Portanto, por mais que muitos achem que não é assim, o lado da Coreia do Norte anseia a paz para desenvolver o seu país num cenário mais harmonioso e pacífico. Historicamente a Coreia do Norte sempre promoveu a ideia de assinatura de uma paz definitiva e foram os EUA que sempre inviabilizaram isso.

Não sejam irresponsáveis ao acharem que a continuidade de uma guerra de mais de 70 anos de duração é algo bom para continuar provando a não se sabe quem a "pureza" do socialismo coreano. O socialismo coreano só teria a ganhar com a assinatura da paz.

5. Apontamento final

Hoje em dia os EUA estão profundamente envolvidos num conflito contra o Irã (seu alvo renovado), num impasse econômico e político com a China e com inúmeras e infrutíferas tentativas de derrubada do governo nacional da Venezuela.

Especialmente sobre a Venezuela e sobre o Irã (excluindo-se a China porque os contextos e poderios são outros), podemos considerar que a Coreia do Norte possui muito mais cartas nas mangas diante do imperialismo americano por possuir um poderoso arsenal de autodefesa e ataque. O Irã, por tentar desenvolver seu próprio poderio, está sofrendo uma onda de ataques e provocações e a Venezuela, ao tentar seguir seu próprio caminho e na posição de país possuidor de grandes riquezas que fazem brilhar os olhos dos EUA, também sofre sua onda de ataques de um país que apenas sonha com a dominação mundial e a submissão de todo o globo aos seus interesses.

Assim, a Coreia do Norte, pequena, aparentemente frágil e 'miserável', dobra o Império Americano e pratica uma relação "de cima para baixo" (entusiasticamente falando) e "cara a cara" (mais realisticamente falando) que agrada, e muito, não só a KIM JONG UN como a todo o povo coreano que há mais de 70 anos são experientes em impôr derrotas aos EUA. Um dos poucos países que não se curva, em nenhuma hipótese, ao poderio americano.

A Política Songun da Coreia (valorização do Exército), aliada aos mais de 5.000 anos de constituição nacional dos coreanos e todo o aprendizado que o tempo lhe deu mostram sua justeza mais uma vez.

*Lucas Rubio - Graduando em Letras com habilitação em Língua Russa pela UFRJ, Presidente do Centro de Estudos da Política Songun-Brasil, Coordenador do Núcleo de Política Internacional da Tribuna da Imprensa Sindical.