3.4.14

Eduardo abandona rota de Arraes, troca o povo ou a nação pelo mercado

Viomundo  -

O repórter de um veículo de comunicação exibiu trechos do pronunciamento dos integrantes da chapa “Verde-encarnada”, para que fossem comentados por mim,  numa entrevista ao vivo, logo depois do lançamento dessa chapa.

O que mais chama atenção nesse discurso — para eleitores e ouvintes desavisados — é como um  todo um legado de políticas de desenvolvimento regional integrada, cujo foco era povo e nação, foi torcido e retorcido pelos candidatos em função das novas conveniências políticas da hora.

Desde que retornou do exílio forçado a que foi submetido pela Ditadura Militar, o ex-governador Miguel Arraes de Alencar sempre esteve no lado oposto aos presidentes civis que assumiram o governo do país.
Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso trataram a “pão e água” a gestão do velho Arraes, patrocinando e prestigiando seus adversários políticos em Pernambuco.

Enquanto o ex-governador amargava uma solidão federativa, por se opor a “Nova Política” de Collor, Itamar e Fernando Henrique, procurou em vão, fora do Brasil, parcerias para o desenvolvimento de seus projetos sociais.

O cerne dessa oposição é bem conhecido: sua recusa às políticas de desregionalização da economia, em prol de uma “uma integração competitiva” do país na globalização dos mercados.

Arraes defendeu até o fim a necessidade dessas políticas de desenvolvimento regional integrado, contrapondo-se assim à  chamada “guerra fiscal” e a destruição do pacto federativo.

Pagou caro pela sua coerência. E aí vem o neto e renega o legado do avô, dizendo-se admirador de Itamar e Fernando Henrique Cardoso.

Se essa nova versão do PSB está de acordo com o misto de neo-patrimonialismo e gerencialismo (que marcou também o longo governo de FHC) seguido em Pernambuco pelo atual chefe do Executivo estadual, como foi sugerido pela contratação de um assessor de Aécio Neves, para dar um choque de gestão na administração estadual, entende-se.

Mas a revisão vai além, pois trata-se de uma manobra retórica para aproximação com o PSDB e outros partidos satélites, como o PPS e um pedaço do PMDB.

A mudança de rumo e de tom significa que a política do PSB e da família Arraes agora é outra: o mercado, não o povo ou a nação.

A nova política do candidato e governador é “vender” o Brasil a investidores estrangeiros, através de renúncia fiscal e relaxamento das políticas de proteção sócio-ambiental.

O que parece conduzir a uma grave contradição com as  intenções programáticas da  irmã Marina Silva.

Afinal, como conciliar uma política gerencial e de mercado com o tal desenvolvimento sustentável, de que tanto fala a ex-senadora do Acre? Ou ficamos com o discurso “novo” do PSDB e seus aliados, que diz ser o principal papel do estado criar um clima ótimo para os negócios, eliminando entraves políticos e sociais (SUDENE, proteção ao meio-ambiente, direitos  trabalhistas etc.), ou ficamos no lenga-lenga da rede-solidariedade do desenvolvimento justo, sustentável,equilibrado,  que vai preservar a biodiversidade do Planeta e apoiar a economia solidária.

Há qualquer coisa de dissonante nesse arranjo. Não se pode ao mesmo tempo defender uma forma de estimulo às atividades econômicas, apoiado no fundo público e na desregulamentação do mercado, e proteger a natureza, as espécies, as comunidades de  pequenos produtores de coletores que habitam as selvas brasileiras.

A não ser que o arranjo — mal engendrado — tenha um objetivo meramente eleitoreiro e que aposte na idiotização dos eleitores brasileiros.

*Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco.