CARLOS CHAGAS



Publicado dia 23/02/2016.


Vindo de São Paulo, toda segunda-feira pela manhã o dr.Ulysses chegava a Brasília. No aeroporto, esperava-o o fiel motorista, para o ritual de todas a semanas:”boa viagem, deputado? Dê-me sua valise.  Vamos para onde?”

Uma gravação não responderia melhor,  ainda que com o passar dos anos o endereço variasse: o apartamento simples de deputado, a mansão de presidente da Câmara e eventualmente o palácio do Planalto, quando substituía o presidente José Sarney durante suas viagens ao  exterior. Numa  temporada morou no apartamento oficial do senador Nelson Carneiro, seu colega do PSD, que havia sido  acometido de uma isquemia cerebral transitória. Estava solteiro e não podia dormir sozinho. Seus amigos do antigo partido tiraram no chapéu e no papelzinho a “sorte” para saber quem moraria com ele no imóvel para saber quem tomaria conta de sua saúde.

Em todas as viagens a vetusta resposta era a mesma: “vamos para casa, meu caro..”  De lá,  após trocar de roupa, a semana não mudava: seguia para a Câmara, onde ocupava a presidência da Casa,  a presidência da Assembleia Nacional Constituinte e a presidência do PMDB. Almoçava e jantava no restaurante Piantella, com grupos de amigos, sem dispensar o “poire”, seu aperitivo preferido.

Certa segunda-feira, o “velho”  chegou adiantado ou atrasado, não encontrando o motorista. Esperou cinco minutos e, apressado como era, pegou um taxi.  “Para onde, dr.Ulysses?” “Ora, para casa, meu caro.”

O profissional tomou o caminho do Plano Piloto mas perdeu-se nas entradas das vias, pois não sabia a que superquadra dirigir-se. Nem o dr. Ulysses, que de Brasília entendia muito pouco. Várias voltas foram dadas e ele acabou mandando rumarem para a  Câmara.

A historinha se conta  a propósito de situações onde os improvisos substituem as necessidades, desde que naturalmente ordenada com as contingências.

A presidente Dilma anda desarvorada, e não apenas em Brasília, que conhece menos do que o dr. Ulysses, mas no Brasil.  Não sabe para onde dirigir-se, se é para combater o desemprego. No Palácio do Planalto, quem convocará para traçar um programa de pleno emprego?  O tal Congressão deu em nada, sem que Madame apresentasse um roteiro de obras públicas ou recebesse um elenco de iniciativas do empresariado, dos sindicatos, das regiões, dos partidos políticos ou das universidades. Câmara e Senado dão-se as costas. Os militares aguardam um chamado que felizmente não virá.

Enquanto isso, sobem impostos,  taxas e tarifas, multiplica-se o custo de vida, saúde e educação públicas caem no despenhadeiro e as esperanças de melhoria ganham o espaço. Falta o dr.Ulysses, que mesmo sem ter sido presidente, encontrou um táxi...




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Publicado dia 08/12/2013.


O Congresso estava fechado desde 13 de dezembro de 1968, data da edição do Ato Institucional número 5. Foi reaberto a 16 de outubro de 1969, apenas para que deputados e senadores  pudessem eleger o general Garrastazu Médici presidente da República. O próprio  respondeu, quando alguns mais radicais doque ele ponderaram sobre os riscos que a ditadura sofreria com Câmara e Senado funcionando: “não tem problema. Se precisar nós fechamos logo em seguida.”

Felizmente não fecharam, apesar de todos os supostos adversários do regime terem sido cassados pouco antes.

Assim, a 5 de novembro daquele ano coube ao deputado Pedroso Horta subir à tribuna para lançar a primeira farpa da temporada no governo militar. Pediu licença para  ler o conteúdo de carta enviada ao ministro da Fazenda,  na véspera,  pelo  ex-vice-presidente Pedro Aleixo, então esbulhado do direito de assumir por conta da doença do presidente Costa e Silva.

Vale reproduzir o texto, uma demonstração a mais da existência de diversas formas para  se resistir à violência:

“Brasília, 4 de novembro de 1969. Senhor ministro Delfim Netto: Acabo de verificar que na minha conta no Banco do Brasil, agência Parlamento, me foi creditada a importância de dois mil duzentos e quatorze cruzeiros novos e noventa centavos, correspondente ao subsídio de vice-presidente da República durante o mês de outubro de 1969.

Nos termos do Ato Institucional número 12, publicado no Diário Oficial de 1 de setembro de 1969, em virtude do qual os ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica se atribuíram as funções exercidas pelo presidente da República, marechal Arthur da Costa e Silva, foi expedido o Ato Institucional que declarou vago o cargo de vice-presidente da República, cujo  exercício me cabia segundo a legislação constitucional então vigente.

Com o  respeito devido à situação de fato criada, não posso receber subsídio relativo ao período de vacância correspondente ao mês de outubro.

Por esta razão, remeto a v.excia o  cheque número 666.400, a cargo do Banco do Brasil, no valor de um mil cento e sete cruzeiros novos e cinco centavos, cuja importância deverá ser  recolhida convenientemente ao Tesouro Nacional.

Aproveito o ensejo para registrar que já fiz oportunamente comunicado que, da dotação de cem mil cruzeiros novos, constante do orçamento em vigor e destinada a despesas de manutenção do gabinete da vice-presidência da República, havia, na data  do Ato Institucional que declarou a vacância do cargo de vice-presidente da República, um saldo superior a duas terças partes da importância dotada,  isto é, que decorridos cerca de dez meses do exercício financeiro, verificava-se a existência de um saldo no montante de sessenta e sete mil trezentos e quarenta e um cruzeiros novos e oitenta e três centavos.

Com o devido apreço. Pedro Aleixo.”

Foi o primeiro de muitos gestos de repúdio à usurpação continuada do poder e do governo. Até a doença que afastou Costa e Silva,  o presidente e o vice-presidente da República vinham trabalhando no texto de emenda constitucional que revogaria o AI-5 e reabriria o Congresso. Quando faltava uma semana para a reconstitucionalização do país, o velho marechal viu-se acometido de um derrame cerebral. Estava disposto, como disse, a não passar à História como um presidente que golpeou as instituições. Logo depois, os três ministros militares  usurparam a presidência da República, depuseram o presidente e até prenderam o vice-presidente.   Desarmado, sem condições de reagir militarmente, ele encetou nova trajetória de resistência, começando pela devolução de quantias indevidas.

Já não se fazem políticos como Pedro Aleixo…




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COMO ERAM AS CAMPANHAS

21/08/2010

Senão todos os municípios do país, mais da metade Jânio Quadros visitou, em sua campanha presidencial  de 1960. A bordo de um DC-3 cedido pela Varig, acompanhado de políticos da região que visitava, mais  uma penca de jornalistas, ele chegava à média de cinco palanques por dia. O avião descia em qualquer campo de futebol e, na medida do possível, o candidato encerrava a jornada numa capital ou cidade grande, onde milhares de pessoas o aguardavam. Nos estados do Sudeste e do Sul, não raro utilizava-se de um trem especial, parando em cada pequena estação sempre com o mesmo discurso, já decorado por nós, repórteres. 
Sua mensagem era centrada no combate à corrupção e na necessidade de os ladrões da coisa pública (não se falava ainda de colarinho branco) irem parar na cadeia. Denunciava o uso que os governos faziam da Previdência Social e criticava a forma com que o Banco do Brasil financiava a produção industrial e a agricultura, para ele apenas em favor das grandes  empresas. Apelava para a classe média mas não esquecia o trabalhador do campo ou das fábricas, todos sacrificados, que ele iria redimir. Apesar de adversário ferrenho do então presidente Juscelino Kubitschek,  jamais pronunciou seu nome de forma pejorativa, nem mesmo nas entrevistas que concedia aos montes, durante os prolongados vôos. Naquela época o trajeto  entre Fortaleza e o Rio, por exemplo, levava de oito a nove horas. 
Depois de mais ou menos uma hora discursando, com uma oratória raras vezes igualada em nossa crônica,  tínhamos de ficar atentos. Quando Jânio  se voltava para o fundo do palanque lotado, abrindo os braços para uma humilde dona Eloá, sua mulher, aproximar-se, era hora de corrermos para o aeroporto. A  senha,  uma só: depois de beijar a sacrificada senhora, ele repetia: “Eloá me pediu para dirigir a última palavra à mulher brasileira, a verdadeira dona da vassoura…” Ao mesmo tempo um auxiliar pressuroso já havia colocado uma, na sua mão direita,  que ele acenava inúmeras vezes para despertar  frenéticos urros  da multidão. 
Naquela hora já deveríamos estar em táxis, caronas, motocicletas  ou quaisquer  outros meios para chegarmos ao aeroporto antes dele. Tínhamos que entrar e esperar, porque quando Jânio entrava, mandava fechar imediatamente a porta da aeronave, com os motores funcionando.  Quem se atrasava ficava, como aconteceu com o secretário particular José Aparecido de Oliveira, deixado para trás em Quixadá, no Ceará. Levou  dois dias para reunir-se outra vez à comitiva, por falta de meios… 
Essas histórias e muitas outras se contam para os mais jovens terem noção do  Brasil daqueles idos. Cinco, seis ou mais matérias eram  preparadas por cada um de nós durante as viagens, redigidas em pequenas máquinas de escrever portáteis.  No último pouso do dia, depois do derradeiro comício, cabia-nos buscar o posto telefônico local, já que a maioria dos hotéis, mesmo nas capitais, careciam, nos quartos,  de telefones disponíveis para ligações interestaduais. Formava-se uma fila de jornalistas, entrando pela madrugada, com uma compensação: os que ficavam por último perderiam mais  horas de sono, mas  tinham ouvido as notícias  dos concorrentes, todas transmitidas aos berros porque nem microondas existiam, quanto mais satélites. Era normal  a telefonista de Manaus chamar a de Belém, esta a de Fortaleza, aquela  a de Recife, Salvador e finalmente o Rio ou São Paulo, sede dos jornais. Imagine-se a qualidade do som diluído nas linhas telefônicas e captado sabe-se lá como. 
Certa vez Jânio decidiu passar um dia inteiro no Rio, já ex-capital federal mas centro político nacional. Hospedava-se no Hotel Glória e, de manhã bem cedo, foi à missa na Igreja da Glória. Comungou, contrito, em seguida voltou ao hotel para  demorado  café com empresários. Um erro de agenda marcava outra missa, na Igreja da Candelária, rezada pelo cardeal D. Jaime Câmara. Pouco afeito à  liturgia, comungou de novo, o que constituía um sacrilégio. Foi visitar a favela da Mangueira, subindo estreitas vielas e  confraternizando com os   moradores. Depois, um encontro com dirigentes da UDN, partido que o apoiava, no centro da cidade.  E um churrasco na Tijuca,  onde o anfitrião, chefe político local, reservou um quarto no velho palacete, para pequeno descanso.
Mas às cinco  da tarde havia a convenção nacional do PR, partido que decidira aderir à candidatura. Novos discursos, empolgação indiscutível, no auditório da ABI.  De lá para o  ato final do dia, ou da noite, um comício-monstro da Praça Saenz Peña, de volta à Tijuca. Tudo terminado às onze horas, retornei à redação de O Globo para redigir oito reportagens distintas, entre os pronunciamentos, declarações e entrevistas de Jânio e dos políticos que o cercavam, sem esquecer os textos de clima e reação popular. 
Eram quatro da madrugada de segunda-feira quando entreguei  o último texto.   Ia saindo, meio zonzo de sono e de cansaço, quando o secretário de redação indaga-me se não tinha alguma sugestão para a manchete daquele dia, dada a fraqueza do noticiário internacional. Revi as anotações e sugeri  que de novidade, mesmo, só o anúncio feito por Jânio no comício da Tijuca, anunciando “imensa vassourada na Presidência da República”. Dito e feito, fui para casa dormir. Eram sete horas quando o telefone toca. Nada menos do que Roberto Marinho, do outro lado do fio, exigindo que eu estivesse em seu gabinete imediatamente. Passando pela redação, senti-me como um réprobo a caminho da fogueira. Companheiros viravam-me as costas ou cochichavam,  quando entrei na sala do patrão. Recebí uma das maiores reprimendas da curta vida profissional. Jânio Quadros havia telefonado para Roberto Marinho dizendo horrores e   ameaçando romper com O Globo, que não teria nada no seu governo, porque estava sabotando sua candidatura. 
Acontece que na noite anterior  o candidato havia apenas repetido o que prometia no país inteiro: uma imensa vassourada na Previdência Social, jamais na Presidência da República. Enganei-me com as anotações. Preparei-me para o pior, que seria a demissão imediata. Ficaria desempregado,  já de casamento marcado. Roberto Marinho, ainda bufando por conta da  imperdoável falha, completou: “jamais entregue  uma matéria sem antes reler tudo o que escreveu. Muita coisa pode ser evitada com essa cautela. E vá trabalhar!”
Fui, sigo até hoje o conselho do patriarca. Nunca tentei  explicar o erro pelo acúmulo de trabalho. Foi erro mesmo…





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“Acordei de madrugada, com o coração cheio de boas lembranças de meu pai”



Por HELENA CHAGAS -




O que dizer de tanto carinho, homenagens, elogios? Seu Carlos Chagas, o jornalista, lá do céu deve estar dizendo: uai, gente, não precisava tanto... Modéstia de quem, mineiramente, não gostava de mostrar a própria grandeza. Mas tenho certeza de que adorou. Principalmente porque tudo isso fez com que eu, mamãe, Claudia, netos e bisnetos nos sentíssemos abraçados e confortados. Porque eu tenho certeza de que, até nessa hora, ele está pensando na gente. E eu acordei de madrugada com o coração cheio de boas lembranças do meu pai.

Quando eu era bebê, meu pai me enrolava no lençol, como uma mumiazinha, e me prendia no berço com clipes de papel para eu não me descobrir à noite – o que, obviamente, não adiantava nada. Ele me levou à praia aos seis meses de idade, e de lá saiu com um pacote à milanesa debaixo do braço, deixando menos areia em Copacabana porque eu havia engolido um bocado. Ele me obrigou, literalmente, a gostar de jujuba. Aí eu já devia ter mais ou menos um ano e meio, era supergeniosa e berrava enquanto ele colocava as balas na minha boca e eu tentava cuspir. Até que comecei a sentir o açúcar. Amo jujuba até hoje.

Meu pai foi o ídolo de crianças das mais diversas gerações, das filhas, afilhados, sobrinhos, filhos dos amigos, amigos das filhas, dos netos e dos bisnetos. Conversava e brincava como um igual, se encarapitava no alto das árvores, subia no telhado, levava aqueles bandos de meninos para praias desertas, ainda no Rio, e ao Zoológico de Brasília, onde ele deveria ter recebido um título de sócio, de tanto que ia. O vovô é uma criança velha, definiu um dia o neto Cacá, quando tinha lá seus sete anos. Ele contava histórias muito bem. Do universo, do mundo, do Brasil. Às vezes eu chegava na escola e achava que a professora estava repetindo o que meu pai tinha inventado.

Ele me deu todos os livros que eu pude ler, e os que eu não pude também. Acho que nunca vi meu pai sem um livro por perto, e ele cercou-se deles de tal forma que as estantes foram se estendendo pela casa toda, transbordando da biblioteca para quartos, corredores, qualquer espaço possível. Como contou minha irmã de coração, Carol Brígido, em seu lindo texto sobre o padrinho, papai tinha estantes com filas duplas de livros. Olho em volta, aqui em casa, e, entre pilhas de livros, vejo que quem sai aos seus não degenera.

Meu pai passou a primeira noite da primeira neta em casa andando com ela, aos berros, pelo corredor. E ele não ligou a mínima para o fato de, cronologicamente, a neta ter chegado antes do casamento. Quando, sem graça, aos dezenove, contei a ele que estava grávida, a reação foi uma sonora gargalhada de quem tinha desde sempre o sonho de ser avô – e que avô. Quando finalmente resolvi casar, e estávamos só nós dois em casa, antes de sair para a igreja já lotada de parentes e amigos, papai virou para mim e perguntou: “Tem certeza de que você quer mesmo ir? Não tem nenhum problema desistir. Você fica aqui, eu vou lá na igreja agora e aviso a todo mundo que você mudou de ideia...”. É claro que casei, e ele ganhou um genro que acabou por amar como a um filho.

Quando resolvi ser jornalista, tinha muito medo de ser apontada como “peixinho”, filhinha de papai que não conquistara seu espaço por merecimento. Então, resolvi que nunca trabalharia com ele, nunca aceitaria qualquer notícia que ele me passasse ou que obtivesse por fontes que encontrava na casa dele e nem falaria com ele sobre o meu trabalho. Ele entrou no meu jogo e, nas conversas em família, não falávamos de trabalho. Ignorávamos o assunto. Comecei, com certa mágoa – olha a loucura - a achar que ele não estava nem aí mesmo para meu destino jornalístico. Até que um dia entrei em seu escritório e achei um texto meu, publicado no Jornal de Brasília uns dias antes, todo rabiscado - “copidescado”, como se dizia antigamente - com erros e palavras mal empregadas sublinhados. Não sei o que ele ia fazer com aquilo se eu não tivesse achado.

Brigamos e discutimos muitas vezes, em família, por causa de política. Na minha casa, todo mundo dizia o que queria e professava o credo que lhe aprouvesse. Geralmente ficávamos eu e Claudia contra ele. Mamãe, a psicóloga, mediando e botando panos quentes. Mas aprendi com ele que essas divergências não têm, ao fim e ao cabo, a menor importância na ordem geral das coisas e da vida. Entendemos - e acho que não só nós, mas também suas legiões de alunos – a importância do respeito e da tolerância a posições contrárias.

Aprendi com meu pai a nunca perder um amigo por discordar ou pensar diferente. Lembro um domingo em que o Zé Aparecido, então governador do DF e grande amigo dos meus pais, chegou lá em casa esbaforido depois de ser vaiado por uma manifestação de estudantes. Na qual, quando olhou bem, reconheceu minha irmã Claudia. Papai achou a maior graça.

Seu Carlos Chagas, o jornalista, fazia e escrevia o que queria, fiel a seus princípios. Não hesitava em fazer artigos ácidos e críticas duras a personagens de A a Z do espectro político quando achava que devia. Nem mesmo quando no alvo estavam governos em que trabalhavam amigos ou suas próprias filhas. Tive que resolver isso na minha cabeça: o pai era muito mais importante que o emprego, então dane-se. Quando ministra da Secom de Dilma, botava para correr os chatos que vinham me mostrar artigos críticos do meu pai ao governo de cuja comunicação eu cuidava. Democracia começa em casa, e meu amor pelo meu pai é maior do que tudo isso, respondia eu. Minha então chefe sempre entendeu e nunca reclamou.

Num momento difícil nessa profissão às vezes maldita, às vezes bendita, resolvi que não ia mais ser jornalista. Estava me sentindo injustiçada, sofrendo muito, tinha errado na escolha, melhor seria ter feito Direito e ser advogada, ia parar de trabalhar, largar tudo... Ele me olhou com aquela cara de quem não estava levando a sério aquelas bobagens: “Isso é a sua vida...”. Às vezes, meu pai sabia mais de mim do que eu mesma.

Ontem, minha neta Heloísa, de quatro anos, virou para a mãe e disse que nunca mais vai desenhar. É o luto dela, que passava horas sentada no colo do Vovô Carlos (bisavô), na escrivaninha de trabalho dele, os dois desenhando juntos. Sábado passado foi a última vez.

É claro que a Heloísa vai voltar a desenhar, porque a vida continua. E essa foi mais uma das lições do Carlos Chagas: boa ou ruim, a vida continua, temos que resistir e seguir em frente. Tudo tem seu jeito, dizia ele, porque a única coisa que não tem remédio mesmo é a morte. Pois é, né, pai...
* Enviado para o e-mail da Redação






_____________CARLOS CHAGAS


NEM TODOS VOLTARÃO


Dos 28 ministros do presidente Temer, 18 são parlamentares. Estão todos demitidos, obrigados a reassumir seus mandatos de deputado ou senador. A obrigação deles não é apenas votar as reformas previdenciária e trabalhista, de acordo com os projetos do governo: devem garantir os votos de suas bancadas, comportando-se como líderes. Ainda não há data fixa para as votações, coisa que prenuncia tempo razoável para voltarem a ser ministros. Por enquanto a pergunta não diz respeito a quando voltarão a seus ministérios, mas se todos voltarão. Porque muita gente sustenta não existir melhor oportunidade para o presidente reformular sua equipe. Aprovadas as reformas, por que não buscar na sociedade civil as melhores expressões de cada setor? Senão desfeita, a base parlamentar do governo terá cumprido seus compromissos.

Duvida-se de que até Michel Temer vacilará se lhe pedirem para referir de bate-pronto o nome de todos os seus ministros, bem como os partidos a que pertencem e as metas de cada ministério.

Abre-se agora, para o governo, a etapa da eficiência administrativa, capaz de estender-se até o fim do ano. Depois, num terceiro tempo, será hora de cuidar da sucessão presidencial. Temer não será candidato, ainda que disponha da prerrogativa de disputar um novo mandato. A premissa será de que o PMDB está no páreo, mesmo carente de candidatos. Poderá ser Henrique Meirelles, se a retomada do crescimento econômico obtiver sucesso. Por que não Roberto Requião, mais do que uma rima?

Em suma, a prioridade são as reformas, mas depois delas garantidas, como parece, o governo cuidará de suas estruturas. Sendo ano que vem um ano eleitoral, nem todos os ministros ficarão aborrecidos se não retornarem.





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SÉRGIO MORO: APENAS UM DETALHE



“Onde foi que eu errei?” - deve estar se perguntando o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, agora que foi condenado a quinze anos e quatro meses de prisão. Receber propinas da Petrobras e muitas empreiteiras não terá sido motivo, tais e tamanhos tem sido os assaltos aos cofres públicos por ele e sua quadrilha, praticados ao longo das últimas décadas. Distribuição de percentuais aos deputados que votaram nele para presidente da Câmara, também não. Afinal, não precisou oferecer: a maioria agiu como quem cobrava dívidas antigas. Aceitar um de múltiplos pedidos de impeachment contra Dilma Rousseff? Já estava tudo acertado para a defenestração da então presidente da República.

Sobra, então, um tiro que acabou saindo pela culatra: Eduardo Cunha foi para as profundezas por ter tentado dar um passo maior do que suas pernas. Sua estratégia era conhecida de todos e ele não percebeu onde sua ambição poderia levá-lo. No caso, perdeu tudo porque pretendia subir mais um degrau na escada que o levaria de imediato ao poder maior. Precipitou-se. Como presidente da Câmara, ocupava posição privilegiada para chegar ao palácio do Planalto. Não escondia de ninguém que se Dilma fosse cassada, havendo ou não motivos para isso, Michel Temer não assumiria. Faltavam votos para o vice-presidente tornar-se presidente, enquanto Eduardo Cunha tinha tudo arrumadinho: Michel Temer também seria garfado. Ou não estava garantida a eleição indireta do presidente da Câmara, tendo em vista os favores e as benesses por ele concedidos à quadrilha que acabava de compor?

Esqueceu-se Eduardo Cunha de que Michel Temer também tinha suas malandragens. Era o primeiro da fila, na hipótese de Dilma ser posta para fora, ainda que lhe faltasse apoio para assumir. Na mesma hora começaram as defecções na maioria que o presidente da Câmara tinha certeza de possuir. Logo armou-se a teia de aranha para capturar o grupo dos amigos do Cunha e entregar a Temer a cadeira presidencial. Isso porque ele ofereceu mais, ainda que trabalhando na moita. Cunha logo perdeu a metade mais um dos deputados, ou seja, estava garantida a eleição do vice, na base do “quem dá mais”, muito acima da Constituição.

A posse de Temer serviu para comprovar a loteria que o favoreceu. Bastou verificar o loteamento do ministério e do governo, que permanecem até hoje. Cunha tinha sua ascensão garantida. Perdeu na jogada final. Para completá-la, a Câmara foi reunindo acusações e armando o sacrifício, para que não surgissem duvidas. Em suma, o grande estrategista foi mergulhando cada vez mais fundo, perdeu a presidência da República, a cadeira de deputado e a própria liberdade, por açodamento. Sérgio Moro tem sido apenas um detalhe, na degola de Eduardo Cunha...




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MATANÇA ATÉ QUANDO?




Impossível mudar os costumes, que vem da pré-história, acoplados à necessidade sempre justificada pela sobrevivência do ser humano. Tem sido assim e assim continuará, espera-se que não até o fim do mundo.

No entanto… No entanto, não haverá um único cidadão que deixe de horrorizar-se quando vê despedaçadas e dependuradas carcaças e partes de animais,  expostas ao consumo geral, mesmo sabendo que pouco depois irão para a mesa na forma de bifes suculentos ou de costelas apetitosas. Menos ainda se livrará do horror quem  assiste a degola desses milhões de seres ditos inferiores, mas quem sabe plenos de consciência quando deles se aproxima o golpe  final? Basta atentar para como se comportam na fila do abate: os berros são lamentos impossíveis de ser esquecidos.

Choca a imagem das peças de boi nos ganchos dos frigoríficos, sangrando e logo esfaqueadas à espera de novos capítulos da ronda dessa matança permanente. São vidas abatidas em nome da vida dos que irão degluti-los.

Poderia ser diferente? Por enquanto, nem pensar. Raramente fazemos questão de assistir esse festival macabro, exceção dos encarregados dele. A ninguém será dado imaginar a humanidade sem comer carne de animais. Ainda bem que só de animais, pois em tempos imemoriais comia-se também o ser humano. É claro que o sacrifício serve para minorar as agruras dos homens famintos, a começar pelas crianças, mas nem por isso deixa de se constituir em indiscriminada matança.

A crise que assola nossa produção de carne, pelo jeito a maior do planeta, desperta a atenção de quantos são agredidos pelas imagens dos últimos dias. Haveria alternativa, além de desligar a televisão? Ou de cobrir as vitrinas dos açougues? Por enquanto, não. Mas um dia, quem sabe, a Humanidade encontrará sucedâneos para dispensar essa degola, ainda hoje capaz de chocar o ser humano.

Além de tudo, acresce que se ganha muito dinheiro com tal atividade. E até dinheiro podre, da corrupção. Que tal condenar os culpados ao trabalho social da prestação de serviços nos frigoríficos?




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UNIVERSIDADES EM VEZ DE AEROPORTOS


Nunca é demais repetir episódios da vida de Voltaire. Jean Marie Arouet, na flor de seus vinte anos, foi para Paris, onde logo se lançou como cronista de costumes. Ao saber que o Regente da França, empenhado em promover a contenção de gastos, havia decidido vender a metade das cavalariças reais, escreveu que melhor seria livrar-se da metade dos asnos que rodeavam o trono.

Num domingo, passeando pelo Bois de Boulogne, o monarca deparou-se com Voltaire e disse: “monsieur Arouet, vou proporcionar-lhe uma visão de Paris que o senhor desconhece.” A guarda real aproximou-se e levou o cronista para a Bastilha, onde ficou preso por quase um ano.

Amigos intercederam, o jovem foi perdoado e Felipe ainda o gratificou com razoável pensão mensal, “para que pudesse prover suas despesas com alimentação e habitação”.

Voltaire agradeceu por carta, acentuando que ficava feliz pela preocupação do Regente com sua alimentação, mas quanto à habitação, não se preocupasse, pois ele mesmo a proveria.

Seguiu-se nova ordem de prisão e o cronista fugiu para a Inglaterra.

A historinha se conta a propósito de nosso Regente haver privatizado quatro aeroportos e comemorado o sucesso da venda a empresas estrangeiras. Bem que Michel Temer poderia ter feito diferente e, em vez de alienar patrimônio público, por que não transformar os quatro aeroportos em universidades abertas, à disposição de estudantes carentes? Melhor teria sido o investimento, em especial porque o dinheiro a ser recebido pelo governo logo sairá pelo ralo, sem nenhum proveito para a recuperação nacional.




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PIOR PARA TODOS, NO ESCÂNDALO DA CARNE



Incrível, mesmo, com as exceções de sempre, foi o comportamento da mídia televisiva e escrita diante do escândalo que expôs o mercado da carne. A maioria dos veículos noticiou a ação da Polícia Federal na investigação da roubalheira que envolve frigoríficos grandes e pequenos, mas abriu páginas e vídeos à farta publicidade das empresas flagradas metendo a mão na atividade conspurcada.

Evidenciaram, esses veículos, a disposição de continuarem faturando em cima de desculpas esfarrapadas que pretenderam contrabalançar crimes capazes de perturbar a economia nacional. O Brasil está em vias de perder os resultados da exportação que vinha sendo das mais lucrativas de nossa economia, por conta da roubalheira dos responsáveis pelos frigoríficos.

Não adianta argumentar que tudo se tratou de iniciativa solerte de uns poucos funcionários públicos e privados, porque na realidade são as empresas as responsáveis pelo envio de carne podre a nossos fregueses dos outros continentes. Basta ver a queda nos preços das ações e a reação de países que não confiam mais na produção nacional. Nem nossa população, da mesma forma atingida pela certeza de estar sendo envenenada.

A queda, já neste fim de semana, das vendas de carne nos supermercados, só será inferior às exportações que elevavam nossa balança comercial e agora começam a ser denunciadas pelos importadores. Pior para todos, menos para os concorrentes.

Como complemento desse festival de corrupção, também surgiu a denúncia de que propinas da carne também abasteciam o PMDB e o PP.




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ENGANADOS E SUFOCADOS


Quando o PT foi para o poder, frustrado desde sua fundação, derrotado três vezes com o Lula, mas afinal vitorioso, imaginava-se mudança fundamental na vida do país. Afinal, mesmo de forma lenta e gradual, porém segura, parecia ter chegado a hora do andar de baixo. Não mais a prevalência dos beneficiados pela fortuna, pelo berço ou pelas maracutaias, senão os primeiros passos para a conquista da melhoria das condições de vida dos despojados da fortuna e da ascensão dos trabalhadores a patamares menos cruéis de sobrevivência.

Empolgaram a imensa maioria dos cidadãos as pregações sobre igualdade, extinção dos privilégios de uns poucos e fim da livre competição entre quantidades e valores desiguais.

Seria extinta a miséria, reduzida a pobreza e gradativamente poderiam desaparecer as diferenças sociais responsáveis pelo fato de sempre os ricos ficarem mais ricos e os pobres, mais pobres.

Era nesse objetivo que se fixava o pequeno grupo de intelectuais e acadêmicos, entusiasmados com a experiência ímpar de ver um operário no governo. Também compareciam os sindicatos, a Igreja, os universitários e até parte da classe média.

Claro que mais se organizavam, desde muito já organizadas, as mesmas camadas beneficiadas de sempre, fáceis de identificar no empresariado, nos donos da terra, nos especuladores, banqueiros e demais condutores de uma sociedade que, pelo jeito, esgotara-se e se condenava ao fracasso.

Abria-se o palco para o confronto entre o passado e o futuro, ainda que subordinado a vícios de lá e de cá, corolário da imperfeição humana da qual jamais nos livraremos.

Pelo menos, estava evidente a importância de se alterar o modelo que nos acompanha desde o Descobrimento, cada vez mais sofisticado por maior  sacrifício das massas e festa das elites. Criava-se no país a consciência da necessidade de interromper a progressão das vantagens que o dinheiro concede aos senhores e falta faz aos vassalos.

Imaginava-se, vale repetir, haver chegado o tempo do equilíbrio, pelo esforço de um grupo disposto não a recuperar, mas a criar o espaço de igualdade, porque liberdade, afinal, mesmo distorcida, já tínhamos, e fraternidade, conseguiríamos à força.

Alguma coisa se conseguiu, mas é preciso atentar para o fato de que desde a primeira eleição do Lula, as elites foram cooptando os personagens. Até o próprio, surpreendendo com uma anacrônica Carta aos Brasileiros, não endereçada aos seus eleitores, mas a leitores interessados em preservar benesses e vantagens. Ao redor, vicejaram falsos aliados, antigos cultores das mudanças, mas empenhados em isoladamente ascender de patamar através da corrupção, do roubo e da mistificação.

Apesar disso, algum resultado o primeiro companheiro conquistou, advindo daí sua reeleição. O diabo foi o segundo mandato. Sem reação, o Lula  entregou-se aos destinatários da malfada carta.

O ideal igualitário naufragou e foi para as profundezas quando, não podendo disputar um terceiro período, vendeu sonhos que não eram mais dele. Assumiu a incompetência em forma de mulher. Foi simples questão de tempo as elites voltarem ao poder e às reformas que mais uma vez massacram e sufocam a maioria, de novo enganada e sufocada.




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CHORO E RANGER DE DENTES


No Congresso, ressurge a proposta de ser anistiado o recebimento de ajuda eleitoral pelo caixa dois. Não se encontram deputados e senadores dispostos a votar contra. Depois que o Supremo Tribunal Federal admitiu como crime até o caixa um, Suas Excelências replicam com a iniciativa celerada.

Foi mais uma vez protelada a divulgação da lista do procurador Rodrigo Janot, no caso, a segunda, quando nem a primeira é conhecida. Deputados, senadores e ministros andam apavorados com a perspectiva de ter seus nomes conhecidos, na semana que vem. Mas também confiam em que, de novo, mudarão a lei para escapar de incriminações.

O risco é de novamente ficarem impunes os parlamentares que se elegeram com dinheiro podre. Sofrem também os vigaristas hoje sem mandato.

No Congresso, há quem esteja sem dormir, pois pelo menos 150 seriam referidos como beneficiados pelas falcatruas.

Outra sombra a pairar sobre a Praça dos Três Poderes refere-se ao futuro. Nas eleições do ano que vem, quando a maioria disputará a reeleição, estão proibidas as doações por empresas. Campanhas milionárias, só por candidatos milionários. Como a maioria parlamentar disputará as preferências do eleitor? O fundo partidário não chegará para todos, talvez nem para os caciques. A quase totalidade das empresas, com as empreiteiras à frente, decidiram não abrir os cofres. Resultado: choro e ranger de dentes...

OS GOVERNADORES

Quantos governadores integram a lista? Se forem os 27, não haverá surpresa. Mas uns poucos escaparão. Não muitos, porque as empreiteiras agiram nos Estados até com mais desfaçatez. Sofrem os que pretendiam candidatar-se à reeleição, abrindo-se para eles a frustração de buscar outros caminhos.





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OS TRÊS MOSQUETEIROS SÃO QUATRO





Geraldo Alckmin movimentou mais uma peça no xadrez sucessório ao declarar, domingo, desejar ser candidato à presidência da República. Todo mundo já sabia, é claro, mas como o nome do prefeito João Dória Júnior passou a sensibilizar os setores mais conservadores do PSDB, entendeu o governador  de garantir seus espaços.

Aguarda-se agora a réplica de Aécio Neves, mesmo em vias de ter seu nome relacionado com a lista da Odebrecht. Alckmin sabe das dificuldades em superar a vantagem do presidente do partido, pela própria função exercida, por isso não fecha as portas para uma futura mudança de legenda. Como essa hipótese só se viabilizará no primeiro semestre do ano que vem, há tempo de sobra.

Impossível negar que João Dória Júnior poderá superar a afirmação de apoiar a indicação de Geraldo Alckmin, caso as pesquisas, daqui por diante, favoreçam seu nome.

O problema dessas evoluções no ninho tucano está na pouca projeção do PSDB na corrida sucessória. Onde, por exemplo, insere-se José Serra na equação? Renunciando ao ministério das Relações Exteriores, dias atrás, o senador paulista ficou menos engessado para curvar-se à hierarquia partidária. Também poderá mudar de partido para disputar o palácio do Planalto. O singular na história é que tanto Aécio quanto Alckmin e Serra são três derrotados em passadas eleições presidenciais.

Em suma, continuam as especulações, indicando que os três mosqueteiros agora são quatro, com a chegada de João Dória Júnior. Alexandre Dumas não faria melhor.





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TEMER ANDA PARA TRÁS, SEM RUMO


O Curupira tem os pés para trás, ou seja, não se sabe se anda para a frente ou de marcha-a-ré. Desse jeito, o presidente Michel Temer: apostava em Dilma Rousseff, passou a inimigo do PT, prometeu o liberalismo e agora é candidato a não completar o mandato por conta do Tribunal Superior Eleitoral. Se ele for considerado incurso em crime de perturbar a eleição de 2014, perderá a presidência da República, como a antecessora já perdeu. Nesse caso, abre-se o leque: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, cumpre o resto do mandato, ou a Justiça determina que Aécio Neves, segundo colocado nas eleições passadas, assuma o poder. Duas soluções capazes de dissolver o que resta das instituições e deixar o país em frangalhos.

Sendo assim, melhor que o Curupira continue a transitar pela floresta, ou seja, que Michel Temer permaneça no palácio do Planalto, mas com rumo certo.

NAU SEM RUMO

A pergunta é para quê está no governo. Deixar a caravela ao léu, sem rumo nem porto de arribação, ou condenada ao naufrágio inevitável em meio à tempestade, é o que desenha à frente.

Abre-se diante do atual presidente uma única saída: reunir os líderes de todos os partidos e anunciar que devem unir-se em torno de um programa de salvação nacional ou ele renunciará.

Assim fez Itamar Franco, depois da débâcle de Fernando Collor. O então vice-presidente não deixou alternativa. Naqueles idos, prevaleceu o bom senso e todos concordaram num ministério de união, do qual apenas o PT saltou de banda.

A situação se repete, até como farsa.

Governar com a obrigatória distribuição de favores, benesses e falcatruas aos partidos e demais forças inerentes à nação será o portal do caos. Apelar para a unidade em meio à desagregação, a saída.

Para começar, o Curupira precisaria dissolver tudo o que erigiu até hoje. Não apenas um novo ministério, mas a reformulação das diretrizes retrógradas impostas pelas elites conservadoras em ação. Nada de reformas favoráveis aos mesmos de sempre, muito menos o retrocesso aos tempos do neoliberalismo.

Em suma, Itamar Franco deixou exemplo singular e necessário. E o Curupira, terá coragem para imitá-lo?







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O NOVO COLLOR



Mais uma vez, o prefeito João Dória Júnior procurou o governador Geraldo  Alckmin para jurar que não é candidato a presidente da República, em 2018. Mentira ou  precipitação?

Contam-se nos dedos de uma só mão as vezes em que, na história da República, eram para valer as afirmações de presidentes da República que, quando candidatos, desmentiam suas pretensões.

Traduzindo: João Dória Júnior só não disputará o palácio do Planalto caso careça de popularidade, recursos e de um  partido que o apoie.

Quanto a concluir que dispõe de chances, é outra conversa. Recente pesquisa revelou  ser o alcaide paulistano conhecido de 70% dos consultados, inclusive no Nordeste.

O que parece respaldar as referências a João Dória Júnior é o mesmo fenômeno que, guardadas as proporções, um dia alimentou a candidatura de Fernando Collor: a busca pelas elites conservadoras de um novo nome capaz de derrotar adversários desgastados, de um lado, e  de outro quem parecia disposto a virar o país de cabeça para baixo sob acusações de implantar o socialismo e sucedâneos.

Os desgastados de hoje são o próprio Alckmin, Aécio Neves, José Serra, Ciro Gomes, Marina Silva e mais classificados como ultrapassados políticos profissionais, à maneira do que foram em 1989, Aureliano Chaves, Ulisses Guimarães, Mário Covas, Paulo Maluf, Leonel Brizola e outros.

A “perigosa ameaça ideológica” de agora,  em condições de revogar as  linhas conservadoras  e reacionárias,  é o mesmo: o Lula, que perdeu para Collor mas,  anos depois, elegeu-se contra Serra.

Dizem  que a História só se repete como farsa, mas ressurge  o vaticínio de Marx e de Lenin: a  possibilidade  de o segundo turno das eleições do ano que vem ferir-se entre João Dória Júnior e Lula.

Um, centralizando a esperança das elites financeiras e da  parcela da classe média que se aferra ao modelo neoliberal. Outro, disposto a mudar as diretrizes agora impostas pelas reformas do governo Michel Temer. Claro que descontado o interregno em que  o Lula e o PT  já ocuparam o poder, fator capaz de gerar mudanças nas concepções atuais do eleitorado. Mas, de qualquer forma, a disputa poderá travar-se entre as duas forças históricas e  conflitantes de sempre: conservadores e reformistas.






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O SENTIMENTO DO MEDO



Vale recontar a história. Juscelino Kubitschek era governador de Minas, candidato declarado  à presidência da República, mesmo  que o PSD  ainda não tivesse realizado  sua convenção. Tinha audiência com Café Filho, presidente, e informou aos jornalistas, no palácio do Catete, que não trataria de política, mas da questão do café, cujo preço desagradava os fazendeiros mineiros. Ao entrar no gabinete presidencial, foi surpreendido com exagerados gestos de euforia. De início, Café levou-o à sua mesa de trabalho, insistindo para que  sentasse na cadeira presidencial. Meio constrangido, JK sentou, mas espantou-se pela mudança de tratamento do anfitrião, que disse rispidamente: “pois essa foi a primeira e a última vez que ocupou esse lugar. Você não será presidente, pois os militares não querem!”

Café mostrou ao governador  um manifesto que havia recebido dos  generais, alertando para a inconveniência  da candidatura de Juscelino e pregando alguém de união nacional, certamente algum deles.

A audiência estava terminada e o candidato desceu ao andar térreo, onde ficava a sala de imprensa. Os repórteres nada sabiam daquele estranho diálogo e indagaram sobre o problema dos preços do café. Juscelino, de pronto replicou: “de que café você está falando, o vegetal ou o animal?”

Naquela noite, as emissoras de rádio divulgaram o manifesto militar, e todos queriam saber da reação do governador. Foi quando ele produziu uma das frases mais contundentes daquele período: “sou candidato, não recuo, porque Deus poupou-me o sentimento do medo!”

Oficializado pela convenção do PSD, ganhou e tomou posse, mesmo precedida por grave crise institucional, a deposição de Café Filho pelo ministro da Guerra, general Henrique Lott.

Por que se recorda o episódio? Porque o Lula é candidato, mas contestado pelas mesmas forças reacionárias de sempre.  Repetirá o comentário de JK?




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SAÍDA INEXPLICÁVEL



CARLOS CHAGAS -


Pode até ser verdade a alegação de José Serra estar doente da coluna, não poder viajar e por isso demitiu-se do ministério das Relações Exteriores. Só que ninguém acredita. No serpentário do governo Temer e entre escaramuças permanentes em torno do espaço dos partidos, logo surgem especulações variadas e cabeludas, apesar da careca do agora ex-chanceler ser límpida e lustrosa.

Indaga-se porque bem situado e preservado de muitos embates por ocupar o Itamaraty, Serra resolveu pedir as contas. Teria desistido de disputar a presidência da República pelo PSDB e até abandonado a possibilidade de bandear-se para o PMDB, partido sem candidato para enfrentar 2018? Estaria cedendo à força de Aécio Neves e Geraldo Alckmin, ambos melhor posicionados para enfrentar a convenção tucana? Ou vem batendo de frente com a estratégia de Henrique Meirelles combater a recessão? Desiludiu-se com Michel Temer? Prepara-se para fazer oposição à reforma da Previdência Social?

Abandonar o refúgio do governo para lutar sozinho não seria boa opção.

Indaga-se porque não bastaria tirar uma licença, para quatro meses de tratamento hospitalar indispensável, sem renunciar ao ministério?

Por mais que os laudos médicos expliquem essa inusitada deserção, sempre ficará a dúvida: por que José Serra pediu para sair? E por que Michel Temer não fez uma única tentativa de mantê-lo na equipe?

O mais é perfumaria. Funesta parece a hipótese de entregar as Relações Exteriores ao PSDB ou ao PMDB. Escalar um diplomata seria o caminho natural, mas a sofreguidão com que os tucanos se lançam na corrida dá  vontade de perguntar quantos votos o Itamaraty terá na corrida presidencial. Ou como influirá na votação da reforma da Previdência Social...





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SÓ O CARNAVAL PERMANENTE RESOLVE



A partir de hoje, ainda que desde muito antes, o Brasil é outro. As multidões que começam a lotar ruas e avenidas das principais e das pequenas cidades dão a impressão de sermos a mais feliz e mais rica das nações do planeta. Todo mundo festeja, todo mundo pula, todo mundo canta. Miséria, doença, desemprego, corrupção e desesperança entram em cone de sombra por uma semana.

Bom que seja assim, ao menos uma vez no ano. Em Brasília, escafederam-se políticos, parlamentares, ministros, juízes, funcionários públicos e até professores. Celebram todos o tempo de esquecer as agruras, dificuldades e maus augúrios. Organiza-se a sociedade para festejar o interregno do esquecimento.

Deputados e senadores na mira da Operação Lava Jato tem a certeza de que a Polícia Federal não baterá às suas portas. Sequer o presidente Michel Temer poderá supor protestos e reclamos de qualquer ordem. Vazios, os tribunais deixam de produzir sobressaltos, ensejando tranquilidade para corruptos e condenados. Os desempregados respiram com alivio pelos dias em que não precisam lamentar-se nem ficar procurando trabalho.

Por que reduzir esse hiato de felicidade apenas ao período carnavalesco? Ideal seria prolongar a festa pelo ano inteiro. Algum dia surgirá quem proponha ao governo decretar o Carnaval Permanente para todo o território nacional. Caso contrário, melhor o cidadão comum preparar-se, porque depois da Quarta-Feira de Cinzas, enfrentaremos o pior dos mundos.





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HONESTIDADE E VERDADE EM FALTA



Dizia a finada Lei de Imprensa que toda noticia deveria ser honesta e verdadeira, valores que o Código de Ética dos jornalistas ainda conserva. O Congresso revogou a lei, deixando o vazio em seu lugar. Esse é o problema. Porque além dos vícios da informação, não raro eivada de desonestidade e de mentira, existe outro pecado capital em nossa atividade. Trata-se da não-informação. Da omissão de notícias que deveriam ser, além de honestas e verdadeiras, apresentadas à opinião pública, mas não são.

Tome-se as pesquisas eleitorais. Discute-se a sua realização, isto é, se devem acontecer, em especial às vésperas das eleições quando poderão influenciar o eleitor menos esclarecido. Admitidas, porém, como um aprimoramento democrático, sendo honestas e verdadeiras, o que dizer de sua omissão, de acordo com os interesses dos proprietários dos meios de comunicação?

Em condições normais de temperatura e de pressão, em especial em épocas de crise, as pesquisas eleitorais costumam ser valorizadas na confecção das edições impressas, televisadas e eletrônicas. Balizam as atenções e até reforçam as tendências.

É de estranhar, assim, as omissões deliberadas das consultas populares realizadas nos últimos meses. Alguns veículos ainda apresentam, diluídos e condenados a páginas internas, meras referências aos resultados. A maioria, no entanto, as ignora olimpicamente, quando ainda recentemente ganhavam as primeiras páginas.

Por que? Porque os barões da imprensa vem tendo contrariados seus desejos. Empenharam-se em ampla campanha para desmoralizar o PT, iniciativa até louvável para compensar o mal praticado pelo partido, mas não tem o direito de ignorar as preferências do partido e da maioria do eleitorado em torno da candidatura do Lula. Porque mesmo nas entrelinhas, os resultados indicam que o ex-presidente seria eleito até no primeiro turno. É muito cedo para conclusões, o ex-presidente poderá se dar mal. Mas hoje, a notícia é essa, que a mídia deveria divulgar por obrigação ética, mas não divulga.

Honestidade e verdade parecem mercadoria em falta, nas prateleiras dos meios de comunicação.




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PRESERVAR O FUTURO OU REPARAR O PASSADO?



Para corrigir o horror que tem sido o sistema prisional brasileiro, com as penitenciárias abrigando milhares de presos mil vezes mais do que sua capacidade, saiu-se o Supremo Tribunal Federal com proposta inusitada: dar aos infelizes detidos uma indenização proporcional às agruras que vem enfrentando.

A superpopulação carcerária seria compensada por depósitos em dinheiro, proporcionais aos maus tratos sofridos, de acordo com a extensão das penas. Não foram calculadas as despesas para o tesouro nacional, mas apenas cotejados os números: em 2014 existiam 371 mil vagas nos estabelecimentos penais de todo o país, mas 622 mil presos.

Com todo o respeito, os egrégios ministros cavam um buraco na praia para transferir o mar para ele. Duas inviáveis soluções existiriam para sanar a distorção: construir novos presídios ou soltar os excedentes aprisionados, de acordo com o tamanho e o grau de seus crimes. Esconder ou calar os protestos com dinheiro, como forma de corrigir situações medievais, será perda de tempo. Vão depositar todos os meses determinadas quantias para os presos ficarem felizes e até arriscarem a sorte na loteria esportiva? Ou na aquisição de drogas?

Parte da população carcerária vive atrás das grades por conta da arcaica legislação vigente. Prender traficantes, por exemplo, em nada resulta em termos de recuperação. Crimes hediondos e violentos merecem o encarceramento, mas golpes contra a economia popular exigem outro tipo de penas, como multas ou trabalho comunitário.

Discute-se há séculos a finalidade da pena: preservar o futuro ou reparar o passado? Seria essa a discussão fundamental para nossos tribunais.





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NOVAS EXPECTATIVAS NA POLÍTICA



Está com os dias contados o foro privilegiado que dá a deputados e senadores a prerrogativa de ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal. A convocação de Carlos Mário Velloso para ministro da Justiça não deixa dúvidas. Mas a provável aprovação de Alexandre de Moraes para a mais alta corte nacional de justiça irá contabilizar um voto em favor dessa distorção.

Outra decisão destinada a causar impacto na crise instalada nas instituições políticas será a extinção do segredo de justiça para a divulgação da lista dos acusados por ex-dirigentes da Odebrecht. Está por pouco o conhecimento dos nomes de perto de 200 parlamentares envolvidos em recebimento de propinas e crimes correlatos.

Apesar da lentidão das apurações, a Operação Lava Jato prossegue e não haverá como esvaziá-la. Os apenas citados, por enquanto, poderão ser denunciados e transformados em réus, porta aberta para cassações de mandatos. É isso que se espera, virando de cabeça para baixo a composição do Congresso e a economia interna dos partidos.

ELES SE DEFENDEM – Aguarda-se, assim, a réplica dos futuros condenados. Não apenas Romero Jucá prepara sua defesa através de projetos de lei. Muitos outros expoentes do atual governo tentam livrar companheiros e eles mesmo. Ex-futuros candidatos ao palácio do Planalto integram a relação. O próprio presidente Michel Temer foi citado, apesar de encontrar-se blindado pela Constituição, que restringe ao seu período de governo o material para acusações.

Em suma, novidades à vista. As eleições de 2018 poderão abrir-se desfalcadas, tanto quanto as expectativas, superadas…






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UM GOVERNO FRACO



Aconteceria o quê, caso um juiz federal suspendesse a nomeação de ministros de governos de presidentes da República militares e civis, daqueles eleitos pelo voto direto? As reações seriam diferentes, porque num caso podia-se esperar atos institucionais e sucedâneos, mas no outro, no mínimo o envio de um exemplar da Constituição para os doutos magistrados, sublinhados os artigos que estabelecem a harmonia e a independência dos poderes da União.

Porque não deixa de ser inusitada a ação de membros do Judiciário interferindo na economia interna do Executivo. Três juízes de primeira instância, do Rio, Brasília e Amapá, suspenderam a posse de Moreira Franco no ministério de Michel Temer. Extrapolaram ou exageraram.

Não se espera que o atual presidente repita a performance do também vice-presidente em exercício, Floriano Peixoto, que diante da indagação sobre o Supremo Tribunal Federal conceder um habeas-corpus que anularia seus atos, simplesmente indagou “e quem dará habeas-corpus ao Supremo?”.

Convenhamos estar havendo intromissão de juízes nos negócios do governo. Nos idos de 1945, deposto Getúlio Vargas, a solução encontrada pelas forças armadas foi de que todo o poder seria dado ao Judiciário, até a realização de eleições livres. Pelo jeito, certos juízes imaginam repetir aquela prática.

O governo Temer dá sinais de fraqueza. Talvez por não ter sido eleito, curva-se a evidentes recuos. A bola da vez é o ministro Moreira Franco. Para impedi-lo, seria bom provar antes que transgrediu a lei. Suposições de que foi nomeado para poder ser processado pelo Supremo é questão subjetiva.

FALTA AGIR

Enquanto os três poderes da União lavam as mãos e entregam-se a tertúlias desimportantes, uma omissão olímpica se avoluma. Executivo, Legislativo e Judiciário tem poderes para acabar com os abusos do sistema financeiro, no que se refere aos juros do cartão de crédito e do cheque especial. Trata-se de esbulho, roubo, o que os bancos cobram do cidadão comum. No entanto, ninguém se manifesta.




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MAIS TRÊS NA DISPUTA PRESIDENCIAL



Começa a germinar uma nova leva de candidatos a candidato para 2018, mais uma evidência de inexistir alguém ocupando a pole-position. Amplia-se o plantel das especulações, até agora circunscrito a Aécio Neves, Geraldo Alckmim, José Serra, Ciro Gomes, Marina Silva, Ronaldo Caiado, Jair Bolsonaro, Roberto Freire, o Lula e outros menos lembrados.

Acabam de entrar na lista das especulações fugidias Rodrigo Maia, Moreira Franco e Carmem Lúcia, hipóteses geradas pelos acontecimentos mais recentes e, como as demais, simples exercícios pálidos e especulativos. Mas destacam-se na rearrumação das hipóteses geradas pela ambição, o acaso e a falta do que fazer.

Rodrigo Maia destacou-se quando Eduardo Cunha mergulhou nas profundezas. Elegeu-se para seis meses de insignificante presença na presidência da Câmara, mas ocupou a vice-presidência de fato da República, acoplando-se ao projeto de reformas de Michel Temer e atropelando a Constituição. Durante os próximos dois anos, tentará dividir com o atual presidente a liderança de mudanças estruturais e conjunturais, contando com o apoio sempre maior da bancada governista. Caso não cometa erros fundamentais, está no páreo.

Moreira Franco entra na equação como possível alternativa para o PMDB, até hoje marginalizado pela decisão anunciada mas não confirmada de Michel Temer abrir mão de disputar a reeleição. Elevado à condição de ministro detentor do poder palaciano, tendo alijado a influência do chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, o ex-governador do Rio precisará enfrentar a lista da Odebrecht, como tanto outros, mas resume-se hoje na opção do maior partido nacional. Evolui como o gato ancorá batizado por Leonel Brizola, cauteloso e macio.

Por último, uma estrela que vem de outro firmamento, a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmem Lúcia. Fica evidente sua disposição de ocupar espaços além do Judiciário.

Em suma, ampliou-se o quadro das hipóteses remotas, capaz de mudar ainda muitas vezes, e, para concluir, sem entusiasmar ninguém...





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DOIS COELHOS NUMA PAULADA SÓ



Dois coelhos bem que poderiam ser afastados numa só cajadada: o sigilo em ações penais e o tal segredo de justiça. Tem sido grande o prejuízo causado a cidadãos que deveriam estar beneficiados pelo princípio de ser todo mundo inocente até se lhe provarem a culpa. A verdade é que não se respeita o sigilo nas delações premiadas, antes mesmo de oferecidas as denúncias e abertos os processos. O resultado pode ser lido nas páginas dos principais jornais, todos os dias. Admite-se até como verdadeiras certas acusações, mas quantas terão sido mentirosas? Se é para prosseguir nessa distorção, melhor que se suprimisse o sigilo. Toda delação deveria ser permitida, claro que com o nome do delator. E a punição para quem inventou a mentira.

Vale o mesmo para o instituto do segredo de justiça. O juiz tem a prerrogativa de determiná-lo, mas virou regra a mídia quebrá-lo, sem que nada aconteça. Seria mais natural a supressão dessa defesa que não defende nada. Todo processo deveria ser partilhado com a opinião pública, por mais escabroso que fosse. E com a consequência de férrea punição para o veiculo que distorcesse os fatos.

Ganharia a sociedade. A justiça também. O que não dá é a lei estabelecer uma diretriz e os fatos a renegarem. Quantos políticos podem estar sofrendo injustiças nesses dias bicudos das delações premiadas? Seus nomes, uma vez divulgados, continuarão na execração e no conhecimento geral. Então, que se libere a divulgação, assim como se acabe com o segredo de justiça. Mas com a rápida e implacável punição para quem denegrir, mentir e inventar.




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A SOMBRA DA ESFINGE



Apesar do sigilo imposto pelo falecido ministro Teori  Zavaski e religiosamente mantido pela ministra Carmem Lúcia, continuam sendo pinçados nomes de políticos importantes como alvo das 77 delações premiadas feitas por ex-diretores da Odebrecht. Dentro de mais uns dias, no Congresso e na mídia, os mais de cem implicados nas denúncias serão conhecidos, iniciando-se as investigações pelo Ministério Público e a Polícia Federal e, em seguida, o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal.

Por nossa conta e risco, já que nada foi oficializado, vamos fixar-nos em dois deles, conforme corre na Câmara e no Senado: Eunício Oliveira e Rodrigo Maia.

Ignora-se de que são acusados, ainda que o leque esteja aberto. Caixa Dois, recebimento ilegal de recursos, dinheiro irregular, peculato e outros enquadramentos, apesar de nada estar comprovado.

O diabo é que o senador e o deputado encontram-se no meio da fogueira. São os favoritos para se tornar presidentes do Senado e da Câmara. Contam com votos de sobra para se elegerem no começo de fevereiro. Só não se sabe se antes ou depois de conhecida a lista da Odbrecht. Eleitos antes, poderão suas posses ser contestadas por seus próprios eleitores? Depois, não deixariam em má situação as respectivas casas legislativas?

Pode ser que se trate de injustiça, exagero ou excesso por parte dos denunciantes. Gastos de campanha, feitos de acordo com a lei, podem ser confundidos com irregularidades. Tanto Eunício quanto Rodrigo terão todas as prerrogativas para defender-se. Mas se não conseguirem? Aparecerão candidatos de última hora para substituí-los? E se forem condenados pelo Supremo Tribunal Federal?

A sombra da desmoralização paira sobre pelo menos a metade do Congresso, tornando-se uma questão de dias, quem sabe de horas, decifrar o enigma da esfinge que sobrevoa a Praça dos Três Poderes.




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VALEU À PENA


CARLOS CHAGAS -


Não dá para aceitar a suposição de ter havido um atentado, sabotagem ou coisa igual. Mesmo assim, lá no fundo do cérebro, permanecerá a dúvida. Mesmo sabendo  que de nada adiantaria, pois a Operação Lava Jato dobrou a curva da esquina. Quem se tornar relator do processo estará obrigado a seguir adiante na condenação dos corruptos envolvidos no escândalo.

A vida tem dessas surpresas. De Tancredo, Ulysses e Teori, entre tantos outros, já estava escrito.

Importa seguir adiante. A delação da Odbrecht não demora a ser conhecida. E outras. Tanto faz quem será o novo relator. Ou quantos corruptos serão denunciados, dispondo ou não de foro especial. A verdade é que montes de políticos, parlamentares ou não, deixarão de ser políticos e certamente, os que tiverem sido parlamentares.

O fundamental, a partir do início da Operação Lava Jato, e tanto faz quem irá encerrá-la, é que conluio entre empreiteiras e políticos está terminado. Claro que crimes continuarão a ser praticados, ainda que em número bem menor. As estrelas de primeira grandeza se apagarão, por ação do ministro Teori Zavaski, abruptamente interrompida mas já completada em sua fase mais importante.

Agora é aguardar as investigações já iniciadas pelas autoridades competentes para apurar o acidente nas águas de Parati. Que o exemplo do morto ilustre permaneça para sempre na crônica do Poder Judiciário. Onde quer que ele se encontre, deixará marcada sua passagem com a lição de que, se a alma não é pequena, valeu à pena…





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SÓ DECLARANDO GUERRA A DONALD TRUMP



O presidente Michel Temer reúne amanhã os governadores estaduais. Prevê-se que nenhum falte, dada a miséria em se encontram seus Estados. Todos vem atrás de dinheiro, imaginando rolar suas dívidas com a União, obter mais empréstimos e poder ao menos assegurar o pagamento do próprio funcionalismo.

Impossível que tragam sugestões capazes de ajudar o governo federal a sair do sufoco. Saber quem está pior, se os governadores ou o presidente da República, dá no mesmo. Andam todos à espera de um milagre.

Fez sucesso, muitos anos atrás, um filme intitulado de “O Rato que Ruge”, com o inigualável e saudoso Peter Sellers, acumulando três papéis: a rainha de um pequeno país europeu, o primeiro-ministro e um capitão da guarda. Reunidos, eles concluíram haver uma só saída para o país: declarar guerra aos Estados Unidos, iniciá-la e logo depois perder. Ou todos os países que haviam perdido guerras para os americanos, como o Japão e a Alemanha, não se encontravam no melhor dos mundos, ricos e prósperos?

Assim fizeram, embarcando seu limitado exército num cargueiro de quinta categoria, com arcos, flechas e escudos. Invadiram Nova York, cuja população nem se deu conta da invasão. Aconteceu, porém, um inusitado: os invasores entram na residência de um cientista nuclear que acabara de descobrir a fórmula de uma bomba atômica de bolso. O resto da trama fica por conta do leitor encontrar uma cópia do filme e deliciar-se com o espetáculo.

Porque se conta essa história que seria cômica se não fosse trágica? Afinal, sexta-feira assume um novo presidente dos Estados Unidos. Que tal Michel Temer e os governadores declararem guerra ao governo Donald Trump? O triste seria se nós ganhássemos...



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OBSTÁCULOS INTRANSPONÍVEIS À REFORMA POLÍTICA


Salvo algum inusitado, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira serão eleitos presidentes da Câmara e do Senado. Nada melhor para o presidente Michel Temer. Os três conduzirão a reforma política de comum acordo, começando pela extinção do princípio da reeleição para presidente da República, governador e prefeito. Nos estados e nos municípios, manterão a prerrogativa de disputar o segundo mandato no exercício do primeiro aqueles que tiverem sido eleitos em 2014. Pairam dúvidas a respeito da duração de seus mandatos, hoje fixados em quatro anos. Poderão ser cinco para presidente da República, governador, prefeito e deputado, a partir de 2018, ainda que para senador não há certeza. Dez anos seria demais. Oito, como agora, determinaria a descoincidência com as demais eleições, e cinco seria impossível.

Eis o primeiro obstáculo ao fim da reeleição. Os 61 senadores votarão pelos dez anos, mas os 513 deputados, contra. Por conta do impasse, vem aparecendo partidários de deixar tudo como está, inclusive a reeleição.

Outro risco refere-se ao número de partidos. Hoje são 35, um absurdo, o ideal seriam quatro ou cinco, mas quais? Junto com os chamados partidos de aluguel, existem os partidos históricos ou ideológicos. Como distingui-los?  A cláusula de barreira ou de desempenho causará injustiças, além de se constituir num fator de desentendimento entre as legendas, internamente. O tempo das sublegendas não deixou saudades. Melhor então não mexer? Seria o caso de pelo menos acabar com o Fundo Partidário? Só que a corrupção se multiplicaria.

Em suma, até as reformas que de início parecem unanimidade esbarram em obstáculos intransponíveis.




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A CONFUSÃO É GERAL


Não passa desta semana a prisão preventiva de Geddel Vieira Lima, a menos que o ex-ministro da Coordenação Política fuja para o exterior. A Polícia Federal acompanha seus passos na Bahia, no Rio e em Brasília, já tendo levantado as provas necessárias para encarcerá-lo por haver burlado os interesses da Caixa Econômica Federal no tempo em que era um de seus vice-presidentes. A extorsão se deu em parceria com o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, hoje e ainda por muito tempo preso em Curitiba, por esse e outros crimes.

À medida em que o tempo passa, mais o círculo se fecha em torno de amigos, ministros e ex-ministros do presidente Michel Temer. Não demora e o próprio chefe do governo começará a ter seu nome citado em diversas delações premiadas já colhidas junto a ex-diretores da Odebrecht.

Não parece fora de propósito que o Tribunal Superior Eleitoral, em fevereiro, manifeste-se pela anulação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer nas eleições de 2014. Nesse caso, abrem-se duas hipóteses: o Congresso elegeria um novo presidente da República para completar o atual mandato até 2018 ou o TSE consideraria vitorioso o segundo colocado naquele pleito, o senador Aécio Neves. No primeiro caso, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, seria o candidato, ainda mais se vier a ser reeleito. Outras possibilidades são consideradas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-presidente do Supremo e ex-ministro Nelson Jobim.

Qualquer das opções revelará que as instituições encontram-se em frangalhos, abrindo-se até a possibilidade da antecipação das eleições  gerais para este ano. Tudo dependeria de o Congresso atropelar a Constituição.

Quanto a Geddel Vieira Lima, continua ligado a Michel Temer,  no  mínimo por laços de amizade.

Em suma, a confusão é geral.



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FALTA PRIVATIZAR AS FORÇAS ARMADAS



Fica difícil informar quando começou a privatização das penitenciárias. Possivelmente no governo Fernando Henrique Cardoso, ainda que tudo viesse cercado de sigilo e só se concretizasse nas mãos de Aécio Neves em Minas. A iniciativa não contava com a simpatia da opinião pública, sempre cheirou a perigo, para não falar de corrupção. Assim o sociólogo recomendou silêncio, seguido pelo Lula e Dilma. Agora, a bomba estourou nas mãos de Temer, ainda que contra a sua vontade.

Isso porque a operação cheira mal desde o início. Grupos econômicos empenhados em faturar o máximo e oferecer o mínimo têm lucrado centenas de milhões. Por certo que separando vultosos percentuais nos períodos eleitorais, financiando mais de um candidato a governador nos Estados de onde tiram quantias milionárias. Até os meios de comunicação omitiram a lambança, só agora forçados pela natureza das coisas a expor as operações celeradas.

Trata-se de uma das maiores distorções do capitalismo. Ganhar dinheiro com a desgraça alheia, no caso das prisões, só perde para a prática de certos laboratórios farmacêuticos que carregam no preço dos remédios. Mesmo assim, os resultados se equivalem. A privatização das cadeias determinou o crescimento das quadrilhas envolvidas com o tráfico de drogas, além da transformação dos presos em animais. Também os remédios em alta permanente de preços terão levado muitos cidadãos à morte prematura por impossibilidade de adquiri-los.

Nos Estados Unidos, essa moda está em extinção, ainda mais porque o criminoso rico transforma sua cela em hotel de luxo, mediante pagamento extra às empresas encarregadas de administrar o conjunto. Aliás, aqui também, porque os chefes dos diversos grupos que vivem do tráfico oferecem churrascos, feijoadas e bailes de arromba a seus protegidos, em alas privilegiadas das prisões.

CANCELAR TUDO – Seria o caso de o poder público cancelar todas as privatizações e terceirizações, ainda que depois dos recentes massacres seus dirigentes tenham começado a reagir, alegando que os governos não têm recursos para sustentar as prisões estatais. Só que é mentira, pois os Estados destinam horrores para a privataria tornar-se a verdadeira controladora das penitenciárias.

Em suma, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Caberia ao Congresso antecipar-se ao jamais concretizado Plano Nacional de Segurança. Proibir o ingresso da iniciativa privada na gestão dos estabelecimentos penais e ainda investigar o roubo nos contratos celebrados no país inteiro, para as devidas punições e o ressarcimento.

Como estamos no Brasil, ninguém se espante caso o governo Michel Temer dê início à privatização das Forças Armadas. Que tal o PCC financiar o Exército, o CV, a Marinha, e a Família, a Aeronáutica?





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COMO ESSE JURISTA DIZ ASNEIRAS…

Como aceitar que o ministro da Justiça despeje impunemente sobre a nação o maior monte de asneiras jamais pronunciado desde a posse do presidente Michel Temer? Na semana que passou o jurista Alexandre de Barros declarou que “a situação não saiu do controle”; “nos presídios do Norte  houve apenas um acerto de contas”; “não foi retaliação”; “não há guerra entre as facções de criminosos”…

Em Manaus e Boavista jogou-se futebol com cabeças degoladas, assassinaram dezenas de presos com requintes de crueldade,  arrancaram pernas e braços, furaram olhos  e queimaram corpos de  grupos adversos.  O que está sob controle, exceção da fúria de animais empenhados em destruir seus semelhantes numa guerra sequer registrada na pré-história?  Importa menos se foi o PCC, o CV ou a Família, pois todas as quadrilhas dedicaram-se a essas práticas, de acordo com o domínio eventual de estabelecimentos penais e a complacência das autoridades encarregadas de vigiá-las.

Todo mundo massacra todo mundo nas cadeias do país inteiro, porque a animalidade não se limita ao Amazonas ou a Roraima, mas a todo o território nacional.  Imagens de tantas barbaridades ganham o planeta e são tidas como simples acerto de contas. Muitos conseguiram fugir e encontram-se nas ruas, assombrando o cidadão comum.

Breve a equação se ampliará, ou seja, os animais assumirão o controle não só das penitenciárias, que já controlam, mas das ruas de qualquer cidade.  A solução do governo é construir, por centenas de milhões de reais, mais penitenciárias ditas de segurança máxima. Apenas para dar melhores condições aos bandidos se organizarem e estenderem as matanças. E entregando ao capital privado a gestão dessas universidades do crime, financiadas por quem paga impostos.

Nos idos da ditadura militar, as forças armadas caçavam, na floresta e nos grandes centros, quantos se propunham a mudar pelas armas ou pela palavra o regime então vigente. Quase não escapou ninguém, menos os que conseguiram exilar-se. Não seria o caso de repetir a operação, mesmo contra os animais a serviço do crime organizado, como agora.

Enjaulá-los sem contemplação tornou-se missão impossível, extingui-los ofende os padrões da civilização, a menos que se adote a pena de morte. Já. Para eles e para os dirigentes do tráfico de drogas, a mola propulsora de tudo o que vai acontecendo.




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O FRACASSO DA UNIÃO


A Federação é una e indivisível. Se o Piauí quiser tornar-se independente, não pode. Nem o Rio, São Paulo, Minas ou qualquer outro Estado. Para zelar pela Federação, deu-se ao Senado atribuições constitucionais especiais. Se alguma unidade federativa rebelar-se e declarar independência, será invadida por tropa federal.

O diabo é se um grupo de Estados decidir separar-se. Uma secessão à maneira do que aconteceu no Império, com a Confederação do Equador, seria impedida à bala. Não há Frei Caneca para dar jeito. Mais tarde, também não vingou a revolução de São Paulo, se é que foi mesmo separatista.

Faz pouco, quando um energúmeno gaúcho levantou a ideia de uma nova República do Piratini, foi afastado por uma gargalhada nacional.

Por que se recorda o tema da separação? Perguntem ao ex-presidente José Sarney, que dias atrás aventou a hipótese numa macabra especulação a alguns amigos. Não que ele desejasse coisa igual, muito menos referindo-se ao Maranhão. Apenas como exercício de futurologia, o “bigode” discorreu sobre o que nos espera. Ressalvou, de início, não tratar-se de situação com a qual conviverá, dado estar avançado nos oitenta anos. Mas do jeito que as coisas vão, não será absurdo verificar-se a tendência separatista de alguns Estados ou regiões.

Há um fundo de verdade no vaticínio. Nenhum governador aguenta mais ficar sem recursos sequer para pagar seu funcionalismo. Importa menos saber de quem é a culpa, se dos Estados ou da União. A verdade está nos fatos. Não demora muito ver gaúchos, paulistas, nordestinos ou amazônidas rendendo-se à necessidade de sobreviver. O poder central fracassou. A União não une mais nada. Pelo contrário, divide, suga e assalta. Por mais incrível que pareça, logo começarão protestos e gritos de independência.



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O ESBULHO DE ESTADOS E MUNICÍPIOS


Os prefeitos das capitais e demais cidades começam a trabalhar hoje. Alguns recomeçam. Junto com os governadores, serão as vítimas de um processo que lhes tirou a força e a dignidade em suas cidades e seus estados. Cada unidade da federação encontra-se em estado de penúria, atravessando a pior de suas trajetórias. Sua função será sacrificar-se para a recuperação  do que foram e não são mais, graças ao  esbulho de uma força situada além de suas fronteiras.

É a União que depende e que precisa dos governadores e prefeitos, jamais estes daquela. Torna-se necessário o presidente Michel Temer entender essa verdade absoluta: os estados e municípios são o país, formam a rede de proteção de um poder etéreo e até inexistente. Brasília só existe porque municípios e estados a cercam e sustentam. Nunca o contrário.

Assiste-se à inversão da natureza. Têm sido os governadores e os prefeitos que chegam mendigando à  capital federal,  de chapéu  na mão, humilhados e exangues atrás de recursos para continuar existindo, quando  na realidade a União é que existe por decisão e concessão deles. Brasília deveria desculpar-se e pedir perdão por ter-se omitido tanto. Se há lamentos, reprimendas e arrependimento, deve-se debitar à capital federal o ônus maior.

Caberia ao governo central recuperar as estruturas estaduais e municipais por ele destruídas ao longo dos últimos anos. Sonhos inúteis e projetos impossíveis, entre muita corrupção, erodiram, desgastaram e quase destruíram os alicerces que sustentavam a unidade nacional. Um por um, estes mais, aqueles menos, municípios e estados foram conduzidos à situação de miséria pela incúria do poder federal. É inadmissível que agora se aceite a equação invertida, de que Brasília deve correr em auxílio das unidades federadas. Elas é que precisam cobrar o que lhes foi surripiado por ação do poder central. Sem estados e municípios Brasília permaneceria um deserto insípido.

A oportunidade não é de municípios e estados viram atrás de favores, como farão mais uma vez,   senão de chegarem a Brasília para exigir e arrancar o que lhes foi tirado.




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CHORO E RANGER DE DENTES NA SUCESSÃO DE 2018


Fica difícil, senão impossível, seguir adiante dentro do atual quadro partidário. Cada legenda, inclusive as pequenas, divide-se em grupos conflitantes. São 35, hoje, dentro em pouco serão 70. O presidente Michel Temer conta com o apoio de 88% do Congresso, mas se ficar privilegiando cada um dos grupos em que os partidos se dividem, logo tornará inútil continuar governando cada vez com mais exigências.

Está na hora de promover uma reformulação geral, acima e além das cláusulas de barreira tentadas mas não realizadas.

Não adianta lembrar fracassos passados, como foi a iniciativa do então presidente, marechal Castello Branco, que para evitar a derrota num Congresso esfrangalhado, dissolveu os partidos existentes e criou o bipartidarismo forçado, o partido do “sim” e o partido do “sim, senhor”, Arena e MDB.

Agora não existe o perigo da derrota parlamentar para o governo, mas a situação é igualmente parecida como naqueles idos de 1965. As lideranças políticas vão concluindo não ser mais possível conviver em tamanha confusão. Por isso ganha corpo senão a dissolução forçada de todos os partidos, já que inexiste clima para atos de força, mas, pelo menos uma reordenação. Tem que ser antes de acirrada a disputa pela presidência da República, em 2018.

O PMDB e o PSDB poderiam dar o primeiro exemplo. Têm tudo em comum, já que um nasceu do outro, por divergências regionais. Pudesse   Michel Temer reuni-los, mesmo se fosse sem Aécio Neves e Romero Jucá, os dois presidentes, algo surgiria de novo. Há quem pense em José Serra para erigir uma ponte, não para o futuro, mas para já. Para ontem, se fosse possível.

Claro que uma armação assim revelaria a opção óbvia de Temer pelo seu ministro das Relações Exteriores, para sucedê-lo.  Haveria choro e ranger de dentes, mas dentro do quadro atual, solução não há.



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RESOLUÇÕES DE ANO NOVO: IMPOSSÍVEIS E OBRIGATÓRIAS

Hoje, como em todo 30 de dezembro, é dia de alinhar as resoluções de Ano Novo, daquelas impossíveis que abandonamos na primeira semana de janeiro, para reavivá-las no próximo dezembro. Por exemplo:

Parar de fumar. Beber menos. Evitar gorduras nas refeições. Fazer exercícios e corridas todos os dias. Tomar banho frio. Cuidar da saúde e fazer exames médicos. Ser carinhoso com filhos e netos. Ajudar os necessitados. Não pisar no acelerador. Ler um livro por semana. Assistir menos televisão. Matricular-se no curso de inglês. Cumprimentar e sorrir para os colegas de trabalho.

No entanto, por conta do ano bicudo que já termina, surgem novas e obrigatórias resoluções, que todos devemos seguir. São elas:

Acompanhar todos os dias a performance dos políticos. Marcar no caderninho os nomes dos envolvidos com a corrupção, para nas próximas eleições não votar neles. Pesquisar quais os deputados e senadores cujo padrão de vida aumentou depois de eleitos. Saber quantos políticos compraram apartamentos de luxo, sítios ou fazendas no exercício de seus mandatos. Anotar as viagens ao exterior de parlamentares e suas famílias. Acessar informações sobre gastos com cartões corporativos de crédito pelos funcionários do governo.

Mas tem mais. Participar de movimentos de protesto contra leis e iniciativas favoráveis às elites. Protestar contra a presença de políticos corruptos em restaurantes, aeroportos e mesmo na rua. Negar cumprimento aos políticos relacionados em listas da Odebrecht e outras empreiteiras. Aplaudir as ações da Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário, pessoalmente ou através de mensagens eletrônicas. Organizar grupos de amigos, familiares ou companheiros de trabalho para manifestações públicas de repúdio à corrupção. Acompanhar o comportamento da mídia na cobertura de escândalos e crimes praticados por políticos, exigindo de seus responsáveis a divulgação de notícias honestas e verdadeiras. Cobrar promessas não cumpridas de governantes e parlamentares.

Como também: ser tolerante para quem incorreu em erros, mas ser implacável com os erros. Transmitir experiências e lembranças para filhos e netos. Meditar e arrepender-se de omissões quando sua iniciativa poderia ter contribuído para a melhoria da vida em sociedade.

Por último, lembrar em quem votou nas últimas eleições e não repetir o voto, se o eleito ou seu partido descumpriram suas promessas.





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O PAES ESCAPOU, O VAZ NÃO FOI ENCONTRADO


Declarou o presidente Michel Temer, numa espécie de presente de Papai Noel, que não pretende reformar o ministério. Em especial para Eliseu Padilha, disse que não pensa em demiti-lo da chefia da Casa Civil. Em política, essas afirmações costumam mudar, de acordo com as contingências, mas às vezes também se confirmam. Nem Temer detém a chave do futuro, nem Padilha é senhor do amanhã. No Dia do Natal, ficou tudo estava. Quando chegar o Ano Novo, ninguém sabe.


Fica claro, porém, que a lista da Odebrecht vem por aí. O chefe da Casa Civil já foi referido como inserido na relação dos ministros incluídos nas propinas distribuídas pela empreiteira. Seu nome poderá ser incluído ou não nos processos do Supremo Tribunal Federal. Saberemos em poucos dias.

Perto de 200 políticos não têm dormido bem, neste final de ano. Claro que muitos escaparão das penas da lei, mantendo seus mandatos, mas quantos acabarão fulminados?

Jamais o país viveu um final de ano como o atual. Nem um começo como o que se aproxima. Há muitas décadas, deputados, senadores, ministros e ex-ministros enfrentaram período igual. Era assim às vésperas da divulgação das listas de cassação pelo regime militar.  Naqueles idos, com raríssimas exceções, não se viam banidos da vida pública por crimes de corrupção. Era por subversão, prática impossível de ser demonstrada. De vez em quando os algozes incorriam em erros que seria m cômicos se não fossem trágicos.  Certa feita cassaram e suspenderam os direitos políticos de um tal Deputado Antônio Vaz de Andrade. Esse nome não constava da relação da Câmara Federal, e o deputado Paes de Andrade escapou para depois presidir o MDB e a própria Câmara. Nenhum dos ministros que eram deputados disse uma palavra, festejando todos aquela alforria inusitada. Quem sabe algum ministro do Supremo Tribunal Federal possa festejar situação semelhante?





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ELEIÇÕES OU DEPREDAÇÃO, NO NATAL DO DESESPERO


Sem ter recebido o mês de novembro, muito menos o 13% salário, os funcionários públicos do estado do Rio de Janeiro ficaram, desde ontem, sem a cesta básica. Belo Natal estão comemorando, celebrado literalmente a pão e água, defronte ao palácio do governador. Pelos poucos que tiveram a felicidade de consumi-los.

A gente se pergunta quando virá a depredação das estruturas oficiais, que não tarda. No complexo penitenciário de Bangu, onde se encontra o casal de bandidos que já governou o estado? Diante do palácio Guanabara, de onde governou a Princesa Isabel, hoje gabinete do Pezão? Na Assembleia Legislativa ou em Copacabana, palco das manifestações populares por enquanto pacíficas?

Não dá para entender como o Rio transformou-se em conglomerado da miséria. Ou entendemos muito bem. Pior estarmos falando de um retrato do Brasil, com muito mais de 12 milhões de desempregados. Breve o povo reivindicará o que é seu. Uma cidade em chamas, ou melhor, todas as cidades, estados e enfim o país.

NÃO É SINISTROSE – Pensam tratar-se de sinistrose? De péssimos e ilusórios devaneios de horror? Nem pensar.  O caos se organiza milimetricamente a partir do vazio das elites. Tiveram oportunidade de evitá-lo. Não quiseram ou não puderam. Antes da implosão virá a desagregação, importando menos se o rastilho começará no Rio, em Brasília, em São Paulo ou em qualquer outro centro ou periferia. A verdade é que com Michel Temer não dá, como não deu com Dilma, Lula, FHC e antecessores.

Tem saída? Tem. A começar por imediatas eleições gerais. De preferência proibindo-se reeleições de toda espécie, de vereador a presidente da República. Sem partidos, nem cartões de crédito. Quem sabe, sem bancos?





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FALTA UM NÚMERO


Dias atrás a Odebrecht pediu homéricas desculpas ao público por haver distribuído propinas a políticos, partidos, governos e administradores do Brasil e de mais onze países das Américas e da África.


Foi preciso que esta semana o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgasse o total do dinheiro podre destinado pela empreiteira a um monte de clientes nacionais e internacionais. Por enquanto, um bilhão de dólares reconhecidos.

Fica faltando o número-chave correspondente a esse que foi, segundo os americanos “o maior caso de pagamento  de suborno da História”: quanto a Odebrecht lucrou com a distribuição do suborno?

Porque nem é preciso argumentar: toda empresa que investe, em especial ilicitamente, tem um único objetivo, o lucro. Se gastou um bilhão de dólares subornando todo tipo de agentes públicos, quanto terá faturado em contrapartida? Dois bilhões? Três ou quatro?

A essa trama agora revelada por completo falta o principal: a empreiteira, e outras também envolvidas na mesma prática, lucraram horrores. Onde estão esses recursos? Não terão saído pelo ralo aberto com as investigações e delações, pelo menos na sua totalidade. Em parte estarão aplicados, depositados ou rendendo juros e sucedâneos. Enriqueceram o patrimônio de seus dirigentes e responsáveis e não se tem notícia de devoluções.

As empreiteiras valeram-se de leis, medidas provisorias e toda sorte de instrumentos votados pelos beneficiários das propinas, parlamentares e políticos. Daí a origem de seus lucros ainda não contabilizados. Falta um número na relação criminosa.





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NENHUM TUCANO CONSEGUIU VOAR




Causou confusão no ninho a prorrogação, até maio de 2018, do mandato de Aécio Neves na  presidência do PSDB. O governador Geraldo Alckmin estrilou e até ameaça trocar de partido, certo de que continuando a dirigir os tucanos, o senador mineiro será beneficiado como candidato presidencial daqui a dois anos. Os partidários de Aécio contraditam, indagando se Alckmin estaria disposto a renunciar ao governo de São Paulo como compensação a um malogrado afastamento dele da presidência da legenda.

Assim, deflagra-se mais um capítulo da disputa que também envolve  José Serra, que os dois candidatos pretendem seduzir oferecendo-lhe a candidatura ao governo paulista. O problema é que o atual ministro das Relações Exteriores também trabalha pelo palácio do Planalto.

Por enquanto são frágeis as estruturas das pontes da trinca no rumo do poder, até porque parecem pinguelas, diante das pretensões de Fernando Henrique. O ex-presidente não abre mão de candidatar-se, apesar dos 85 anos de idade, mas raciocina com um mandato-tampão, caso o Tribunal Superior Eleitoral decida afastar Michel Temer e ensejar a imediata ascensão do sociólogo.

PLANOS DE VOO – Fica assim conturbado o ambiente no aeroporto da esquadrilha tucana, com quatro planos de voo conflitantes, mas nenhum motor realmente funcionando. Até porque, as pesquisas não indicam perspectivas favoráveis para nenhum dos quatro. Ainda mais porque as delações da Odebrecht estão voando baixo e poderão bombardear qualquer um deles.

Apesar de os conciliadores apostarem que só 2018 será o ano das definições, tudo indica que de 2017 não passará. Três precisarão refugiar-se no hangar e apenas um disporá de condições para ganhar o céu.

O novo ano começará com outros aparelhos tentando taxiar na pista, de Lula a Ciro Gomes, Marina Silva, Ronaldo Caiado, Jair Bolsonaro, Álvaro Dias, Henrique Meirelles, Joaquim Barbosa e mesmo Sérgio Moro. Difícil saber qual deles pilotará um Boeing ou um teco-teco. Ou quantos serão abatidos ainda na cabeceira da pista.




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PIOR NÃO FICA ? MAS PARA MICHEL TEMER, FICOU…


Do jeito que as coisas vão, Michel Temer não completa o seu mandato. Nenhum presidente da República tem sido tão humilhado como ele. Com todo o respeito, mas S. Exa. acaba de perder o próprio, com o recuo da nomeação de Antônio Imbassay para ministro da Articulação Política (ou secretário de Governo). Partidos grandes e pequenos tripudiam sobre sua figura, tanto quanto o Senado humilhou o Supremo Tribunal Federal.

Só falta o Congresso aprovar o impeachment de Michel, por total ausência de condições para governar o país.  Determinação e firmeza são produtos em falta nas prateleiras do palácio do Planalto.

Pode até o ex-futuro ministro ser outra vez reconvocado, na próxima semana. Mesmo assim, não adiantará nada. Já se ouve nos corredores parlamentares que apenas novas eleições diretas resolveriam, ainda que deputados e senadores tenham até o dia 31 para tomar a decisão. Depois, as eleições presidenciais teriam de ser indiretas, pelo Congresso.  Mas o melhor, mesmo, seria o eleitorado escolher todos os cargos eletivos, proibidas as reeleições.

O presidente, mesmo tentando contemporizar, não encontra parlamentares e partidos para respaldá-lo. Muito menos a opinião pública e a opinião publicada. Começam a aparecer pseudo-candidatos para sucedê-lo, de Fernando Henrique a Nelson Jobim, sem esquecer Renan Calheiros.

Há que poupar Michel Temer, mas apenas com sua dispensa. Não transcorre uma semana sem que a lambança fique pior. Até a fugaz confiança em Henrique Meirelles virou pó. Um murro na mesa resolveria a questão, ainda que se ignore o punho capaz de vibrá-lo. Do PMDB ao PSDB e ao Centrão, ninguém se entende.





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OITENTA CABEÇAS PRÓXIMAS DA GUILHOTINA


No Congresso, há quem acredite que até a próxima segunda-feira, 28, será conhecida a relação de deputados e senadores incursos nas delações da Odebrecht. Seriam perto de oitenta parlamentares envolvidos nas tramoias da empresa, denunciados como tendo recebido favores pecuniários em troca de apoio no Legislativo para as operações envolvendo superfaturamento de contratos e similares entre a empreiteira e variadas empresas públicas. Oitenta cabeças próximas da guilhotina.

Trata-se do clímax das investigações feitas à sombra do poder. Caberá ao Supremo Tribunal Federal abrir os respectivos processos contra quantos pretendem valer-se de imunidades.

Em suma, a lista estaria pronta e prestes a ser divulgada.

A indagação refere-se ao que acontecerá aos premiados prestes a expor o pescoço.

A mais alta corte nacional de justiça poderá condená-los, desde a cassação dos mandatos até a proibição de candidatar-se nas próximas eleições.

Certamente pertencerão a diversos partidos, do PT ao PMDB, PP e outros. Será um razoável prejuízo para a base parlamentar do governo, impossibilitado de sair em defesa de seus integrantes.

Há temor no palácio do Planalto, em especial diante de ministros capazes de ser acusados e punidos. Na recente reunião de governadores, aqui em Brasília, a  iminência da divulgação da lista da Odebrecht gerou preocupações. A empreiteira operou em muitos estados, não apenas no plano federal.

GEDDEL NA MARCA DO PÊNALTI

Ontem, na Comissão de Ética da presidência da República, era grande a impressão de que Geddel Vieira Lima tem mínimas chances de escapar à acusação de haver atuado em favor de interesses pessoais. Amanhã também será um difícil para o ministro.



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“SE ELE PODE, EU TAMBÉM...”

Foto: Lula Marques / Arquivo Google.
Quem anda feliz é o presidente do Senado, Renan Calheiros. Principal estímulo a que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se candidate a novo período, o senador alagoano passou a exercitar a lição tão comum na política brasileira: “se ele pode, eu também..”

Ambos terminam seus períodos de comando na Câmara e no Senado. Maia, numa espécie de mandato-tampão, eleito para apenas completar o mandato que foi de Eduardo Cunha. Seu limite é fevereiro, quando a lei exige a eleição de um sucessor. Renan porque estoura seu tempo no mesmo mês. Presidiu o Senado e o Congresso inúmeras vezes, agora completa o prazo fatal.

Tanto um quanto outro lamentam a hora de esvaziar as gavetas. O deputado, porque tendo preenchido um terreno minado pelas armadilhas do hoje réu preso Eduardo Cunha, trouxe tranquilidade à Câmara. Ajustou-se às necessidades do governo Temer e comporta-se como parceiro ideal do palácio do Planalto. Se continuasse pelos próximos dois anos, evitaria montes de problemas com a instável base parlamentar do presidente da República.

Quanto a Renan, os motivos são diversos. Respondendo a doze processos no Supremo Tribunal Federal, vive sob o risco de condenações e até de perda de mandato. Por isso atua perigosamente em todos os temas polêmicos de interesse do Congresso, certo de que preenchendo os espaços à vista, afastará a sombra de incursões inusitadas ao seu futuro. O problema é que completará o tempo de sair do palco, podendo ficar ao sol e ao sereno, exposto a seus adversários.

Em condições normais de temperatura e de pressão, os dois presidentes retomariam seu convívio com as casas que dirigem sem maiores problemas. Rodrigo Maia naturalmente aguardando novas oportunidades, Renan Calheiros usufruindo sua experiência. Do jeito que as coisas vão, no entanto, arriscam-se a mergulhar na incerteza. Um de volta à árida planície, outro sob o risco de mergulhar nas profundezas.

Por isso lançam-se ambos à cata de pareceres e de juristas capazes de justificar as reeleições que a lei e os regimentos internos proíbem. Contam com uma distante simpatia do presidente Michel Temer e com consideráveis bancadas de seus partidos e afins. Resta esperar como desenvolverão suas estratégias. Tempo existe.



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OS CANHÕES NÃO FALARAM

Carlos Lacerda e o presidente Carlos Luz (9º da esq.), deposto pelo movimento de 11 de novembro de 1955, refugiam-se no cruzador Tamandaré / Arquivo Google.
Sexta-feira, 11 de novembro de 1955, o Rio não dormiu. Ou dormiu pouco, porque de madrugada a cidade já estava acordada. Em todos os quartéis e repartições do Exército havia movimentação inusitada. Tanques e canhões ocupavam as principais avenidas e praças. Soldados equipados guardavam repartições federais e, de forma um tanto estranha, cercavam estabelecimentos da Marinha e da Aeronáutica.

No ministério da Guerra, as luzes estavam acesas, em especial nos andares dos gabinetes do ministro e do comandante do I Exército.  Aparelhos de telegrafia e telefones não paravam de tilintar, transmitindo ordens e recebendo adesões das unidades espalhadas pelo país inteiro.

O Exército erguia-se em solidariedade ao ministro Henrique Teixeira Lott, demitido na véspera mas horas depois  outra vez instalado em seu gabinete pela totalidade dos demais generais e altos oficiais.  Levantava-se o país armado para evitar o golpe engendrado pelo presidente interino da República, Carlos Luz, apoiado pela Marinha e a Aeronáutica, empenhados em não dar posse ao presidente eleito, Juscelino Kubitschek.  Em nome da legalidade e para assegurar o regime democrático e a Constituição, o  general Lott aceitara chefiar a rebelião. Um golpe para evitar outro golpe, ironicamente batizado de Movimento de Retorno aos Quadros Constitucionais Vigentes. A agressão à semântica tinha sido o único erro do Exército, porque como  retornar ao  que não  era  mais vigente?

Enquanto o sol nascia, o presidente derrotado e mais uns poucos  ministros e conspiradores conseguiram embarcar no cruzador “Tamandaré”, rompendo a linha de defesa das fortalezas do Exército, na entrada da baía da Guanabara. Diz a crônica que general Lott mandara bombardear e afundar o navio rebelado. Como estávamos no Brasil,   as fortalezas atiravam, o estrondo era grande, mas nenhuma bala acertou. Brasileiros matando brasileiros? De jeito nenhum.

O navio seguiu para o Sul, mas  precisou voltar, pois nenhuma adesão foi conquistada. O Exército dominava o litoral e o interior. O Congresso encontrou outro presidente interino, no caso Nereu Ramos. Juscelino Kubitschek tomou posse, dias depois, mantendo o general Henrique Lott como ministro da Guerra. Estava salva a Legalidade, pelo menos até 1964. Ainda hoje ressoam os estampidos dos poderosos canhões das fortalezas. Merecem medalhas os bravos artilheiros que, de propósito, erraram o “Tamandaré”.  Da mesma forma os marinheiros que não responderam ao fogo amigo. Felizmente, os canhões não falaram.
Cruzador Tamandaré



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XEQUE-MATE NUM TABULEIRO SEM PEÇAS



Agora que se aproxima o último capítulo dessa novela de horror, dois raciocínios conflitantes continuam gerando dúvidas, sobrevindo um impossível xeque-mate imposto pelos dois contendores a um só tempo: Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade, não agrediu a Constituição e não podia nem merecia ser afastada da presidência da República. Dilma Rousseff está sendo punida porque a maioria do país rejeitou o seu governo. O impeachment é o mecanismo que sobrou para afastá-la do poder por incompetência.

Do confronto entre essas duas verdades o Congresso decidiu-se pela segunda. O cumprimento estrito da lei perde para o sentimento nacional. Uma presidente é punida apesar de honesta e de não haver descumprido a Constituição, mas, se permanecesse no governo, o Brasil mergulharia no caos.

Evitar a queda não seria dever de deputados e senadores? Quem quiser que faça a opção. Qualquer das duas deixa mal os responsáveis pelo desfecho, mas havia uma terceira solução? O julgamento de Madame é tanto político quanto jurídico. Há menos de um ano ela foi reeleita com 54 milhões de votos, mas qual seria sua votação caso as eleições fossem hoje?

Concluem uns ser insuficiente não gostar de um governo para depô-lo. Outros falam da preservação das instituições postas em frangalhos.

Terá havido desvio de responsabilidade da presidente na origem de seu afastamento? Afastá-la do poder por incompetência? Onde se lê tal dispositivo em nossa lei maior?

Longe de arrefecer, a crise só fará aumentar. Importa pouco lembrar que o impeachment começou como um ato de vingança praticado pelo então presidente da Câmara dos Deputados. Ou que muitos senadores estão votando por interesse pessoal. Como também não esquecer que Dilma Rousseff imaginou-se acima do bem e do mal, detentora de todas as verdades absolutas, sem contas a prestar às instituições nacionais.

Em suma, um xeque-mate num tabuleiro sem peças…




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A MODA PODE PEGAR


Foi um triste espetáculo, a transformação do Senado num hospício. Melhor, porém, que tenha sido na segunda sessão do capítulo final da batalha do impeachment, não no final. Mesmo assim, não há certeza. Pelo menos, quando Dilma Rousseff for depor, segunda-feira, o grupo das galinhas cacarejantes e do galinho maluco não encontrará pretexto para tumultuar os trabalhos. Para Gleisi, Vanessa, Fátima e Lindbergh, entre outros, o objetivo será  transformar Madame em vítima, ainda que Caiado, Renan, Magno e seus pimpolhos estejam preparados para inverter a equação.

O desempenho dos senadores na manhã de ontem, porém, foi uma fraude. Demonstrou que, se algum deus da baderna viesse a suprimir o Congresso de nossas instituições, o país inteiro aplaudiria. Com as exceções de sempre, o Senado suplantou a Câmara na encenação de uma das maiores pantomimas já verificada entre nós.

Será cobrada dos que maiores vexames ofereceram no funcionamento do Legislativo a punição da perda do mandato por qualquer Conselho de Ética. Não merecem representar o eleitorado e a federação.

Salvo inusitados, a tragédia aproxima-se do final. Dilma deve ser punida por permitir a ação da   quadrilha  que evoluiu  a  favor e contra ela.

Há quem imagine a possibilidade de Michel Temer não conseguir cumprir o anseio nacional de recuperação econômica, política e social. Tem gente preparada para apresentar em poucos dias seu pedido de afastamento. A moda pode pegar.

O ministro Ricardo Lewandowski obrigou-se a usar o Poder de Polícia na direção dos trabalhos, mas ficou na promessa. Bem que poderia ter determinado à Polícia Legislativa que conduzisse uns tantos senadores às celas certamente encontradas nos porões do palácio transformado em estabelecimento imoral.



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A DESMORALIZAÇÃO DE SÍSTOLE E DIÁSTOLE, NA REFORMA PARTIDÁRIA


Nunca entendi bem a diferença entre sístole e diástole, ou seja, os mecanismos cardíacos que orientam nosso sangue a fluir com maior ou menor intensidade pelas artérias.  Quem primeiro transplantou essa imagem para a política foi o general Golbery do Couto e Silva, numa de suas complexas análises a respeito do processo de abertura política no governo Ernesto Geisel. A moda pegou e agora assistimos essas variações do fluxo sanguíneo chegarem aos partidos: eles vão ou não vão ser limitados pela cláusula de barreira ou desempenho?

Porque em certos períodos de euforia da reforma política, parece que o Congresso votará dispositivos  draconianos para acabar com a farra das legendas menores e de aluguel, deixando que funcionem apenas cinco ou seis partidos capazes de cumprir  as  rígidas exigências de uma lei nova. Desapareceriam os partidos que apenas se locupletam no Fundo Partidário e de outras fórmulas para seus dirigentes e fundadores ganharem dinheiro, vendendo-se.

O problema é que logo depois segue-se o tempo de varrer para debaixo do tapete  essas propostas moralizadoras, em nome da liberdade de manifestação. Ora o próprio Congresso, ora o Supremo Tribunal Federal, consideram um atentado aos postulados democráticos proibir cidadãos de formar os partidos que bem entendem, mesmo caindo no ridículo do “partido do eu sozinho”. Sem esquecer os pequenos partidos históricos, que não satisfariam as ditas e ansiadas novas exigências, como a de disporem de percentuais significativos nas últimas eleições, espalhados em razoável número de estados.

Resultado: quando determinado projeto encontra-se em vias de virar lei, reduzindo por exemplo o vexame da existência atual de 35 partidos bagunçando a prática política, logo a proposta é rejeitada ou desfigurada a ponto de ser arquivada. E se deputados e senadores sentem-se envergonhados de mandar a proposta para o arquivo, entra em campo o Supremo Tribunal Federal para intrometer-se onde não deveria ter sido chamado.

Estamos numa fase em que a sístole arrefece e a diástole acelera. Ou será o contrario? De qualquer forma, escafedeu-se o veto à proliferação de partidos políticos, coisa que há um mês parecia próxima. Não se fala mais no projeto, entre deputados e senadores. Uns por comiseração e solidariedade, outros por malandragem, a impressão é de que de novo continuaremos com a desmoralização pela existência de cada vez mais partidos.

Somando os que funcionam com os que se encontram em formação e pedido de registro, logo teremos 70 legendas. Convenhamos, um absurdo, em condições de desmoralizar sístoles e diástoles e de promover considerável enfarte no sistema  sanguíneo…




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DE MADAME PARA O MORDOMO, DO SEIS PARA O MEIA DÚZIA


Com 21 votos de senadores o Senado abrirá o processo de impeachment contra a presidente Dilma, já autorizado pela Câmara. A partir dessa decisão, Madame será afastada por 180 dias da presidência da República, seguindo-se o julgamento, dirigido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal. Durante esse tempo, Michel Temer ocupará o palácio do Planalto, podendo nomear o ministério que bem entender e tomar as providências necessárias ao exercício do governo.

A condenação precisará dispor do mínimo de dois terços, ou seja, 54 senadores, quando Dilma será definitivamente afastada. Caso contrário, sem esses votos, ela retorna a seus plenos poderes.

O governo joga na possibilidade de 21 senadores não apoiarem a abertura do processo, e, mais ainda, na impossibilidade de se reunirem 54 senadores favoráveis, numa segunda etapa, coisa que invalidaria o afastamento da presidente. Mesmo derrotada na primeira etapa, Dilma poderia retornar com tapete vermelho, caso vitoriosa na segunda, ou seja, na falta dos 54 senadores para condená-la.

A gente fica imaginando quem compôs essa fórmula confusa e contraditória, quando bastaria determinar que perde o mandato o presidente da República que não contar com a maioria dos votos parlamentares, tomados em conjunto ou isoladamente nas duas casas do Congresso.

Tanto faz, agora, o mecanismo de aferição da performance dos chefes da República. Assim dispõe a Constituição e assim se fará.

O importante é que tudo se resolva no mais breve espaço de tempo possível. Ninguém aguenta mais tamanha balbúrdia constitucional.

Até porque, Dilma ou Michel Temer são vinhos da mesma pipa. Equivalem-se como o Seis e o Meia Dúzia, responsáveis pelo marasmo que há muito tempo nos assola. Saindo Madame, chegando o Mordomo, arrefecerá o desemprego em massa? Diminuirá o custo de vida? Reduzirão as taxas, impostos ou tarifas? Será recuperada a economia, baixarão os juros, aumentarão os investimentos sociais? Crescerão em número e qualidade as escolas, os hospitais e os estabelecimentos penais?

Vivemos uma farsa encenada no país desde que perdemos o sentido da importância das instituições nacionais. Prevalece entre nós a obstinação de levar vantagem em tudo, como nos tempos do velho Gerson, aliás, tão maltratado. As elites pretendem manter-se no controle da nação. As massas, na sua contestação. A classe média, sem saber para onde dirigir-se. A juventude, abandonada. A intelectualidade, perdida. Não será entre Madame e o Mordomo que encontraremos uma solução.



UM PAÍS POSTO EM FRANGALHOS

Jamais se viu vexame maior como o oferecido pelo palácio do Planalto – leia-se dona Dilma e o chamado núcleo duro do ministério – nessa novela de horror do impeachment da presidente da República. Esforçar-se por salvar o seu mandato é dever fundamental de Madame, mas constituiu uma vergonha anunciar a reforma do ministério como chamariz para, quinze minutos depois, garantir que só nomeia novos ministros depois deles terem votado contra o seu afastamento.

Trata-se de chantagem explícita feita contra pequenos partidos e até contra o PMDB. Porque parece digno de Al Capone um deputado encontrar razões para livrar-se da presidente, mas logo depois mudar de lado, garantindo a permanência dela na chefia do governo.

Ignora-se quem fica pior nessa operação de compra e venda, se Dilma ou o deputado que vendeu seu voto. É a prova de que ninguém confia em ninguém. Mais ainda, de  que nem a presidente nem sua base parlamentar ligam a mínima para a administração federal. Ministérios vendidos como filés dão bem a tônica de ser o impeachment uma necessidade. Caso não precisasse de votos para manter seu lugar, ela não estaria loteando seu governo de forma tão vergonhosa.

A situação fica pior quando se percebe a sombra da traição como mola mestra dessa operação ainda pairando sobre a Praça dos Três Poderes: Dilma, ganhando o voto essencial para continuar presidente, e, depois, esquecendo a nomeação; ou, o deputado, sendo nomeado ministro e, em seguida, votando pelo afastamento da presidente.

Como fica o país, diante dessa barganha que faria a alegria de Hitler e Mussolini? Trair compromissos é peculiar à prática política, mas deixar o país exposto à vergonha de não poder acreditar em nada, mais grave ainda.

O PMDB trocou de dirigente máximo, mandando Michel Temer para o banco e recrutando Romero Jucá. A estratégia é poupar o vice-presidente de maiores choques com a presidente, dando-lhe tempo para cuidar da composição de seu futuro governo. Isso na hipótese de se considerar o impeachment como coisa certa. O diabo é que certeza não se tem de nada. Pode ser que os partidários do afastamento venham a precisar de mais um ou dois votos, não na Câmara, ao menos no Senado.

De qualquer forma, ficando Dilma ou entrando Temer, nenhum dos dois terá condições de levar o Brasil até 2018. Serão governos postos em frangalhos, junto com o pais. Só que a solução alternativa é pior: rasgar a Constituição para convocação de novas eleições gerais fora do prazo. Em nome do quê ou de quem? Se impopularidade não é penhor do afastamento de quem foi eleito, como aceitar que solução seja um governo de união nacional?


O PAÍS DESPENCA EM MEIO AO CAOS

Como Advogado Geral da União, José Eduardo Cardoso brilhou. Quer dizer, alinhou profundos argumentos jurídicos para afastar da presidente Dilma a sombra do impeachment. O problema é que deveria ter atuado como ministro da Justiça que não é mais. Traduzindo: a batalha pelo afastamento de Madame é essencialmente política. Chegou à reta final, ou seja, tornou-se inevitável, quando o vice-presidente Michel Temer escreveu estranha carta de rompimento com a presidente. Entraram em campo as alegações políticas, as disputas por espaços de poder, acima e além de supostas discussões doutrinárias, que foram para o banco.

Sendo assim, por maiores elogios dedicados à defesa jurídica feita pelo novo Advogado Geral da União, está em pauta a questão política, de saber quem vai formar e mandar no governo. Os adversários da presidente utilizaram o impeachment por mera comodidade, como instrumento capaz de desalojá-la da capacidade de empalmar o poder. Reagiram por sentir-se alijados da capacidade de nomear ministros e de participar da definição de políticas públicas. Por isso escolheram as armas e o campo de batalha.

Optando pelos meandros da interpretação jurídica, José Eduardo Cardozo desviou o embate sobre quem deve dominar a administração nacional, se a presidente ou o vice-presidente da República, se o PT ou o PSDB. Foi aplaudido, mas deu a impressão de pretender utilizar as regras do jogo de basquete numa partida de futebol. Misturou os objetivos. Será derrotado no primeiro round.

O impeachment segue seu curso, apesar das dificuldades de Dilma reunir o número necessário de deputados para mantê-la no palácio do Planalto. Poderá perder na  guerra dos números, não conseguindo reunir os 172 votos em condições de afastar seu impedimento temporário de 180 dias. Haverá um segundo tempo, é claro, no Senado. Conquistando 40 senadores, estará garantida, mesmo precisando enfrentar um interregno fora da sede do Executivo. Um vexame, mesmo alcançando a vitória no gesto final, coisa que poderá deixar as instituições em frangalhos.

Em suma, os batalhões pró-impeachment parecem muito mais numerosos, na Câmara. Se bastarão para afastá-la pelos 180 dias, é outra história. Enquanto isso, o país despenca em meio ao caos administrativo, econômico e político. Trocar ministros como quem muda de camisa nunca foi solução, muito menos quando não se liga para a capacidade dos infelizes.


TANTO IDEOLOGIA QUANTO FISIOLOGIA


Não passa deste mês a decisão da Câmara dos Deputados de autorizar ou não a abertura do processo de afastamento da presidente Dilma do palácio do Planalto. Autorizado o impeachment, caberá ao Senado a palavra final, sendo que nos 180 dias entre a manifestação dos deputados e a dos senadores, sob a direção do presidente do Supremo Tribunal Federal, Madame reassumirá ou estará definitivamente afastada do cargo.

Hoje, ninguém, em sã consciência, será capaz de prever o resultado. Num, dia parece certa a defenestração. No outro, não se duvida da permanência.

Por esse vai-e-vem conclui-se não ser coisa séria o debate sobre o futuro do país. No fundo situa-se o jogo de interesses rasteiros e espúrios a respeito do controle do poder. Os mesmos de sempre digladiam-se em torno do controle das nomeações, das propinas e da ocupação dos ministérios e penduricalhos. Ficando Dilma, haverá uma varredura em seus adversários, com as óbvias consequências relativas ao aproveitamento da coisa pública. Assumindo o vice Michel Temer, será a mesma coisa, só que ao contrário.

Enquanto isso, senão parou antes, o Brasil encontra-se parado. Ignoram-se os rumos do governo. Fazer o quê diante do desemprego em massa? Do aumento de impostos, taxas e tarifas? Do custo de vida? Da paralisação da atividade econômica e das atenções à educação e à saúde pública? Da segurança da população entregue à bandidagem, não se fala. Muito menos do combate à corrupção, que deixou faz muito de constituir-se em problema do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal. Recompor a Federação, com a salvação dos Estados e Municípios, tornou-se sonho de noite de verão.

Resta o vazio como solução para o embate entre Dilma, Lula, os sindicalistas, o PT e adjacências, de um lado, e Michel, o PMDB, os tucanos e o empresariado, de outro.  A verdade é que dando estes por aqueles, não sobra nada. Não há necessidade de volta, assiste-se a uma refrega entre os seis e o meia-dúzia.

Uma nação dividida como hoje, raras vezes se viu. Há quem fale na necessidade de usar o apagador e começar tudo de novo. Eleições gerais, amplas e irrestritas? Pouco adiantaria, porque as duas correntes permaneceriam as mesmas.

Não dá para imaginar que as definições previstas para este mês, no Congresso, resolverão alguma coisa. Qualquer que seja o resultado entre a presidente Dilma, se puder manter-se, ou o vice Temer, se conseguir assumir, revelará o mesmo racha. Aliás, menos ideológico do que fisiológico.

A ESTRADA PARA LISBOA

Vale repetir história já apresentada. Um turista brasileiro alugou um automóvel em Portugal, para deliciar-se com as belezas do interior luso. Acabou perdendo-se, quando estacionou perto de um camponês. Indagou se aquela estrada ia para Lisboa. Diante da negativa, seguiu adiante, mas logo depois deparou-se com imensa placa: “Lisboa: quinze quilômetros”. Irritado, deu marcha-a-ré e cobrou do patrício a péssima informação. Resposta: “Quem vai para Lisboa é o senhor. A estrada fica aqui...”



ATENÇÃO À VOZ DAS RUAS

Acima e além das gravações de grosseiros diálogos do ex-presidente Lula com metade do governo, inclusive a presidente Dilma; superior à guerrinha suja entre Judiciário, Executivo e Legislativo; mais explosivo até do que o clima verificado na Praça dos Três Poderes, esta semana – chama a atenção um perigoso sintoma envolvendo as instituições.

Depois da presença no país inteiro de seis milhões de brasileiros indignados com o governo, domingo passado, dois dias depois, na terça-feira, assistimos aglomerados populares insurgindo-se nas ruas contra os mesmos responsáveis pela baderna nacional. Diante do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, em  Brasília, além de grupos em outras cidades, o povo entendeu de seguir protestando. “Fora Dilma!” só não teve maior agressividade do que “Fora Lula!” Interpretando: fica difícil para as autoridades constituídas evitar a voz rouca das ruas. A escalada é trágica, se prosseguir nesse diapasão.

Não faz muito tempo que o Comandante do Exército, general Villasboas, numa entrevista nem tão amena assim, declarou haver apenas uma hipótese de os militares saírem dos quartéis: o tumulto ganhar as ruas. Quer dizer, assaltos a supermercados, depredações maciças de patrimônio público, desmoralização da autoridade e similares.

As imagens do povo demonstrando sua profunda irritação não deixam dúvidas, duas noites atrás. Dessa vez, ainda que em número bem menor, mais se pode aferir o esgotamento dos cidadãos comuns. Não foi diante do fracasso dos transportes de massa nem da falta de água, leite ou energia. Muito mais grave é perceber a explosão coletiva atingindo pessoas, governantes, parlamentares e categorias enredadas em atos de corrupção e incompetência. As manifestações atingem mais do que a falta de gêneros ou necessidades pessoais. Vão diretamente sobre carências éticas e morais, ou seja, visam maus e desmoralizados administradores.

Apesar de um reingresso infeliz nos domínios do poder, teria o Lula condições de dar a volta por cima, ou, como virou moda dizer agora, dar um cavalo de pau na viatura? Pode ser que sim. Experiência não lhe falta. No entanto, além de vir a ocupar um lugar subalterno no governo, chega sob a suspeição de enriquecimento ilícito e debaixo de maciça oposição, além de estar obrigado a enfrentar as piores crises econômicas e políticas de nossa História. Precisará carregar nas costas a presidente Dilma, anda por quase três anos.

De qualquer forma, é bom prestar atenção. Agora, também, para a voz das ruas.



O GATO COMEU...

Afinal, o ex-presidente Lula vai ou não vai para o ministério? Há duas semanas que se especula a hipótese. De segunda-feira para cá, no entanto, o noticiário entrou em paroxismo. “Lula está em Brasília”, “Viajou para São Paulo”, “Voltou”, “Reuniu-se com Dilma até de madrugada”, “Foi sabatinado por senadores do PMDB e do PT”, “Ocupará a coordenação política”, “Cuidará de reformar a política econômica”, “Assumirá  a presidência da República”,  “Transformará a presidente Dilma em Rainha da Inglaterra”, “Voltou para São Paulo”, “Não resistirá até 2018 morando em Brasília”...

A verdade é que até ontem de manhã ninguém ousava acreditar em nada, apesar das sucessivas reuniões da titular e seu padrinho. A principal argumentação referia-se à lambança capaz de atingir a Praça dos Três Poderes: quem mandará no país? Que novos planos ou programas substituirão o vazio em que o governo se transformou?

Mas tem mais: o ex-presidente será aquinhoado com um ministério apenas para escapar do julgamento pelo juiz Sérgio Moro, já que como ministro terá direito a foro  especial, junto ao Supremo Tribunal Federal? Será a mais alta corte nacional de justiça mais leniente do que os juizados de primeira instância?

A dança do Lula em torno do governo seria cômica se não fosse trágica. Ou melhor seria dizer a dança do governo em torno do Lula? Nas últimas semanas, coincidência ou não, o ex-presidente arcabuzou diversos ministros, de Joaquim Levy a Aloysio Mercadante, ainda agora sujeito a um repeteco. Suas divergências com Madame costumam ser ocultas no particular, mas no conjunto parece a causa da hesitação que até agora se verifica.

O diabo é que carecemos de um programa ou plano de governo. Em nossos tempos de criança, muitas décadas atrás, utilizava-se a expressão “o gato comeu” para responder questões feitas pelos filhos e impossíveis de ser respondidas pelos pais. Pois agora o artifício se aplica: o ministério do Lula? O gato comeu...

ESTÃO CHEGANDO

Nem só de lava jatos vive a Polícia Federal. De um de seus escuros gabinetes especializados em revelar depoimentos sigilosos chega uma indicação: por que nosso mais especializado departamento de investigações acaba de convidar os mais experientes detetives do planeta? Afinal, estão desembarcando em Brasília: Sherlock Holmes, Monsieur Maigret, Hercule Poirot, Miss Marple, tenente Columbo, Padre Brawn, James Bond, Salvo Montalbano, Sam Spade e George Smiley. Conseguirão ajudar Madame?



TEMER SOBREVIVERÁ

O Abade Sieyès era Vigário-Geral de Chartres e publicou o livro “O que é o Terceiro Estado?”, precursor da Revolução Francesa, que liderou por muito tempo, no Clube dos Jacobinos, na Convenção e no Comité de Salvação Pública. Acabou caindo em desgraça e terminou presidente do Senado e Consul, esmagado por Napoleão. Proscrito, só  em 1830 retornou à França. Quando lhe perguntaram o que fez durante o “Terror”, respondeu: “sobrevivi...”

A História não se repete senão como farsa, ignoramos o que vem por aí, mas o nosso Abade Sieyès tem nome e endereço: chama-se Michel Temer e mora no Palácio do Jaburu. Por enquanto, uma vez que sua carreira política aproxima-se do exílio e passa raspando pela desgraça. Tomara que se livre da guilhotina e termine Conde, como o religioso.

Temer fez sua carreira como constitucionalista e sempre pertenceu ao PMDB. Tornou-se vice-presidente da República na formidável virada que o fez companheiro de chapa de Dilma Rousseff no primeiro e segundo mandatos, posicionando-se como primeiro candidato ao terceiro. Seria presidente da República, mantida como certa a aliança do PT com o PMDB, em 2018. De repente, a débâcle. Explica-se: ficou claro que por conta de sítios e de triplex o Lula perdeu as chances de disputar o palácio do Planalto mais uma vez, ficando Dilma impossibilitada constitucionalmente de disputar de imediato outro mandato. Sem ela e com o Lula fora do páreo, os companheiros não teriam outra alternativa senão o nosso Abade Sieyès. O diabo é que para sustentar-se como herdeiro do trono, ele precisaria dela. Apenas com performance no mínimo razoável de Madame, no segundo mandato, seu vice-presidente surgiria como solução natural.

Só que... Só que Dilma tem sido um fracasso. Logo depois de reeleita, ano passado, tornou-se a antítese do que vinha sendo. Na campanha, prometeu montes de realizações econômicas, políticas e sociais, mas não realizou nenhuma. Pelo contrário, continua desapontando. Por mais que seu vice continue falando em união nacional, a presidente configura a desunião.

Como conclusão, nem ela, por impossibilidade legal, nem ele, por falta de sustentação, chegam lá. Caso perguntem a Temer o que fará depois que algum outro candidato vencer, terá condições de responder, ao menos, “sobrevivi?...”




ROQUE OU PONTAPÉ NO TRASEIRO

A demissão de José Eduardo Cardoso do Ministério da Justiça demonstrou outra vez que a presidente Dilma, se nunca mandou, manda menos ainda. Madame não provocou aquilo que em xadrez se chama “roque”, a troca de uma peça pela outra em pleno tabuleiro. Pareceu mais uma simples briga de moleques, ou melhor, um chute no traseiro. Do mais forte no mais fraco, é claro. A dispensa quis levar à conclusão de que o mais antigo ministro do segundo governo do PT saiu vitorioso ao trocar a Justiça pela Advocacia Geral da União. Mentira. Não aguentou a pressão do Lula e do PT, que queriam vê-lo pelas costas por conta da vontade de afastar a Polícia Federal da Operação Lava Jato.

Há um ano, pelo menos, forçavam sua defenestração. Queriam, Lula, PT e a torcida do Flamengo, que calasse a Polícia Federal, impedindo a abertura de sucessivos inquéritos contra os ladrões da Petrobras, do partido e das empreiteiras. Quando as investigações avançaram sobre ministros e chegaram a ameaçar o próprio Lula, deram o xeque-mate na presidente: ou afastava José Eduardo Cardoso ou romperiam com ela.

Mais uma vez, Dilma cedeu. Assim como no caso de Aloizio Marcadante, preferiu sacrificá-lo, tirando-o da chefia da Casa Civil e comprando-lhe bilhete para o Ministério da Educação.

MILTON CAMPOS

Lembra-se uma história em que Milton Campos era ministro da Justiça do marechal Castello Branco. Os militares agitavam-se para impor mais virulência e radicalismo. O velho professor de Democracia resistiu o quanto pode, mas em dado momento entregou ao presidente sua carta de demissão irrevogável. E justificou: “Posso adotar a única iniciativa que V. Excia não pode…”

José Eduardo Cardoso levou mais de um ano para decidir-se. Saiu mal, mas como em situações análogas, também acabou saindo…

A pergunta que se faz é até quando Lula e seu bando resistirão tentando livrar-se dos processos de tanta sujeira praticada à sombra dos negócios da Petrobrás, do PT, dos empreiteiros e do próprio Lula. Botar a culpa na Polícia Federal apenas aumentará a culpa de cada um. Trocar de ministro somente irá estimular os federais a investigarem mais.



O DR. ULYSSES ENCONTROU UM TAXI



Vindo de São Paulo, toda segunda-feira pela manhã o dr.Ulysses chegava a Brasília. No aeroporto, esperava-o o fiel motorista, para o ritual de todas a semanas:”boa viagem, deputado? Dê-me sua valise.  Vamos para onde?”

Uma gravação não responderia melhor,  ainda que com o passar dos anos o endereço variasse: o apartamento simples de deputado, a mansão de presidente da Câmara e eventualmente o palácio do Planalto, quando substituía o presidente José Sarney durante suas viagens ao  exterior. Numa  temporada morou no apartamento oficial do senador Nelson Carneiro, seu colega do PSD, que havia sido  acometido de uma isquemia cerebral transitória. Estava solteiro e não podia dormir sozinho. Seus amigos do antigo partido tiraram no chapéu e no papelzinho a “sorte” para saber quem moraria com ele no imóvel para saber quem tomaria conta de sua saúde.

Em todas as viagens a vetusta resposta era a mesma: “vamos para casa, meu caro..”  De lá,  após trocar de roupa, a semana não mudava: seguia para a Câmara, onde ocupava a presidência da Casa,  a presidência da Assembleia Nacional Constituinte e a presidência do PMDB. Almoçava e jantava no restaurante Piantella, com grupos de amigos, sem dispensar o “poire”, seu aperitivo preferido.

Certa segunda-feira, o “velho”  chegou adiantado ou atrasado, não encontrando o motorista. Esperou cinco minutos e, apressado como era, pegou um taxi.  “Para onde, dr.Ulysses?” “Ora, para casa, meu caro.”

O profissional tomou o caminho do Plano Piloto mas perdeu-se nas entradas das vias, pois não sabia a que superquadra dirigir-se. Nem o dr. Ulysses, que de Brasília entendia muito pouco. Várias voltas foram dadas e ele acabou mandando rumarem para a  Câmara.

A historinha se conta  a propósito de situações onde os improvisos substituem as necessidades, desde que naturalmente ordenada com as contingências.

A presidente Dilma anda desarvorada, e não apenas em Brasília, que conhece menos do que o dr. Ulysses, mas no Brasil.  Não sabe para onde dirigir-se, se é para combater o desemprego. No Palácio do Planalto, quem convocará para traçar um programa de pleno emprego?  O tal Congressão deu em nada, sem que Madame apresentasse um roteiro de obras públicas ou recebesse um elenco de iniciativas do empresariado, dos sindicatos, das regiões, dos partidos políticos ou das universidades. Câmara e Senado dão-se as costas. Os militares aguardam um chamado que felizmente não virá.

Enquanto isso, sobem impostos,  taxas e tarifas, multiplica-se o custo de vida, saúde e educação públicas caem no despenhadeiro e as esperanças de melhoria ganham o espaço. Falta o dr.Ulysses, que mesmo sem ter sido presidente, encontrou um taxi...


REFORMAS E REFORMAS, SEMPRE CONTRA O TRABALHADOR

Em 1963, ao recuperar seus poderes de presidente da República, João Goulart desenvolveu intensa campanha pelas reformas de base, interrompida por sua deposição pelos militares. Naqueles idos, estimulado pelas esquerdas, era pelo que a maioria do país clamava: participação dos empregados no lucro das empresas, salário-família, estatização das indústrias ligadas ao desenvolvimento, reforma agrária com a extinção dos latifúndios, voto do analfabeto e dos subalternos das forças armadas, fim do ensino privado, limitação da remessa de lucros e outras iniciativas de caráter socializante. Nos meios de comunicação só se falava das reformas, que as elites engoliam, mesmo já conspirando contra o governo.
O vento mudou de rumo, as reformas foram para o espaço, conquistas sociais estabelecidas desde os tempos de Getúlio Vargas acabaram revogadas, como a estabilidade no emprego.
Pois não é que volta-se a cogitar das reformas? Só que de cabeça para baixo. Ao contrário, apesar de o rótulo permanecer. As elites querem completar sua obra, extinguindo o que sobrou do desmonte, ironicamente com o silêncio e até com apoio das massas. Ou de seus ditos representantes.
MUDAR A PREVIDÊNCIA
Vão reformar a Previdência Social, mas para reduzir pensões e aposentadorias, sob o argumento de que dão prejuízo. Aplicam o raciocínio de que tudo deve dar lucro e também vão revogar a indexação salarial, expediente adotado pelos governos militares para o povo não morrer de forme, ou seja, os salários vinham sendo corrigidos de acordo com a inflação. Não será mais assim. Pior para o assalariado. Também anunciam a flexibilização dos direitos do trabalhador, que significa poder o empregador ditar as regras de trabalho sem obrigações. Atuará de acordo com o mercado, podendo suprimir indenizações e pagando o que bem entender.
Convenhamos, existem reformas e reformas. Vivemos o período das maldades reformistas. E sob a égide de um governo pretensamente do Partido dos Trabalhadores, agora empenhado em aumentar e criar novos impostos, como se administração pública não se assemelhasse ao sistema dos vasos comunicantes que aprendíamos nas primeiras aulas de física. Se a Previdência Social dá prejuízo – e não dá – o Imposto de Renda dá lucro.



O RISCO DA DERROTA OU SALTAR DE BANDA

O crime não é comprar um apartamento, mesmo de luxo, a preço incompatível com a renda do comprador. Crime  é permitir que uma empreiteira envolvida em corrupção com dinheiro da Petrobras se encarregue das obras de reforma e complementação do imóvel, sem ônus para o proprietário. Fica evidente a relação entre a empresa e o beneficiário, em especial se ele foi presidente da República e favoreceu a outra parte  flagrada pela Justiça praticando  negócios ilícitos como  superfaturamento de contratos, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, entre outros. Sobre o Lula pesa a acusação  de ocultação de patrimônio.  É  o  que  deve enfrentar, prestes a ser denunciado pelo Ministério Público de São Paulo. A empreiteira OAS assumiu a construção do empreendimento e entregou as chaves do imóvel ao ex-presidente da República sem que até agora ele tenha provado que pagou pelo serviço.

Cabe ao PT defender seu criador? Por questão de lealdade, não. Afinal, o partido nada tem a ver com as atividades privadas do Lula. As conferências que pronunciou, as viagens que fez ao exterior, financiadas por empresas cujos interesses defendeu junto a governos estrangeiros, incluem-se no rol das práticas contrárias à imagem que deveria preservar. A cada dia, como agora no caso do apartamento triplex  no  Guarujá, surgem novas denúncias de malfeitos debitados à ação irresponsável do Lula.

A pergunta que se faz é se, condenado ou não em longos e  arrastados processos na Justiça, ele terá o respaldo dos companheiros para candidatar-se à sucessão de Dilma Rousseff, em 2018. Tudo indica que se tiver vontade, será lançado, mas enfrentará profunda reação de seus adversários. Precisará defender-se em cada palanque ou debate a que compareça.  Correrá o risco de rejeição em suas próprias bases.

Será diante dessas dúvidas que o Lula decidirá. Claro que voltar a ser presidente constitui seu principal objetivo, mas disputar sem a certeza da vitória constituirá um risco.  Ainda mais frente a uma performance mais do que sofrível da sucessora, que precisará contestar caso eleito. Há quem recomende que salte de banda, mesmo sem perspectiva de ser substituído por outro companheiro.

Em suma, o ex-presidente não está premido pelos fatos. Há tempo para decidir-se. Mas entre correr o risco da derrota ou saltar de banda, sempre haverá o sonho de reviver tempos que possivelmente não voltam mais.



O MAIS RICO DOS CARNAVAIS

O costume tem sido programar o Carnaval com bastante antecedência. Como agora, porém, jamais aconteceu.  Porque  logo depois de encerrado o  desfile da última escola de samba, daqui a duas semanas, a turma já começou a trabalhar para o próximo, de 2017. Por conta da crise que nos assola, mudanças estão sendo engendradas. Novas escolas se organizam, antes mesmo de as atuais terem pisado o sambódromo.

“Unidos do Lava Jato” é uma escola em formação que pensa arrebentar as arquibancadas  com o samba enredo “Não Sobrou Ninguém”, entoado pelo coro da Papuda. O destaque vai para a “Ala dos Delatores”. A “Bateria das Empreiteiras e dos Advogados” empolgará o público pela riqueza de recursos já postos à sua disposição.

Também forte candidata ao  primeiro lugar,  seguir-se-á a “Estação Primeira dos Depósitos no Exterior”, com a Comissão de Frente composta por ex-deputados e senadores então destituídos de seus mandatos, exibindo recibos de repatriamento  de grandes  fortunas e distribuindo notas de  dólar para a plateia.   Fantasiados de Irmãos Metralha  desfilarão   os que contribuíram para a desvalorização do real, seguidos por singular  bateria, onde  em vez de bumbos, seus integrantes portarão elegantes maletas de couro com ressonância especial.

Lugar de honra será ocupado pela “Escola dos Companheiros do  Ali Babá”, muito mais do que 40,  com o bloco “Dólar na Cueca” dando passagem aos “Abandonados Pelos Chefes”, coro de lamentações destinado a arrancar lágrimas da assistência.  Para compensar a tristeza,  um  carro alegórico  na forma de  imenso jatinho, ocupado por  beldades peladas que homenagearão  as rosas e cantarão  “Está Faltando Um”.

Os planos vem sendo elaborados em completo sigilo, por isso as informações são curtas, a ser confirmadas apenas no próximo ano, ignorando-se quais os novos grupos em preparação e, acima de tudo, os seus patrocinadores. Uma coisa, porém, é certa: será o mais rico  carnaval de todos os tempos, mesmo sob o risco de ser financiado  do fundo da cadeia.


“SÓ VOLTEM QUANDO OS BOCHES NOS INVADIREM OUTRA VEZ!”

O general Charles De Gaulle assumira pela segunda vez o governo da França e virou o país de cabeça para baixo, restabelecendo a dignidade de sua nação. A partir de 1958, impôs um presidencialismo imperial, deu independência à Argélia, produziu a bomba atômica, forjou a união europeia, reconheceu a China Comunista e quanta coisa a mais?
O orgulho francês o empurrou contra os Estados Unidos. Num gesto tão surpreendente quanto os demais, expulsou a OTAN de Paris. O New York Times apresentou a mais contundente caricatura a respeito daqueles idos. Mostrava um humilhado soldadinho americano, de fuzil e capacete, sendo posto porta a fora por um De Gaulle arrogante que dizia: “vai embora e só volte quando os boches nos invadirem novamente!” A referência era para as duas vezes, em 1914-18 e 1939-45, em que os Estados Unidos salvaram a humilhada França.
NÃO PASSA DE FEVEREIRO
Mesmo em recesso, o Supremo Tribunal Federal fornece algumas indicações, a maioria provindo dos gabinetes onde os ministros não estão, mas seus principais auxiliares continuam funcionando. Pelo jeito, a mais alta corte nacional de justiça está pronta para degolar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha.  
O VEXAME DAS ESQUERDAS
As esquerdas foram para o poder  com João Goulart, vendo-se postas para fora por um golpe militar, em 1964. O tempo passou, veio a democracia e o PT acabou de novo no governo, com Lula e, depois, Dilma. Só que o país se encontra em frangalhos. Arrasado. São negados os princípios e ideais que levaram o PT ao poder. Ao contrário do que pregavam, eles suprimem direitos sociais, comprimem salários, aumentam juros, beneficiam a especulação e as elites, geram o desemprego, elevam impostos, degradam os serviços públicos, favorecem o latifúndio e metem a mão nos dinheiros públicos. Fizeram o oposto do que pregaram. Logo virá a revolta e o que vamos fazer? Chamar a direita não dá. Afinal, é a receita dela que os companheiros aplicam.  
Falta ao país um projeto acorde com as necessidades nacionais. Capaz de atender não apenas as massas, mas a classe média e a população em geral. Adianta pouco ficar atrás de outro partido para substituir o PT. São todos iguais, ou seja, incompetentes. Nossa memória é curta, mas fica impossível esquecer o governo dos tucanos, quando  Fernando Henrique ensaiou aquilo que Lula e Dilma, ironicamente, aplicam outra vez.
Que forças disporiam de condições para dar a volta por cima? De governar para a maioria? Não dá para pensar nos militares, já tiveram sua oportunidade e deu no que deu. Melhor pensar rápido, quem sabe acionando as universidades?

NEM UMA PALAVRA SOBRE A IMPUNIDADE




Nunca se viu sujeira igual à que escorre das delações premiadas dos últimos meses, dentro da Operação Lava Jato e adjacências. Dos delatores mais recentes, não escapa a acusação sobre nenhum presidente da República, exceção dos anos em que Itamar Franco exerceu o cargo. Os maiores beneficiados dessa operação tem sido os delatores, por sinal os formadores de quadrilha, os mais ladrões, com raras exceções. O último exemplo é o tal Cerveró. Não dá para entender porque ele e o bando dos assaltantes dos cofres públicos gozam de tantas regalias, como prisão domiciliar, férias de Natal e Ano Novo e regime prisional especial para os que ainda não se livraram das grades.
A Polícia Federal, o Ministério Público e até certas instâncias do Poder Judiciário fazem o dever de casa, mas são tantas as brechas da lei que a maioria dos meliantes sob processo situa-se em patamar especial. Oldbretches e Dirceus ainda respondem pelo mal praticado, mas no mundo político sobram acusações óbvias de crimes sem punição para os autores denunciados. Pelo contrário, eles disputam ainda maiores espaços de poder, debaixo da complacência do poder que deveria abrir investigações e puni-los.
Essa seria a primeira mudança institucional de vulto a ser promovida para o país sair do lamaçal onde se encontra. A lei precisa não apenas ser dura, mas igual para todos. Do ladrão de galinha ao assaltante e o assassino, quem respondeu a processo e foi condenado costuma sofrer as penas correspondentes. Exceção, é claro, daqueles capazes de comprar a liberdade pelo dinheiro ou a influência.
Por que, então, essa nova classe de bandidos mantém-se à margem da correnteza? Porque são eles não apenas a fazer as  leis, mas a valer-se de suas brechas que há muito precisariam ter sido vedadas. Encontram-se imunes até ex-presidentes da República, atuais presidentes do Senado, na Câmara, parlamentares, ministros e ex-ministros, sem esquecer antigos e atuais governadores. Seria constrangedor citá-los, mas basta ler os jornais do dia. Enquanto a impunidade continuar encontrando  espaços para manter-se e até expandir-se, continuaremos uma nação dupla: a dos que pagam e a dos que se mantém imunes.
Agora que começam a ser antecipadamente discutidas as preliminares da sucessão presidencial de 2018, com tantas especulações vãs e inconsistentes, torna-se necessário indagar porque não apareceu, até agora, um pré-candidato disposto a sustentar que lugar de ladrão – qualquer ladrão – é na  cadeia. Nenhum dos nomes sugeridos disse uma única palavra a respeito do que fazer para interromper a impunidade. Se a falha está na complacência da lei, que se mude a lei. De preferência pelo voto.
O que fará Aécio Neves se porventura eleito? Protegerá tucanos envolvidos nas tramoias do período em que Fernando Henrique governou o país? Geraldo Alckmin terá coragem para denunciar e mandar punir correligionários mergulhados em negociatas ainda hoje denunciadas em São Paulo? E José Serra, continuará preocupado em recuperar as finanças nacionais sem atingir políticos e empresários dispostos ao redor de sua candidatura? O Lula, ele mesmo arcabuzado na família e nos fiéis companheiros, permanecerá recomendando olhar o futuro e esquecer o passado? Michel Temer insistirá na proteção aos membros da quadrilha que forma ao seu lado? Ciro Gomes irá poupar líderes corruptos de seu novo partido empenhados em fazê-lo candidato? Marina Silva poupará os ambientalistas favoráveis à depredação da natureza, desde que apoiando sua nova tentativa de levá-la ao Planalto? A relação parece não ter fim, quando se  chega a Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado e outros pretendentes que se disponham a transformar o Brasil sem transformar suas concepções. Permanecem mudos. Uma palavra que seja para extirpar a impunidade bastaria para destacá-los dos demais, mas qual deles se dispõe?


O CRIME JÁ FOI PRATICADO

A presidente Dilma completou ontem o repasse de 72,5 bilhões de reais para o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e outros bancos públicos, dinheiro que havia retirado de seus cofres para equilibrar as contas do governo. Assim, Madame livrou-se das acusações de haver apelado para recursos ilegítimos que a lei proibia, imaginando escapar do processo de impeachment aberto contra ela no Congresso.
O diabo é que o crime já havia sido praticado, mas tem pior nessa equação contábil.  Só no Rio, para não lembrar outros Estados, a saúde pública encontra-se em frangalhos, com a população à míngua, amontoada sem tratamento em filas na porta de hospitais e postos de saúde.
Os 72,5 bilhões serviram para equilibrar as despesas dos estabelecimentos oficiais ou para  evitar o sofrimento dos fluminenses abandonados e entregues à própria sorte, sem médicos, enfermeiros, remédios e equipamento imprescindível à própria sobrevivência?  No Rio e no restante do país.
O que teria sido melhor?  O desvio ou o uso da quantia desviada para minorar as agruras da população?  A quem deve atender o poder público? Ao cidadão carente ou ao governante em vias de perder o mandato e parar na  cadeia? Pior ainda quando se conclui que o rombo nas contas públicas não se limitou aos 72,5 bilhões, pois em 2015 alcançou 118, 6 bilhões.
Evidência maior inexiste de incompetência administrativa, em especial se puder ser aferida a quantia surripiada pela corrupção na Petrobrás e demais empresas públicas. Já tem gente presa, entre políticos, parlamentares, empreiteiros e altos funcionários, mas até agora não se conseguiu somar o quanto foi desviado.  Provavelmente muito mais do que 118.6 bilhões. Há quem calcule acima de trilhões. Será que  os ladrões poderão devolver? Conseguirá o governo aplicar o dinheiro roubado em benefício da sociedade?
Ontem, último dia do ano, tudo continuou subindo, dos transportes coletivos ao dólar, da inflação aos gêneros de primeira necessidade. Dos impostos à taxas e tarifas, os alugueis e os combustíveis. Menos os salários. Parece evidente que nada vai mudar.




NO PORTÃO DO PLANALTO: “MUDOU-SE”

Até quinta-feira, último dia do ano, podem chover previsões de toda ordem a respeito de 2016. Estão a postos videntes, cartomantes, pais-de-santo e toda a variada fauna de leitores do futuro, empenhados em impressionar os incautos e até faturar um dinheirinho extra. Neste limiar da passagem do tempo, porém, tornam-se necessárias vastas doses de cautela. A ninguém será dado prever o que vem por aí, ao menos em sã consciência.
A presidente Dilma, para começar, tem certeza de poder dar a volta por cima e retomar tanto a eficiência do governo quanto a popularidade? Se disser que sim, estará enganando ela mesmo, além de todo mundo. Até agora não se animou a preparar um programa de ação capaz de devolver confiança à sociedade. Fará o que, de concreto, para interromper o desemprego em massa? Uma terceira via do programa nacional de crescimento, depois do fracasso dos dois primeiros? Ousará mandar reduzir impostos, taxas e tarifas? E a inflação e o custo de vida? Ampliará direitos sociais?
Que tipo de mensagem Madame estará preparando ao país, se é que vai mesmo ocupar uma cadeia de rádio e televisão? Para ela, confiscar panelas parece tão impossível quanto transitar pelas ruas. Pior ainda será acreditar na fantasiosa “passeata dos cem mil” anunciada para janeiro, em Brasília, de repúdio ao seu impedimento.
GOVERNO EM FRANGALHOS
O governo anda aos frangalhos, não se tem notícia de um ministro, sequer Nelson Barbosa, em condições de anunciar mudanças de vulto na política econômica. É como se a estratégia atual fosse copiada do avestruz, aquele que esconde a cabeça na areia em meio à tempestade. Ganha uma passagem aérea só de ida para a capital do Estado Islâmico quem recitar o nome de todos os ministros da administração federal, quanto mais um projeto ou uma obra que seja, de cada um.
O Ano Novo vem sendo escondido no fundo de um buraco, como se ignorá-lo parecesse melhor aos detentores do poder. O diabo é que depois de 2016 virão 2017 e 2018. O Partido dos Trabalhadores não dá sinal de vida, muito menos as centrais sindicais antes funcionando como tijolo de sustentação do muro hoje em ruínas. O empresariado lava as mãos, a classe média desembarcou, a juventude envelheceu e a inteligência ficou burra. A impressão é de estar pregada no portão de entrada do palácio do Planalto a tabuleta de “mudou-se”.

CINCO DIAS PERDIDOS

Faltava o Judiciário. Agora não falta mais. Também o Supremo Tribunal Federal, melhor dizendo, um de seus ministros, acaba de deixar  dúvidas sobre suas obrigações constitucionais. Edson Fachin, alta noite de terça-feira, concedeu liminar para interromper o processo de impeachment da presidente Dilma. Claro que  dependendo  da concordância da maioria de seus companheiros, em sessão plenária marcada para a próxima quarta-feira.  Se não havia certeza  para sua decisão, por que mandou interromper tudo? Por que não sugeriu que as coisas  se resolvessem na sessão de ontem, também quarta-feira? Adiou por cinco reuniões o início da questão que vem paralisando os demais  trabalhos da Câmara e deixando o governo imobilizado para cumprir seu dever de governar.

Acresce a hipótese de a liminar ter caracterizado a interferência de um dos poderes da União sobre outro. No caso, o Judiciário  atropelando o Legislativo. E sem  a certeza de ter a iniciativa sido tomada de acordo com a Constituição e as leis, tanto  que  Edson Fachin submeteu sua  sentença  preliminar à opinião  dos dez outros ministros. E em especial,  não anulou a votação já realizada para compor a comissão encarregada de decidir se a presidente Dilma deve ou não   responder a processo de impeachment. Se 272 deputados optaram que deve, e 199 que não, tratou-se de um ato da economia interna da Câmara.  Os derrotados apelaram ao  Supremo menos para dirimir a dúvida sobre voto secreto e voto aberto, mais para estender por mais tempo a tertúlia  que pode atingir o mandato de Madame. Entenderam, esses derrotados,  que muitos colegas deixariam de votar pela condenação caso obrigados a botar o pescoço de fora. Uma suposição não comprovada, mas suficiente para adiar por uma semana a decisão que imobiliza Brasília e pelo   jeito o Brasil.

Promover votações no âmbito de suas atribuições parece  ser prerrogativa dos deputados, mesmo havendo verdadeira batalha campal entre eles, relativa ao voto secreto ou aberto.

Até a próxima quarta-feira todos os braços estarão cruzados, ainda que, vale repetir, a votação não tenha sido anulada, mesmo secreta. Salvo melhor juízo e com todo o  respeito, o plenário da mais alta corte nacional de justiça poderá contrariar a opinião do ministro Fachin.  O resultado então ficará  limitado  à perda de cinco sessões, ou seja, cinco dias sem novos capítulos nessa novela de horror encenada na Praça dos Três Poderes.

Quanto ao péssimo espetáculo de violência explícita oferecido por razoável número   de deputado e deputadas,  entre socos, cabeçadas, palavrões e depredações, fica apenas a saudade de outros tempos. Também, fazer o quê os que aplaudiram Ulysses Guimarães e agora assistem Eduardo Cunha?



IMPOSSÍVEL HAVER HARMONIA NA CAVERNA DO ALI BABÁ

Tudo indica que se não decidiu ontem à noite, não demora muito, talvez não passe de hoje, a iniciativa do presidente Eduardo Cunha, de dar seguimento ao pedido de impeachment da presidente Dilma. Pioraram as relações entre a Câmara e o palácio do Planalto, atravessadas pelas denúncias da Procuradoria Geral da República e as ações do Supremo Tribunal Federal contra parlamentares, a começar pelo senador Delcídio Amaral, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, entre outros.

Resumindo este inusitado fim de ano: mais do que a confusão, a crise é geral. A desfaçatez também. Todos procuram saltar de banda, defendendo-se de acusações cada vez mais óbvias de participação em trapalhadas. O presidente da Câmara só faz rebater, e mal, as denúncias que o enrolam sempre mais, encontrado-se a um passo de perder a função e até o mandato. Atrás das grades, o ainda senador Delcídio Amaral parece decidido a jogar barro no ventilador, abandonado que foi pelo Lula, pelo PT e agora pela presidente Dilma, através de entrevista concedida em Paris por força de uma confusão no trânsito, na hora de os presidentes ingressarem no centro de convenção Le Bourget, onde se realizaria a abertura da conferência do clima. Quer dizer, nem os franceses escapam.

AINDA PIOR

Se a última semana transcorreu sob a égide da falsa inocência de todo mundo, a atual dá a impressão de ser pior. Passarão todos a acusar todos, como se fosse possível a harmonia dentro da caverna do Ali Babá. Nem o Tribunal de Contas da União escapou, com a candidatura à reeleição de seu presidente, Aroldo Cedraz, submetido a uma sindicância interna por tráfico de influência de um filho nos julgamentos daquela corte.

Ninguém se entende no Congresso e no governo. Nos partidos, até que as oposições poderiam tirar proveito, mas continuam incompetentes. Já era para terem sugerido passar o apagador no quadro negro, ou seja, liderarem a proposta de eleições gerais em todos os níveis, para o país recomeçar. Senão ontem, ao menos hoje.

Enquanto isso, o desemprego aumenta, o custo de vida também, vai faltar dinheiro até para as eleições eletrônicas do ano que vem. Breve os serviços de água, luz e telefone serão paralisados por falta de pagamento do poder público. Em suma, não se tinha notícia de lambança igual na República.

VESTIMENTAS APROPRIADAS

Até o outrora correto Itamaraty não escapa. Jovens diplomatas contam que durante um debate sobre vestimentas apropriadas, num encontro de trabalho, um chefe tirou a roupa, ficou de cuecas para demonstrar que quando o figurino é pouco, chama a atenção.

A ser verdadeiro esse episódio, relatado no Globo de ontem, melhor seria chamar o Barão do Rio Branco de volta. Nossas representações lá fora estão sofrendo tanto de falta de recursos que nem as contas de água, luz e telefone vem sendo pagas.




PIOR PARA EDUARDO CUNHA, SE A CRISE POLÍTICA VIRAR CRISE SOCIAL


Caso verdadeiras as anotações apreendidas pela Polícia Federal na casa de um assessor de Delcídio Amaral, não apenas o ex-líder do governo será condenado a pena de cadeia pelo Supremo Tribunal Federal e perderá o mandato por iniciativa da maioria do Senado. Também se verá fulminado o deputado Eduardo Cunha, apontado na mesma documentação como tendo recebido 45 milhões de reais do banco BTG-Pactual pela aprovação de medida provisória de interesse da entidade financeira. Esse dinheiro teria sido dividido com outros parlamentares, igualmente empenhados na tramitação da MP.
Pelo jeito, dessa vez o presidente da Câmara não escapa, na hipótese da comprovação de mais essa denúncia endossada pelo Procurador Geral da República. Os rumores são de que dois senadores e alguns deputados teriam participado da distribuição dos recursos provenientes de vantagens votadas no Congresso em favor do referido banco.
Hoje, o Conselho de Ética da Câmara decidirá sobre a admissibilidade do processo de cassação de Cunha por quebra de decoro parlamentar. Há divisão entre os deputados, sendo provável que a questão só se decida no plenário da Câmara.  Tem diminuído o número de partidários do deputado fluminense, mas, mesmo assim, sua bancada ainda é forte.
A sucessão de denúncias de conluio entre parlamentares, ministros, ex-ministros e dirigentes de empresas públicas chegou a limites nunca antes alcançados. Quem mais se desgasta é o governo da presidente Dilma, cujo silêncio não contribui em nada para evitar a perda de sua credibilidade e popularidade. Na dependência da decisão do Conselho de Ética poderá o deputado Eduardo Cunha valer-se da derradeira carta que traz na manga, a possibilidade de mandar tramitar um pedido de impeachment contra Madame, que tornaria o clima político ainda mais tórrido. Só depende dele,  como presidente da Câmara, dar sequência ou mandar arquivar a representação.
QUASE PARANDO
Enquanto isso, o governo anda devagar, quase parando. O desemprego só faz aumentar, os projetos de interesse do palácio do Planalto ficam nas gavetas, os impostos e o custo de vida aumentam e até os programas sociais se ressentem. Há quem suponha estar próxima a transformação da crise política e econômica em crise social. Despencam os percentuais de aprovação do PT e do próprio ex-presidente Lula, que admite disputar as eleições de 2018, mas apenas se dispuser de um mínimo de possibilidades de vitória.
SÓ PENSAVA EM COMER…
São preciosas as informações e análises apresentadas pelo ex-presidente Fernando Henrique no primeiro volume de “Diários da Presidência”, narrativa pormenorizada dos primeiros dois anos de seu governo. Como curiosidade destacam-se os registros quase diários de suas refeições. Almoços com uns, jantares com outros, fica evidenciado o prazer do sociólogo em cuidar do estômago. Mesmo entre elogios a seus ministros e outras personalidades do mundo político, a narrativa é plena de farpas e criticas a meio mundo.  Muita gente não está gostando, em especial se os próximos três volumes mantiverem o mesmo diapasão.

MISTÉRIOS DENTRO DE ENIGMAS CERCADOS POR CHARADAS


Do presidente do partido, Rui Falcão, ao ex-presidente Lula, passando pela presidente Dilma e os ministros petistas – todos optaram por lançar Delcídio do Amaral ao mar, como carga supérflua. Continuar flutuando tornou-se essencial para eles, mesmo com o sacrifício do agora ex-líder do governo no Senado. Mais do que os anéis, sacrificaram um dedo gordo, isso depois de terem cortado outros, como José Dirceu e demais condenados no mensalão. O diabo é que o PT vai ficando maneta. Já não consegue manipular os desafios que se sucedem. Logo a embarcação dos companheiros irá a pique e seus principais dirigentes tomarão o rumo das profundezas.

A pergunta é saber se chegarão a 2018 antes do naufrágio. As variadas pesquisas de opinião, as ostensivas e as reservadas, indicam que o PT não manterá poder. Aproxima-se  o ensaio geral, daqui a menos de um ano, com as eleições municipais. Se o fracasso já era previsto para a escolha dos prefeitos das capitais estaduais e principais cidades, mais escancarado se torna com o decorrer dos dias. Prenúncio da   derrota maior quando se tratar  da eleição do sucessor de Madame. Hoje, nem o Lula se salvaria, ainda que a indefinição sobre os candidatos oposicionistas torne a disputa nebulosa. Fora do ex-presidente, porém, nenhuma hipótese petista.

Do lado dos tucanos, Aécio Neves, Geraldo Alckmin ou José  Serra? No cada vez mais distanciado PMDB, o vice Michel Temer conseguirá empolgar? Entre os avulsos, Ciro Gomes, Ronaldo Caiado, Marina Silva, Jair Bolsonaro, Álvaro Dias, Cristóvam  Buarque, Joaquim  Barbosa e quantos mais?

Aguarda-se o desdobramento do petrolão. Entre companheiros, peemedebistas e integrantes de outros partidos, o desespero é grande. Nem se fala dos empreiteiros e banqueiros também envolvidos. Mas chumbo grosso virá com certeza. O ministro Teori Zavaski recomendou que se espere mais denúncias. O juiz Sérgio Moro não esmorece. E o país inteiro aplaude cada nova ação do Judiciário.

Em suma, as preocupações com 2018 ficam esmaecidas diante das surpresas de 2015 e seguintes. Ainda na próxima semana saberemos se o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, dará andamento a um pedido de impeachment contra a presidente Dilma, reação prévia a sua provável condenação por falta de decoro parlamentar pelo Conselho de Ética. Nesse caso, se aprovado o afastamento da presidente por deputados e senadores, assumiria o vice Michel Temer, com a dúvida sobre se teria condições de pleitear a reeleição. Obviamente, se o Congresso não rejeitar o princípio do segundo mandato, imposto desde os tempos de Fernando Henrique. Mistérios dentro  de enigmas, cercados por charadas.






MADAME NÃO SABIA DE NADA


Mais chocante, escandaloso e grave do que a prisão de Delcídio Amaral por envolvimento na roubalheira da Petrobras terá sido o convite feito e aceito por ele, meses atrás, para que assumisse a liderança do governo no Senado. Foi preso nessa condição, e o convite, feito pela presidente Dilma Rousseff.
Como é possível que Madame não soubesse de nada? Ninguém no ministério ou na direção do PT para alertá-la do comportamento do senador? A situação fica pior pela ignorância que domina o palácio do Planalto. Por onde andava a Abin? E os companheiros?
O envolvimento do líder do governo na aquisição da refinaria de Pasadena teria rendido a ele um milhão e meio de reais, conforme as denúncias filtradas da Operação Lava Jato. Mais ainda, pelas gravações da Polícia Federal, ele chegou a propor ao ex-diretor Cerveró, da Petrobras, uma fuga espetacular para o Paraguai, no jatinho de propriedade de um amigo. Além de 50 mil reais por mês para sua família, no período em que estivesse na cadeia.
Por enquanto, dissolvem-se o governo e o PT como sorvete posto ao sol. Pela primeira vez na crônica parlamentar, um senador é preso no exercício do mandato, por decisão do Supremo Tribunal Federal. Mais barro vai escorregar do episódio caso a suprema corte nacional de justiça se disponha a abrir processo contra Delcídio Amaral. Se ele apelar para a delação premiada, como quase toda a quadrilha vem fazendo, como ficarão o PT e o governo? A cada dia que passa mais revelações atingem os centros do poder. A pergunta que se faz deixou de ser sobre se o país aguentará chegar a 2018 sem profundas convulsões. Chegaremos ao final do ano?
O PT acaba de ser posto em frangalhos. O PMDB não fica muito atrás, depois dos ainda inconclusos episódios encenados pelo presidente da Câmara. A permanência de Dilma no palácio do Planalto volta a ser questionada, porque se Eduardo Cunha perder o mandato, sairá atirando. Provavelmente dará andamento ao processo de impeachment da presidente.
CONTRADIÇÃO OLÍMPICA
A presidente Dilma celebrou o lançamento de um programa que, para ela, destina-se a salvar empregos. O diabo é a contradição: o desemprego será combatido com a redução de salários até o limite de 30%. Quer dizer, se o trabalhador aceitar a redução, terá garantido o seu lugar. As empresas que aderirem a essa proposta ficarão impedidas de demitir. O assalariado que concordar, no entanto, precisará explicar aos filhos que vão comer 30% a menos do que comem...





A GREVE GERAL COMO SOLUÇÃO PARA O DESEMPREGO

O desemprego, na realidade, já chegou aos dois dígitos. Mais ainda: anda em torno dos 15%, apesar de os números do governo teimarem em ficar nos 8%. A pergunta vai para a presidente Dilma, não como responsável única pelo descalabro, mas porque insistiu em recandidatar-se, ganhou, e agora não sabe o que fazer. Mas há outros culpados, a começar pelo empresariado, cuja primeira reação diante de queda no faturamento é mandar embora parte de sua força de trabalho. Em vez de aumentar a produtividade, usar a imaginação para buscar novos negócios, aceitar redução temporária nos lucros e abrir mão de vantagens pessoais, os donos do capital optam pelo caminho mais fácil: demitir. Os demitidos que se arrumem.
Já os detentores do poder político se omitem, deixando de procurar alternativas como a abertura de frentes públicas de trabalho. Aumentam impostos, estendendo-os a todos, sem selecionar os que podem e os que não podem pagar. Pelo contrário, o sacrifício é maior para os menos favorecidos, impossibilitados de financiar mecanismos para reduzir a carga sobre seus ombros.
É para esse nó que deveriam estar voltados governo e empresários, mas deles nada deve ser esperado a frio.
Sendo assim... Sendo assim, sobra o trabalhador, para solucionar seus próprios problemas. Torna-se necessária a união do desempregado de hoje e o de amanhã. Adianta pouco argumentar com eleições para mudar a equação, dada a incapacidade dos eleitos, quaisquer que sejam. Muito menos imaginar que pela educação as coisas venham a ser diferentes. Se a fórmula fosse eficaz, e não é, levaria tempo para produzir efeito, quando na realidade o desemprego precisa ser combatido já. Ontem, se fosse possível.
Então, resta apenas uma saída, por mais amarga que venha a ser: a reação dos que ainda mantém seus empregos com os desem pregados, através da greve geral. A paralisação do trabalho em todas as suas atividades. O alerta, transformado em ameaça, levaria governo e empresários ao raciocínio de que, sem mudanças, também eles serão levados de roldão para as profundezas. Só assim o poder político e o poder econômico adotariam as reformas tanto de ação quanto de mentalidade.
Com o país parado, mesmo a contragosto, os esforços se somariam e as soluções apareceriam.



UM JOGO DE BARGANHAS

Prevista para hoje mas sujeita a adiamento, a reunião do Conselho de Ética da Câmara poderá abrir a primeira estação do calvário de Eduardo Cunha ou, contrariando o Novo Testamento, levar Pôncio Pilatos a absolver Jesus. Entre dúvidas e mudança das tendências e das sentenças, o Conselho encontra-se rachado. Poderá haver empate na decisão dos conselheiros, entre abrir processo contra Eduardo Cunha ou arquivar o parecer do relator, Fausto Pinato, favorável ao julgamento do presidente da Câmara por ofensa ao decoro parlamentar.

No final da semana e hoje montes de contas foram e estão sendo feitas e desfeitas a respeito da decisão preliminar dos integrantes do Conselho. Dez a dez, contando com a ausência de uns poucos? Onze a onze? Vitória dos favoráveis à condenação de Cunha ou arquivamento da acusação dele haver mentido a respeito de suas contas no exterior?

De qualquer forma, não se trata de esperar uma sentença definitiva, já que o mérito só será apreciado depois, muito provavelmente ano que vem, dado o recesso parlamentar a ser iniciado a 17 de dezembro.

Vale tudo nesse entrevero inicial, desde a defesa antecipada do presidente da Câmara, já circulando, até contestações regimentais referentes à primeira reunião do Conselho de Ética, realizada semana passada, hoje contestada pelo deputado fluminense.

A pedra de toque dessa decisão, vale repetir, se não for adiada, repousa na representação do PT. O palácio do Planalto trabalha para que os companheiros com assento no Conselho votem em favor de Cunha, arquivando o processo. Se não puderem, por razões de consciência, que pelo menos faltem, permanecendo em seus estados.

Em suma, a impressão é de desenrolar-se um leilão, daqueles do “quem dá mais”. Eduardo Cunha dispõe de uma carta na manga, o deferimento do pedido de impeachment contra Dilma, que ainda não despachou. Nem contra nem a favor, por enquanto, ele poderá retribuir a gentileza de Madame, se ela mobilizar o PT para salvá-lo do processo. Ou dar andamento à acusação de que ela quebrou a Lei de Responsabilidade Fiscal.

O país está diante da opção de duas ações correrem paralelas, claro que apenas no ano que vem, ameaçando os mandatos de Dilma e de Cunha. Ou de nenhuma ação tramitar contra ambos. Nos dois casos, do que menos se cuida é do mérito das acusações, ou seja, se houve culpa ou inocência na ação da presidente da República e do presidente da Câmara.

Um jogo de barganhas e de interesses escusos, de parte a parte. Retrato óbvio de que o dia seguinte, no Brasil, sempre poderá ficar um pouquinho pior do que a véspera...





DESPENCANDO ATÉ O FUNDO DO POÇO



De repente, o país toma conhecimento de números que os governos tentavam esconder desde os tempos de Fernando Henrique. Nossa dívida pública beira os 4 trilhões de reais. Basta atentar para que só neste ano de 2015 vamos pagar 520 bilhões de juros. Pagar para quem? Para bancos estrangeiros e nacionais e para investidores de todos os matizes, além de especuladores aos montes.
Saber quantos bandidos estarão se locupletando com a farra é tão importante quanto saber porque os juros alcançam 14,25%: porque dessa artéria aberta escoa o sangue de nossa soberania. Jamais as administrações dos tucanos e dos companheiros tentaram estancar o fluxo de recursos para os bandidos daqui e lá de fora.
Muito mais do que o roubo do mensalão e do petrolão vem sendo o assalto à economia nacional. Como consequência, todos os que podem também metem a mão, daí a inflação, a recessão e o desemprego.
Não será com Joaquim Levy ou com Henrique Meireles que se conseguirá inverter a equação. Um era ou continua sendo diretor do Bradesco. Outro foi presidente do Banco de Boston. Para eles, deve prevalecer o interesse do mundo financeiro.
O resto são perfumarias, mesmo chocantes como a declaração de Dilma, em plena campanha de 2014, de que o Brasil havia alcançado o patamar do pleno emprego. Hoje continua mentindo, divulgando estar o desemprego no nível de 8.7%. Trata-se de mal escondida farsa, porque no mínimo os percentuais ultrapassaram os 10%.
A gente fica pensando na saída, sabendo que não existe, pelo menos dentro das regras do jogo atual. Alternativas inexistem para o PT, o PMDB e o PSDB. Todos praticam o mesmo diagnóstico. Da sociedade à margem da ortodoxia partidária, pior ainda. Resultado: continuamos despencando até o fundo do poço.
SERVIÇO COMPLETO
Diante das ilações e dos boatos de que a presidente Dilma não resistirá por muito mais tempo para substituir Joaquim Levy por Henrique Meirelles, começa a ser admitido no palácio do Planalto que Madame deveria aproveitar a oportunidade e recompor todo o ministério. Porque ministros há, entre os sete do PMDB e outros tantos de variadas origens, que nem disseram a que vieram. Admite-se até que a presidente nem conheça todos pelo nome, quanto mais suas atribuições. Teria chegado a hora da interrupção do fisiologismo ministerial e da busca dos melhores em cada setor, sem considerações partidárias. O problema é que essa solução tem prazo. De nada adiantou a Fernando Collor compor o maior ministério da história do país. Não deu mais tempo...




NADA É TÃO RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR






Sempre com maior intensidade, é esse o sentimento que domina o país: vai ficar pior. Prevalece a máxima décadas atrás lembrada por mestre Helio Fernandes, de que “no Brasil, o dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera”.
A Câmara acaba de aprovar projeto anistiando todo vigarista que tenha mandado dinheiro podre para o exterior,caso se disponha a repatriá-lo. Nenhuma punição sofrerá por haver lesado a Receita Federal, muito menos em se tratando de recursos provenientes do crime,  da corrupção, dos cofres públicos ou do tráfico de drogas.
CUNHA ENROLADO
Ao mesmo tempo, mais se enrola o deputado Eduardo Cunha em seus desmentidos que apenas confirmam participação nas remessas e na movimentação de milhões de reais em contas secretas na Suíça e outros paraísos fiscais.
O presidente da Câmara mantém-se no exercício de suas funções, auxiliado pelo governo, em troca de protelar decisões sobre pedidos de impeachment  da presidente Dilma. Líderes dos partidos comprometem-se por escrito a sustentar quem os vem sustentando faz muito, através de benesses e favores variados.
AJUSTE PARADO
O ajuste fiscal dorme nas gavetas parlamentares enquanto a crise econômica se adensa, prevalecendo apenas a redução de direitos trabalhistas, o aumento de impostos, taxas e serviços públicos, elevando-se o custo de vida e reduzindo-se o valor dos salários. Sucedem-se as greves sem que as reivindicações das diversas categorias sejam atendidas, ao  tempo em que se discute se Joaquim Levy sai e Henrique Meirelles entra, ambos preparados para impor mudanças que só prejudicarão o trabalhador, beneficiando as mesmas  elites de sempre. O desemprego se multiplica sem que se tenha ouvido uma palavra, sequer, do ministro do Trabalho, ao tempo em que a recessão se amplia.
ÂNSIA DO LUCRO
Em meio à inação do Executivo e do Legislativo, quem melhor definiu o impasse atual foi o senador Cristóvam Buarque, esta semana. Da tribuna, denunciou a impossibilidade de o país sobreviver envolto na ânsia do lucro, na ganância, na improvisação, na corrupção e na avidez do consumo.
O lucro estimula o desenvolvimento, desde que não atropelado pela ganância, que gera a improvisação e deságua na corrupção, fator a estimular o consumo desmedido. Uma cadeia de fatores cujo resultado será a desagregação nacional. Vale aguardar o dia de amanhã para saber o que de pior vem por aí, na certeza dessa progressão ser inexorável.




MONUMENTOS À EMPÁFIA E AO FATURAMENTO





Além de monumentos à própria empáfia e vaidade, os institutos  criados  por ex-presidentes da República constituem-se em arapucas destinadas ao seu enriquecimento. Prestam-se a amealhar dinheiro para o personagem empenhado  em permanecer na mídia como se  estivesse no poder.
Tome-se o nebuloso  Instituto Fernando Henrique Cardoso, funcionando em São Paulo  em luxuosas acomodações comerciais,  apresentadas como colaboração à história e à memória nacional.  Acobertado pelo sigilo bancário, ignora-se o total verdadeiro dos  gastos e  despesas dessa entidade,  assim como seus lucros. Uma ponta do tapete levantou-se recentemente pela denúncia de que,  entre 2011 e 2012, apenas uma empreiteira doou 975 mil reais à  entidade que leva o nome do sociólogo. E as outras? Teria sido em pagamento por palestras relativas ao seu passado governo? Ou por consultorias a respeito  dos rumos  da social-democracia? Quem sabe por opiniões sobre como gerir a economia nacional? 
Sempre existirá a hipótese de remuneração por intermediação junto a obras contratadas por governos estrangeiros amigos, mas essa é característica muito maior do Instituto Lula, acasalado com a empresa responsável por agenciar palestras do primeiro companheiro.
Porque a empresa  que leva o nome do antecessor e  mentor da Dilma dá a impressão de funcionar na caverna do Ali Babá.  De 2010 a 2014, conforme levantamento feito  nas proximidades  da Operação Lava Jato, entraram em seus cofres  27 milhões  de reais.  Pagamento por palestras internacionais sugerindo as excelências  de  se investir no  Brasil? Ou retribuição a  favores concedidos  por  governantes africanos e latino-americanos que contrataram obras a cargo de  empreiteiras brasileiras,  com financiamento do BNDES, certamente por influência do ex-presidente?
Em português claro, essas operações de tráfico de influência e de enriquecimento ilícito denominam-se corrupção e suborno, que em boa hora a Polícia Federal e  o Ministério Público investigam. Por isso encontram-se na cadeia alguns barões das empreiteiras e acólitos do serviço  público, com  ramificações no Congresso e nos partidos políticos.
Não se tem  notícia de que, de Getúlio Vargas aos generais-presidentes e até a Itamar Franco, existiram institutos destinados gerar rendas para ex-presidentes. Não devem ser levados em conta pequenos museus que guardam a correspondência e as imagens dos antigos titulares, aliás, sempre inaugurados depois da morte de cada um deles. Não germinou  a experiência tentada por José Sarney,   ao   adquirir o Convento  das Mercês, em São Luís,  como  seu futuro   mausoléu.  Deu prejuízo, teve de ser vendido.  
Foi com  Fernando Henrique e  Lula que surgiram essas  empresas  comerciais lideradas por eles, não apenas para inflar-lhes o ego, mas para ampliar suas  contas bancárias. Tomara que Madame não esteja  pensando nisso...





QUASE O PARAÍSO DOS GATUNOS


Na noite de quarta-feira a  Câmara  evitou um dos maiores escândalos da temporada, ao adiar a votação do projeto do governo, emendado por deputados energúmenos, que autorizava a repatriação de dinheiro ilicitamente depositado por brasileiros em paraísos fiscais do mundo inteiro. O texto inicial já fazia vergonha ao permitir a legalização de bilhões de  reais e de dólares  remetidos ao exterior sem informações à  Receita Federal, decorrentes de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Bastaria aos vigaristas responsáveis pelas remessas  retornadas pagar uma taxa não superior a 35%  para serem anistiados e não responderem a processo.
Pois o projeto ficou mil vezes pior  quando o relator da matéria  acrescentou emenda  autorizando   a repatriação de dinheiro resultante de “caixa dois, descaminho, falsidade ideológica e formação de quadrilha”. Também determinava que as informações  não poderiam ser usadas nas esferas criminal, administrativa, tributária e cambial para fins de investigação e processo. Multiplicava a anistia e premiava os ladrões, inclusive os investigados e os já presos da Operação Lava Jato.
Esse horror que o governo encampou e tentou aprovar foi rejeitado  por 193 votos contra 175.  Até a base aliada forneceu 76 votos para derrotar a proposta.
Não está afastada a hipótese de a lama tornar-se lei, pois voltará a ser votada na próxima semana, quando o palácio do Planalto tentará virar a opinião de seus dissidentes.
A gente fica  pensando como quase transformaram a Câmara  na caverna do Ali Babá. A resposta é  simples: dos 175 deputados favoráveis à tramoia, quantos tem dinheiro criminoso depositado lá fora? Mais da metade?
O governo calcula que a repatriação renderá 11 bilhões de reais, quantia capaz de compensar o rombo nas contas públicas. Recorrer a esse lamentável  expediente significa desespero. Daqui a pouco, para livrar-se da bancarrota, a equipe econômica colocará à venda para o exterior  crianças cujos pais se encontrem desempregados. Ou criará a flagelação preventiva para quantos cidadãos não conseguem pagar impostos, cobrando entrada do espetáculo nos grandes estádios de futebol.
Em suma, ainda que por maioria limitada, a Câmara livrou-se temporariamente de transformar o Brasil no paraíso dos gatunos. Só que a possibilidade continua em  aberto.
A MODA PEGOU
Começou com os técnicos de times de futebol. No banco, sempre que comentavam  mudanças de estratégia com jogadores e auxiliares, eles cobriam a boca com as mãos. Temiam que os adversários tivessem assessores especializados na leitura labial. Mesmo televisados à distância, os técnicos poderiam ser flagrados ao transmitir instruções táticas.
Pois a moda  pegou no Congresso. Põe a mão na boca quem fica nas mesas diretoras, ao  falar com o colega do lado. Nos microfones dos plenários o fenômeno já se repete.  As câmeras de televisão  estão vigilantes e filmam Suas Excelências o tempo todo. Assim,  melhor o país não conhecer suas confidências e, com certeza, suas  críticas a companheiros. Daqui a pouco as sessões precisarão realizar-se na mais completa  escuridão.




AS RAZÕES DO IMPEACHMENT


Suponha-se, apenas como exercício de imaginação, que Eduardo Cunha acolha o pedido de impeachment da presidente Dilma e, mais, que a Comissão Especial a ser formada recomende o afastamento da presidente. Acrescente-se a suposição de que o plenário da Câmara acate a medida e que o Senado venha a julgá-la culpada.

Surge a indagação: Madame terá sido posta para fora porque aumentou despesas sem autorização do Congresso, porque pedalou e porque teve suas contas de 2014 rejeitadas pelo Tribunal de Contas da União?

Nem pensar. Esses poderão vir a ser os argumentos jurídicos para a inusitada iniciativa parlamentar, mas nem de longe significarão o verdadeiro motivo do afastamento da presidente. Funcionarão como a Fiat Elba responsável pela defenestração de Fernando Collor, mas em momento algum a quebra da lei de Responsabilidade Fiscal passará à História como justificativa para a cirurgia.

Exatamente como no caso do atual senador por Alagoas, Dilma terá sido alvejada porque a população não gosta dela. Mais até do que por conta da crise econômica, das demissões em massa, do aumento de impostos e do custo de vida, situa-se o sentimento nacional de rejeição à presidente por ser arrogante, presunçosa, furiosa e julgar-se superior. Por jamais ter estabelecido uma ligação direta com o povão. Sempre distante, imaginando-se dona das verdades absolutas, só semanas atrás reconheceu que errou. Mesmo assim, no condicional. A imagem que passou ao país, em seus primeiros quatro anos de mandato, foi de alguém desligada do meio social, sem vínculos com o cidadão comum, operário ou patrão.

Pode não ter sido essa a intenção de Dilma, ainda que a versão suplante a realidade. É assim que ela é vista pela imensa maioria, justamente o fator maior responsável por um duvidoso impeachment. Como o Congresso, por maiores vícios e defeitos que possua, jamais posicionou-se contra as tendências da opinião pública, eis a explicação: o brasileiro rejeita quem permanece em patamares até erroneamente tidos como separando governantes e governados. Fica evidente que beijar criancinhas, passear pelas ruas, frequentar campos de futebol, prometer o impossível, distribuir sorrisos, visitar favelas e tomar café na cozinha da dona Maria – tudo isso cheira a demagogia, para presidentes da República. Mas é assim que as coisas funcionam e será por não agir assim que o impeachment acontecerá, se acontecer.





NIVELADOS POR BAIXO




Mais um ex-ministro do Lula implicado em tráfico de influência, Gilberto Carvalho acusado pela Polícia Federal de elo entre o palácio do Planalto e o esquema de corrupção que envolve filhos do ex-presidente, políticos e empresários. Até a criação de medidas provisórias para favorecer setores da economia vem sendo denunciada. Sem falar nas ligações do primeiro-companheiro com empreiteiras, às quais servia viajando às suas expensas para contatar governos africanos e sul-americanos, levando na bagagem o aval do BNDES para a concessão de empréstimos.
A cada dia surgem mais denúncias atingindo o Lula, altos integrantes de seus dois governos, parentes e amigos. Muitos já conhecidos, outros na cadeia, todos integrando amplo esquema de assalto aos cofres públicos. Não adianta atribuir o noticiário a uma campanha de ódio contra o PT e o ex-presidente. Pode até  ser verdade, mas como negar os fatos acontecidos e agora apurados?
Desvendam-se os véus que envolviam o governo do ex-presidente,  tornando inevitável que no mínimo  ele venha ser chamado a esclarecer cada episódio. São questão de tempo seus depoimentos na Polícia Federal, no Ministério Público e no Judiciário. Objeto  de delações premiadas e de comentários que fluem de asseclas temerosos de condenações, o grave é que sucedem-se provas  materiais  da participação  do ex-torneiro-mecânico. O resultado está na queda de sua popularidade, atestada por pesquisas recentes.
Turbulência igual raras vezes se viu na trajetória do PT e do grupo há treze anos incrustado no poder. Surgem sempre novos personagens e seus malfeitos, daqueles que multiplicam a rejeição, tanto  a culpados quanto  a porventura inocentes participantes do movimento um dia tido como de regeneração nacional. O cidadão comum nivela por baixo os companheiros. Se nem o  Lula escapa, a previsão é de fim de um  ciclo.
A ser substituído por quem ou por quê? Haverá alternativas no meio político? Um partido imune à lambança cada dia mais exposta? Uma corporação formada à margem da  realidade que nos assola? E com que propostas capazes de promover mudanças fundamentais, como se imaginou o papel do PT?
Quem quiser que aponte rápido, sem salvadores da pátria nem bandeiras truculentas, muito menos  viagens  ao passado. Caso se realizem, as eleições municipais do próximo ano funcionarão como  ensaio geral de 2018, se chegarmos até lá.  Mas desde quando se estabeleceu que eleições resolvem, sem estruturas renovadoras, com as mesmas forças de sempre?
Em suma, nada de novo apareceu até agora, saído dos escombros e dos porões  onde se tenta sobreviver.





NAÇÃO, ESTADO, FEDERAÇÃO E GOVERNO


Uma Nação se forma pela presença de um povo geralmente habitando o mesmo território, praticando a mesma língua, com passado e cultura comuns e, sobretudo, a vontade de continuar juntos no futuro. Quando essa Nação se organiza politicamente, cria um Estado, que pode ser democrático ou ditatorial, como também monárquico, presidencialista ou parlamentarista, conforme as características de seu Governo. Às vezes os conceitos se misturam, registrando-se a existência de uma Nação sem território, como os judeus até 1947, ou constituída por dois Estados, como a Coréia de hoje e o Vietnam de ontem. Há também o caso de um Estado formado por várias Nações, como a antiga Iugoslávia e a Rússia atual. O Estado pode ser Federativo ou Unitário. No primeiro caso, quando vários Estados menores se unem para formar um Estado mais forte, no exemplo dos Estados Unidos da América do Norte. No segundo, a França, dividida em departamentos por mera razão administrativa, já que o Estado francês pré-existiu a divisão. Os Governos gerem o Estado, é outra evidência, tanto faz se renovados periodicamente ou impostos de forma permanente. Feito o preâmbulo, comportando mil e um entrelaçamentos e distorções, vem a pergunta: e o Brasil, o que é, em termos de Nação, Estado, Federação e Governo?

Primeiro um conglomerado de diversas Nações, a começar pelas indígenas, depois colonizadas pelos portugueses que nos deram a língua, mas jamais a vontade de continuarmos juntos, tantas e tamanhas foram as revoltas separatistas, terminando com a dos Farrapos depois da Confederação do Equador e quantas mais?

O Estado nacional foi autoritário na maior parte de nossa História, desde o período colonial à independência e à dinastia dos Bragança, destacando-se a ditadura Vargas e os recentes governos militares.

De 1985 até hoje, com a Nova República, vivem a Nação e o Estado um tempo democrático, nem tanto os Governos, mesmo provenientes de eleições. Porque eles se tornam cada vez mais autoritários na medida em que a Federação continua uma ficção. Nenhum dos Estados e Municípios em que fomos divididos sobreviveria uma semana sem a presença do poder central. A língua e a cultura atropelam-se, mesmo com a presença unificadora da televisão.

Chegamos ao principal: e quanto ao futuro comum, a vontade de ficarmos juntos? Apesar do esforço das Forças Armadas e das diretrizes do ensino público, o perigo da desagregação ronda o Brasil. Estamos regredindo, tema que fica para outro dia.



“VEM NIMIM QUE EU TÔ VENDIDO” – “NUM POSSO, EU TAMBÉM TÔ”


No cipoal de contradições que paralisa a visão na Praça dos Três Poderes, destaca-se comentário feito pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha: “não há a menor chance de o impeachment ser deflagrado agora”. Nem agora nem nunca, porque tramitou nos bastidores e já chega a constituir-se em compromisso o conluio entre o governo e a Câmara para preservar os mandatos da presidente da República e do dirigente parlamentar.

O sempre respeitado ex-vice-presidente Marco Maciel costuma contar episódio do  folclore pernambucano. Dois times do interior disputavam acirrada partida de final de campeonato, valendo tudo para a conquista da vitória, inclusive suborno de jogadores. Aos 45 minutos do segundo tempo havia empate, quando  num golpe de sorte o centro-avante de uma das equipes vê-se sozinho com a bola,  próximo da área do adversário. Bastaria avançar no rumo da meta e marcar.  Quando começa  a correr, grita para o  goleiro do outro time:  “vem  nimim, vem  nimim que eu tô vendido!” Resposta: “num posso! Eu também tô!”

Ignora-se se houve gol ou não, pois as duas torcidas indignaram-se e invadiram o campo,  massacrando os jogadores.

Assim o conflito entre Dilma Rousseff e Eduardo Cunha. Ambos estão vendidos, quer dizer, a presidente recusa-se a chutar e fazer o gol,  com o deputado comprometido em deixar a bola passar. Para evitar a perda das funções e do próprio mandato, a partir do Conselho de Ética, Cunha promete não dar andamento ao pedido de impeachment contra Dilma, por crime de responsabilidade fiscal. Desde que, é  claro,  ela  mobilize seus deputados para   não  condenarem  o adversário pela abertura,   num banco suíço,  de contas secretas com dinheiro podre da Petrobras.

Uma marmelada digna dos jogos  de várzea, podendo   as arquibancadas estar  dispostas a invadir o  gramado  e ministrar inesquecível lição nos contendores.  Porque acordo tão baixo assim nos leva à suposição de que, na disputa  lembrada por Marco Maciel,  estavam o “Al Capone Futebol Clube”  contra o “Clube de Regatas do  Ali Babá”...

Enquanto isso o presidente da Federação,  dono do campo e da bola, o Lula,  procura evitar o vexame e pede aos dois times um bom futebol, com agenda positiva. O diabo é que ele também incorre na ira dos torcedores, acusado junto com o filho de receber propina. Melhor suspender o certame e iniciar nova competição.

PONTO PARA O SUPREMO

Nem tudo parece perdido. Enquanto Executivo e Legislativo oferecem lamentável espetáculo, o Judiciário marcou mais um ponto, esta semana ao proibir o Congresso de incluir jabotis nas medidas provisórias. Desde o governo José Sarney que se permitia a deputados e senadores, ao examinar esses singulares decretos do governo, incluírem toda sorte de adendos a ser aprovados, em especial os que nenhuma relação tinham com  o objeto principal. A partir da decisão de agora, os jabotis terão que descer da árvore. O problema é que o  Congresso poderá  arguir intromissão do Supremo  Tribunal Federal nas atribuições legislativas, votando lei específica de permissão às inclusões. Para complicar ainda  mais: quem decidirá o impasse? O Supremo...




APESAR DE TUDO, O PAÍS MUDOU


A decisão unanime do Tribunal de  Contas da União, rejeitando as contas do governo Dilma em 2014, fez aflorar uma indagação que apenas bissextamente era feita por alguns curiosos. Hoje, todo mundo se pergunta e quer saber qual  o maior responsável entre os donos do poder pelas pedaladas que constituíram crime contra a responsabilidade fiscal. Claro que a maior parcela de culpa recai sobre Madame, mas certamente alguém soprou para ela esse tresloucado mapa da mina onde não havia tesouro, apenas cobras e lagartos.

Fala-se do ministro da Fazenda da época, Guido Mantega, do chefe do Tesouro Nacional, Arno Augustim, e do depois  chefe da Casa Civil,  Aloizio Mercadante. Outros existirão, agora  saltando  de banda, mas por que não um amanuense qualquer,  daqueles que datilografam cópias do Orçamento e julgam-se  gênios, salvadores  senão da pátria, ao menos do governo.

É provável que o Congresso deslinde a charada, tirando do lamaçal   alguma raiz  inesperada. Tanto faz   se Renan Calheiros terá boa ou má vontade para iniciar nas Comissões Técnicas o processo capaz de levar deputados e senadores a também concordarem com o TCU. Depois, será o que Deus quiser,  até  o impeachment da presidente. O que salta aos olhos é a desfaçatez com que o governo endossou a ilegalidade. Havia, naqueles idos, a sensação de impunidade que  Lula e Dilma absorveram tão bem.  Tudo era permitido, desenvolvendo-se o mensalão, o petrolão e outras patifarias que vão sendo investigadas e,  tomara,  punidas por inteiro.

Do episódio envolvendo o TCU  destaca-se a evidência de  o palácio do Planalto não ter aprendido nada,  ou esquecido tudo, desde o início da operação Lava Jato.  Ficou ridícula a tentativa de  incriminação da Corte de Contas e do relator Augusto Nardes. Primeiro,  o ministro Luis Fux, do Supremo Tribunal Federal, desfez a manobra infantil. Depois, por unanimidade, o TCU respondeu em defesa de sua honra. A palavra agora é do Congresso.

Conclui-se que apesar de tanta lambança, o país mudou. Já não é tão  fácil mentir, distorcer e roubar. A impunidade vem sofrendo sucessivas derrotas, esperando-se que não demore a degola do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, dada a confirmação de suas contas secretas na Suíça e, em especial, as negativas que o transformaram no irmão mais velho do  Pinóquio.

OS QUATRO  CAVALEIROS

No Congresso em estado de rebelião com o governo, correu uma loteria para os parlamentares definirem quais as quatro maiores pragas que assolam o Brasil.  A primeira foi o  desemprego. Depois, a inflação.  Seguem-se  a violência e a corrupção. Mas a incompetência e a especulação  ameaçam e correm por fora.

O grave é que nenhuma dessas realidades  merece do governo, até agora, um programa efetivo de combate. O candidato presidencial que primeiro definir projetos para a recuperação nacional começará em vantagem.

QUASE UM EX-MINISTRO


Milton Campos foi o primeiro ministro da Justiça do regime militar. Engoliu sapos, como a cassação do ex-presidente Juscelino Kubitschek e de montes de mandatos. Não aguentou quando o marechal Castelo Branco decidiu editar o Ato Institucional 2, que inaugurava novo período ditatorial. Foram dissolvidos os partidos políticos, suspenso o habeas-corpus, ampliado o número de ministros do Supremo Tribunal Federal, entre outras barbaridades.

Ao apresentar seu pedido de demissão, o velho professor de democracia disse ao então presidente: “nossa diferença é que eu posso sair e o senhor tem que ficar”.

A posse, ontem, dos novos ministros, lembra o episódio antigo. Todos os que assumiram ou se viram remanejados no ministério podem sair. Seus motivos diferem daquele que levou Milton Campos a pedir demissão, pois a presidente Dilma não pensa em ditadura. Mas está, como Castello Branco, tutelada e sem poder. Naqueles idos, quem mandava era o Exército, com o ministro Costa e Silva à frente. Hoje, manda o Lula, com ou sem o PT.

O atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, não é nenhum campeão da democracia, mas está para o novo governo mais ou menos como o dr. Milton diante dos militares: pouco à vontade, incomodado e sem espaço. Encontra-se afastado da política, não controla a Polícia Federal nem passa pela porta dos partidos da base oficial. Suas relações com o Poder Judiciário deixam a desejar e com as forças armadas, nem isso. É o último dos inimigos íntimos do Lula que falta Madame mandar passear ou deslocá-lo para o ministério dos Esportes ou das Mulheres. Há quem suponha estar o dr. Cardoso prestes a antecipar-se, pedindo para deixar a equipe governamental. Senão será deixado.

PRIMEIRA E ÚLTIMA VEZ

Os novos ministros, assim como alguns dos agora remanejados, entraram ontem no gabinete da presidente da República pela primeira vez. E talvez a última. Na melhor das hipóteses, condenam-se a dialogar com o novo chefe da Casa Civil e com o secretário de Governo. Se antes já havia ministros de primeira e de segunda classe, entram em campo agora os de terceira. Aqueles que Dilma nem escolheu para figurantes e que estarão na dependência dos votos de deputados do PMDB e outros partidos. A saída será reformar seus gabinetes em São Paulo, ficando na fila de audiências no Instituto Lula...





RESPONSABILIDADE DE DILMA E DE CUNHA


Faltam à Câmara votos suficientes para promover o impeachment da presidente Dilma. Não se encontrarão 342 deputados dispostos a afastar Madame, a menos que surjam fatos novos ou inusitados capazes de envolvê-la pessoalmente. Seu mandato está garantido. Sua rejeição pela imensa maioria da população pode não ser um detalhe, já que é uma sentença passada por tribunal irrevogável, mas como não se dispõe a renunciar, ficam as coisas como estão. Sem duvida, para vergonha de todos.

Da mesma forma, nada indica que o deputado Eduardo Cunha esteja pensando em saltar de banda. Seu mandato de deputado se completará em 2018, antes que o Supremo Tribunal Federal venha a julgá-lo. Continuará presidente da Câmara até que se esgote, ano que vem, seu período na direção dos trabalhos. Suas contas bancárias na Suíça dificilmente serão alteradas, mas se forem, nem por isso lhe farão falta.

O máximo a acontecer com os dois será a impossibilidade de aparecerem de público sem evitar a explicita repulsa popular. Viverão anos de tormenta, mas, como o jacaré, valendo-se de couro grosso para nadar de costas em rio de piranha. Há quem preveja sorte igual para o presidente do Senado, Renan Calheiros, completando-se a dicotomia entre os poderes da União. Sobrará o Judiciário, do outro lado da Praça dos Três Poderes, ainda que entregue às suas regras e a seu ritmo singular.

HÁ DOIS BRASIS

A conclusão, salvo melhor juízo ou surpresas do inesperado, é pela existência dos dois Brasis de sempre: o deles e o nosso. O Real e o Formal. Este, encenando a farsa de uma República de Fantasia; aquele, sem esperança de sobreviver à tragédia senão pelo uso das próprias forças, hoje dispersas e até conflitantes. Integram dois planos que não se tocam, duas paralelas que nem no infinito se encontrarão.

Engana-se quem supuser que as eleições, tanto as municipais quanto as nacionais, servirão para promover a unidade nacional. Faz tempo que se disputa apenas o poder, mesmo fatiado e esfrangalhado. Dilma e Cunha, é claro, são responsáveis pela débâcle, como tantos no passado. E quantos, no futuro? Incompetência e corrupção costumam conviver, mas dessa vez ultrapassaram todos os limites. Uma presidente que não preside, um deputado que enriquece através de métodos singulares, ambos oferecem triste   espetáculo à nação.

Virou sonho de noite de verão aguardar a integração entre o Brasil Real e o Brasil Formal, cada vez mais distantes. Imaginou-se o PT como ponte entre as duas abstrações, mas os companheiros despencaram.






A RUA E O VOTO


Corte de gastos, mesmo, só na empresa privada, com demissões em massa. No governo, apenas migalhas, como a redução do número de ministérios, anunciada para quarta-feira. No Legislativo, paliativos. No Judiciário, nem isso. A exceção poderia ser, mas não é, a iniciativa da Petrobras em sua febre privatizante de  alienar patrimônio público para pagar dívidas, coisa que resulta em nada, sequer  cobrir a roubalheira lá verificada.

Enquanto isso aumentam-se impostos, taxas e tarifas de serviços públicos, com a redução de direitos trabalhistas e de programas sociais. Numa palavra, o país continua em queda livre no rumo do fundo do poço. Fica mais do que clara a rejeição da sociedade ao governo, assim como a importância de sua substituição.

Inexiste um plano diretor, sequer um roteiro de ação, muito menos um desenho para o futuro, aquilo que no passado chamava-se de plataforma. Os detentores do poder não cuidam de evitar o pior, muito menos dispõem de alternativas para propor o melhor,  que seria  a retomada do desenvolvimento.

Essa talvez  a grande falha da administração Dilma: a ausência de um programa de afirmação e agora de reconstrução nacional. O ministério do Planejamento não planeja outra coisa senão empurrar para a população o ônus de uma recuperação impossível de acontecer  sem  metas fundamentais.

Todo esse preâmbulo se faz por conta do óbvio, ou seja, a imperiosa necessidade da imediata  substituição do governo para,  em seguida, um outro  elaborar  as  definições sobre o que pretende o Brasil para continuar  existindo como nação.

Sendo assim... Sendo assim, quanto antes se  promova a substituição, mais rápida se dará a recuperação. A Constituição não apresenta remédios para o fracasso de um governo, a menos que seu chefe incorra em crimes de responsabilidade. Trata-se de uma solução  incompleta, pois se Madame não tiver praticado nenhum crime, estará garantida para permanecer até o final de seu mandato, mesmo sem definições, projetos ou  plataformas. Só que não vai  dar. Faltam três anos, três meses e dez  dias. Conclui-se pela inexistência de  tempo e de condições. Afastada a hipótese da renúncia, tanto faz se por soberba, orgulho ou preconceito, sobram  o vazio  e o problema.

A rua é mais importante do que o voto, dizia o dr. Ulysses. Torna-se urgente que ela se manifeste, mesmo com os riscos inerentes às manifestações extemporâneas. Mas existe  fórmula pacífica e avançada, numa  equação capaz de permitir à  rua promover a rejeição, através de um plebiscito para saber se o governo fica ou sai.  Em seguida ao óbvio resultado, o voto, em eleições livres e diretas, determinaria a substituição. Legislativo e Judiciário bem que poderiam debruçar-se para ordenar esse inusitado mecanismo institucional. Mas tem que ser depressa.






EPISÓDIOS QUE A HISTÓRIA NÃO CONTA


A passagem de mais um Sete de Setembro leva-nos à tentação de compensar com episódios pouco conhecidos o clima de festa comemorado nas escolas primárias e nos desfiles militares das capitais dos estados e do Distrito Federal. A data marcou um grito que não foi grito, dado por D.Pedro I às margens do Ipiranga. Muito menos por alguém em farda de gala, cheio de medalhas, montado num cavalo branco, como sugere o quadro de Pedro Américo.   Naquele tempo, viajava-se em lombo de mula, de Santos para São Paulo. Usavam-se camisolões, do pescoço aos pés, para proteção contra a lama e a poeira.

Acresce que na noite anterior, tendo comparecido a um banquete de despedida, pleno de frutos do mar, o Príncipe amanheceu com tremenda  dor de barriga, obrigando-se a interromper com frequência a subida da serra, para aliviar-se. Com a comitiva já no planalto, chegam dois cavaleiros trazendo urgente correspondência da corte, as cartas de D. Leopoldina e de José Bonifácio, propondo nossa imediata separação de Portugal. Tropa já navegando de Lisboa para o Rio trazia ordens para levar D. Pedro preso para a Metrópole.

Irritadíssimo por razões políticas e digestivas, ele avança montado em sua mula até onde pequena escolta o aguardava. Vocifera os mesmos palavrões a que se acostumara desde menino e determina aos soldados que se livrassem dos laços verde e vermelho que ornavam seus chapéus, as cores de Portugal.  E continua a saraivada de impropérios contra o governo português, menos contra seu pai, o Rei D. João VI, que não mandava nada. Durante o desabafo, usa diversas vezes a palavra “independência”, até que um auxiliar indaga sobre as consequências. Sua resposta foi objetiva: “vamos lutar e, se necessário, morreremos!”. Sendo assim, o refrão “Independência ou Morte” jamais foi pronunciado na ocasião, sendo dias depois acrescido por algum candidato a historiador.

Mas tem mais. Comunicações sobre a separação de Portugal, por cartas, foram expedidas por navio às diversas cidades do litoral. Não houve unanimidade na aceitação. Insurgiram-se as Províncias da Bahia, Piauí, Maranhão, Grão-Pará e Cisplatina. As Juntas Governativas, respaldadas pela tropa fiel a Portugal, dispuseram-se a resistir, sendo aos poucos vencidas e depostas por batalhões formados por brasileiros. Em Salvador, no entanto, estava estacionado um reforçado Esquadrão de Cavalaria comandado pelo general português Madeira de Melo, que recebe reforços de Portugal, os mesmos soldados enviados para prender o Príncipe. Haviam, inclusive, saqueado a capital baiana, onde, no Convento da Lapa, um militar embriagado matara a Abadessa, irmã Joana Angélica de Jesus.

Já estávamos  em fins de outubro e o general Madeira domina não apenas Salvador, mas a ilha de Itaparica e as vilas de Santo Amaro, São Francisco e Cachoeira. Combates esparsos acontecem, os brasileiros se organizam. Do Rio, sai uma força naval comandada pelo general Labatut. Não tínhamos Marinha, o francês fora contratado por D. Pedro. Navega até Recife, depois Maceió e Aracaju, reafirmando o domínio do governo brasileiro e estabelecendo o bloqueio de Salvador.

Em novembro, do Rio seguem duas Divisões de Infantaria, comandadas pelos majores Barros Falcão e Felisberto Gomes Caldeira. Juntam-se às tropas brasileiras na periferia de Salvador, entre elas o Batalhão dos Periquitos, formado em Cachoeira, comandado por José Antônio Silva Castro. Um dos soldados é Maria Quitéria, valente como ninguém. O General Madeira também recebera novos reforços de Portugal, dez navios com dois Batalhões de Infantaria.  Importantes batalhas ferem-se em Pirajá e Cabrito, mas a supremacia lusitana é evidente. No meio de uma das batalhas o major Barros Falcão decide pela retirada. Ordena ao corneteiro, Luís Lopes, o toque correspondente. Só que os dois exércitos tinham uma só matriz, os toques de corneta ainda eram os mesmos. O jovem, por patriotismo, descuido ou nervosismo, em vez de retirada, toca “Cavalaria, avançar e degolar!”

Não tínhamos Cavalaria, mas os portugueses não sabiam.Tomam-se de horror e debandam. Foi o começo do fim, mas apenas em julho de 1823 o General Madeira dá-se por vencido e decide retornar a Portugal. Salvador é libertada, dez meses depois do Sete de Setembro. Também ficaram livres Parnaíba, no Piauí, São Luís, no Maranhão, e Montevidéu, na Província Cisplatina.




A HORA DA “JARDINEIRA”


O contingente da recém-criada Força Aérea Brasileira chegou a Nápoles, na Itália, para incorporar-se aos quadros que lutavam contra o nazismo. A Força Aérea dos Estados Unidos preparou magnífica recepção a seus colegas do Brasil, com impecável  desfile  militar e banda de música, chegando ao clímax quando  o general comandante americano, depois de mandar entoar o Hino dos Aviadores de seu país, dirigiu-se ao nosso comandante,  coronel Nero Moura, anunciando no microfone que agora ouviríamos o Hino da Força Aérea Brasileira. O diabo é que as coisas tinham andado rápido demais. Se dispúnhamos de aviadores, ainda não possuíamos hino. O constrangimento parecia fatal quando um sargento  sussurrou ao nosso comandante: “coronel, mande tocar a “Jardineira”.

Nero Moura ordenou que a banda atacasse com a marchinha vitoriosa no Carnaval daquele ano, que o Brasil inteiro conhecia e cantava. Foi um sucesso absoluto, a ponto de o general americano cumprimentar efusivamente o comandante brasileiro  e até pedir a partitura da “Jardineira”, que imaginou ser o hino da  nossa Força Aérea...

Por que se conta essa historinha? Porque a improvisação sempre foi uma característica brasileira. Deveria a presidente Dilma parar de bater cabeça com seus ministros e líderes políticos, sem saber exatamente o que o governo pode fazer para enfrentar a crise econômica. Que tal inundar o país com  um plano em condições de devolver o  otimismo a  empresários e trabalhadores?  Proibir demissões, contratar obras públicas, jamais aumentar impostos, mas cortar gastos na máquina  pública e também no setor privado. Interromper, pelo tempo que for necessário, o pagamento de extorsivos juros devidos à divida pública, que só beneficiam os especuladores. Enquadrar os bancos e limitar seus abomináveis lucros obtidos  às custas da economia nacional. E quanta coisa a mais, sob  os acordes da “Jardineira”, ou melhor, da improvisação otimista que nunca nos tem faltado?

QUEM MANTERÁ A ORDEM?

Continuando as coisas como vão, ou seja, com o governo sem saber o que fazer  diante da crise, multiplicando-se as demissões na indústria, no comércio, nos serviços, na educação e na saúde,  breve se tornará inevitável a reação das massas. Certas coisas pegam feito sarampo. A invasão de algum supermercado na periferia de alguma favela poderá acender um rastilho impossível de ser contido.  Nessa hora, fazer o quê?

É preciso evitar a explosão. Depois, todos lamentaremos os estilhaços.







A IRRITAÇÃO À INDIGNAÇÃO
16.8.15   

Pelo menos 200 cidades do país estão organizadas para os protestos de hoje, fazendo prever milhões de cidadãos nas ruas demonstrando explícita discordância diante do modelo econômico e político que nos assola. Dentro da rotina  adotada  faz muito, haverá fulanização, com a presidente Dilma Rousseff ocupando a pole-position, mas com direito à execração de outros personagens, do Lula a Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Fernando Collor e muitos  outros.

O Brasil apresentará sua irritação e indignação por conta da roubalheira generalizada na administração pública e privada, do aumento do custo de vida, dos impostos e tarifas, do desemprego, da falência dos serviços que o Estado deveria proporcionar, da redução de direitos trabalhistas e da leniência  com que o governo age frente à corrupção. Com os excessos de sempre, a manifestação deverá ser pacífica, marcada pela presença das famílias  nas ruas de grandes e pequenas cidades. Não se trata da  rebelião das massas, muito menos da revolução. Será um grito de “basta!”, “chega!”, “não dá mais para aguentar!”

Durante a ditadura militar, a panela de pressão custou a explodir, chegando ao clímax com a campanha das “diretas já”, que significou muito mais do que o anseio de o povo votar para presidente da República, senão de que a sociedade não aguentava mais a sucessão de generais-presidentes e suas imposições. Agora, na democratização, muitos anos transcorreram até que emergisse o protesto generalizado.

Em todo o país será  ouvido o grito de “fora Dilma!”, ainda que na realidade trate-se da rejeição de valores bem acima de julgamentos e críticas sobre pessoas.  É o modelo que se esgotou. Aquilo que Madame representa, tanto quanto representavam os presidentes militares. Apesar da diferença fundamental de concepções  e posturas dos dois regimes,  o produto final é o mesmo: a população não aguenta  mais.

Salvo engano, o significado dos protestos de hoje não levará à ruptura  imediata das instituições, da mesma forma como a emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso, transcorrendo pouco mais de três anos para a eleição direta de presidente da República. Sempre a prática poderá ser desmentida e inusitados acontecerem de pronto, mas as indicações são de que Dilma não vai cair logo depois dos panelaços deste domingo, assim como o general Figueiredo  custou a deixar o poder. Encontra-se, porém, sentenciado o modelo vigente.  O governo dos trabalhadores deixou de ser governo e, muito menos, dos trabalhadores. Transformou-se em pousada das elites, dos empreiteiros, da  corrupção e da impotência em atender as reivindicações nacionais.  A irritação e a  indignação seguirão  seu curso.