SEBASTIÃO NERY




UMA FAMÍLIA HEROICA

O “capitão do riso” Agildo Ribeiro era filho de Agildo Barata (fotos), conhecido como capitão Barata, um importante militante e militar comunista, com grande atuação, sobretudo na década de 30. Após participar da tentativa de Revolução Comunista em 1935, Agildo Barata foi condenado pela Lei de Segurança Nacional a dez anos de prisão, que foram efetivamente cumpridos, e perdeu sua patente do Exército (G.F).
Rio de Janeiro – Agildo Barata, herói dos tenentes de 1930, dos capitães de 1935 e dos comunistas de 1945 (pai do querido Agildo Ribeiro, descendente do baiano Cipriano Barata, cirurgião, filósofo, deputado, mas sobretudo mestre do jornalismo de combate, cuja biografia o historiador Marco Morel escreveu) era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getúlio Vargas.

Um guarda enorme, bruto e violento, sempre armado, estava espancando presos, que se reuniram e encarregaram Agildo de falar com ele para dar um basta. Na hora da chamada matinal, todos no pátio, Agildo, baixinho, mãozinha miúda, deu dois passos à frente, ficou algum tempo parado diante do brutamontes, enfiou o dedo no nariz dele e disse que, na primeira vez em que ele batesse em um preso, iria matá-lo em público.

O guarda ficou parado, imóvel, arregalou os olhos e bomba!, caiu duro. Começou o corre-corre. Chamaram o médico do presídio. Antes dele, chegou chorando a mulher, debruçou-se sobre ele, gritando desesperada:

– “Meu amor, não morra! Você não pode morrer! Não me deixe!”

Punha a mão nos olhos, no coração, pegava o pulso, conferindo. Chegou o médico. Não adiantava mais nada. O guarda estava morto. A mulher gritava:

– “Doutor, me diga. Ele morreu mesmo? Será que não é só um desmaio?”

– “Não, minha senhora. Morreu. Acalme-se. Não há mais o que fazer.”

A mulher ajoelhou-se, enfiou os dedos nos olhos dele, convenceu-se e se levantou, sorrindo histérica:

– “ Graças a Deus, doutor! Ele está morto mesmo! Morreu tarde! Isso era um bandido, um canalha. Me batia, quase me matava todo dia. Morreu tarde. Todo poderoso, todo valentão um dia se acaba!”

***

Mais um grande brasileiro o pais perdeu neste fim de semana: Agildo Ribeiro, o humorista e ator inesquecível, tanto no Brasil como em Portugal. Como eu, ele também era de 1932. Tivemos ambos uma admiração profunda pelo revolucionário Agildo Barata, cuja edição de memórias revi anos depois para a Editora Saga, do baiano Hélio Ramos.

Ainda no Colégio Militar imitava os professores para uma plateia de colegas e preocupação dos pais. Depois do teatro de revista seguiu para o cinema e a televisão. E tomou conta do pedaço. Passava uma peça inteira fazendo a plateia rir. Como se definia, era arrumadinho, magrinho e bonitinho. E um talento explosivo.

É mais um amigo incomparável que se foi embora.


***


QUANDO OS POLÍTICOS ERAM ESTADISTAS


Rio de Janeiro – Houve um tempo em que os líderes políticos se preocupavam em deixar lições e não fortunas. Esta história de Ulysses Guimarães e seu “exército” em Salvador, na Bahia, em 1978, é um exemplo de como se pode fazer política sem pensar sobretudo em dinheiro.

Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita de toda a direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa:

– A Polícia Militar cercou a praça do Campo Grande e comunicou oficialmente ao partido que não vai permitir a reunião para lançamento das candidaturas da Oposição da Bahia ao Senado.

– Isto é ilegal, disse Ulysses. A portaria do Ministério da Justiça proíbe concentrações em praça pública, mas não em recinto fechado. A sede do partido é inviolável.

Ulysses esfregou as mãos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

– Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites.

*
Em vários automóveis, saímos todos, políticos e jornalistas. Foi marcado encontro em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB.

A praça era um capo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça. Ulysses olhou, meditou, comandou:

– Vamos rápido, sem conversar.

Avançou. Atrás dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermógenes Príncipe (os três candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarsílo Vieira de Melo, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados impávidos. Quando nos aproximamos, um oficial gritou:

– Parem! Parem!

Ulysses levantou os braços e gritou mais alto:

– Respeitem o presidente da Oposição!

Meteu a mão no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outro, passou. O grupo foi em frente. Três imensos cães negros saltam sobre Ulysses, Freitas Nobre dá um ponta-pé na boca de um, Rômulo Almeida defende-se de outro. Chegamos todos à porta, entramos aos tombos e solavancos. Ulysses sobe à janela, ligam os alto-falantes para a praça:

– Soldados da minha Pátria! Baioneta não é voto, boca de cachorro não é urna!

E os cabelos brancos se iluminavam como os coqueiros ao vento.

Era o comício que não tinha sido planejado. 14 discursos e uma passeata. Graças à batalha de Itararé da Bahia.


***


A LIÇÃO DE JUSCELINO


Rio de Janeiro – Candidato a presidente, Juscelino saiu pelo País visitando o PSD. Desceu na Bahia. Antonio Balbino, governador do PSD, ainda estava em cima do muro:


- Qual é a verdadeira posição do Café?

- Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia:

- Juscelino, vamos rever o assunto de fazer a união nacional.

- Etelvino, já sei que você está contra mim, Quando você fala em união nacional, na verdade está pensando em União Democrática Nacional.

- Então você não quer a união?

- Ora, Etelvino, candidato não faz união. Candidato disputa.

Quem faz união é governo, depois de empossado.

E voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidência da República, Juarez Távora (depois candidato da UDN, derrotado por Juscelino), entregou a Café Filho um documento em que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

O documento só foi divulgado no dia 27 de janeiro, em “A Voz do Brasil”. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral:

- Deus me poupou o sentimento do medo.

*
Lúcio, querido professor da Faculdade de Direito de Minas, fundador do PTB, deputado federal, era um bravo nacionalista. Quando os estudantes começaram em Minas a campanha de “O petróleo é nosso”, em 1953, convocamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares.

A polícia proibiu, alegando que era comício dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais e dirigentes estudantis na praça cheia, cercada pela polícia. E lá na frente, servindo de palanque, vazio, só o microfone, um caminhão sem as laterais.

De repente, chega o deputado e já candidato a senador Lúcio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminhão. Fomos juntos, A polícia não teve coragem de barra-los. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou:

– Ontem, chegando a Minas, li nos jornais que a polícia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Rio. Confesso que tive dúvidas de vir. Mas à noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo: Vai, Lúcio, vai! Vai!

E Lúcio foi. Deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Desabou. Acabou o comício. No dia seguinte, no Palácio, Juscelino dava gargalhadas:

- Eu bem que disse a ele. Não vai, Lúcio, não vai! Não vai!

*
Mal JK tomou posse na Presidência da República, em 31 de janeiro de 1956, começaram os levantes militares para derrubá-lo. Juscelino sufocou e mandou para o Congresso um projeto de anistia. A bancada do PTB ficou contra. Oswaldo Lima Filho, líder da bancada, liga para Jurema e comunica que o partido está contra a anistia aos militares sequestradores de avião. Jurema informou a Juscelino, que, do outro lado do telefone, justificou:

– Jurema, diga aos petebistas que não quero governar com mártires.

A anistia foi aprovada.

Pena Botto, almirante psicopata, entrou na lista de promoções. Juscelino promoveu. Os amigos protestaram. Juscelino explicou:

- Pode ser um mau político, mas é um ótimo marinheiro.

Juscelino convidou Jurema para líder do governo na Câmara.

Abelardo lembrou que havia outros em melhores condições, como Ulysses Guimarães. Juscelino reagiu:

- Você está doido, Jurema. Ulysses na liderança, já no outro dia está pensando em ser candidato à Presidência. E aí, adeus Juscelino.

*
Lula entregou o governo a Dilma e levou uma rasteira. Quando quis substitui-la era tarde. Michel entregou a Procuradoria a doutora Raquel Dodge, que esta gostando muito do poder, e agora foi atropelado por ela e pelo melífluo Barrozinho, herança de Dilma.



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UM BOM MINEIRO


Rio de Janeiro – Ele era sobretudo um mineiro de coração enorme. No meio século em que o conheci desde que cheguei a Minas na década de 50, Toninho Drummond (foto) foi um jornalista exemplar. Bom colega, bom amigo. Durante 25 anos dirigiu a sucursal da TV Globo em Brasília. Para defini-lo bastaria dizer que estava sempre a serviço do bem.

Suas historias políticas são dezenas.

*
Quando Geisel foi ao Japão conhecer os tataravós de Shigeaki Ueki, levaram-no a Kioto para ver um hotel experimental, sem empregados, todo comandado por computador. Você chega, recebe umas chaves, um número do computador, vai enfiando as chaves no seu numero e as coisas vão acontecendo: o telefone chama na hora marcada, o café vem, o almoço é servido, tudo automaticamente.

Na comitiva de Geisel, estavam Pedro Gomes, Blota Júnior, Toninho Drummond, Costa Manso, Carlos Henrique, Haroldo Holanda e Adirson de Barros. De noite, Adirson e Haroldo pegaram as chaves de Pedro Gomes e marcaram para acordar de meia em meia hora, para servir café de hora em hora etc.

No dia seguinte, de manhã cedo, apareceu Pedro Gomes exausto, indormido, olheiras fundas.

- O que houve, Pedro?

- Esse negócio de tecnologia, computador é tudo uma loucura. O telefone me chamou de meia em meia hora, levaram café de hora em hora. São uns malucos. Prefiro o Copacabana Palace.

*
Toninho Drummond, vendo o último livro do deputado Rubem Medina (PDS do Rio), “Um Atalho para o amanhecer”:

- Alkmin falava sempre: gosto muito de uma coisa lá de Bocaiuva que diz que se atalho fosse bom não existia a volta.

*
Toninho Drummond tocou a campainha do Hotel Financial, em Belo Horizonte, onde Benedito Valadares ficava, quando em Minas. Benedito apareceu de pijama, os cabelos despenteados:

- Meu filho, você outra vez? Não tenho nada a falar.

- Senador, por que o senhor tem esse horror de falar?

- É uma história antiga, meu filho. Eu era menino em Pará de Minas. Tinha uma Festa do Divino e uma quermesse com leilão. Estavam rifando um canarinho na gaiola. Todo mundo fazendo lances. Eu fiquei ali espiando. O canarinho era uma beleza. A gaiola também. O leiloeiro gritava: Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas…

Alguém cobria o lance anterior, começava tudo de novo: Quem dá mais? Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas…

Não aguentei, também falei: 600 mil-réis.

O leiloeiro ficou entusiasmado com meu lance, gritou rápido. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Menino, o canarinho é seu!

Eu não tinha um tostão no bolso, fui para casa chorando. Nunca mais falei.

*
Toninho Drummond viajava com Magalhães Pinto pelo interior de Minas, na campanha eleitoral para governador, em 1961. Magalhães chegava a Santo Antonio do Monte, começava o discurso:

Esta é a minha cidade. Aqui…

Descia em Lima Duarte:

- Esta é a minha cidade. Aqui…

Parava em Formiga:

- Esta é a minha cidade. Aqui…

Entrava carregado em Juiz de Fora:

- Esta é a minha cidade. Aqui…

Toninho não entendeu:

- Magalhães, de que cidade afinal o senhor é?

- Depois da campanha eu lhe conto, meu filho.

E foi para Belo Horizonte, “sua cidade”.


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DELFIM, DO PODER, PELO PODER, PARA O PODER


Em Paris,1977, ligo para a embaixada do Brasil:

– O embaixador está?

– Sim, o senhor ministro está. Quem deseja falar com ele?

É assim. Não é o embaixador, é o ministro. Não é o homem daqui, do exterior, é o homem daí, unha e carne com o dia-a-dia nacional. O homem integrado numa jogada política, hora a hora, minuto a minuto. O homem do poder, pelo poder, para o poder. E o poder, já ensinou a História, é a crônica do permanente instante.

Como sabia Napoleão, insuperável guru destas plagas. Não sei por que, talvez exatamente por isso, é em Napoleão que penso, às 8 da manhã fria desta disfarçada primavera parisiense, quando entro no número 5 da rua Amiral d´Estaing, residência do embaixador do Brasil da França. No gabinete amplo, de livros até o teto, está ele como um universitário inglês, daqueles dos filmes de antigamente, uma ilha de sabedoria cercada de papéis por todos os lados.

De sabedoria, não sei. Mas certamente de informação. Encontro-o de livro na mão: “The Concept of Equality in the Writings of Rousseau, Benthram and Kant, by Alfred T. Williams, 1976.

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Quem é mesmo este homem discretamente gordo, bem mais magro do que o apelido dos amigos – O Gordo -, que está lendo “O Conceito da Igualdade”, numa fria manhã de Paris, 8 horas de sábado?

Nasceu em São Paulo no dia 1º de maio de 1928. (- “Condenação ao trabalho? – Aparentemente. Mas também a liberação pelo trabalho”). Pais: Antonio e Maria, imigrantes italianos, do lar. Antonio, funcionário da Light.

Modesto. Quase salário-mínimo. Nunca bateu o olho no dr. Galloti. Cresceu no bairro do Cambuci, o Brás dois, como qualquer menino pobre, espiando as gulosas vitrines do Natal dos meninos ricos. Com dezesseis anos, ainda no ginásio, primeiro emprego para ajudar o orçamento de casa: contínuo da Gessy, que ainda não era Lever. Entra na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo. Aí, disparou. Foi logo trabalhar como escriturário do Departamento de Estradas e Rodagem, encarregado do controle de gastos de gasolina. (Se perder a embaixada e não ganhar o governo de São Paulo.) Passou depois para a Bolsa de Mercadorias e Associação Comercial de São Paulo.

Formação toda europeia. Os americanos ainda não haviam multinacionalizado a universidade brasileira. Os professores mais marcantes eram Mr. Stevenson, inglês, que introduziu no Brasil os métodos quantitativos na economia, a aplicação da matemática na economia, e Luís Freitas Bueno, em torno do qual se formou o primeiro grupo da escola.

– “A vida pública foi uma convocação do presidente Castelo para assumir a Secretaria da Fazenda de São Paulo, quando o Laudo, vice-governador, substituiu o Ademar. O Ministério da Fazenda foi consequência de uma exposição ao presidente Costa e Silva sobre os problemas agrícolas do país. Era a primeira vez que eu o via. Nisso houve uma influência muito grande do Andreazza. Eu tinha continuado secretário da Fazenda do governo do Sodré. Sai de lá para o Ministério. Desde 52 sempre cooperei com o governo, participando da formulação de alguns planejamentos. No governo Carvalho Pinto, participei do Plano de Ação. Fiquei lá de 59 a 63. Antes disso já tinha trabalhado no planejamento da bacia Paraná-Uruguai. Em 64, 65, tinha-se criado o Consplan, com o Roberto Campos. Fui convidado para participar. Junto com o Graciano Sá e com um grupo que estava tentando verificar o que podia acontecer com o país em dez anos, trabalhamos muito na formação de um plano.” (Revista Status,1977)


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FOLCLORE E REALIDADE

Golbery do Couto e Silva, Magalhães Pinto, Ernesto Geisel, Castelo Branco e José Maria Alkimin /Fonte: FGV.


Rio de Janeiro – O homem é a palavra. O mais é circunstância. A história é a palavra. O resto é consequência. Por isso a história do homem é a história de sua palavra. É a crônica de sua linguagem. É o cotidiano do possível dizer.

Na Grécia livre de Péricles, o discurso era a palavra. Na Judéia oprimida do Cristo, o discurso era a parábula. Na Idade Média torturada de Galileu, o discurso era o silêncio. O que é a Bíblia senão a fábula do povo judeu tiranizado sob os salgueiros da Babilônia? O que foi a tragédia grega senão a metáfora da liberdade? E as fábulas do escravo Esopo, cordeiro respondendo ao inquérito do lobo? E Bernard Shaw roendo a empáfia do império britânico?

Menino de fazenda, cedo aprendi que quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível. O humor é uma linguagem absolutamente séria, necessária, eterna. Desde o começo dos tempos, sempre foi mais proibido proibir o humor.

Folclore não é história. É a versão popular da história. Folclore político não é história política. As histórias vão mudando na boca do povo como as nuvens mudam na boca do vento. Monteiro Lobato definiu exato: “Folclore são as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro”.

Se Maurice Latey diz que “a história é o povo em ação”, está pondo o folclore como categoria científica, crônica da vida comum, poema do dia a dia, o contar para o outro, o cantar dos medievais menestréis.

Quando, em agosto de 1973, no auge do calar a boca nacional, lancei o Folclore Político nº 1 no Clube dos Repórteres Políticos da Guanabara, com a presença de José Américo de Almeida, José Maria Alkmin, Magalhães Pinto e mais de cinquenta colegas de jornalismo político, José Américo com sua competente precisão de linguagem, colocou o livro nos termos preciso: “É folclore. Nenhuma das histórias a meu respeito é inteiramente exata, mas nenhuma é inteiramente inexata, E são todas muito engaçadas”. E Alkmin: “Essas histórias do folclore político a gente nunca sabe quais são as verdadeiras e quais as inventadas. O povo vai contando e elas vão se modificando, se reproduzindo. Como os cogumelos. Quem é que sabe quem é a mãe do cogumelo?” A tiragem de 100 mil exemplares, em três edições, provou inteiramente sua atualidade.

As histórias não são minhas. Recolhi-as, uma a uma, aqui e ali, no Pais inteiro, exatamente como me foram contadas. Mas tenho consciência de seu valor político, antropológico, sociológico. Elas provam duas verdades verdadeiras, nestes dias de tanta verdade mentirosa.

1 – A liderança histórica e permanente do homem político na vida nacional. No distrito, na cidade, no Estado, no País, sempre foi o político quem deu a palavra final. Daí a história das nações ser, antes de tudo, a história de seus políticos, dos que carregam nas mãos o sentimento do povo, sua representação e liderança.

2 – O compromisso de diálogo e da liberdade no dia a dia da vida política brasileira. Os grandes personagens de nosso folclore político, e portanto de nossa política, são em geral homens bons, às vezes primários, mas compreensivos, liberais, humanistas, sábios. A crônica do ódio, da violência, da truculência, da tirania que tanto se vê hoje por ai, não faz parte deste livro. Ela é um grito, um gemido, um ai de exceção. Não está no cotidiano de nosso viver.

Constatar isso já é ver abertas as janelas do amanhã.



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HISTÓRIAS PARAENSES


Rio de Janeiro – Magalhães Barata, revolucionário de 1924 a 1930, interventor de 1930 a 1945, constituinte de 1946 , senador de 1946 a 1954, governador de 1955 a 1959, amigo de Getúlio Vargas, mandou 35 anos no Pará.

Um dia Abelardo Conduru, respeitável chefe político, rompeu com ele. Fez carta, mandou um vaqueiro levar. Barata abriu, leu, ficou indignado. Conduru mandava tirar o nome da chapa do governo e comunicava que seria candidato pela oposição. Chamou o mensageiro até o gabinete:

– Quer dizer que o doutor não quer ser mais candidato? Preciso substituí-lo hoje. Como é o seu nome?

– José Pingarrilho.

– Bom nome. Ótimo nome para voto. O senhor vai ser candidato no lugar do doutor Conduru.

– Não posso, governador. Sou amigo dele, empregado dele e não entendo nada de política.

– Nada disso. Vai ser, sim. Quem manda no Pará sou eu.

Pegou um papel, escreveu ao dr. Conduru:

-“Recebi sua carta, lamento a desistência, mas já providenciei o substituto. É o José Pingarrilho, nosso amigo comum, um nome à altura das tradições do Pará.”

Foi eleito, derrotando o patrão Conduru.

*

Um compadre, notório contrabandista, chegou ao posto fiscal de Belém com muitas tartarugas e não quis pagar imposto:

– As tartarugas são presente para o compadre Barata.

O fiscal telefonou para o chefe, que telefonou para o secretario do governador, que falou com o governador.

– Diga ao compadre que presente se dá completo. Ele que pague o imposto e mande logo as tartarugas.

*

Foi visitar uma cidade do interior. Em frente ao trapiche, onde desembarcou, ficava o “Grupo Escolar Zacarias de Assunção” (o general Assunção era da UDN e tinha sido governador antes dele, derrotando-o). Chamou o prefeito:

– Este grupo vai mudar de nome. Vai chamar-se Magalhães Barata, que é quem manda no Pará.

Chama-se até hoje.

*

Governador, mandou fazer concorrência para todos os fornecimentos ao Palácio. Vieram as listas de preços, ele mesmo quis conferir. De repente, vê uma firma oferecendo tudo mais barato (Manoel Gonçalves e Filhos, famosos pelos preços altos que sempre cobravam). Escreveu embaixo:

– “Indefiro. Eu te conheço, ladrão”.

*

Interventor do Pará desde a revolução de 1930, Magalhães Barata prendeu um filho de José Augusto Meira Dantas, professor da Faculdade de Direito, velho chefe político do Estado, depois senador. Meira Dantas telegrafou a Getúlio Vargas protestando. Getúlio encaminhou o telegrama a Vicente Rao, ministro da Justiça, que mandou um rádio ordenando soltar o rapaz.

Barata estava de saída para uma solenidade no bairro da Pedreira, em Belém. Subiu ao palanque, leu o telegrama e gritou para a multidão:

– Não vou soltar, não. Com Rao ou sem Rao, comigo é no pau.

E não soltou.

*

Uma professora do Estado requereu licença-gravidez para o parto do quinto filho. Mandou investigar, soube que ela tinha votado com a oposição. Pegou o processo, deu o despacho:

-“Indefiro. Nego a licença. Gravidez não é doença. Apanha-se por gosto.”

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Tinha um candidato a prefeito de Santarém. O diretório municipal do PSD queria outro. Vendo que ia perder, foi lá, conversou, pediu, fez a eleição. Perdeu mesmo: 15 x 5. Levantou-se, pegou o microfone:

– Meus senhores, pela primeira vez a maioria vai ganhar. Está escolhido o candidato que perdeu.

Todo mundo bateu palmas. Ele encerrou os trabalhos:

E, pela primeira vez, a maioria ganhou por unanimidade.


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O SONHO DO SULTÃO


Rio de Janeiro – Um sultão todo poderoso acordou desesperado. Sonhou que havia perdido todos os dentes. Ao despertar, mandou chamar o adivinho da Corte para as devidas interpretações.

– Que sonho terrível! Cada dente perdido significa a perda de um parente de Vossa Majestade.

– Como te atreves a dizer-me semelhante coisa? Fora daqui, insolente!

Enfurecido, o sultão chamou os guardas e ordenou que lhe dessem 50 chibatadas.

Mandou chamar outro bruxo, que foi logo interpretando o sonho do sultão:

– Meu grande e excelso senhor! Grande felicidade vos está reservada. O sonho significa que haveis de sobreviver a todos os vossos parentes.

O sultão sorriu. Sua fisionomia iluminou-se. Chamou o guarda e mandou dar 200 moedas de ouro ao novo adivinho.

Quando o adivinho saía do palácio, um guarda lhe disse ao pé do ouvido:

– Incrível, sua interpretação do sonho foi a mesma de seu primeiro colega. Ao primeiro, o sultão mandou dar 50 chibatadas. A você 200 moedas de ouro.

– Meu amigo, tudo depende da maneira de dizer. O fato é o mesmo, a comunicação pode ser interpretada a favor ou contra. O importante é dizer o que a plateia ou o interlocutor quer ouvir.

Conclusão: a comunicação é uma arte. É como pedra preciosa. Se atirarmos nos olhos de alguém, pode ferir. Se a embalamos e oferecemos com ternura, é amizade e alegria.

Em tempos de “fake news”, de buscar todas as mídias para se tornar conhecido e de fazer da comunicação uma ferramenta de primeira necessidade, nada como relembrar de um texto de anos atrás.

Na França o debate sobre as “fake news” esta indo a pleno vapor. Quem é a favor, aplaude, quem é contra, repele. O presidente Emmanuel Macron que é um líder moderno e esperto já encontrou a solução: vai fazer uma lei que está sendo chamada Lei da Primavera, para definir as “fake news”.

Já começa enquadrando os ingleses e americanos. Se a França tem como traduzir por que pedir a tradução em inglês?

O anúncio de Macron informa que a pesquisa Odoxa mostra o apoio dos franceses ao projeto para lutar contra as “fake news” em período eleitoral.

Este movimento pode fazer temer uma rejeição maciça a ideia. De fato sobre 54.300 mensagens postadas em quatro dias praticamente a metade exprimia uma rejeição clara ao controle dos conteúdos pelo Estado.

O espectro da censura foi largamente denunciado mas essas reações refletiram sobretudo a visão deformadora da realidade da opinião pública. Em compensação a opinião pública no conjunto, tem largamente uma posição contrária. Este é o ensinamento maior da sondagem.

A expressão designa falsas informações que circulam sobre a internet, afinal vazia de sua substância. O Figaro chama a atenção para o termo que surgiu na campanha presidencial americana. Apareceu finalmente no dicionário de Donald Trump. Nas últimas semanas o presidente dos Estados Unidos não parou de denunciar as “fake news”: compreendam, as informações segundo as mentiras das mídias desonestas.

O que é uma “fake news”? Dar uma definição curta que engloba todas as facetas não é coisa fácil, sobretudo em francês. Sempre traduzida por “falsas informações” a expressão “fake news” perdeu uma parte de seu senso original. O inglês distingue “fake” de “falso”, o que é errado, o que é falsificado.


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MEIO SÉCULO DA GLOBO

Da esquerda para a direita, Cid Moreira, Heron Domingues e João Saldanha na bancada do "Jornal Nacional", nos primeiros anos do telejornal.


Rio de Janeiro – O deputado mineiro José Maria Alkmin foi advogado de um crime bárbaro. No júri, conseguiu oito anos para o réu. Recorreu. Novo júri, 30 anos. O réu ficou desolado:

– A culpa foi do senhor, dr. Alkmin. Eu pedi para não recorrer. Agora vou passar 30 anos na cadeia.

– Calma, meu filho, não é bem assim. Nada é como a gente pensa da primeira vez. Primeiro, não são 30, são 15. Se você se comportar bem, cumpre só 15. Depois, esses 15 anos são feitos de dias e noites. Quando a gente está dormindo tanto faz estar solto como preso. Então, não são 15 anos, são 7 e meio. E, por último, meu filho, você não vai cumprir esses 7 anos e meio de uma vez só. Vai ser dia a dia, dia a dia. Suavemente.

Eu o relembrei porque nesta semana, a TV Globo comunicou suavemente a saída de uma de suas principais profissionais. Tive a notícia lendo um texto como sempre primoroso do mestre cearense Wilson Ibiapina. Após 48 anos dedicados ao telejornalismo, Alice-Maria decidiu deixar a emissora para se aposentar. Era diretora de desenvolvimento de programas especiais, desde julho de 2009.

Chegou à TV Globo em 1966, como estagiária, no primeiro ano de fundação da empresa. Comandou o jornalismo da Globo por duas décadas, a criação do Jornal Nacional e a implantação da GloboNews. Foi a primeira mulher a ocupar um cargo de direção na Central Globo de Jornalismo.

Alice, parece que foi ontem. Você, Humberto Vieira, Sílvio Júlio e Amaury Monteiro comandando a reportagem, todos fazendo a primeira edição do Jornal Nacional.

Oito horas da noite, Cid Moreira e Hilton Gomes. Alfredo Marsillac na mesa de corte. Um trecho da música The Fuzz, de Frank de Vol, invade os lares. Pela primeira vez, estava entrando no ar o Jornal Nacional. Primeiro de setembro de 1969, uma segunda-feira.

O Marsillac ainda deve ter guardado o script do primeiro JN, que o Armando deu-lhe de presente com o bilhete: “Marsillac… e o Boeing decolou”. O jornal entrando no ar, na cabeça do Armando Nogueira, era que nem um Boeing levantando vôo. Não podia ter erro.

Quando cheguei em 1970, o JN ainda uma criança e todos com a preocupação de mantê-lo com qualidade, num formato que aos poucos foi se definindo. O Telejornalismo brasileiro era outro depois daquele dia. E você foi peça preciosa nessa mudança.

Não esqueço de sua preocupação, orientando editores, repórteres, cinegrafistas. Em tudo tinha seu dedo. A equipe foi crescendo: Sebastião Nery, Castilho, Nilson Viana, Jéferson, Meg, Ronan, Luis Edgar de Andrade, Vera Ferreira, Lucia Abreu, Edinete os irmãos Aníbal e Edson Ribeiro e o baiano Jotair Assad.

Eron Domingues, Sérgio Chapelin, Celso Freitas, Berto Filho, Carlos Campbel, Marcos Hummel. Tereza Walcacer, Henrique Lago, Ricardo Pereira, Pedro Rogério, Antônio Severo, Woile Guimarães, Eurico Andrade, Wianey Pinheiro, Ronald de Carvalho, Toninho Drummond, Carlos Henrique de Almeida Santos, Eduardo Simbalista, Carlos Henrique Schroder, esse mesmo que hoje é o diretor geral da Rede Globo, todos grandes jornalistas que foram aprender com você a fazer televisão.

Citei alguns nomes, mas, na verdade, todos da Central Globo de Jornalismo aprenderam com você. Como a maioria, orgulho-me de ter participado de sua equipe durante 20 anos. Abraço forte do Wilson Ibiapina e da Edilma Neiva, seus alunos, admiradores e amigos.


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AVENTURAS DE DAVID


Rio de Janeiro – Desci no aeroporto de Portela de Sacavém, em Lisboa, contratado pela Editora Francisco Alves para escrever um livro sobre a “Revolução dos Cravos” de 25 de abril de 1974.

Passei no hotel Phenix, na Rotonda do Marquês de Pombal, deixei a mala, telefonei para Marcio Moreira Alves, exilado lá, cuja casa era a embaixada dos brasileiros em Lisboa. Atende outro:

– Nery, aqui é o David Lehrer.

– O guerrilheiro africano? Estou indo para aí agora.

Dez minutos e o táxi me deixava na rua Sant’Ana em Lapa, onde ouvi a mais extraordinária historia de guerra e política vivida por um brasileiro no exílio. Fiquei comovido:

– David, vamos arranjar um gravador para escrever um livro.

Depois de quatro horas de gravação, David empacou:

– Não dá mais, Nery. Mais para a frente a gente continua.

Não houve mais para a frente. Passei uma semana revendo os amigos, Marcito, Irineu Garcia, Moema Santiago e Domingos, Alfredo Sirkis, Mauricio Paiva, a colônia brasileira exilada, e perambulando com David pelas velhas ruas entre vinhos e bacalhaus, arrancando dele, sem gravador, pedaços de suas fantásticas historias. Logo David começou a dar aulas na Faculdade de Medicina de Lisboa, esperando o fim do exílio.

A aventura de David explica a multisecular tragédia da África e o fim do poder fascista do salazarismo português.

Paulista de 1937, filho de imigrantes poloneses, formado em 1961, em 62 era medico do Sindicato os Metalúrgicos de São Paulo e se elege vereador pelo Partido Socialista. No golpe de 64, preso durante dois meses numa cela com o historiador Caio Prado Junior, o físico Mario Shemberg e o medico Feruz Gicovati, presidente do PSB paulista. Sai e em 65 é vice de Franco Montoro, do PDC para a prefeitura de São Paulo. Perdem.

Em 66, deputado federal pelo MDB. No AI-5 de 13 de dezembro de 68, é preso na madrugada de 17 de dezembro, barbaramente espancado, costelas e rosto quebrado. Em 31, é cassado na lista de Carlos Lacerda, 10 deputados e 2 juízes.

Solto, tem a prisão preventiva decretada. Atravessa clandestino a fronteira do Brasil com o Uruguai, exílio. Do Uruguai, pelo Chile, vai para o Peru. Governo do general “nacionalista” Alvarado. No sequestro do embaixador Elbrick, dos Estados Unidos, escreve um artigo sobre a resistência armada no Brasil, leva à revista “Oyga”, a melhor do pais, dizendo ao diretor Francisco Igartua que é jornalista, embora nem soubesse bater à maquina. Dois meses depois, já era o redator-chefe.

Em maio de 71, o maior terremoto da historia do Peru soterra varias cidades e mata 300 mil pessoas. Atravessando a pé dezenas de quilômetros, por dentro do frio andino, foi o primeiro jornalista a chegar à cordilheira. Nos Andes, reencontra a medicina, resolve urgências, cura feridos, engessa braços.

Volta, critica os ministros militares. Tomam seu visto. Recebe da França uma bolsa para estagiar em um grande hospital de Paris. Durante três anos dedica-se à cirurgia e ao vinho. Sua atividade política limitava-se a conseguir tratamento medico para os exilados brasileiros sem direito à Previdência e a operar vitimas das torturas no Brasil.

Encontrei-o numa noite interminável de vinhos e ele me disse que ia largar tudo para entrar na primeira guerra de libertação que o aceitasse.

Amanhecia sobre o Quartier Latin e David, com os passos avinhados, caminhava para alguma turbulenta trincheira do mundo.


***

HISTORIAS DE FIDEL

Rio de Janeiro - No segundo semestre de 1957, 59 anos atrás, realizou-se em Moscou o Festival Mundial da Juventude. Milhares de jovens do mundo inteiro. Os brasileiros e latinoamericanos ficamos no hotel Zariá, ao lado da Universidade da Amizade dos Povos, que em 61 tornou-se a Universidade Patrice Lumumba, homenagem ao líder assassinado da independência do Congo Belga, depois Republica Democrática do Congo. Durante o ano, lá moravam estudantes russos.Homens em um hotel,mulheres em outro.

Os apartamentos eram por ordem alfabética. A Argentina antes do Brasil e a Colombia depois. Estava lá, estudando cinema, um rapaz simpático da Colômbia, já com 30 anos, exilado de seu pais e jornalista em Paris, Gabriel Garcia Marquez, o Gabo.

No desfile de abertura, magnífico e emocionante, um mundo de bandeiras de todos os países e povos, com imensas flâmulas suspensas nos muros do Kremlin saudando a Paz – “Mir e Drusba” – (Paz e Amor) – na incomparável e iluminada Praça Vermelha, diante do Kremlin e do tumulo de Lênin, deu bem para ver que os russos já andavam rusgando com os chineses, que passaram silenciosos e pouco aplaudidos. Já os cubanos, uma pequena delegação, foram recebidos delirantemente como heróis.

Na frente deles, mais alto do que os outros, barba rala e boné verde, Fidel Castro. E Che Guevara, Camilo Cienfuegos e seus companheiros. Já lutavam nas montanhas da Sierra Maestra, apesar de os russos ainda não acreditarem na possibilidade de vitoria deles, diante do exercito do ditador cubano Batista e tão perto dos Estados Unidos.

Terminado o festival voltaram para Sierra Maestra.Em 59 venceram.

CHE

Em 1952. Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes, esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina. Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castilho, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico, mas estava precisando de uma passagem para a Guatemala, onde pretendia ajudar o governo revolucionário de Jacobo Arbenz.

Gaia e David fizeram uma “vaquinha” na rádio e compraram a passagem. Nos dias que passou em São Paulo, o rapaz de bigode ralo conheceu o deputado Coutinho Cavalcanti, paulista de Rio Preto, autor do segundo projeto de Reforma Agrária apresentado no Congresso Nacional (o primeiro foi o do baiano Nestor Duarte).

Com a passagem e o projeto, o rapaz de barbicha fina embarcou para a Guatemala. Lá acabou trabalhando no Instituto Nacional de Reforma Agrária e aplicando as ideias do deputado Coutinho. Em 1954, um golpe militar, montado nos Estados Unidos e dirigido pelo coronel Castillo Armas, derrubou o governo de Arbenz. O rapaz de cabelos negros fugiu para o México. Em 1958, ele apareceu em Cuba, na Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro e Camillo Cienfuegos. Derrubado o ditador Batista, o rapaz de olhos grandes, esbugalhados, implantou a reforma agrária em Cuba, baseado no projeto do deputado Coutinho, paulista de Rio Preto.

O rapaz chamava-se Ernesto “Che” Guevara.

ADEMAR

Em 1960, Fidel Castro esteve no Rio. O embaixador Vasco Leitão da Cunha lhe ofereceu um banquete. Estava lá todo o society carioca, deslumbrado com o charuto enorme e a engomada farda de Fidel. De repente, aproxima-se dele um homem gordo e vermelho:

– Senhor primeiro ministro, só não lhe perdoo os fuzilamentos.

– Pois posso assegurar que só fuzilei ladrões dos dinheiros públicos.

O homem gordo e vermelho ficou ainda mais vermelho. Era Ademar.

FORMOSA CUBANA

Rômulo Pais, patrimônio de Minas, o maior compositor popular do Estado (Ataulfo, Ari Barroso, tantos outros nasceram lá, mas são cariocas), venceu carnavais sem conta, fez obras-primas, como:

-“Foi pra Santa Tereza que aquela beleza o bonde pegou”.

Em 1961, fez uma música de muito sucesso: “Formosa Cubana”:

– “Vamos todos cantar, cuba-libre tomar. Foi hasteada a bandeira no mastro, vitória do barbudo Fidel Castro. Vem, Lolita – formosa cubana, vem, vem pra festa e deixa a Sierra Maestra”.

Em 1964, no dia 1º de abril, Belo Horizonte incendiada pelo fogaréu de Magalhães Pinto, Rômulo entrou no bar Pólo Norte, matriz da boemia mineira. Gervásio Horta, outro grande compositor popular (alma secreta de Valdick Soriano, autor de muitos dos sucessos do padroeiro da cafonália), começa a cantar a “Formosa Cubana”. Rômulo volta rápido:

– Rômulo, esta beleza de marcha não é sua?

– Nada disso. Não tenho nada com a letra nem com a musica.

Gervásio continua cantando. Rômulo faz um apelo desesperado:

– Não canta, Gervásio. Esta cubana, desde ontem, ficou muito feia.

‘E saiu assoviando: “Foi pra Santa Teresa…”.

O DITADOR

Fidel Castro fez 90 anos esta semana (13 de agosto). É um herói do
século. Mas é um ditador.




***




AS MÃOS DE PILATOS


Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judeia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes o Grande, e irmão de Herodes Antipas, o antipático, que deu a Salomé o pescoço de João Batista.
Philo J1udaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporâneos dele, disseram que era “ríspido” e “intratável”. Mas não queria matar Jesus. Quando aquele homem de olhos mansos, todo ensanguentado, chegou preso ao palácio, trazendo na cabeça a coroa sarcástica ”Jesus Nazarenus Rex Judeorum”-, Pilatos lhe perguntou quem ele era.
– “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.
O caminho, Pilatos sabia o que era. A vida, também. Mas a verdade, não. O evangelista João (18,38) conta que Pilatos outra vez lhe perguntou:
– “O que é a verdade”?
Jesus não respondeu. E foi levado para morrer. Monges medievais diziam que Jesus não respondeu porque a resposta já estava na pergunta. A pergunta, em latim, era:
– “Quid est veritas”? (O que é a verdade?)
Com as 14 letras da pergunta se escreve a resposta:
– “Est vir qui adest”. (É o homem que está aqui).
A verdade é que nem a própria Verdade disse o que é a verdade. E, até o fim dos tempos, jamais alguém saberá.
Toda a tragédia, e todo o ridículo, do homem é que passam os séculos sobre os séculos e nunca ele saberá o que é a verdade. A vida, afinal, é a bela e fugaz busca de Pilatos, querendo em vão saber o que é a verdade. E ninguém saberá, porque ela é muitas.
Por isso Pilatos lavou as mãos e foi dormir.
A VERDADE
Desde o começo dos tempos, o grande conflito das civilizações sempre foi a tentativa de uns imporem aos outros sua verdade. Como ela nunca está com uns nem com outros, porque jamais existiu uma só verdade, a coação ideológica é a grande desgraça dos povos.
Todos os sistemas religiosos, filosóficos, políticos, acabaram se esvaindo pela impossibilidade de se implantarem absolutos. Um dia, o homem sacode a cangalha e pula livre para o campo.
O mais humano e generoso movimento político dos dois últimos séculos foi o socialismo. E acabou se degenerando na brutalidade hegemônica do nazismo, do fascismo, do comunismo.
Da mesma forma que a direita sempre tentou e continua tentando impor seu pensamento único, chame-se colonialismo, imperialismo, neoliberalismo, globalização, também a esquerda imaginou e imagina possível encarneirar a humanidade em um curral ideológico único, universal, inexorável.
E um dia, infelizmente a tão duro custo, a humanidade acaba descobrindo que tudo não passou de fantasia ou pesadelo.
Tudo isso, por tão óbvio, é banal e fácil de dizer. Difícil é enfrentar o dragão radical, solto no poder, na sociedade, no trabalho, na vida. A coragem de dizer não, como Ortega y Gasset:
– “Ser da esquerda, como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas são formas de hemiplegia moral”.
Intelectual é sinônimo de liberdade, de independência. E o primeiro dever de quem fala, escreve, participa da vida coletiva, é a coragem de ser livre. Para dizer o que pensa porque sabe o que diz.
Seguir a caravana, entrar na correnteza, deixar-se levar pela onda, é cômodo mas medíocre. E inútil.
Perguntem a Pilatos, que por isso lavou as mãos e foi dormir.
TERRORISMO
O mundo foi abalado mais uma vez pela besta satânica do terrorismo. E logo, outra vez, exatamente na França, o mais democrático dos países. Parece uma maldição e é. Logo em um balneário da França, Nice, cidade de repouso e férias, em pleno e ensolarado verão.
Um caminhão, um terrorista dirigindo o caminhão em zigue-zague, na hora em que milhares de pessoas olhavam o céu vendo a explosão de fogos comemorativos do “14 de Julho”, a maior festa nacional , e 84 pessoas atropeladas e mortas e centenas de feridos na fileira da morte.
Um só matando 84 e ferindo centenas. Alguém dirá que o terrorista era um louco. Mas uma sociedade que produz esse tipo de loucura também é uma sociedade enlouquecida. Como Pilatos, ela deve lavar as mãos e ir dormir, imaginando que não tem nada a ver com a loucura coletiva.
Os filhos de Pilatos estão pagando o preço de suas mãos lavadas.
TURQUIA
Desgraça nunca vem só. Depois da tragédia terrorista da França, militares da Turquia tentam golpe de Estado, bombardeiam o parlamento, cercam o presidente no palácio e ameaçam massacrar a população que honra sua bela historia e vai para as ruas defender a democracia.
Mãe da Grécia e avó de Roma, a Turquia não merece isso. Não há desculpa. Golpe militar com as armas da nação é canalhice.


***



UM GENIO CHAMADO GLAUBER


Na boate do Hotel da Bahia, onde morava, em Salvador, em 1963, numa noite de sexta-feira, depois do jantar, eu ouvia o Blecaute, o negro cantor de voz calorosa, com suas canções americanas, acompanhado de uma jovem alta, esguia e bela, gaucha e também negra, bem negra, com olhos de amêndoa. Depois de cantar, veio sentar-se à minha mesa.
Era a Leila. Entrou Glauber Rocha, agitado e falando atropeladamente no filme que ia fazer, “Barravento”. Apresentei-lhe a Leila. Ainda de pé, Glauber olhou longamente para ela, chegou bem perto do rosto e gritou alto:
– Sophia Loren em negativo!
Sentou-se. A Leila ficou surpresa, assustada. Ele continuou:
– Você nunca fez cinema? Nunca a chamaram para filmar?
– Não. Sou de Porto Alegre. Eu só canto.
– Você vai fazer um teste de fotos e de fago.
Ela ficou parada, ansiosa. Falei-lhe mais do Glauber, de sua liderança em um grupo de jovens intelectuais baianos, ela sorriu aliviada:
– Claro que aceito. Sempre sonhei com isso. Quando será?
– Amanhã. Mas antes temos que resolver um problema. Seu nome. Leila é bonito, mas não é nome de atriz. Tem que ser outro.
E ficou pensando. Entrei na conversa:
– Que tal Luiza?
– Ótimo, disse Glauber. É simples e forte. Mas tem que ser duplo.
Levantou-se, foi até o bar, pediu uma água, voltou:
– Já tenho o nome: Luiza Maranhão.
Tímida, a gaucha Leila, a nova Luiza, respirou fundo:
– Também gostei muito. E você, Nery?
– Ótimo. Para manchete de jornal e capa de revista é perfeito.
E nasceu ali a deslumbrante e queridíssima atriz Luiza Maranhão. Marcamos encontro para as fotos no dia seguinte, na redação do “Jornal da Bahia”, onde Glauber era editor de Policia e eu colunista. Ela só voltou a Porto Alegre depois de filmar “Barravento”, primeiro longa de Glauber. Depois Glauber fez o clássico “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e outros. Ele era isso: um “vulcão cultural”, como o chamou em magnífico livro o João Carlos Teixeira Gomes, o primoroso poeta Joca.
A revista francesa “Cahiers du Cinema”, a bíblia dos cinéfilos, elogiou esta semana o filme “Cinema Novo”, que recebeu a “Palma de Ouro” de documentário no Festival de Cannes, na França. O documentário é de Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha (1939-1981). A revista diz assim:
– “O Cinema Novo é o cinema do futuro: Eryk Rocha restitui a força criativa, a energia incandescente, o desejo e a paixão de um movimento que nunca deixou de ser contemporâneo”.
Como dizia Otavio Mangabeira, “baiano bom é o que brilha lá fora”.
CPC-UNE
Eram mil coisas ao mesmo tempo, naqueles tumultuados dias do governo João Goulart. Impulsionado pelo meu “Jornal da Semana”, tinha acabado de me eleger deputado. O candidato do PCB (Partido Comunista) a deputado estadual, meu amigo Aristeu Nogueira, não se elegeu. Ficou como primeiro suplente do Partido Socialista.
O PCB queria criar na Bahia o CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes) e não tinham recursos. Fui a Brasília. O perene e incansável Waldir Pires, então Consultor Geral da Republica, me encaminhou ao MEC (ministro da Educação e Cultura Julio Sambaqui). O dinheiro só poderia ir através da Inspetoria Seccional do MEC em Salvador. Era um grande baiano, ex-prefeito de Mutuípe, Julival Rebouças. Para cuidar da verba, um funcionário federal, Noenio Spinola, depois consagrado jornalista, diretor de redação do “Jornal do Brasil”..
E foi assim que, também com a lucidez e o estimulo do grande reitor da Universidade Federal da Bahia, o professor Edgard Santos, começaram a nascer esses maravilhosos tsunamis culturais baianos que foram o “Cinema Novo” e a nova “Musica Baiana”. Instalado no sub-solo da Faculdade de Direito, ali na Piedade, o CPC trouxe Gilberto Gil de São Paulo, Tom Zé de Irará, Caetano e Maria Betânia de Santo Amaro e outros de outros lugares e setores, como as artes plásticas, a musica clássica, o teatro, escritores como João Ubaldo Ribeiro, Flavio Costa, Paulo Gil Soares. Outros, como o pioneiro Gilberto Gil, já ensinavam.
Hoje, estão ai ridículos e desinformados, faturadores da Lei Rouannet combatendo a união da Educação com a Cultura, como se a principal revolução cultural brasileira deste século não tivesse nascido exatamente da junção da Educação com a Cultura no CPC do PCB. Perguntem a Ferreira Gullar, Arnaldo Jabor (Paulo Pontes e Vianinha não respondem mais).


VI A MORTE NA TARDE AZUL

Treze horas na sala Vip do Aeroporto de Brasília. A “Frente de Redemocratização” se preparava para o voo da Vasp para Goiânia, onde fariam um comício. Sentados nas macias poltronas negras, Magalhães Pinto e dona Berenice, deputados Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, senadores Teotônio Vilela, Mauro Benevides e Evandro Cunha Lima, deputado do Rafael Almeida Magalhães, jornalistas Sílvia Fonseca, de O Globo, Marcondes Sampaio, Nélson Penteado e eu, da Folha.
O general Euler Bentes e os senadores Roberto Saturnino e Marcos Freire haviam vindo ao Rio e seguido de automóvel com o jornalista Pompeu de Souza. Chega uma jovem da Vasp e avisa que o voo ia atrasar porque o avião estava em conserto, na pista..Quando anunciaram o voo, pela porta víamos na pista mecânicos deitados embaixo do avião, puxando carrinhos e consertando coisas. Fomos.Exatamente às 16:00, o avião rolou na pista, foi até o fim, decolou, mas em visível dificuldade.
Começou a voar baixo, muito baixo, sobre o planalto verde. A asa direita bastante inclinada, os motores trêmulos, entrou em longa curva e a arquitetura branca de Brasília ali cada vez mais perto. Voou alguns minutos e, de repente, a aeromoça, com voz tensa, informa:
– Senhores passageiros, vamos voltar para o Aeroporto de Brasília, em emergência. Fiquem tranquilos, vai dar tudo certo, é uma pane no sistema hidráulico. Façam o obséquio de tirar canetas, objetos, folgar as gravatas, tirar os relógios, anéis, alianças e curvar o corpo sobre os joelhos.
A PANE
E a aeromoça morena, muito calma, e duas bem alvas, nem tão calmas, passaram a distribuir travesseiros e cobertores para o apoio do rosto, e pegar embrulhos, objetos e levar lá para o fundo. Um passageiro, atrás do deputado Tancredo Neves, chama a aeromoça baixinho:
– Não estou entendendo porque tirar tudo.
– Meu senhor, há uma pane no sistema hidráulico. Se, ao tocar o chão, o avião virar, haverá incêndio e é preciso sair rápido.
Olhei o relógio, 16:22. Tive consciência da gravidade e me preparei para ver o máximo de detalhes. À minha frente, a Sílvia tira a aliança. Põe novamente no dedo e diz a Marcondes, que era uma pedra de tranquilidade:
– Não vou tirar a aliança não. Sei que vou morrer e só poderei ser reconhecida por ela. Não quero meu marido chorando em cova errada.
Imediatamente peguei meu relógio, que havia posto no bolso, e pus novamente no pulso. Também queria ser reconhecido. Atrás de mim, Magalhães Pinto segura forte a mão de dona Berenice que, de olhos fechados, reza profundamente. Ulysses e Tancredo, impassíveis, olham em frente sem piscar o olho. Teotônio aperta ao máximo o cinto e Rafael folga a gravata e curva o corpo sobre os joelhos. Mauro Benevides olha pela janela em silêncio. Evandro Cunha Lima, vermelho. Lá na frente, uma mulher chora, mas chora baixo. A seu lado, uma cigana toda de roxo treme e reza lívida, os olhos molhados. Sílvia sorri:
– Meu Deus, olha uma cigana!
Sílvia volta o rosto sobre a cadeira:
– Nery, você está pálido.
– O que é que você queria? Que, com esse medo estivesse luminoso?
O MEDO
E ela ficou longamente olhando pela janela, serena, como os que sabem que vão morrer e se conformam.O avião vai descendo, passa baixo sobre um campo verde. Ao longe três grandes carros vermelhos dos Bombeiros, uma ambulância e dois carros azuis da Aeronáutica. Fico olhando o azul muito azul da tarde linda, nuvens brancas esgarçadas lá longe no horizonte interminável do planalto, uma novilha esgalga andando mansa no pasto e o avião trêmulo mas tranquilo, descendo empenado.
Amarrei o medo dentro de mim como um louco incontrolável, e por segundos mergulhei infinitamente nos braços da morte. Uma procissão de amor passou em relâmpago: meus pais, filhos, a infância, meu amor azul, Santo Afonso Maria de Liguori nas “Meditações sobre a Morte”, de manhã, no Seminário da Bahia:“É preciso conquistar a intimidade da morte”.
O avião avançava sobre a pista e entre faíscas se arrastou até o fim.
O medo voltou frio, e o “Domingo Azul do mar”, de Paulo Mendes Campos, entrou olhos a dentro, na estupidez de morrer na tarde azul.
 O CATA MILHO
Não seria um ministério. Seria um cata-milho. De tal maneira o PT abastardou a vida publica nacional que agora queriam o MINC (Ministério da Cultura) reduzido a um lupanar de picaretas arrancando verbas em troca de votos . Iludem-se imaginando que o pais não vê.
Os verdadeiros criadores culturais continuarão nos palcos com suas peças, seus filmes, seus espetáculos, seus livros, suas artes, honrando a cultura e a vida da Nação. Pouco importam os impostores. A historia sempre caminhou para a frente e a máfia cultural vai ficando atrás.
O que conta são os o que contam. O que contou foi Gustavo Capanema, Anísio Teixeira, José Aparecido, Celso Furtado, Antonio Houaiss, Luis Roberto Nascimento Silva, Francisco Weffort.



A FALTA QUE FAZEM

JK, Israel Pinheiro, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Foto: Arquivo Nacional
Um dia, quando sobre nossos dias ainda mais se dobrarem as páginas do tempo e a crua crônica daquele nosso tempo for totalmente escrita, muito se há de dizer daqueles homens que construíram aqueles tempos. Volto a Brasília anos depois e, como dizia o poeta, “em cada canto uma saudade”. Não há colinas como em Roma mas colunas como no Alvorada. Penso em Juscelino, Lucio Costa, Niemeyer. Mas também em Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Burle Max.
O tempo não volta. O tempo rola. Não há por que querer o passado agarrado nas nossas pernas. Entro no Congresso e não podia mesmo ser o mesmo. O pais muda, o voto muda, os lideres mudam. Mas também não precisa aquele deprimente espetáculo de baixo nível mental na votação do Impeachment, chamando a vovozinha, a mãezinha, o filhinho, o netinho.
A Nação não precisava esperar votos da altitude intelectual de Otavio Mangabeira e Carlos Lacerda, de Vieira de Melo e Ulysses Guimarães. O voto de hoje é assim porque os lideres de hoje não são mais Tancredo Neves, Leonel Brizola, Franco Montoro, Miguel Arraes, Orestes Quércia, Pedroso Horta, Petrônio Portela. José Aparecido, Teotônio Vilela.
Não culpemos o povo. O povo vota em quem conhece. Um dia as escolas formarão eleitores que votarão melhor. Sem choro nem vela.
Saímos do “Mensalão” para o “Petrolão”, a caminho do “Fundão”. O novo escândalo está vindo ai. A poupança voluntária, administrada pelos fundos de pensão, é instrumento do desenvolvimento. A poupança interna brasileira tem, na riqueza gerada dos seus assalariados de classe média e trabalhadores, poderoso instrumento na maximização da prosperidade em algumas das maiores empresas e empreendimentos na economia brasileira. O fator segurança nesses investimentos decorre da visão de longo prazo para o seu fluxo de caixa em um universo temporal de 35 a 50 anos. O gestor deve ter disponibilidade de recursos para atender as necessidades decorrentes dos pagamentos dos aposentados e pensionistas.
Existem no Brasil 278 fundos de pensão públicos e privados. Os dez maiores são vinculados a empresas estatais e representam 53% do total do patrimônio e real capacidade de investimento. O grande patrimônio formado pela poupança voluntária de milhões de trabalhadores não pode ser administrado ignorando os critérios de competência técnica. Com a chegada do PT ao poder e o ativismo sindical originário do Sindicato dos Bancários de São Paulo, a competência técnica foi substituída pelos sindicalistas-gestores. Transformaram-se em instrumento de governo, patrocinando investimentos nada ortodoxos, arrombando a Previdência Complementar. O grande teórico do modelo foi o falecido sindicalista Luiz Gushiken, ex-deputado federal e ex-presidente do sindicato paulista ao ser nomeado chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. O sindicalista Berzoini ocuparia o Ministério da Previdência, enquanto João Vaccari assumia a presidência do Sindicato em São Paulo.
FUNDÃO
O aparelhamento nominal dos Fundos se daria com a ida dos sindicalistas Sérgio Rosa para a direção da Previ, do Banco do Brasil; Wagner Pinheiro para a Petros, da Petrobrás; e Guilherme Lacerda para o Funcef, da Caixa Econômica. A ocupação dos fundos de outras estatais seguiria a mesma filosofia. Todos vinculados â CUT (Central Única dos Trabalhadores). Agora, em 2015, a conta do aparelhamento se expressa nos prejuízos causados pelas operações temerárias e perdas de bilhões de reais, provocados por incompetência generalizada. No ano passado, o acumulo de déficits, destacadamente na Previ, Petros e Funcef atingiu R$ 77,8 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira de Previdência Privada, confirmado pela Superintendência de Previdência Complementar (Previc) considerada o grande xerife do setor. Nos outros fundos de pensão o cenário não é diferente, afetando o futuro de mais de 500 mil aposentados e pensionistas.
POSTALIS
O mais dramático e chocante ocorreu no Fundo Postalis, dos Correios, que afetará a vida de 100 mil trabalhadores da ativa e aposentados. O déficit de R$ 5,6 bilhões será arcado por 71mil trabalhadores da ativa e por 30 mil aposentados. De maneira injusta e cruel, por um período de 23 anos, a partir de maio, pagarão em 279 meses, até o ano de 2039, um déficit milionário gerado por corrupção e administração temerária. Terão descontos do salário de 17,92%, mensalmente, desfalcando o orçamento de dezenas de famílias. A medida injusta foi aprovada pelo Conselho de Administração dos Correios. A dilapidação patrimonial do Fundo será paga pelos próprios funcionários.

GOLPE FOI ISSO


O Centro Edgard Leuenroth, da Universidade Estadual de Campinas, onde toda a documentação do Ibope está arquivada desde sua fundação, tem depositada uma documentação do Ibope provando que nas vésperas do golpe militar de 31 de março de 1964 a popularidade do presidente João Goulart era de 74%.O levantamento foi feito entre os dias 9 e 26 de março de 1964, incluindo oito capitais brasileiras, atestando que Goulart tinha 74% de apoio dos brasileiros.
(Em tempo: Dilma Rousseff tem hoje também 70%, mas de impopularidade. Exatamente o contrario). No Estado de São Paulo, principal base de combate ao seu governo, 69% dos paulistanos apoiavam Goulart, com a seguinte distribuição: 15% consideravam a administração “ótima”; 30% “boa” e 24% “regular”; e 16% entendiam ser um governo “péssimo”.
Durante 35 anos a Pesquisa Ibope, contratada pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, permaneceu sigilosa, proibida pelos militares de ser divulgada. A pesquisa atestava também que 59% dos brasileiros apoiavam as “reformas de base”, seu programa de governo..
Neste ano de 2016, Lula e Dilma Rousseff buscaram traçar paralelo entre a situação atual e a crise que levou ao “Golpe de 64” . É um delírio dos ignorantes da história. A substituição de uma presidente da República pelo impeachment/, obedecendo a todo o rito constitucional, é um ato democrático amparado pela Constituição. Acreditar que a ação golpista contra Goulart tinha na “impopularidade” o seu fundamento é de uma falsidade gritante. Ao contrário, o ‘pecado’ de Jango foi exatamente a popularidade de seu governo, determinante para a sua deposição.
Certos de que Juscelino Kubitschek ganharia as eleições do ano seguinte (1965), comandantes militares brasileiros e americanos, dominados pelos interesses dos Estados Unidos, juntaram-se à UDN de Carlos Lacerda e outros e deram o golpe sem nenhuma reação. Ao contrario do que dizia a UDN, o povo não tinha armas. E Jango não quis jogar o pais numa guerra civil e entre militares brasileiros.
CELSO FURTADO
A defesa dos interesses nacionais e não a corrupção, em tempos de radicalização da “Guerra Fria”, foi testemunhada e demonstrada por Celso Furtado na obra autobiográfica “A Fantasia Desfeita” (II tomo, página 253), onde relata episódio insólito. Celso era ministro do Planejamento. Tramitava no Congresso Nacional, por iniciativa parlamentar, um projeto de reforma bancária. O ministro da Fazenda San Tiago Dantas recebeu ultimato do banqueiro americano David Rockefeller:
– “Ou vocês tiram de imediato esse projeto de lei ou mando cortar todas as linhas de crédito que hoje beneficiam o Brasil”.
E continua Celso Furtado:
– “San Tiago dava a impressão de estar arrasado. Mas longe de esmorecer continuava a empenhar-se para criar um clima de compreensão nos círculos de negócios dos Estados Unidos. Se fracassasse na tentativa, as incertezas cresceriam com respeito ao processo político brasileiro.”
E foi o que aconteceu em 1964: tanques na rua e nós na cadeia.
Isso sim é que é golpe.
DILMA
Domingo foi diferente: foi um dia de desfile democrático diante das televisões. Um a um, os 513 deputados foram chamados para darem seus votos, livremente, abertamente, sem coações partidárias. Salvo um ou outro caso de partidos que fecharam questão, a imensa maioria votou como quis, anunciando de viva voz e justificando os votos em pequenos discursos.
Os números finais atestam o flagrante isolamento do governo, que só conseguiu 137 votos enquanto a oposição fez 367. Mais de um terço.
LAVA VOTO
A Operação Lava Jato e o juiz Sergio Moro, alem de tudo que a Nação já lhes deve, ficaram credores de mais uma: caiu significativamente o nível de corrupção nas negociações espúrias de compra e venda de votos nos três palácios: Alvorada, Planalto e GoldenTulip.
Deputados que entravam lá imaginando saírem com nomeações, empregos e até “presentes” em dinheiro eram advertidos logo ao chegarem de que ali não se falava em troca-troca, cambalacho, dinheiro fácil. Era preciso ficar de olho na Lava Jato. Se alguém fosse flagrado numa operação de Delação Premiada seria um escândalo sem conserto.
Imaginem se o santo vigário da Paróquia de Brasília, que ajudava Gim Argello a limpar o dinheiro sujo das propinas, fosse flagrado com R$ 350 milhões de “esmola”? Desde que Jesus Cristo fundou a sua igreja há 2 mil anos jamais se viu uma “esmola” tão generosa.
DESPACHO
A preocupação do PT no final da noite de sábado era “onde a Dilma vai despachar” nos próximos meses antes de o processo chegar ao final. Isso não é mais problema. Ela já foi “despachada” pela Câmara Federal.



O SUPREMO TELEFONE

Henrique Teixeira Lott e outros por ocasião da posse de Nereu Ramos na presidência da República, 11 nov. 1955. Nereu Ramos (ao centro, assinando um livro); Henrique Teixeira Lott (à sua direita, segurando o óculos); Mascarenhas de Moraes (à direita de Lott, de óculos); Georgino Avelino (à esquerda de Nereu Ramos, de gravata borboleta). CPDOC/FGV/Arquivo.
No dia 11 de novembro de 1955, internado Café Filho, Presidente da República, com problemas cardíacos, o presidente da Câmara, Carlos Luz, que estava exercendo a Presidência da Republica, tentou demitir o general Lott do Ministério da Guerra, para impedir a posse de Juscelino e João Goulart, que haviam ganho as eleições de 3 de outubro.
Mas não conseguiu. A Câmara reuniu-se, derrubou Carlos Luz e pôs Nereu Ramos, presidente do Senado, lá no Catete.
Antonio Balbino, governador da Bahia, amigo de Nereu, veio para o Rio visitá-lo. Nereu acabava de receber uma carta de Café Filho, comunicando-lhe que ia reassumir a Presidência. Mas o General Denis, comandante do I Exército, já havia mandado cercar a casa de Café para ele não sair de lá.
Quando Balbino chegou ao Catete, o General Lima Bryner, Chefe da Casa Militar de Nereu e muito amigo de Balbino, pediu-lhe que convencesse Nereu a não devolver o governo a Café. Nereu foi claro:
– Só vou agir dentro da lei. O Café, através de Prado Kelly e Adauto Cardoso, entrou com mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal. Se o STF conceder o mandado, entrego o governo a ele e volto para o Senado.
Lott soube da conversa, chamou Balbino:
– Vá conversar com o presidente do Supremo.
Balbino foi. O velhinho estava em casa, noite alta, já de pijama:
– Ministro, o país está vivendo um momento difícil. Compreenda. A casa do Café Filho está cercada pelo Exercito. O Catete está cercado. Nereu não vai poder passar o governo.
– Mas o mandado de segurança está em pauta para amanhã. Se o Tribunal conceder, o Café vai reassumir.
– Ministro, entenda. Enquanto se fecha o Legislativo, ainda se entende. Mas, e se o Judiciário for fechado? Para onde vamos?
O presidente do Supremo levantou-se, passou para o escritório, pegou um telefone negro, antigo, daqueles de gancho, e começou a ligar para os outros ministros, falando baixinho, cochichando, cochichando.
Da sala, Balbino só ouvia fiapos de conversas. No dia seguinte, o mandado de segurança não entrou em pauta. Café continuou em casa.
Nereu no Catete e JK assumiu no dia em que a Constituição mandava.
DIVIDA PUBLICA
1.-No final de 2015 a dívida bruta do governo brasileiro atingiu 66,2% do PIB (Produto Interno Bruto). Analistas de diferentes instituições financeiras projetaram que, no ritmo atual, ao final de 2018, poderá atingir 85% do PIB. Representaria quase toda a riqueza produzida pelo País para a sua liquidação. O economista Armínio Fraga considera que “o crescimento da dívida pública é galopante e põe em risco o trabalho de décadas”, agravada pela maior recessão econômica da história no período republicano
2.- Anteriormente, no biênio 1930-1931, com a Revolução de 30 e a quebra da Bolsa de Nova York, nosso PIB encolheu por dois anos. Agora a recessão foi de 4% em 2015, projeta 4% para 2016 e 1% para 2017.
Significa três anos de contração da economia brasileira.
  1. - Se os indicadores econômicos são negativos, os sociais são brutalizadores, de acordo com a pesquisa “Pnad Contínua” do IBGE que aponta o desemprego alcançando 13,5% em 2017, representando perda de emprego e renda para os trabalhadores.
JUROS
  1. No Brasil, a dívida pública é remunerada na taxa selic de 14,25% ao ano. Em 2015, significou o pagamento de juros acima de R$ 502 bilhões. No Japão, a taxa de juros é negativa de 0,05%, com títulos de dez anos do Tesouro japonês. A confiabilidade e a certeza de que o governo não vai mudar a política econômica são fator de segurança.
  2. - Nos EUA, os títulos da dívida pública são remunerados em 1,7% ao ano. Na Alemanha, a remuneração é de 1%. Na Itália, por volta de 1,5%. Os títulos da dívida pública desses países têm esse perfil de resgate decorrente do nível de confiabilidade nos seus governos. No caso do Japão, ao final de dez anos o investidor receberá valor menor do que o total do seu investimento. Resgatará menos do que aplicou.
AZEVEDOS
Vi na TV o rosto sereno do presidente (ex) da empreiteira mineira Andrade Gutierrez, Octavio Marques de Azevedo, que “propinou” as campanhas da Dilma Rousseff em 2010 e 2014, coagida pelo PT.
Nunca vi o empresário antes. Mas aquele rosto e aquele Azevedo não me enganam. Os Azevedo de Minas eu os conheço há mais de 60 anos. Em 1954, o jovem engenheiro Celso Melo de Azevedo, fundador e presidente da “Construtora Melo de Azevedo”, desafiou as velhas forças políticas de Minas (PSD, PTB, UDN), saiu candidato a prefeito de Belo Horizonte por uma aliança de pequenos partidos (PSB, PDC) com apoio das “esquerdas”, ganhou (eu me elegi vereador) e fez uma administração moderna, exemplar. Ao final do mandato, elegeu-se presidente da “Associação Brasileira dos Municípios”. O comandante de suas campanhas era o jovem jornalista José Aparecido de Oliveira.



A VINGANÇA DA FLORESTA

Gilberto Amado, deputado federal de Sergipe de 1915 a 1917 e de 1921 a 1926, senador de 1927 a 1930 , em 1934 queria ser governador. Já escritor famoso, honra e glória de sua gente, decidiu governá-la. A eleição era indireta, pela Assembleia, comandada pelo Catete. Foi a Getúlio:
– Presidente, quero ser governador de Sergipe.
– Por que, Gilberto?
– Porque quero. É a hora.
– Mas, Gilberto, você um homem tão grande, ser governador de um Estado tão pequeno?
– Quero dirigir minha tribo. Isto é fundamental para minha vida.
– Ora, Gilberto, conheço você muito bem. Esta não é a verdadeira razão. Não pode ser. Governar por governar, isso não existe para um homem de seu tamanho, da sua grandeza.
Gilberto Amado sentiu que era preciso apelar. Apelou:
– Pois o senhor quer que eu diga mesmo? Quero ser governador para roubar, roubar, roubar, do primeiro ao último dia. Roubar desesperadamente
Getúlio ficou perplexo, deu uma gargalhada. Gilberto já estava de pé, andando de um lado para o outro, as mãos para o alto,os olhos incendiados:
– Isto mesmo, Presidente. Roubar, roubar, roubar!
Gilberto Amado não ganhou Sergipe. Mas Getúlio ficou tão encantado que o nomeou embaixador no Chile e Roma até 1942,
depois representante permanente do Brasil na ONU. Tudo que ele queria.
MARINA
Quem conhece a Amazônia sabe que os deuses da floresta são implacáveis. Não se pisa em pescoço de preso. Mas o que o marqueteiro do PT, João Santana, e a Dilma fizeram nas eleições com a índia Marina Silva e o governador Eduardo Campos para “desconstruí-los” (no Houaiss, “destruí-los”) é quase o que o “Estado Islâmico” faz. É a maldade babante.
O olho de peixe do Santana e o chiclete da Monica são um retrato do cinismo levado ao extremo. Ele diz que não sabe quem depositou 7,5 milhões de dólares em sua conta. Ela, que cuida das contas, também não.
O que Lula, Dilma, Santana, Monica, sabem? Alô, Gilberto Amado!
LULA
Quando Lula teve sua bela vitoria em 2002, o país o elegeu vendo no PT uma estrela de novos tempos, uma mensagem de ética na vida publica.    Mas minha mãe adivinhou. Ela passeava com meu filho ao lado da Igreja de nossa querida cidade de Jaguaquara, na Bahia, e ele pintou o nome de Lula no longo muro branco. Depois ele pediu:
– Minha avó, vou fazer uma foto sua com o Lula.
No infinito de sua sabedoria, ela respondeu.
– Meu filho, estou com o nome mas não estou com o homem.
Como na ironia de Gilberto Amado, esta é a dolorosa decepção que o Brasil tem hoje: o PT, que parecia ter vindo para salvar, veio para roubar.
SUPREMO
1.- O jurista e professor Ives Gandra Martins publicou na “Folha de São Paulo” um artigo arrasador : “O Supremo Constituinte”. Denunciou: - “Subordinar a Casa do Povo (a Câmara) à Casa do Poder (o Senado) tornando-a uma Casa Legislativa de menor importância, como fez o Supremo Tribunal, é subverter por inteiro o Estado democrático de Direito, onde a Câmara, que tem 100% da representação popular, resta sujeita ao Senado, em que os eleitores escolhem um ou dois nomes pré-estabelecidos e que, indiscutivelmente, traz a marca de origem de ter sido a instituição que garantiu a escravidão americana por 80 nos”.
  1. - Absurdamente, a Câmara dos Deputados teve as suas prerrogativas constitucionais limitadas pelo ministro Luis Roberto Barroso, o “Barrosinho”, do STF. O Regimento interno, aprovado em 1989, foi adulterado pelo inacreditável parecer. E apoiado por 8 ministros enterrando o parecer jurídico do ministro Edson Fachin sobre o rito do impeachment.
  2. - Com indiscutível vocação pública, o advogado e constituinte Oswaldo Macedo alerta para o fato de o STF ignorar o artigo 86 da Constituição: “Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade”. O ministro Barroso, a um só tempo, ignorou a Constituição e o Regimento interno da Câmara dos Deputados, decretando que o rito do impeachment na escolha dos integrantes da Comissão Especial, ao invés do voto secreto dos parlamentares, deve ser indicação dos líderes partidários.
  3. - O barrento ministro delegou ao Senado a palavra final sobre o rito do impeachment, transformando a Câmara em órgão subsidiário do Senado, hierarquizando a Câmara em função subalterna, como no “pacote de Abril” de 1977, no governo Geisel, que criou os “senadores biônicos”.
Vai custar demais ao país a nomeação de cada ministro do STF.




CACHAÇA NÃO É ÁGUA


O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Em 1978, o prefeito Walmor de Luca, líder estudantil, deputado federal de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um seminário trabalhista nacional com os políticos que se reorganizavam lutando pela anistia e destacadas lideranças sindicais.
Lula estava lá. E também Olívio Dutra, o bigodudo gaucho, bancário do Rio Grande do Sul, depois prefeito de Porto Alegre e governador gaucho, Jacó Bittar petroleiro de São Paulo e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.
Desde a primeira assembleia um assunto centralizou os debates: o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos já funcionando ou outros a nascerem?
Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.
Discutimos dois dias. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas (José Talarico, a brilhante advogada Rosa Cardoso, o exemplar João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido liderado pelo incansável Brizola, que saíra do exílio no Uruguai e articulava sua volta em Portugal.
Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? No último dia vimos Lula já quase mudando de posição. Afinal, em 10 de fevereiro de 1980, nascia o PT, marco da historia política brasileira.
Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.
Lembro-me bem de que lá em Criciúma já rouco de falar Lula pediu:
– Me dá minha água.
Veio uma garrafinha de água bem branquinha. Aquela “minha água” me chamou a atenção. Joguei um gole no meu copo. Era cachaça e da boa.
Lula continua o mesmo. Sempre misturando cachaça com água.
LULA
Em tempos de Carnaval, a marchinha é inesquecível:
– “Você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não.
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão”.
Lula é um passarinho do céu, como aqueles da Bíblia, que não fiam nem tecem. A casa de São Bernardo não é dele mas é nela que ele mora. O sitio de Atibaia não é dele mas é nele que ele passa os fins de semana e pesca.O triplex de Guarujá não é de ninguém mas quem pôs o elevador lá foi ele, quem fez a churrasqueira lá foi ele, quem construiu as suítes lá foi ele, quem toma os porres lá é ele, quem paga… quem paga tudo… ah, quem paga tudo é a Madrinha Odebrecht, a Titia OAS, o Vovô Teixeira.
ADVOGADOS
Mais uma voz honrada da advocacia brasileira se levanta para protestar contra o esdrúxulo manifesto dos leguleios que, incapazes de defenderem seus clientes presos nos escândalos do Mensalão e Lava Jato, agridem o bravo juiz Sergio Moro, que vale mais do que todos eles juntos.
Em Curitiba, o mestre, advogado e escritor Antonio Carlos Ferreira publicou na “Gazeta do Povo” uma resposta acachapante aos fatureiros:
1.- “A argumentação claudicante do manifesto contra a Lava Jato divulgado dias atrás não tenta atingir somente a honra do magistrado Sérgio Moro, como também a dos tribunais que referendam e referendaram continuamente suas decisões fundamentais. Se algo houvesse de errado, certamente estas seriam reformadas. Os habeas corpus têm sido julgados no Supremo Tribunal e indeferidos.Não existe a mínima condição de se imputar atos inconstitucionais ao magistrado, que respeita a lei, a ordem e os direitos individuais de quem está preso ou em prisão domiciliar”.
  1. – “O manifesto ensejará um desastre à classe dos advogados perante a população farta de tanta corrupção, e o tiro sairá pela culatra. Os acusados são meros traidores da pátria, pois se locupletam com dinheiro público e não podem ficar impunes. Aqui não é o advogado que fala, mas o brasileiro farto de tantas mediocridades. Eles não representam a classe dos advogados, que são milhares a lutar pelo seu dia a dia e não são filiados a partidos políticos, ao contrário de muitos que firmaram o manifesto, isso quando não partilham de ideologias estranhas, ou então estão a justificar a condenação de seus clientes, pois muitos fazem parte da defesa de construtoras e construtores que se locupletaram”.
  2. “A argumentação do manifesto é falha, pois falta com a verdade. E, se todo juiz ou causídico é exegeta à força, como diz Carlos Maximiliano, o saber argumentar é que lhe dá expressão ao raciocínio”.



PETROLEO NÃO É DO PT

O presidente Getúlio Vargas, posando com a mão suja de petróleo durante o seu último mandato (1951-54) Arquivo - Agência Senado.
A campanha do “O Petróleo é Nosso”, pela criação da Petrobrás, estava no auge, em 1953, eletrizando todo o pais. Em Belo Horizonte, entidades estudantis, sindicais, de jornalistas e intelectuais preparamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares. A polícia proibiu, alegando que era comício dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. A praça cheia, cercada pela policia.
Lá na frente, servindo de palanque, vazio, pusemos um caminhão sem as laterais e com um microfone. De repente, chega o deputado federal do PTB, querido professor licenciado da Faculdade de Direito e candidato a senador, Lucio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminhão. Fomos juntos. Com ele, a polícia não teve coragem de barrar-nos. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou:
– Ontem, chegando a Minas, li nos jornais que a policia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Exercito, do Rio. Confesso que tive duvidas de vir. Mas, à noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo:
– Vai, Lucio, vai! Vai!
E Lucio foi. Subiu no caminhão, deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Nosso querido professor desabou. Acabou o comício.
LULA
No dia seguinte, no palácio, Juscelino dava gargalhadas:
– Eu bem disse a ele: – “Não vai, Lucio! Não vai!
Aquela queda ajudou Lucio Bittencourt, o “senador do petróleo”, a ter uma vitoria consagradora para senador em Minas, no ano seguinte.
Quando vejo o escárnio do PT gigoloteando a Petrobrás e destruindo-a, comendo por dentro como cupins, penso em tantos que, como Lucio Bittencourt 60 ano atrás, Eusébio Rocha, Rômulo Almeida,Gabriel Passos, Francisco Mangabeira , lutaram incansável e bravamente para que o petróleo fosse de fato nosso, do povo brasileiro e não de Lula e sua gangue.
Uma ação da Petrobras valer um “pixuleco” é uma afronta à historia.
LÚCIO
Dois anos depois, em 1955, já criada a Petrobrás e Getúlio morto, o Partido Comunista, embora ilegal, estava apoiando Juscelino e Jango para Presidente e vice, e Lucio Bittencourt, recém-eleito senador do PTB, para governador. Lucio disputava com Bias Fortes (PSD) e Bilac Pinto (UDN).
Fui destacado para ajudar a campanha de Lucio como jornalista. Haveria uma excursão ao Norte e Nordeste de Minas, ele me chamou:
– Vamos lá, você morou e foi professor em Pedra Azul, conhece bem o vale do Jequitinhonha, Araçuaí, aquela região toda.
Fiquei animado. Mas logo o “Jornal do Povo” me propôs acompanhar Juscelino ao Nordeste brasileiro. Entre o nordeste de Minas e o meu Nordeste, traí Lucio Bittencourt. Falei com ele, ele compreendeu, outro companheiro da Faculdade foi em meu lugar e fui com Juscelino.
Em Campina Grande, Juscelino estava no palanque com Rui Carneiro, Alcides Carneiro, Samuel Duarte, Abelardo Jurema, o PSD todo da Paraíba. Falava um deputado. Chega um “western” (telegrama especial da época) urgente da “Ultima Hora” informando que Lucio Bittencourt acabava de morrer em desastre de avião, em Minas, saindo de Araçuaí e quase chegando a Pedra Azul. Morreram o piloto, ele e meu substituto.
Gelei. Sentei em um canto do palanque e quase chorei. Alguém, um colega da Faculdade, morrera em meu lugar. Os assessores ficaram sem saber como dar-lhe a noticia. Nós jornalistas escolhemos Fernando Leite Mendes, o brilhante e gordo baiano da “Ultima Hora”, que Juscelino chamava de “Pero Vaz de Caminha” de sua campanha:
– Governador, uma noticia ruim, de Minas. Lucio Bittencourt morreu perto de Pedra Azul em desastre de avião.
Juscelino arregalou os olhos, fechou-os, baixou a cabeça, ficou alguns instantes em silencio, visivelmente chocado, como se estivesse rezando, e murmurou :
– Foi reza forte do Bias.
Pegou o microfone e fez comovente homenagem a Lucio Bittencourt.
DELCÍDIO
Se, pouco tempo atrás, a algum candidato de um “Enem” qualquer dessem esses nomes para dizer quem são, tiraria inapelavelmente “zero”:
Cerveró, Delcídio,Youssef, Fernando Baiano, Paulo Roberto Costa, Renato Duque, Bumlai. E no entanto são capitães de longo curso. E como navio não anda sozinho, alguém os trouxe para a gangue e a porta do xadrez.
Delcídio era um guapo engenheiro de Corumbá que apareceu lá pelas bandas do Pará e logo o governador Jader Barbalho, rapaz de raro faro, o fez diretor da Eletronorte e logo ele saltou para diretor da Eletrosul, em Santa Catarina. Especializou-se em gás, gasodutos, termo-elétricas e Bolivias. Cerveró, fiel escudeiro,virou senador de Dilma. Deu no que deu.




RÉQUIEM PARA PARIS

Em Paris, desde a primeira vez, em 1955, eu pensava em Gilberto Amado, sergipano de Estância e universal como todo gênio:
– “Uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia”.
Para mim, o rio correu até minha Jaguaquara, na Bahia.
O sábio Paulo Rónai também lembrou Hemingway sobre Paris:
– “Se tens a sorte de ter vivido em Paris quando moço, por onde quer que andes o resto de tua vida ela estará contigo porque é uma festa móvel”.
E o poeta Murilo Mendes teve medo na guerra, em um verso eterno:
-“Bombardear Paris é destelhar a casa de meu pai.”
O TERROR
Cada um vê Paris com os olhos de sua alma. Meu gordo e saudoso amigo Antonio Carlos Vilaça falava dela como da primeira escola:
– “Paris foi importante para minha geração, uma geração que lia autores franceses. Em Paris pensávamos, éramos”.
São 60 anos. Minha Paris é uma história de 60 anos. De 1955 quando lá estive pela primeira vez até a semana passada, quando mais uma vez deixei Paris depois de mais um mês lá, como faço todo ano. Eu enrolava minha saudade e a canalha terrorista enrolava suas bombas assassinas.
Não consigo imaginar destruída a cidade onde mais sonhei, mais aprendi, mais amei, mais cresci, mais vivi.
CONCENTRAÇÃO
Voltemos ao Brasil. Os professores Marcelo Medeiros e Pedro Souza, da Universidade de Brasília (“Estabilidade da Desigualdade”) demonstram que a concentração da renda continua imutável e ascendente. Estudiosos da desigualdade social brasileira, eles denunciam:
– O segmento do 1% mais rico da população, estimado em 1,4 milhão que ganham a partir de R$ 229 mil anuais, em 2006 tinha participação em 22,8% da renda nacional. Em 2012 cresceu para 24,4% da renda brasileira.
– Entre os 10% mais ricos, não foi diferente. A renda, no mesmo período, avançou de 51,1% para 53,8%. Já a renda dos 90% mais pobres não obteve a mesma performance, mesmo apresentando alguma melhoria.
E o PT dizia-se o partido dos trabalhadores. Virou o dos banqueiros.
DESIGUALDADE
O professor Naércio Menezes Filho, da FEA-USP e coordenador do Centro de Políticas do Insper, no jornal “Valor” (16/10/2015), no artigo “A Desigualdade Começou a Subir”, sintetiza:
– “O Brasil é um país bastante desigual. Essa desigualdade tem sua origem no fato de que a maioria da população ficou excluída do nosso sistema educacional até meados do século XX. Nos últimos 20 anos, porém, o processo de inclusão social que houve fez com que a desigualdade declinasse continuamente. Será que esse processo está chegando ao fim?”
CRISE
“Com tristeza e o coração partido”, o professor e escritor Hélio Duque, três vezes deputado pelo MDB e PMDB do Paraná, responde:
  1. - “Lamentavelmente, sim. O governo Dilma Rousseff, por incompetência e centralismo autossuficiente e autoritário, conseguiu interromper um caminho que, mesmo com limitação, se apresentava virtuoso, Os próximos anos serão de frustração do sonho de o Brasil estar marchando para a construção de uma sociedade que avança no combate à miséria e a injustiça social”.
  2. - “Sem crescimento da economia, não existe milagre que possa sustentar a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Somente com políticas econômicas de austeridade fiscal é que se pode enfrentar essa realidade adversa: a sustentabilidade das políticas de inclusão social”.
DEFICIT
  1. – “Historicamente, o “superávit primário”, mesmo nos momentos de crise, sempre foi obtido por diferentes administrações. Quando Dilma assumiu o governo, era de R$ 128 bilhões. Agora, de maneira inédita, a situação é inversa: o “déficit primário” consolidado seria de R$60 bilhões”
  2. – “Com o agravante de o Tesouro ser obrigado a pagar as “pedaladas fiscais” (dívidas atrasadas no BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica), estimadas pelo Tribunal de Contas em R$ 40,2 bilhões”.
  3. – “Com outros penduricalhos, o déficit ultrapassará e R$ 117 recordes de popularidade”. bilhões. Ele foi construído naqueles anos onde a fantasia marqueteira era vendida aos brasileiros que aprovavam e aplaudiam o governo com marcas recordes de popularidade”.
ISABELITA
E de um amigo paulista, que bem conhece a Argentina, vem a definição perfeita de Dilma:
– Dilma é a Isabelita sem Perón.





O BISPO DE HYPONA



Agostinho, bispo de Hypona (hoje Annaba, na Argélia), um dos construtores do Cristianismo, autor de livros imortais como “Confissões”, “Cidade de Deus”, “Doutrina Cristã” (viveu dos anos 354 a 430), enfrentando as perseguições ao Catolicismo no mundo muçulmano, fugia da policia em pequeno barco quando foi cercado saindo de Hypona:
– O senhor viu o bispo Agostinho passando por aqui?
– Não vi não.
E o policial foi embora. O barqueiro levou um susto:
– Bispo Agostinho, sua Igreja ensina a não mentir.E o senhor mentiu.
– Não menti. Fiz uma “restrição mental”. Ele perguntou se eu vi o bispo passando. E eu não vi passando. Estou passando. Estamos passando.
LOTT
E foi em frente. No Brasil, tivemos um caso semelhante. Em 1955 Juscelino Kubitschek elegeu-se presidente da Republica. A UDN e seus militares tentaram um golpe para impedir a posse de JK O vice-presidente Café Filho internou-se em um hospital e assumiu o presidente da Câmara o mineiro Carlos Luz que imediatamente demitiu o ministro da Guerra marechal Lott e nomeou o general Fiuza de Castro.
Estava armada a jogada para impedir a posse de JK. Mas o marechal Lott e o general Odilo Denis rebelaram-se e exigiram a posse provisória de Nereu Ramos, presidente do Senado. O jornalista Otto Lara Rezende, da revista “Manchete”, foi entrevistar Lott:
– Marechal, os senhores rasgaram a Constituição?
– Pelo contrario, Otto. Nós garantimos o retorno aos quadros constitucionais vigentes.
O verdadeiro golpista Carlos Luz entregou o governo, Nereu Ramos assumiu a presidência e garantiu a posse de JK e João Goulart.
CUNHA
O híbrido deputado Eduardo Cunha está fingindo de Bispo de Hypona e marechal Lott. Diz que não tem dinheiro na Suíça, apenas “ativos”. E que os “ativos” não são dele, mas dos “trusts”, dos bancos.
É uma farsa. O bispo e o marechal não mentiam. Argumentavam. Defendiam-se: um da policia e o outro do golpe contra a posse de JK.
BRASIL
Em dois meses pela Europa, a pergunta que mais ouvia era uma:
– Como está o Brasil?
Infelizmente não está bem. E os números vêm piorando a cada dia.
1.- No PIB mundial, medido em dólares, o Brasil manteve, por alguns anos, o 7º lugar. Em primeiro lugar, os EUA, com 18,12. Segundo, China, 11,21. Terceiro, Japão, 4,21. Quarto, Alemanha, 3,41. Quinto, Reino Unido, 2,85. Sexto, França, 2,47.Agora, no início de outubro, o Fundo Monetário, projetando o cenário para 2015, deslocou a economia brasileira para o 9º lugar, com o PIB que era de US$ 2,35 trilhões sendo rebaixado para US$ 1,80 trilhão. A Índia passou a ser a sétima, com US$2,18 trilhões. E a oitava a Itália, com US$ 1,8.
2.– O Brasil em dólares perdeu o equivalente ao PIB da Suécia que é de US$ 520 bilhões, ou da Argentina que é de US$ 474 bilhões. Analisando o impacto desse rebaixamento brasileiro, constata-se que o cenário projetado é ainda mais grave. Para o PIB de US$ 1,80 trilhão, o FMI utilizou a cotação do dólar a 3,20 reais. A conta é fácil: o PIB do Brasil em 2015 é de 5,74 trilhões de reais. Com o dólar em 3,20, alcançaríamos o total de US$ 1,793 trilhão, ou US$ 1,80 trilhão.
DÓLAR
  1. – A moeda norte americana chegou a ultrapassar 4 dólares, em relação ao real, determinando um rebaixamento ainda mais doloroso do Brasil, no “ranking” das principais economias mundiais. Com o dólar valendo R$ 3,50, a redução do PIB brasileiro iria para US$ 1,64 trilhão. Cotado a R$ 3,60, a queda seria para US$ 1,59 trilhão.Valendo R$ 4,00, o nosso PIB seria de US$ 1,43 trilhão.
  2. - O “ranking” do Fundo na amostragem do PIB em dólar, em diferentes países, demonstra: a) no Canadá é de US$ 1,78 trilhão; b) na Austrália, US$ 1,44 trilhão; c) na Coréia do Sul, US$ 1,41 trilhão; d) Na Espanha, US$ 1,40 trilhão. Na América Latina, o do México US$ 1,28 trilhão. Se o dólar continuar se valorizando ante o real, agravando as contas nacionais, a recessão econômica poderá levar o nosso PIB, medido na moeda americana,a ser ultrapassado por alguns desses países.
PEDALADAS
Há quatro anos, o então ministro Guido Mantega blasonava:
– “O FMI prevê que o Brasil será a quinta economia em 2015, mas acredito que isso ocorrerá antes”.
Em 2010, ao final do seu governo, era Lula quem afirmava:
– “Se depender de Dona Dilma e de Dom Guido, vamos ser a quinta economia do mundo. Em 2016, vamos conquistar essa medalha de ouro.”
Apenas irresponsáveis pedaladas.





ALHAMBRA DE GRANADA

A Alhambra ou, preferencialmente, Alambra localiza-se na cidade e município de Granada, na província de homônima, comunidade autônoma da Andaluzia, na Espanha.
A primeira vez em que vim a Granada foi no violão de meu pai lá nas noites da roça. Agustín Lara, o barroco mexicano Ángel Agustín Maria Carlos Fausto Mariano Alfonso Rojas Canela del Sagrado Corazón de Jesús Lara y Aguirre del Pino, embolerava as noites com as canções “Granada”, “Solamente una Vez”, “Noche de Ronda”, “Palmeras” (o nome da nossa fazendinha) e outras.

A segunda vez em que vim a Granada foi nos iluminados comícios da Constituinte espanhola de 1977, quando a Espanha reaprendeu a democracia, a luta política e a liberdade.

A terceira vez em que vim a Granada foi na Exposição Internacional de Sevilha em 1992 quando o então presidente espanhol Felipe Gonzalez acompanhou o presidente Fernando Collor numa visita aos eternos labirintos de Alhambra, soluço incontido da história e Patrimônio Cultural da Humanidade, soberbos séculos construídos pelos árabes e pelo cristianismo desde os fenícios, os romanos, os gregos.

LABIRINTOS

A quarta vez em que vim a Granada foi agora. Mas não vim a Granada porque vir a Granada sem ir a Alhambra é não ir a Alhambra nem vir a Granada. Aqueles magníficos e perturbadores palácios, brotando de dentro das florestas de ciprestes são um dos mais apocalípticos documentos da espiritualidade humana. A partir do ano 712 os árabes dominaram o reino de Granada durante 536 anos. Em 1248 Fernando III, O Santo, conquistou Sevilha e Granada para a cristandade.

Os mulçumanos foram embora de Granada ficando apenas cristãos e judeus. Em 5 séculos construíram dezenas de palácios e quilômetros de caminhos nas colinas vermelhas da Alhambra. Sevilha é um símbolo da união do mundo árabe com o mundo cristão. Na catedral toda em ouro, está o túmulo de Cristovão Colombo, todo em prata.

Cheguei a um tempo em que caminhar horas é maratona. Vou voltar a Alhambra ouvindo Granada de Agustín Lara.

CAPITALISMO

O jornal “El Pais”, o maior da Espanha e da Europa, publicou uma pesquisa assustadora: “O 1% mais rico tem tanto patrimônio quanto todo o resto do mundo”:

– “2015 será relembrado como o primeiro ano da série histórica em que a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor de todos os ativos. Em outras palavras: o 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio avaliado em 760.000 dólares têm tanto dinheiro liquido ou investido como 99% do restante da população mundial. Esta enorme faixa entre privilegiados e o resto da humanidade, continuou ampliando-se desde o inicio da Grande Recessão , em 2008”.

– “A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, chega já a uma leitura possível: os ricos sairão das crises ainda mais ricos, em termos absolutos como relativos, e os pobres relativamente mais pobres”.

OS NÚMEROS

Distribuição da riqueza mundial:

Quem tem a riqueza mundial? Evolução entre 2000 e 2015 em %.

– 10% da população mundial

– 5% da população mundial

– 1% da população mundial

A pirâmide da riqueza global

34 milhões de pessoas = 0,7% da população mundial:

– Mais de 1.000.000 de dólares = 45,2% da riqueza

– Entre 100.000 e 1.000,000 dólares = 39,45% da riqueza

– Entre 10.000 e 100.000 dólares (1.003= 21% milhões de pessoas)

= 12,5% da riqueza

– Menos de 10.000 dólares (3.386 = 71% milhões de pessoas)

= 3% da riqueza

ELEIÇÕES

No dia 20 de dezembro a Espanha vai às urnas para escolher o novo Chefe do Governo que, como o regime é parlamentarista, sairá da maioria conquistada por cada partido. Estes números que estão ai em cima comandam o debate eleitoral. Como também os números do orçamento nacional.

Aqui não há pedaladas. Como a União Europeia achou que os números do orçamento para 2015 estavam sem objetividade, reclamou e pediu que o Governo Espanhol seja mais objetivo para que não só a população espanhola como os governos de todos os estados da União Europeia possam caminhar seguros diante dos números.

No dia 20 a palavra final é das urnas.


BILHETE A HELIO FERNANDES


A ditadura não sabia o que fazer naquele segundo semestre de 68. Os intelectuais, os estudantes, os cavalos do Exercito e da Policia Militar e os primeiros cadáveres estavam nas ruas. A TV Globo  era uma escuderia para quem como eu ainda respondia a vários IPMS. Mas eu queria, precisava escrever em jornal e cassado não podia.

Todas as manhãs, passava em escritórios de amigos para saber de alguma novidade. Subi ao de José Aparecido, no edifício Avenida Central. Estava lá com ele o principe do livro no Brasil, Enio Silveira. E entra,  barbudo, apressado, falando encachoeirado, Helio Fernandes.

Eu o lia de muitos e  muitos anos, no “Diário de Noticias” e agora na “Tribuna da Imprensa”. Ele não me conhecia. Foi direto:

– Sebastião Nery,li seu livro “Sepulcro Caiado, o Verdadeiro Juracy”. Bom e bem escrito. Dei uma nota. Por que você não escreve na “Tribuna”?

– Helio, li sua nota, fiquei contente e agradeço muito. Quanto a escrever na “Tribuna”, sou nordestino de Jaguaquara, na Bahia.  Lá na minha terra a gente só entra na casa dos outros convidado.

– Pois está convidado. Quando quer começar?

– Hoje. Quanto você me paga?

– Nada. A “Tribuna” não tem dinheiro para um profissional como você.Mas tem toda a liberdade que você quiser usar.Comece quando quiser.

TRIBUNA

Despedi-me, fui para a rua do Lavradio, apresentei-me ao chefe da redação, o baiano Helio Ribeiro, e fiz a primeira coluna. Escrevia todos os dias. Não era um emprego. Era uma tribuna contra a ditadura.

Exceto quando a ditadura me impediu, como impediu Paulo Francis, Oliveira Bastos, Evaldo Diniz, Genival Rabelo, Monserrat, tantos, e os cinco anos na “Ultima Hora” (de 78 a 83), escrevi mais de 30 anos na “Tribuna”, todos os dias, até o jornal fechar recentemente.

Sou testemunha diária da bravura de Helio Fernandes. Comecei em agosto de 68, em dezembro veio o AI-5 e a ditadura, como uma bomba de Hiroshima, queria matar o país de uma vez. Enfiaram um major na redação, que lia tudo, vetava tudo, queria cortar tudo. E Helio resistindo,sendo preso, confinado e o jornal explodido por uma bomba na madrugada.

Quando ele chegou do confinamento em Fernando de Noronha, Pirassununga, etc, eu estava no aeroporto Santos Dumont. Os militares ameaçavam: – Se ele voltar a escrever, vai de novo.

Helio voltou a escrever, sempre, até hoje, já no jornal on-line.

O AMIGO

No dia 13 de maio de 71, ele me mandou este bilhete, batido na redação, em lauda do jornal:

– “Sebastião Nery, meu abraço.

Sua coluna de hoje só não é a melhor que você já fez pois tem feito tantas excelentes que seria impossível a classificação. Mas a de hoje é genial. Lúcida, limpa, magnificamente bem escrita, desassombrada, com aquele tom que só os grandes jornalistas conseguem. Infelizmente, grandes jornalistas é precisamente o que está faltando ao jornalismo brasileiro.

São raros os que sabem escrever. Mais raros os que têm alguma coisa a dizer. E pouquíssimos os que têm coragem de dizer o que sabem. Você, para honra nossa, reúne as três coisas: sabe escrever, tem o que dizer e o diz daquela forma corajosa que apavora os que têm medo da liberdade.

Meu abraço de admirador profissional e de amigo, Helio Fernandes”.

(Este não é um bilhete. É um galardão que guardo na parede – SN).

CENSURA

Um dos maiores empulhamentos que se tentou criar no Brasil é que quem mais sofreu com a censura e resistiu foram os jornalões, mas revistonas. Uma fraude, uma farsa. Falsos heróis continuam falando de uma valentia que não tiveram. Negociavam com os militares no escurinho do cinema.

Em alguns raros dias, como a noite do AI-5, de fato todas as redações foram pressionadas pessoalmente por militares. Mas logo iam embora e a censura era feita pelo telefone, entre amigos.

Censura mesmo sofreu a “Tribuna”, porque se rebelava, resistia, denunciava as torturas, publicava as noticias de assassinatos.

Quando surgiram o “Pasquim”, “Politika” e “Opinião”, esses foram também diretamente censurados. Tínhamos que entregar tudo antes para ser censurado em Brasília. Mas os “jornalões”, não. Nunca tiveram de mandar edições para Brasília.

*Em 31/08/2011.





GETÚLIO E DILMA



Aquela foi uma noite de cão, o 23 de agosto de 1954. Fez 61 anos domingo. Ninguém me contou. Eu vi, vivi e sofri.

Getúlio encurralado no Catete. Juscelino, generoso, corajoso e solidário, o havia levado a Belo Horizonte no dia 12 para inaugurar a siderúrgica Mannesman. Eu queria ver e ouvir Getúlio. Nunca o tinha visto de perto. Mais baixo do que pensava, mais gordo do que parecia, uma infinita tristeza no rosto, como se fosse logo chorar. Leu seu discurso com a voz forte, decidida mas tensa. Deixou claro : só morto sairia do Catete.

Juscelino fez um discurso como ele era : valente, desafiador, falando em desenvolvimento, futuro e democracia, Nada poderia fazer mais bem a Vargas naquela hora desastrada.

Getúlio resolveu dormir em Minas. De manhã, depois do café, Vargas todo arrumado para viajar, com um charuto na mão esquerda, Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas, um de cada jornal, para nos apresentar. A mão miúda, gordinha, fria, parecia um filé mignon. Olhava-nos com simpatia, sorriso contido mas olhar distante, de quem não estava mais ali, perguntava o jornal onde trabalhávamos, de onde éramos.

Em nenhum instante sorriu aberto. Entrou no carro sem olhar para trás, foi para o aeroporto com Juscelino, despediu-se emocionado.

SUICÍDIO

E o golpe galopava nas rádios, jornais e tribunas do Congresso. Na noite de 23 de agosto, as rádios “Nacional”, “Tupi”, “Globo” ficaram de plantão. A “Nacional” era do governo. A “Tupi” de Chateaubriand e a “Globo” de Roberto Marinho tinham sido entregues a Carlos Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

Recebeu o manifesto dos generais, levado por seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa. Assinou uma licença, deu a caneta a Tancredo , foi deitar-se ao amanhecer. Lacerda e Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

– “ Licença coisa nenhuma. Ele não voltará ”.

Não voltou. Ficou para sempre. Suicidou-se às 8:30 da manhã.

A CARTA

Passei a madrugada ouvindo as rádios e um pianista cego, no “ Columbia ”, bar restaurante de jornalistas noturnos,na avenida Paraná.

A Carta Testamento começou a ser lida nas rádios. Corri para o palácio da Liberdade, cheio de jornalistas, políticos. Juscelino literalmente arrasado. Nas mãos, enrolada, a Carta Testamento. Pedi uma copia para mim, sai às pressas. A cidade já toda na rua. Armaram um palanque bem ao lado da escadaria da Faculdade de Direito. Roberto Costa e Dimas Perrin, dirigentes do Partido Comunista, comandavam:

– Na hora em que terminar de ler a Carta, não esqueça de apontar para o Consulado Americano e dizer:

– Quem matou Getúlio está ali! Foi o imperialismo americano!

O Consulado ficava exatamente ao lado da Faculdade, com uma Biblioteca Thomas Jefferson logo na entrada:

E fui lendo pausadamente, comovidamente. Não sei que ator baixou em mim. Não parecia que era eu. Até a voz ficou mais alta, poderosa. A multidão chorava e eu também. As ultimas frases li como se estivesse sobre o túmulo de Vargas. Antes de descer, o fogo já subia. Haviam posto gasolina nas revistas e jornais pendurados nos cavaletes, nos livros dentro das estantes e nas grandes fotografias de Lincoln e Jefferson.

Queimava tudo. Fogo sabe bem inglês.O incêndio do Consulado em Belo Horizonte foi uma das fotos mais impressionantes que correram o mundo no 24 de agosto. As Policias Federal, Militar e Civil avançaram batendo. Houve muita pancadaria. Estudantes e povo apanhamos muito.

MONTANHA

Montanha, um investigador enorme, grandalhão, negro, me agarrou pelo pescoço com a mão esquerda, a palma da mão bem vermelha, me sacudiu no ar e jogou no chão, como um embrulho inútil.

Na outra mão, um revolver grande, preto. Pensei que ele ia atirar:

– Ai, meu Deus! Vou morrer aos 22 anos, como Álvares de Azevedo!

Não atirou. Bateu com o revolver no meu rosto, o sangue esguichou e saiu me arrastando para o carro da policia.Roberto e Dimas pegaram um ano de cadeia. Estudantes que derramaram a gasolina seis meses cada. A Policia acusou minhas frases de serem uma senha. Sem prova me soltaram.

DILMA

Dom Pedro I, acuado, mandou seu recado:

– “ Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico ”.

Ficou pouco. Getúlio, isolado, deu um tiro no peito. Dilma, ainda bem, não dará.

Também, e é uma pena, não sairá. Só agarrada, tirada. Falta arranjar um José Bonifácio para cuidar de Michel Temer até ele crescer.




ONTEM E HOJE



Foi meu colega na saudosa Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas e contemporâneo na Câmara Federal (1975 – 83 pelo MDB e PMDB mineiro). Agora, Genival Tourinho está escrevendo um livro comparando o estilo de vida dos parlamentares de sua geração com os dos atuais: – “Quanto mais recordo mais fico indignado”.

No meio do mês, era comum que os colegas da Câmara formassem filas em uma agência da Caixa Econômica Federal para pegar um empréstimo para segurar o resto do mês:

– “Nós trocávamos avais. Eu cansei de pedir ao colega Tancredo Neves que fosse meu avalista, E eu o avalizava quando ele precisava.”

Advogado e excelente parlamentar, Genival demonstra que a Câmara nunca foi, ao longo da sua história, um clube de privilégios e mordomias. Quando era no Rio e nos primeiros anos de Brasília, os deputados não tinham gabinetes privativos. Além do subsídio mensal, havia a verba de transporte: 4 passagens aéreas de Brasília até a capital do seu Estado. Tinham direito de contratar 3 funcionários. E o apartamento funcional.

CÂMARA

Tudo mudou a partir de 1991, quando a mesa da Câmara promoveu “reforma administrativa” alargando benefícios que se estendem até hoje. Penduricalhos foram introduzidos com verbas variadas e podendo contratar até 27 funcionários. O estilo da representação mudou e não foi para melhor.

Aprovada a Constituição, o presidente da Câmara Ulysses Guimarães indicou o economista e professor Helio Duque, baiano do PMDB do Paraná, ex-presidente da Comissão de Economia da Câmara e um dos vice-presidentes da Executiva Nacional do PMDB, para integrar a Comissão de Orçamento. Sábio e experiente, Ulysses desconfiava do que acontecia lá.

Helio ficou 15 dias, renunciando e relatando ao presidente da Câmara o que lá ocorria: um grupo de parlamentares era subordinado aos interesses das grandes empreiteiras nacionais. Dois anos depois Helio não era mais deputado e o escândalo dos “Anões do Orçamento” chocou o Brasil, levando à cassação do mandato de vários dos seus membros.

O Mensalão e o Petrolão têm pai e mãe.

BANCOS

No começo do Ajuste Fiscal , o governo petista da Dilma e do Lula anunciou que ia “taxar os lucros dos bancos e financeiras, as grandes fortunas e as heranças”. O tempo foi passando e não se fala mais nisso. Mas o governo não esqueceu de taxar os salários dos trabalhadores, as aposentadorias dos trabalhadores, as pensões dos trabalhadores e aumentar os impostos das pequenas e medias empresas.

Escondido, com vergonha, os jornalões, que pertencem aos bancões, deram a noticia escabrosa: o lucro dos bancos chegou a 46%! Em um pais em recessão, com um “crescimento do PIB abaixo de 0%”, não há noticia mais pornográfica. E o Banco Central, a gorda dona do bordel, aumentou a taxa básica de juros para 14%, a maior do mundo, alegando despudoradamente que é para baixar a inflação. E a inflação subindo.

PIRÃO

Os jornalões não se envergonham de defender o ajuste fiscal só contra quem vive de salário ou aposentadoria e contra a indústria e comercio que produzem, Sabem por que? “O “Globo” abriu o jogo:

“O governo vai honrar o acordo feito na Câmara para não impor vetos à desoneração da folha de pagamento de setores da economia acordados com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Na negociação com a Câmara, segundo fontes do Planalto, o governo concordou em manter a desoneração para três setores: call centers, transportes e comunicações”.

Vejam bem que coisa mais sórdida. Aumento de impostos para todo mundo, menos para “comunicações” (jornais, rádios e TVs), “transportes” (ônibus, metrôs, trens) e “call centers” (centrais telefônicas).

Eles passam dia e noite falando em “liberdade de expressão”, “igualdade de direitos”, “sacrifícios coletivos”. Mas põem a faca na garganta do governo só em defesa dos interesses deles.

Farinha pouca meu pirão primeiro.

BOMBA JUCÁ

O senador Jucá, do PMDB de Roraima, líder da Dilma no primeiro mandato, jogou um bomba no Planalto na “Folha de S. Paulo” de sábado:

1.- “O quadro de uma eventual deposição da presidente da República não está maduro. Ou o governo muda ou o povo muda o governo”.

2.- “Vai piorar. A arrecadação federal está caindo, a atividade econômica está caindo, os Estados estão começando a quebrar, os setores que ainda empregaram no primeiro semestre, como o comércio e serviços, vão desempregar no segundo semestre, com a classe média com risco de desemprego. Então todo mundo vai ser o mais conservador possível.”

3.- “O governo está na UTI. Pelo amor de Deus não racionem o oxigênio porque depois vai morrer e ai não adianta, já passou a hora”.



MINAS ERA DIFERENTE



Minas não esquece. Minas é boa de lembranças. Livro de mineiro está sempre relembrando. O passado é o adubo da alma. Como em Guimarães Rosa e Pedro Nava. Ou em Drummond.

Mais um belo livro de mineiro contando historias de Minas. O jornalista e poeta (luminoso poeta) Petrônio Souza Gonçalves (“Quem soltou a borboleta azul na tarde triste?”) pagou uma divida de Minas. Lançou “José Aparecido de Oliveira – O Melhor Mineiro do Mundo”.

MINEIROS

50% do texto é do Petrônio. Texto leve, livre, solto. Cada frase um fato. Bem editado, bem ilustrado, rico em fotos e testemunhos. Os outros 50% são depoimentos de jornalistas e escritores mineiros sobre Aparecido:

Benito Barreto : -“O Homem e o Amigo”.
José Bento Teixeira de Salles” : “Assim Era Ele”.
Orlando Vaz : – “Articulador Político e Talento Admirável”.
José Augusto Ribeiro : “Dois Raros Momentos da Dupla Jânio-Aparecido”.
Gervásio Horta : ’Poucas e Boas”.
Mauro Werkema : “José de Todos os Amigos”.
Aristóteles Drummond : “O Zé Carioca”.
Guy de Almeida : “Aparecido no DF”.
Angelo Oswaldo: “O Compromisso Cultural de José Aparecido”.
Wilson Figueiredo : – “A Arte de Negociar Divergências”.
Paulo Casé : “Manifesto AAZA”.
Oscar Niemeyer: “JAO”.
Ziraldo: “As Aventuras de José Aparecido”.
Mauro Santayana: “Conversações na Rua Caraça”.
Alberto Pinto Coelho: “Demiurgo das Utopias Realizáveis”.
Silvestre Gorgulho: “Lições e Segredos de Um Mestre”.
E eu : “12 Historias de José Aparecido” .
Por ultimo, o José Maria Rabelo, porque algumas lembranças dele me deixaram a alma dolorida. Em 1950/60 nós éramos jornalistas e ativistas políticos vendo a pátria, o povo, o futuro. Nossos heróis, mesmo quando deles divergíamos, não nos envergonhavam. Hoje, a Operação Lava-Jato mostrou uma elite política que afunda no dinheiro, na corrupção.
O José Dirceu, tão preparado e tão guloso,é um desperdício nacional.
JOSÉ MARIA
1.- “A Praça Sete era naqueles tempos, por volta de 1950, o coração político de Belo Horizonte, onde nós, estudantes idealistas, passávamos horas do dia discutindo os problemas daqui e do resto do mundo”.
  1. - “Ao lado de Hélio Pellegrino, Palmius Paixão Carneiro, Fernando Correia Dias, Bernardino Machado de Lima, Wilson Vidigal e outros insensatos salvadores da pátria, todos pertencentes ao antigo Partido Socialista Brasileiro, eu participava ativamente das discussões na praça, não poupando munição contra os adversários: de um lado os integralistas, de outro os comunistas stalinistas. Nós tínhamos a chama da verdade, o socialismo democrático, com a qual iríamos incendiar o planeta”.
  2. – “Um dia, eu estava lá, fazendo minha pregação e distribuindo impropérios à direita e à esquerda. Foi quando um grupo de integralistas se aproximou, com alguns deles passando a insultar-me e ameaçar-me de agressão. Aí surgiu meu futuro amigo, e usando um porrete, que não sei de onde tirara,avançou sobre os provocadores,forçando-os a fugir praça afora”
  3. – “O Zé Aparecido me explicou por que tomara aquela atitude quixotesca, que poderia ter tido outras consequências. Primeiro, porque nunca admitira a ideologia integralista, herdeira do fascismo, de gente como aquela, fanática 1e totalitária. Segundo, pela iminência de um ato de covardia., diante de seus olhos, com um bando de provocadores lançando-se contra uma pessoa sozinha, unicamente por divergir deles”.
  4. – “A partir daquele episódio, nasceu entre nós uma grande amizade, que se manteria inabalável por mais de meio século, apesar das contingências de tão extensa travessia. Mais tarde, ele foi morar em nossa república, que ficava numa velha casa. Parece-me que hoje tombada pelo patrimônio histórico da capital mineira, no cruzamento das ruas Aimorés e Maranhão, Bairro dos Funcionários. Ali, eu e o Euro Arantes vivíamos e redigimos os primeiros números de nosso jornal “Binômio”.
PETROLÃO
  1. – “Todos levávamos uma vida muito apertada, estudando e ganhando algum dinheiro como jornalistas principiantes. Lembro-me que o Zé Aparecido possuía apenas dois trajes, ou, como se dizia, duas mudas de roupa. Um deles era um terno jaquetão preto, que o acompanhou por longo e longo tempo. De tal forma o jaquetão preto se identificou com o portador, que muita gente achava que, ele fazia questão de usar por esquisitice”.
  2. - Nesse tempo, graças a suas relações com a UDN, conseguiu uma cópia do famoso inquérito do Banco do Brasil, revelando uma grossa negociata no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. Entre os denunciados, apareciam importantíssimas figuras da República”.
Corrupção sempre houve. Mas o petrolão e o PT são incomparáveis.



O DONO DA OCA

O então governador do Rio, Leonel Brizola, ao lado do cacique Juruna e de Darcy Ribeiro, inaugura o Ciep Zumbi dos Palmares.
Juruna, o selvagem cacique xavante que até os 18 anos flechava avião voando baixo em Barra do Garças, estava comovendo o país, de gravador na mão, provando que em Brasília “governo de branco mente”.

Juruna ficou indignado com o representante da Funai em Mato Grosso, que o enganou, e contou a um pastor que ia matá-lo e fugir para o Paraguai. O pastor ligou para Darcy Ribeiro, que sugeriu que levasse Juruna urgente para o Rio. E pediu a Lysaneas Maciel e a mim para recebermos o cacique no Galeão.

Fomos e o levamos para o apartamento de Brizola, em Copacabana, onde Brizola e Darcy nos esperavam. Juruna entrou e ficou em pé, com aquele tamanhão, o cabelo tosado, calado.. Darcy convidou-o a sentar-se. Juruna não se sentou e ficou olhando solene para Brizola.

Darcy disse a Brizola que ele não se sentou porque esperava uma ordem do dono da casa. Brizola falou, ele sentou-se. Brizola pensou em lança-lo para o Senado, lançou para deputado, elegeu-se e foi tragado pela visceral corrupção política do “homem branco”.

Quando saímos do apartamento de Brizola para levar Juruna a um pequeno hotel em Copacabana, perguntei ao cacique porque ele não se sentou ao chegar à casa de Brizola.

– É a lei.

E nada mais disse. Pela lei do índio quem manda é o dono da oca.

SUPREMO

No Brasil, nos países democráticos, a “oca” é o Supremo Tribunal. O STF é a lei. Até chegar a ele, a sociedade tem numerosos degraus legais: delegados, procuradores, juízes, tribunais intermediários. Mas só o Supremo manda sentar-se e levantar-se, dá a palavra final.

Aquelas 11 togas ali sentadas é que abençoam ou amaldiçoam uma lei. Elas são a voz, a garganta da Constituição. Há meses o bravo e sereno juiz Sergio Moro, o hábil procurador Janot, a Policia Federal dão ao pais o magnífico exemplo de cumprimento do dever conduzindo a Operação Lava Jato. Agora, chegará tudo ao Supremo. Ele vai comandar a lavagem final.

Com a palavra os donos da oca.

HISTÓRIA

O professor e ex-deputado Helio Duque, sempre patrioticamente atento ao que acontece no pais, relembra a historia do Supremo:

1. - D. João VI, em 1808, desembarcou com sua comitiva real no Rio de Janeiro e imediatamente instalou o principal órgão da Justiça Nacional: a Casa de Suplicação do Brasil. Em Portugal, a corte suprema tinha o nome de Casa da Suplicação. Essa é a origem histórica do STF (Supremo Tribunal Federal). Uma casa de Suplicações ou de Suplícios?

2. - No Império e na República o Supremo sempre foi o guardião da Constituição, mas nas ditaduras o perfil da Corte sofreu reveses. Em 1968, com o AI-5, foram cassados os ministros Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva. Em reação à violência, os ministros Gonçalves de Oliveira, presidente do STF, e Antonio Carlos Lafayette de Andrada renunciaram em solidariedade aos ministros vítimas da violência.

3. - No governo Castelo Branco, o ministro Ribeiro da Costa, presidente do STF, advertia:

– “Pretende-se atualmente fazer com que o Supremo dê a impressão de ser composto por onze carneiros que expressam debilidade moral, fraqueza e submissão.”

SARNEY

Vozes cavernosas e de um passado triste já começam a desavergonhadamente se manifestar. O notório José Sarney, que sempre sabe do que e por que está com medo, acusa:

– “O Sergio Moro sequestrou a Constituição e o país. O Supremo Tribunal Federal não pode se apequenar”.

Em artigo o juiz sugere que Sarney é mafioso:

– “Quem, em geral, vem criticando a colaboração premiada é aparentemente favorável à regra do silêncio, a omertà das organizações criminosas”.

NO MUNDO

A duração dos mandatos varia de pais para pais. No Brasil, agora, os ministros dos tribunais superiores têm mandato até os 75 anos, como os demais servidores públicos. Na Alemanha, no Tribunal Constitucional, os ministros têm mandato de 12 anos. Na França, 9 anos. Na Itália, também 9 anos, como na Espanha. À exceção dos EUA e outros poucos, são raros os mandatos vitalícios.

A “vanguarda do atraso” (como o saudoso Fernando Lyra chamava Sarney) vem conspirando para derrubar, nos tribunais, a “Operação Lava Jato”, acreditando que a vitaliciedade poderá ser uma aliada na impunidade geral e irrestrita dos delinquentes.

A oca vai dizer se os tempos mudaram no Brasil.


O MINISTRO DE PATOS







João Grande, lá na Paraíba, era um tropeiro muito alto e muito forte, de mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro. Levou uma tropa para Patos, cidade vizinha, depois sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou ali olhando a praça e o povo.



Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas iam andando e, de repente, quando chegavam diante de uma casa, desciam da calçada, davam uns passos na rua, subiam novamente a calçada e seguiam.



Foi ver o que era. Era a casa do delegado, que tinha posto uma placa na porta proibindo qualquer pessoa de passar pela calçada da casa dele, para não fazer barulho, porque ele gostava de tirar uma madorna, uma soneca, toda tarde.
JOÃO GRANDE



João Grande ficou indignado. Arrancou a placa e começou a andar na calçada proibida, batendo forte no chão com suas botas cravadas de ferro. O delegado, irado, saiu de lá de dentro como uma fera, os olhos esbugalhados, abriu a porta, viu aquele homenzarrão de botas barulhentas, deu um sorriso amarelo, afinou a voz:



– Boa taaarde!



João Grande não disse nada. O delegado também calou e não disse nada. Na calçada, já pronto para descer, andar pela rua e subir novamente a calçada, como fazia o dia inteiro, a semana toda, vinha vindo um homenzinho baixinho, pequenininho, trotando, quase correndo, com um cesto na cabeça, equilibrando numa rodilha de pano. Quando viu a cara amofinada do delegado, parou, olhou bem para ele e gritou:



– Olha o abacaxi!!!!



Nunca mais, a partir daquele dia, o homenzinho do abacaxi desceu da calçada do delegado. Ele nem ninguém. João Grande jogou a placa na rua e voltou para sua terra com as mãos enormes e as botas cravadas de ferro.



EDUARDO CARDOSO



Em 1969, logo depois do AI-5, Carlos Petrovich, diretor do Curso de Teatro da Universidade de Brasília, ocupada e estrangulada pela ditadura, convidou o saudoso Ariano Suassuna, gênio rebelde de “A Pedra do Reino” e “Auto da Compadecida”, para uma palestra. O auditório estava cheio de arapongas do SNI. Suassuna começou contando a história de João Grande.



Esta semana, o ministro da Justiça, Eduardo Cardoso, foi apanhado em flagrante reunindo-se às escondidas, no ministério da Justiça, com um punhado de advogados dos réus do escândalo da “Operação Lava a Jato”, na roubalheira da Petrobrás para dar dinheiro ao PT e seus aliados.
Ora, o processo é uma gravíssima e indispensável operação da Policia Federal, do Ministério Publico Federal e do Supremo Tribunal Federal para desbaratarem “o maior escândalo financeiro da historia do pais”. O ministro da Justiça não tem o direito de estuprar a legalidade para tentar desviar e obstruir o encaminhamento das atribuições da Policia Federal,  da Procuradoria Geral da Republica, da Controladoria Geral da Republica, do Tribunal de Contas da União e do Supremo Tribunal.



O ministro da Justiça precisa respeitar o pais. Se ele quer ser o  delegado de Patos de um século atrás só chamando um tropeiro João Grande para jogar a placa dele na rua.



JOAQUIM BARBOSA



Tem razão o sempre lúcido, equilibrado e bravo ex-presidente do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa:



– “Nós, brasileiros honestos, temos o direito e o dever de exigir que a Presidente Dilma demita imediatamente o Ministro da Justiça.



“Reflita você: – para defender alguém em um processo judicial, ao invés de usar argumentos e métodos jurídicos perante o juiz, você vai recorrer à política”?



E logo a pior política, com o governo rasgando o processo e a lei?



A LISTA DO XILINDRÓ



O clássico do cinema americano, filme de 1993, de Steven Spielberg, chamava-se “A Lista de Schindler!”. Um poema da bravura humana.



Está chegando fevereiro. E foi para fevereiro que o Procurador Geral da Republica, Rodrigo Janot, e o ministro relator da ação no Supremo Tribunal, Teori Zavascki, prometeram a divulgação da lista dos políticos acusados na Operação Lava a Jato, por terem foro privilegiado.


Vai ser a “Lista do Xilindró”.



ZUM, ZUM, ZUM, ESTÁ FALTANDO UM


UM BAIANO IMORTAL


UM PARTIDO PASCISTA

DONA PEROLINA DO PMDB


O DEDO DE DILMA

RABO DE CAVALO, CRESCENDO PARA BAIXO 

PRESIDENCIALISMO DE CORRUPÇÃO

O SUPREMO COCHICHO 

UM PARTIDO FASCISTA

LIÇÕES PARA AÉCIO E EDUARDO