SEBASTIÃO NERY



O JÂNIO DA VENEZUELA

Rio de Janeiro – Mais uma vez desci em Caracas em 1979. Na portaria do Centro Simón Bolivar o homem de radinho de pilha olha para mim irritado. Estava ouvindo seu futebol, como todo porteiro que se preza, seja paraibano ou venezuelano, e aparece um chato perguntando onde era o serviço de telex internacional. Sábado de tarde, fechado. E não podia fazer nada para ajudar-me porque todo mundo havia ido embora.

 Luis Herrera Campins. 
–  Como é que está a situação aqui para um trabalhador?

– Já foi mais fácil. No governo passado, a gente tinha mais direitos no trabalho e nos sindicatos, porque o partido do Presidente Perez era o partido da maioria dos trabalhadores. O presidente da Confederação dos Trabalhadores da Venezuela era deputado da Ação Democrática, o José Vargas, e por isso as coisas ficavam mais fáceis.

– Por que então o partido de Perez, a Ação Democrática, perdeu as eleições para a Democracia Cristã, a COPEI?

– Porque o povo sempre gosta de experimentar outro Governo e aqui na Venezuela sempre foi assim: sobe a AD, depois sobe a COPEI, desce a COPEI, sobe a AD.

– Por que então os trabalhadores estão reclamando, ameaçando greve geral?

– Foi um erro terrível. Eu não votei nele, mas a maioria dos trabalhadores foi na conversa de um homem perigosíssimo, muito inteligente e muito esperto, que prometeu tudo. Falava tudo que o povo queria ouvir e agora que chegou ao governo está fazendo exatamente o contrário. Está governando com os grandes grupos. Ele prometeu que desta vez a Democracia Cristã na Venezuela seria democracia e seria cristã, mas não está sendo, porque está fazendo um governo dos patrões contra os trabalhadores.

– No Brasil, já houve um Presidente que fez a mesma coisa. Prometeu governar com o povo e quando chegou lá governou foi com os grandes grupos.

– Como era o nome dele?

– Jânio Quadros.

Voltei para o hotel com uma ideia na cabeça: saber bem quem é esse Presidente Herrera, o Jânio da Venezuela.

De noite ligo a TV, estava anunciando de instante em instante:

“Veja hoje o Presidente que fala com o povo. Tema: A terra para quem trabalha.”

Começa a falar com um jogo de voz e de gestos que mudam de pedaço em pedaço, ora sarcástico, ora duro, frenético e meio possesso. Quando sai do ar, você fica numa dúvida terrível; não é possível que tudo aquilo que ele falou não seja a verdade. Pois não é. Vou jantar com jornalistas de várias tendências, alguns inclusive ligados a entidade do governo, e acabo convencido de que o porteiro tinha razão: é um fantástico enganador. E com um talento extraordinário.

E os fatos? Bem, os fatos estão nos jornais, na dura luta política. É preciso não esquecer que a Venezuela é uma democracia provada e comprovada há anos e não passa pela cabeça de ninguém mudar o regime ou dar um golpe. Todos os partidos funcionam livremente, inclusive o fraco Partido Comunista e o mais forte Partido Socialista. A anistia acabou a guerrilha e os guerrilheiros estão nas ruas pacificados.

A luta é política e quem a decide é o povo na boca das urnas. O governo Andrés Perez havia aumentado muito a dívida externa e o custo de vida subiu muito com o controle cada dia maior das multinacionais sobre a maior parte da produção interna e sobretudo com a importação da maioria dos bens de consumo, inclusive alimentos.

Herrera, o grande ator, vai falando e tentando segurar o barco com palavras bonitas. Os artistas políticos podem ganhar eleições, mas nunca fazem a história.




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UM ABISMO GIGANTESCO


Rio de Janeiro – A vida pública deve ser exercida com vocação na convicção de ser um servidor do seu povo. Denegrir esse princípio no exercício da função publica é trair o sentido maior da representação popular. Arrivistas despreparados no exercício da administração pública, em todos os níveis, vêm invadindo a vida política brasileira com audácia incomum.

O professor Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autor de um livro essencial para entender a representação do Brasil político contemporâneo. “Representantes de Quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados”. Retrata o desvirtuamento dos homens públicos, na sua maioria, investidos de mandatos e a desarrumação geral do sistema eleitoral brasileiro.

O cientista político lamenta que os grupos qualificados fugiram da politica e isso fez mal ao País. “Comparando o nível atual com o de décadas atrás, caímos em um abismo gigantesco. É que a política, de certa maneira, deixou de ser um atrativo para segmentos da classe intelectual. Quantos escritores, professores universitários temos hoje no Congresso? Um Florestan Fernandes, um FHC, formuladores, ideólogos no sentido próprio da palavra? E lideranças empresariais e artísticas? Quantos advogados constitucionalistas? Muito menos! Creio que por causa de tantos escândalos, da decepção com a politica em si, essas elites se afastaram do núcleo político. E isso faz muito mal ao País”.

O voto obrigatório hoje no mundo existe em poucos países. Em apenas 31 deles, destacadamente na América Latina com 13, inclusive o Brasil. O total de países no mundo, de acordo com a ONU, são 236. Desses (desenvolvidos e em vias de desenvolvimento), no expressivo número de 205, o voto é facultativo. Voto é direito da cidadania, não é obrigação. No Brasil, a legislação eleitoral é punitiva e impositiva na obrigatoriedade do ato de votar. Ajudando a alimentar narrativa falsificada da realidade, ignorando e iludindo a oposição publica. Os candidatos vendem soluções fáceis e vazias de conteúdo. Desprezam a construção de relações de confiança entre candidato e eleitor. O que leva ao comprometimento de uma sociedade civilizada e democrática.

Na revista Veja (28/03/2018), o articulista e analista J.R.Guzzo, destaca: “Não existe democracia quando os governos são escolhidos por um eleitorado que tem um dos piores níveis de educação do mundo. Em grande parte incapaz de entender direito o que lê, as operações simples de matemática, ou noções básicas do mundo em que vive. O que pode sair de bom disso aí? O cidadão precisa passar num exame para guiar uma motocicleta. Para eleger o presidente da República, não precisa de nada”.

O resultado é quase sempre escolhas equivocadas com impacto no presente e no futuro do Brasil. Dai brotam governos incompetentes, ineptos e, muitas vezes, trapaceiros que tem, em círculos repetitivos, levado a sociedade ao descredito nas ações e diretrizes do poder publico.

Estamos construindo um modo de vida no qual o princípio de que “todos são iguais perante a lei” é ficção. Na prática, o princípio vale para poucos que tem assegurados os seus privilégios, com a criação de leis e sinecuras do Estado, garantindo a tirania na maioria.



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ELES FIZERAM O NOVO MUNDO

A imagem mostra Maria e Jesus com membros da Família Médici como santos (por Giovanmaria Butteri, 1575) - Reprodução.


Rio de Janeiro – Reiner Maria Rilke, o poeta, tinha 21 anos, mas já sabia da vida e do mundo. Escreveu o “Diário de Florença”.

Stendhal, o francês, em 1826 também viu:

– “Florença, pavimentada com grandes blocos de pedra branca é talvez a cidade mais limpa do universo e certamente a mais elegante”.

E Mary Mc Carthy a americana, em “As Pedras de Florença” diz:

– “Os florentinos, inventaram a Renascença, o que quer dizer que inventaram o mundo moderno”.

Em 1957, a primeira vez em que estive em Florença, Lucia Helena Monteiro Machado ainda era uma menina. Tantos anos rolaram  e eu a redescobri em um vôo de Paris para Roma, lendo o seu excelente livro “Florença Berço do Renascimento”, que diz tudo em 200 páginas:

1 – “Parece exagero. Em Florença estruturou-se a língua italiana  a partir de Dante. Lá Galileu deu início à ciência moderna. Lá nascia a nova concepção de política com Maquiavel e se deu a revolução que libertaria a arte de todos os limites e preconceitos que vigoraram na Idade Média. Em Florença o homem redescobriu a importância de seu papel no mundo”.

2 – “Florença conta mais de 2 mil anos de história. Questiona-se se seria romana ou etrusca. A origem etrusca parece ter sido comprovada nas escavações da “Piazza de la Signoria” na década de 1980. Os etruscos chegaram à região na segunda metade do século VII antes de Cristo. E foram dominados pelos romanos no século III aC”.

3 – “O nome Florencia, atualmente Firenze, de origem Latina, tem várias explicações. Alguns acham que é uma referência aos jogos florais da época romana. Outros aos campos floridos que se estendiam pela margem do rio Arno. A hipotese menos provável seria uma homenagem ao general de César, Fiorinos, que ali acampou em 63 aC. Preferimos a origem mais romantica: o símbolo da cidade é a flor de lis”.

4 – “Em 1348 uma peste matou metade da população”.

Florença é um mistério da civilização universal. Teve três homens que foram os precursores do Humanismo: Dante, Petrarca e Boccacio. Dante, de 1265 a 1321. Antes da “Divina Comédia”, sua obra prima, que estruturou a língua italiana, ele já havia escrito em latim “De Monarchia” onde defendia a autonomia do poder temporal em relação ao espiritual.

Depois, já em italiano, escreveu “Il Convivio” sobre a sabedoria.

Petrarca,  de 1304 a 1374, também poeta genial, escrevendo em latim, analisa a obra de Cícero e faz com que a Renascença adote o latim clássico como a língua dos eruditos.

Boccacio, de 1313 a 1375, deixou sua obra prima “Decameron”, pequenas novelas que fizeram dele o pai do conto moderno: ‘um grupo de sete mulheres e três homens, refugiados no campo para fugirem da peste,  de seus desejos, alegrias e seus apetites de forma licenciosa e espirituosa.

Boccacio financiou a primeira tradução de Homero para o latim. E escreveu a biografia de Dante. Os três plantaram assim a Renascença.

OS MÉDICI

“Desde 1382 grandes famílias dominavam Florença: os Albizzi, os Alberti, os Ricci, os Strozzi. Mas Florença não seria Florença sem os Medici. Dominaram a cidade por mais de três séculos.

“Grandes mecenas e grandes colecionadores de arte, são responsáveis pelos tesouros artísticos da cidade”.

Foi também em um agosto 1968, que nasceu o Socialismo Democrático na Primavera de Praga.



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ASSIM SE MATA UM PRESIDENTE

Getúlio Vargas (C) e Jango (D), de charuto.


Rio de Janeiro – Uma semana depois da posse de Jânio Quadros na presidência da Republica, em 1961, o jornalista Raul Ryff, secretário de imprensa do vice-presidente João Goulart, ligou para o jornalista José Aparecido, secretário particular de Jânio:

– Aparecido, durante o governo do Juscelino, o Jango, como vice-presidente, sempre teve um avião da FAB à sua disposição. Agora, no governo do Jânio, o ministro Grum Moss, da Aeronáutica, tirou o avião do vice-presidente. Acontece que ele está esperando a mãe dele, que chega ao Rio às 17 horas, e depois não haverá mais nenhum avião de carreira para Brasília. E ele tem uma reunião política em Brasília à noite. Você poderia conseguir um avião para levar o vice-presidente a Brasília?

Aparecido falou com o general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar, pediu para ele providenciar o avião, e comunicou a providência a Jânio, que aprovou. Às quatro da tarde, Ryff ligou de novo para Aparecido:

– Como é, tchê? E o avião?

– Já está à disposição do vice-presidente aí no Rio.

Não estava. Aparecido foi ao general Pedro Geraldo, que acabava de receber um telex do ministro da Aeronáutica lamentando não poder atender porque a FAB não tinha nenhum avião disponível. Aparecido foi a Jânio. Os dois tinham entendido tudo. Jânio arregalou os olhos:

– Foi bom que tivesse acontecido logo na primeira semana. Você vai ver que não ficaremos aqui um minuto sem autoridade.

Jânio mandou chamar o general Pedro Geraldo:

– General, faça-me um favor. Volte a comunicar-se com o senhor ministro da Aeronáutica e lhe transmita a seguinte instrução: faça descer o primeiro avião que sobrevoar o Rio de Janeiro, nacional ou estrangeiro, desembarque os passageiros e ponha-o à disposição do senhor vice-presidente da República.Trata-se de uma ordem do presidente da República.

Em cinco minutos a Aeronáutica pôs um avião à disposição de Jango.

A Aeronáutica, naqueles tempos, e tantos anos seguidos, era um partido político, uma sublegenda da UDN. E de armas na mão. Só no governo de Juscelino, no começo e no fim, fez dois levantes armados, imediatamente sufocados pela autoridade e energia do marechal Lott.

No segundo governo de Vargas (1951 a 54), não era só a Aeronáutica. A maioria das Forças Armadas (Exercito, Marinha e Aeronáutica) era inteiramente encoleirada pela ininterrupta pregação golpista de Carlos Lacerda e da Banda de Musica da UDN, até desaguar afinal no golpe americano-udenista-militar de 1964.

Quando Getúlio assumiu em 1951, depois da segunda derrota do brigadeiro Eduardo Gomes (em 45 e em 50), a UDN viu que no voto não chegaria ao governo: havia perdido para Dutra em 45 e para Vargas em 50 e certamente perderia em 55 para os herdeiros de Vargas, Juscelino e Jango.

E começou a conspirar freneticamente nos quartéis.

O primeiro passo seria inviabilizar João Goulart, o filho político de Vargas. Presidente nacional do PTB e ministro do Trabalho a partir de junho de 1953, Jango tinha estudos da Fundação Getúlio Vargas  mostrando que o aumento salarial de 14%, dado em dezembro de 1951, era ridículo diante do aumento do custo de vida, que tinha sido de 100%.

E Jango negociou com os sindicatos um projeto de aumento de 100% do salário mínimo, igual ao da inflação: de 1.200 para 2.400 cruzeiros.

– “Em fevereiro de 1954, 82 coronéis e tenentes-coronéis assinaram um memorial afirmando que possíveis aumentos de salários provocariam a elevação do custo de vida, agravando a situação dos baixos vencimentos nos quadros no Exército, que veria dificultado o recrutamento de oficiais. Vargas exonerou Goulart e o general Espírito Santo Cardoso… E no dia 1º de maio anunciou o aumento de 100% do salário mínimo” (DHBB-FGV).

Em quatro meses, Vargas era empurrado para o suicídio.


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PETRÓLEO NÃO É DO PT

O presidente Getúlio Vargas, posando com a mão suja de petróleo durante o seu último mandato (1951-54) Arquivo - Agência Senado.


A campanha do “O Petróleo é Nosso”, pela criação da Petrobrás, estava no auge, em 1953, eletrizando todo o pais. Em Belo Horizonte, entidades estudantis, sindicais, de jornalistas e intelectuais preparamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares. A polícia proibiu, alegando que era comício dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. A praça cheia, cercada pela policia.
Lá na frente, servindo de palanque, vazio, pusemos um caminhão sem as laterais e com um microfone. De repente, chega o deputado federal do PTB, querido professor licenciado da Faculdade de Direito e candidato a senador, Lucio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminhão. Fomos juntos. Com ele, a polícia não teve coragem de barrar-nos. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou:
– Ontem, chegando a Minas, li nos jornais que a policia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Exercito, do Rio. Confesso que tive duvidas de vir. Mas, à noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo:
– Vai, Lucio, vai! Vai!
E Lucio foi. Subiu no caminhão, deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Nosso querido professor desabou. Acabou o comício.
LULA
No dia seguinte, no palácio, Juscelino dava gargalhadas:
– Eu bem disse a ele: – “Não vai, Lucio! Não vai!
Aquela queda ajudou Lucio Bittencourt, o “senador do petróleo”, a ter uma vitoria consagradora para senador em Minas, no ano seguinte.
Quando vejo o escárnio do PT gigoloteando a Petrobrás e destruindo-a, comendo por dentro como cupins, penso em tantos que, como Lucio Bittencourt 60 ano atrás, Eusébio Rocha, Rômulo Almeida,Gabriel Passos, Francisco Mangabeira , lutaram incansável e bravamente para que o petróleo fosse de fato nosso, do povo brasileiro e não de Lula e sua gangue.
Uma ação da Petrobras valer um “pixuleco” é uma afronta à historia.
LÚCIO
Dois anos depois, em 1955, já criada a Petrobrás e Getúlio morto, o Partido Comunista, embora ilegal, estava apoiando Juscelino e Jango para Presidente e vice, e Lucio Bittencourt, recém-eleito senador do PTB, para governador. Lucio disputava com Bias Fortes (PSD) e Bilac Pinto (UDN).
Fui destacado para ajudar a campanha de Lucio como jornalista. Haveria uma excursão ao Norte e Nordeste de Minas, ele me chamou:
– Vamos lá, você morou e foi professor em Pedra Azul, conhece bem o vale do Jequitinhonha, Araçuaí, aquela região toda.
Fiquei animado. Mas logo o “Jornal do Povo” me propôs acompanhar Juscelino ao Nordeste brasileiro. Entre o nordeste de Minas e o meu Nordeste, traí Lucio Bittencourt. Falei com ele, ele compreendeu, outro companheiro da Faculdade foi em meu lugar e fui com Juscelino.
Em Campina Grande, Juscelino estava no palanque com Rui Carneiro, Alcides Carneiro, Samuel Duarte, Abelardo Jurema, o PSD todo da Paraíba. Falava um deputado. Chega um “western” (telegrama especial da época) urgente da “Ultima Hora” informando que Lucio Bittencourt acabava de morrer em desastre de avião, em Minas, saindo de Araçuaí e quase chegando a Pedra Azul. Morreram o piloto, ele e meu substituto.
Gelei. Sentei em um canto do palanque e quase chorei. Alguém, um colega da Faculdade, morrera em meu lugar. Os assessores ficaram sem saber como dar-lhe a noticia. Nós jornalistas escolhemos Fernando Leite Mendes, o brilhante e gordo baiano da “Ultima Hora”, que Juscelino chamava de “Pero Vaz de Caminha” de sua campanha:
– Governador, uma noticia ruim, de Minas. Lucio Bittencourt morreu perto de Pedra Azul em desastre de avião.
Juscelino arregalou os olhos, fechou-os, baixou a cabeça, ficou alguns instantes em silencio, visivelmente chocado, como se estivesse rezando, e murmurou :
– Foi reza forte do Bias.
Pegou o microfone e fez comovente homenagem a Lucio Bittencourt.
DELCÍDIO
Se, pouco tempo atrás, a algum candidato de um “Enem” qualquer dessem esses nomes para dizer quem são, tiraria inapelavelmente “zero”:
Cerveró, Delcídio,Youssef, Fernando Baiano, Paulo Roberto Costa, Renato Duque, Bumlai. E no entanto são capitães de longo curso. E como navio não anda sozinho, alguém os trouxe para a gangue e a porta do xadrez.
Delcídio era um guapo engenheiro de Corumbá que apareceu lá pelas bandas do Pará e logo o governador Jader Barbalho, rapaz de raro faro, o fez diretor da Eletronorte e logo ele saltou para diretor da Eletrosul, em Santa Catarina. Especializou-se em gás, gasodutos, termo-elétricas e Bolivias. Cerveró, fiel escudeiro,virou senador de Dilma. Deu no que deu.




RÉQUIEM PARA PARIS

Em Paris, desde a primeira vez, em 1955, eu pensava em Gilberto Amado, sergipano de Estância e universal como todo gênio:
– “Uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia”.
Para mim, o rio correu até minha Jaguaquara, na Bahia.
O sábio Paulo Rónai também lembrou Hemingway sobre Paris:
– “Se tens a sorte de ter vivido em Paris quando moço, por onde quer que andes o resto de tua vida ela estará contigo porque é uma festa móvel”.
E o poeta Murilo Mendes teve medo na guerra, em um verso eterno:
-“Bombardear Paris é destelhar a casa de meu pai.”
O TERROR
Cada um vê Paris com os olhos de sua alma. Meu gordo e saudoso amigo Antonio Carlos Vilaça falava dela como da primeira escola:
– “Paris foi importante para minha geração, uma geração que lia autores franceses. Em Paris pensávamos, éramos”.
São 60 anos. Minha Paris é uma história de 60 anos. De 1955 quando lá estive pela primeira vez até a semana passada, quando mais uma vez deixei Paris depois de mais um mês lá, como faço todo ano. Eu enrolava minha saudade e a canalha terrorista enrolava suas bombas assassinas.
Não consigo imaginar destruída a cidade onde mais sonhei, mais aprendi, mais amei, mais cresci, mais vivi.
CONCENTRAÇÃO
Voltemos ao Brasil. Os professores Marcelo Medeiros e Pedro Souza, da Universidade de Brasília (“Estabilidade da Desigualdade”) demonstram que a concentração da renda continua imutável e ascendente. Estudiosos da desigualdade social brasileira, eles denunciam:
– O segmento do 1% mais rico da população, estimado em 1,4 milhão que ganham a partir de R$ 229 mil anuais, em 2006 tinha participação em 22,8% da renda nacional. Em 2012 cresceu para 24,4% da renda brasileira.
– Entre os 10% mais ricos, não foi diferente. A renda, no mesmo período, avançou de 51,1% para 53,8%. Já a renda dos 90% mais pobres não obteve a mesma performance, mesmo apresentando alguma melhoria.
E o PT dizia-se o partido dos trabalhadores. Virou o dos banqueiros.
DESIGUALDADE
O professor Naércio Menezes Filho, da FEA-USP e coordenador do Centro de Políticas do Insper, no jornal “Valor” (16/10/2015), no artigo “A Desigualdade Começou a Subir”, sintetiza:
– “O Brasil é um país bastante desigual. Essa desigualdade tem sua origem no fato de que a maioria da população ficou excluída do nosso sistema educacional até meados do século XX. Nos últimos 20 anos, porém, o processo de inclusão social que houve fez com que a desigualdade declinasse continuamente. Será que esse processo está chegando ao fim?”
CRISE
“Com tristeza e o coração partido”, o professor e escritor Hélio Duque, três vezes deputado pelo MDB e PMDB do Paraná, responde:
  1. - “Lamentavelmente, sim. O governo Dilma Rousseff, por incompetência e centralismo autossuficiente e autoritário, conseguiu interromper um caminho que, mesmo com limitação, se apresentava virtuoso, Os próximos anos serão de frustração do sonho de o Brasil estar marchando para a construção de uma sociedade que avança no combate à miséria e a injustiça social”.
  2. - “Sem crescimento da economia, não existe milagre que possa sustentar a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Somente com políticas econômicas de austeridade fiscal é que se pode enfrentar essa realidade adversa: a sustentabilidade das políticas de inclusão social”.
DEFICIT
  1. – “Historicamente, o “superávit primário”, mesmo nos momentos de crise, sempre foi obtido por diferentes administrações. Quando Dilma assumiu o governo, era de R$ 128 bilhões. Agora, de maneira inédita, a situação é inversa: o “déficit primário” consolidado seria de R$60 bilhões”
  2. – “Com o agravante de o Tesouro ser obrigado a pagar as “pedaladas fiscais” (dívidas atrasadas no BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica), estimadas pelo Tribunal de Contas em R$ 40,2 bilhões”.
  3. – “Com outros penduricalhos, o déficit ultrapassará e R$ 117 recordes de popularidade”. bilhões. Ele foi construído naqueles anos onde a fantasia marqueteira era vendida aos brasileiros que aprovavam e aplaudiam o governo com marcas recordes de popularidade”.
ISABELITA
E de um amigo paulista, que bem conhece a Argentina, vem a definição perfeita de Dilma:
– Dilma é a Isabelita sem Perón.





O BISPO DE HYPONA



Agostinho, bispo de Hypona (hoje Annaba, na Argélia), um dos construtores do Cristianismo, autor de livros imortais como “Confissões”, “Cidade de Deus”, “Doutrina Cristã” (viveu dos anos 354 a 430), enfrentando as perseguições ao Catolicismo no mundo muçulmano, fugia da policia em pequeno barco quando foi cercado saindo de Hypona:
– O senhor viu o bispo Agostinho passando por aqui?
– Não vi não.
E o policial foi embora. O barqueiro levou um susto:
– Bispo Agostinho, sua Igreja ensina a não mentir.E o senhor mentiu.
– Não menti. Fiz uma “restrição mental”. Ele perguntou se eu vi o bispo passando. E eu não vi passando. Estou passando. Estamos passando.
LOTT
E foi em frente. No Brasil, tivemos um caso semelhante. Em 1955 Juscelino Kubitschek elegeu-se presidente da Republica. A UDN e seus militares tentaram um golpe para impedir a posse de JK O vice-presidente Café Filho internou-se em um hospital e assumiu o presidente da Câmara o mineiro Carlos Luz que imediatamente demitiu o ministro da Guerra marechal Lott e nomeou o general Fiuza de Castro.
Estava armada a jogada para impedir a posse de JK. Mas o marechal Lott e o general Odilo Denis rebelaram-se e exigiram a posse provisória de Nereu Ramos, presidente do Senado. O jornalista Otto Lara Rezende, da revista “Manchete”, foi entrevistar Lott:
– Marechal, os senhores rasgaram a Constituição?
– Pelo contrario, Otto. Nós garantimos o retorno aos quadros constitucionais vigentes.
O verdadeiro golpista Carlos Luz entregou o governo, Nereu Ramos assumiu a presidência e garantiu a posse de JK e João Goulart.
CUNHA
O híbrido deputado Eduardo Cunha está fingindo de Bispo de Hypona e marechal Lott. Diz que não tem dinheiro na Suíça, apenas “ativos”. E que os “ativos” não são dele, mas dos “trusts”, dos bancos.
É uma farsa. O bispo e o marechal não mentiam. Argumentavam. Defendiam-se: um da policia e o outro do golpe contra a posse de JK.
BRASIL
Em dois meses pela Europa, a pergunta que mais ouvia era uma:
– Como está o Brasil?
Infelizmente não está bem. E os números vêm piorando a cada dia.
1.- No PIB mundial, medido em dólares, o Brasil manteve, por alguns anos, o 7º lugar. Em primeiro lugar, os EUA, com 18,12. Segundo, China, 11,21. Terceiro, Japão, 4,21. Quarto, Alemanha, 3,41. Quinto, Reino Unido, 2,85. Sexto, França, 2,47.Agora, no início de outubro, o Fundo Monetário, projetando o cenário para 2015, deslocou a economia brasileira para o 9º lugar, com o PIB que era de US$ 2,35 trilhões sendo rebaixado para US$ 1,80 trilhão. A Índia passou a ser a sétima, com US$2,18 trilhões. E a oitava a Itália, com US$ 1,8.
2.– O Brasil em dólares perdeu o equivalente ao PIB da Suécia que é de US$ 520 bilhões, ou da Argentina que é de US$ 474 bilhões. Analisando o impacto desse rebaixamento brasileiro, constata-se que o cenário projetado é ainda mais grave. Para o PIB de US$ 1,80 trilhão, o FMI utilizou a cotação do dólar a 3,20 reais. A conta é fácil: o PIB do Brasil em 2015 é de 5,74 trilhões de reais. Com o dólar em 3,20, alcançaríamos o total de US$ 1,793 trilhão, ou US$ 1,80 trilhão.
DÓLAR
  1. – A moeda norte americana chegou a ultrapassar 4 dólares, em relação ao real, determinando um rebaixamento ainda mais doloroso do Brasil, no “ranking” das principais economias mundiais. Com o dólar valendo R$ 3,50, a redução do PIB brasileiro iria para US$ 1,64 trilhão. Cotado a R$ 3,60, a queda seria para US$ 1,59 trilhão.Valendo R$ 4,00, o nosso PIB seria de US$ 1,43 trilhão.
  2. - O “ranking” do Fundo na amostragem do PIB em dólar, em diferentes países, demonstra: a) no Canadá é de US$ 1,78 trilhão; b) na Austrália, US$ 1,44 trilhão; c) na Coréia do Sul, US$ 1,41 trilhão; d) Na Espanha, US$ 1,40 trilhão. Na América Latina, o do México US$ 1,28 trilhão. Se o dólar continuar se valorizando ante o real, agravando as contas nacionais, a recessão econômica poderá levar o nosso PIB, medido na moeda americana,a ser ultrapassado por alguns desses países.
PEDALADAS
Há quatro anos, o então ministro Guido Mantega blasonava:
– “O FMI prevê que o Brasil será a quinta economia em 2015, mas acredito que isso ocorrerá antes”.
Em 2010, ao final do seu governo, era Lula quem afirmava:
– “Se depender de Dona Dilma e de Dom Guido, vamos ser a quinta economia do mundo. Em 2016, vamos conquistar essa medalha de ouro.”
Apenas irresponsáveis pedaladas.





ALHAMBRA DE GRANADA

A Alhambra ou, preferencialmente, Alambra localiza-se na cidade e município de Granada, na província de homônima, comunidade autônoma da Andaluzia, na Espanha.
A primeira vez em que vim a Granada foi no violão de meu pai lá nas noites da roça. Agustín Lara, o barroco mexicano Ángel Agustín Maria Carlos Fausto Mariano Alfonso Rojas Canela del Sagrado Corazón de Jesús Lara y Aguirre del Pino, embolerava as noites com as canções “Granada”, “Solamente una Vez”, “Noche de Ronda”, “Palmeras” (o nome da nossa fazendinha) e outras.

A segunda vez em que vim a Granada foi nos iluminados comícios da Constituinte espanhola de 1977, quando a Espanha reaprendeu a democracia, a luta política e a liberdade.

A terceira vez em que vim a Granada foi na Exposição Internacional de Sevilha em 1992 quando o então presidente espanhol Felipe Gonzalez acompanhou o presidente Fernando Collor numa visita aos eternos labirintos de Alhambra, soluço incontido da história e Patrimônio Cultural da Humanidade, soberbos séculos construídos pelos árabes e pelo cristianismo desde os fenícios, os romanos, os gregos.

LABIRINTOS

A quarta vez em que vim a Granada foi agora. Mas não vim a Granada porque vir a Granada sem ir a Alhambra é não ir a Alhambra nem vir a Granada. Aqueles magníficos e perturbadores palácios, brotando de dentro das florestas de ciprestes são um dos mais apocalípticos documentos da espiritualidade humana. A partir do ano 712 os árabes dominaram o reino de Granada durante 536 anos. Em 1248 Fernando III, O Santo, conquistou Sevilha e Granada para a cristandade.

Os mulçumanos foram embora de Granada ficando apenas cristãos e judeus. Em 5 séculos construíram dezenas de palácios e quilômetros de caminhos nas colinas vermelhas da Alhambra. Sevilha é um símbolo da união do mundo árabe com o mundo cristão. Na catedral toda em ouro, está o túmulo de Cristovão Colombo, todo em prata.

Cheguei a um tempo em que caminhar horas é maratona. Vou voltar a Alhambra ouvindo Granada de Agustín Lara.

CAPITALISMO

O jornal “El Pais”, o maior da Espanha e da Europa, publicou uma pesquisa assustadora: “O 1% mais rico tem tanto patrimônio quanto todo o resto do mundo”:

– “2015 será relembrado como o primeiro ano da série histórica em que a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor de todos os ativos. Em outras palavras: o 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio avaliado em 760.000 dólares têm tanto dinheiro liquido ou investido como 99% do restante da população mundial. Esta enorme faixa entre privilegiados e o resto da humanidade, continuou ampliando-se desde o inicio da Grande Recessão , em 2008”.

– “A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, chega já a uma leitura possível: os ricos sairão das crises ainda mais ricos, em termos absolutos como relativos, e os pobres relativamente mais pobres”.

OS NÚMEROS

Distribuição da riqueza mundial:

Quem tem a riqueza mundial? Evolução entre 2000 e 2015 em %.

– 10% da população mundial

– 5% da população mundial

– 1% da população mundial

A pirâmide da riqueza global

34 milhões de pessoas = 0,7% da população mundial:

– Mais de 1.000.000 de dólares = 45,2% da riqueza

– Entre 100.000 e 1.000,000 dólares = 39,45% da riqueza

– Entre 10.000 e 100.000 dólares (1.003= 21% milhões de pessoas)

= 12,5% da riqueza

– Menos de 10.000 dólares (3.386 = 71% milhões de pessoas)

= 3% da riqueza

ELEIÇÕES

No dia 20 de dezembro a Espanha vai às urnas para escolher o novo Chefe do Governo que, como o regime é parlamentarista, sairá da maioria conquistada por cada partido. Estes números que estão ai em cima comandam o debate eleitoral. Como também os números do orçamento nacional.

Aqui não há pedaladas. Como a União Europeia achou que os números do orçamento para 2015 estavam sem objetividade, reclamou e pediu que o Governo Espanhol seja mais objetivo para que não só a população espanhola como os governos de todos os estados da União Europeia possam caminhar seguros diante dos números.

No dia 20 a palavra final é das urnas.


BILHETE A HELIO FERNANDES


A ditadura não sabia o que fazer naquele segundo semestre de 68. Os intelectuais, os estudantes, os cavalos do Exercito e da Policia Militar e os primeiros cadáveres estavam nas ruas. A TV Globo  era uma escuderia para quem como eu ainda respondia a vários IPMS. Mas eu queria, precisava escrever em jornal e cassado não podia.

Todas as manhãs, passava em escritórios de amigos para saber de alguma novidade. Subi ao de José Aparecido, no edifício Avenida Central. Estava lá com ele o principe do livro no Brasil, Enio Silveira. E entra,  barbudo, apressado, falando encachoeirado, Helio Fernandes.

Eu o lia de muitos e  muitos anos, no “Diário de Noticias” e agora na “Tribuna da Imprensa”. Ele não me conhecia. Foi direto:

– Sebastião Nery,li seu livro “Sepulcro Caiado, o Verdadeiro Juracy”. Bom e bem escrito. Dei uma nota. Por que você não escreve na “Tribuna”?

– Helio, li sua nota, fiquei contente e agradeço muito. Quanto a escrever na “Tribuna”, sou nordestino de Jaguaquara, na Bahia.  Lá na minha terra a gente só entra na casa dos outros convidado.

– Pois está convidado. Quando quer começar?

– Hoje. Quanto você me paga?

– Nada. A “Tribuna” não tem dinheiro para um profissional como você.Mas tem toda a liberdade que você quiser usar.Comece quando quiser.

TRIBUNA

Despedi-me, fui para a rua do Lavradio, apresentei-me ao chefe da redação, o baiano Helio Ribeiro, e fiz a primeira coluna. Escrevia todos os dias. Não era um emprego. Era uma tribuna contra a ditadura.

Exceto quando a ditadura me impediu, como impediu Paulo Francis, Oliveira Bastos, Evaldo Diniz, Genival Rabelo, Monserrat, tantos, e os cinco anos na “Ultima Hora” (de 78 a 83), escrevi mais de 30 anos na “Tribuna”, todos os dias, até o jornal fechar recentemente.

Sou testemunha diária da bravura de Helio Fernandes. Comecei em agosto de 68, em dezembro veio o AI-5 e a ditadura, como uma bomba de Hiroshima, queria matar o país de uma vez. Enfiaram um major na redação, que lia tudo, vetava tudo, queria cortar tudo. E Helio resistindo,sendo preso, confinado e o jornal explodido por uma bomba na madrugada.

Quando ele chegou do confinamento em Fernando de Noronha, Pirassununga, etc, eu estava no aeroporto Santos Dumont. Os militares ameaçavam: – Se ele voltar a escrever, vai de novo.

Helio voltou a escrever, sempre, até hoje, já no jornal on-line.

O AMIGO

No dia 13 de maio de 71, ele me mandou este bilhete, batido na redação, em lauda do jornal:

– “Sebastião Nery, meu abraço.

Sua coluna de hoje só não é a melhor que você já fez pois tem feito tantas excelentes que seria impossível a classificação. Mas a de hoje é genial. Lúcida, limpa, magnificamente bem escrita, desassombrada, com aquele tom que só os grandes jornalistas conseguem. Infelizmente, grandes jornalistas é precisamente o que está faltando ao jornalismo brasileiro.

São raros os que sabem escrever. Mais raros os que têm alguma coisa a dizer. E pouquíssimos os que têm coragem de dizer o que sabem. Você, para honra nossa, reúne as três coisas: sabe escrever, tem o que dizer e o diz daquela forma corajosa que apavora os que têm medo da liberdade.

Meu abraço de admirador profissional e de amigo, Helio Fernandes”.

(Este não é um bilhete. É um galardão que guardo na parede – SN).

CENSURA

Um dos maiores empulhamentos que se tentou criar no Brasil é que quem mais sofreu com a censura e resistiu foram os jornalões, mas revistonas. Uma fraude, uma farsa. Falsos heróis continuam falando de uma valentia que não tiveram. Negociavam com os militares no escurinho do cinema.

Em alguns raros dias, como a noite do AI-5, de fato todas as redações foram pressionadas pessoalmente por militares. Mas logo iam embora e a censura era feita pelo telefone, entre amigos.

Censura mesmo sofreu a “Tribuna”, porque se rebelava, resistia, denunciava as torturas, publicava as noticias de assassinatos.

Quando surgiram o “Pasquim”, “Politika” e “Opinião”, esses foram também diretamente censurados. Tínhamos que entregar tudo antes para ser censurado em Brasília. Mas os “jornalões”, não. Nunca tiveram de mandar edições para Brasília.

*Em 31/08/2011.





GETÚLIO E DILMA



Aquela foi uma noite de cão, o 23 de agosto de 1954. Fez 61 anos domingo. Ninguém me contou. Eu vi, vivi e sofri.

Getúlio encurralado no Catete. Juscelino, generoso, corajoso e solidário, o havia levado a Belo Horizonte no dia 12 para inaugurar a siderúrgica Mannesman. Eu queria ver e ouvir Getúlio. Nunca o tinha visto de perto. Mais baixo do que pensava, mais gordo do que parecia, uma infinita tristeza no rosto, como se fosse logo chorar. Leu seu discurso com a voz forte, decidida mas tensa. Deixou claro : só morto sairia do Catete.

Juscelino fez um discurso como ele era : valente, desafiador, falando em desenvolvimento, futuro e democracia, Nada poderia fazer mais bem a Vargas naquela hora desastrada.

Getúlio resolveu dormir em Minas. De manhã, depois do café, Vargas todo arrumado para viajar, com um charuto na mão esquerda, Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas, um de cada jornal, para nos apresentar. A mão miúda, gordinha, fria, parecia um filé mignon. Olhava-nos com simpatia, sorriso contido mas olhar distante, de quem não estava mais ali, perguntava o jornal onde trabalhávamos, de onde éramos.

Em nenhum instante sorriu aberto. Entrou no carro sem olhar para trás, foi para o aeroporto com Juscelino, despediu-se emocionado.

SUICÍDIO

E o golpe galopava nas rádios, jornais e tribunas do Congresso. Na noite de 23 de agosto, as rádios “Nacional”, “Tupi”, “Globo” ficaram de plantão. A “Nacional” era do governo. A “Tupi” de Chateaubriand e a “Globo” de Roberto Marinho tinham sido entregues a Carlos Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

Recebeu o manifesto dos generais, levado por seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa. Assinou uma licença, deu a caneta a Tancredo , foi deitar-se ao amanhecer. Lacerda e Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

– “ Licença coisa nenhuma. Ele não voltará ”.

Não voltou. Ficou para sempre. Suicidou-se às 8:30 da manhã.

A CARTA

Passei a madrugada ouvindo as rádios e um pianista cego, no “ Columbia ”, bar restaurante de jornalistas noturnos,na avenida Paraná.

A Carta Testamento começou a ser lida nas rádios. Corri para o palácio da Liberdade, cheio de jornalistas, políticos. Juscelino literalmente arrasado. Nas mãos, enrolada, a Carta Testamento. Pedi uma copia para mim, sai às pressas. A cidade já toda na rua. Armaram um palanque bem ao lado da escadaria da Faculdade de Direito. Roberto Costa e Dimas Perrin, dirigentes do Partido Comunista, comandavam:

– Na hora em que terminar de ler a Carta, não esqueça de apontar para o Consulado Americano e dizer:

– Quem matou Getúlio está ali! Foi o imperialismo americano!

O Consulado ficava exatamente ao lado da Faculdade, com uma Biblioteca Thomas Jefferson logo na entrada:

E fui lendo pausadamente, comovidamente. Não sei que ator baixou em mim. Não parecia que era eu. Até a voz ficou mais alta, poderosa. A multidão chorava e eu também. As ultimas frases li como se estivesse sobre o túmulo de Vargas. Antes de descer, o fogo já subia. Haviam posto gasolina nas revistas e jornais pendurados nos cavaletes, nos livros dentro das estantes e nas grandes fotografias de Lincoln e Jefferson.

Queimava tudo. Fogo sabe bem inglês.O incêndio do Consulado em Belo Horizonte foi uma das fotos mais impressionantes que correram o mundo no 24 de agosto. As Policias Federal, Militar e Civil avançaram batendo. Houve muita pancadaria. Estudantes e povo apanhamos muito.

MONTANHA

Montanha, um investigador enorme, grandalhão, negro, me agarrou pelo pescoço com a mão esquerda, a palma da mão bem vermelha, me sacudiu no ar e jogou no chão, como um embrulho inútil.

Na outra mão, um revolver grande, preto. Pensei que ele ia atirar:

– Ai, meu Deus! Vou morrer aos 22 anos, como Álvares de Azevedo!

Não atirou. Bateu com o revolver no meu rosto, o sangue esguichou e saiu me arrastando para o carro da policia.Roberto e Dimas pegaram um ano de cadeia. Estudantes que derramaram a gasolina seis meses cada. A Policia acusou minhas frases de serem uma senha. Sem prova me soltaram.

DILMA

Dom Pedro I, acuado, mandou seu recado:

– “ Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico ”.

Ficou pouco. Getúlio, isolado, deu um tiro no peito. Dilma, ainda bem, não dará.

Também, e é uma pena, não sairá. Só agarrada, tirada. Falta arranjar um José Bonifácio para cuidar de Michel Temer até ele crescer.




ONTEM E HOJE



Foi meu colega na saudosa Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas e contemporâneo na Câmara Federal (1975 – 83 pelo MDB e PMDB mineiro). Agora, Genival Tourinho está escrevendo um livro comparando o estilo de vida dos parlamentares de sua geração com os dos atuais: – “Quanto mais recordo mais fico indignado”.

No meio do mês, era comum que os colegas da Câmara formassem filas em uma agência da Caixa Econômica Federal para pegar um empréstimo para segurar o resto do mês:

– “Nós trocávamos avais. Eu cansei de pedir ao colega Tancredo Neves que fosse meu avalista, E eu o avalizava quando ele precisava.”

Advogado e excelente parlamentar, Genival demonstra que a Câmara nunca foi, ao longo da sua história, um clube de privilégios e mordomias. Quando era no Rio e nos primeiros anos de Brasília, os deputados não tinham gabinetes privativos. Além do subsídio mensal, havia a verba de transporte: 4 passagens aéreas de Brasília até a capital do seu Estado. Tinham direito de contratar 3 funcionários. E o apartamento funcional.

CÂMARA

Tudo mudou a partir de 1991, quando a mesa da Câmara promoveu “reforma administrativa” alargando benefícios que se estendem até hoje. Penduricalhos foram introduzidos com verbas variadas e podendo contratar até 27 funcionários. O estilo da representação mudou e não foi para melhor.

Aprovada a Constituição, o presidente da Câmara Ulysses Guimarães indicou o economista e professor Helio Duque, baiano do PMDB do Paraná, ex-presidente da Comissão de Economia da Câmara e um dos vice-presidentes da Executiva Nacional do PMDB, para integrar a Comissão de Orçamento. Sábio e experiente, Ulysses desconfiava do que acontecia lá.

Helio ficou 15 dias, renunciando e relatando ao presidente da Câmara o que lá ocorria: um grupo de parlamentares era subordinado aos interesses das grandes empreiteiras nacionais. Dois anos depois Helio não era mais deputado e o escândalo dos “Anões do Orçamento” chocou o Brasil, levando à cassação do mandato de vários dos seus membros.

O Mensalão e o Petrolão têm pai e mãe.

BANCOS

No começo do Ajuste Fiscal , o governo petista da Dilma e do Lula anunciou que ia “taxar os lucros dos bancos e financeiras, as grandes fortunas e as heranças”. O tempo foi passando e não se fala mais nisso. Mas o governo não esqueceu de taxar os salários dos trabalhadores, as aposentadorias dos trabalhadores, as pensões dos trabalhadores e aumentar os impostos das pequenas e medias empresas.

Escondido, com vergonha, os jornalões, que pertencem aos bancões, deram a noticia escabrosa: o lucro dos bancos chegou a 46%! Em um pais em recessão, com um “crescimento do PIB abaixo de 0%”, não há noticia mais pornográfica. E o Banco Central, a gorda dona do bordel, aumentou a taxa básica de juros para 14%, a maior do mundo, alegando despudoradamente que é para baixar a inflação. E a inflação subindo.

PIRÃO

Os jornalões não se envergonham de defender o ajuste fiscal só contra quem vive de salário ou aposentadoria e contra a indústria e comercio que produzem, Sabem por que? “O “Globo” abriu o jogo:

“O governo vai honrar o acordo feito na Câmara para não impor vetos à desoneração da folha de pagamento de setores da economia acordados com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Na negociação com a Câmara, segundo fontes do Planalto, o governo concordou em manter a desoneração para três setores: call centers, transportes e comunicações”.

Vejam bem que coisa mais sórdida. Aumento de impostos para todo mundo, menos para “comunicações” (jornais, rádios e TVs), “transportes” (ônibus, metrôs, trens) e “call centers” (centrais telefônicas).

Eles passam dia e noite falando em “liberdade de expressão”, “igualdade de direitos”, “sacrifícios coletivos”. Mas põem a faca na garganta do governo só em defesa dos interesses deles.

Farinha pouca meu pirão primeiro.

BOMBA JUCÁ

O senador Jucá, do PMDB de Roraima, líder da Dilma no primeiro mandato, jogou um bomba no Planalto na “Folha de S. Paulo” de sábado:

1.- “O quadro de uma eventual deposição da presidente da República não está maduro. Ou o governo muda ou o povo muda o governo”.

2.- “Vai piorar. A arrecadação federal está caindo, a atividade econômica está caindo, os Estados estão começando a quebrar, os setores que ainda empregaram no primeiro semestre, como o comércio e serviços, vão desempregar no segundo semestre, com a classe média com risco de desemprego. Então todo mundo vai ser o mais conservador possível.”

3.- “O governo está na UTI. Pelo amor de Deus não racionem o oxigênio porque depois vai morrer e ai não adianta, já passou a hora”.



MINAS ERA DIFERENTE



Minas não esquece. Minas é boa de lembranças. Livro de mineiro está sempre relembrando. O passado é o adubo da alma. Como em Guimarães Rosa e Pedro Nava. Ou em Drummond.

Mais um belo livro de mineiro contando historias de Minas. O jornalista e poeta (luminoso poeta) Petrônio Souza Gonçalves (“Quem soltou a borboleta azul na tarde triste?”) pagou uma divida de Minas. Lançou “José Aparecido de Oliveira – O Melhor Mineiro do Mundo”.

MINEIROS

50% do texto é do Petrônio. Texto leve, livre, solto. Cada frase um fato. Bem editado, bem ilustrado, rico em fotos e testemunhos. Os outros 50% são depoimentos de jornalistas e escritores mineiros sobre Aparecido:

Benito Barreto : -“O Homem e o Amigo”.
José Bento Teixeira de Salles” : “Assim Era Ele”.
Orlando Vaz : – “Articulador Político e Talento Admirável”.
José Augusto Ribeiro : “Dois Raros Momentos da Dupla Jânio-Aparecido”.
Gervásio Horta : ’Poucas e Boas”.
Mauro Werkema : “José de Todos os Amigos”.
Aristóteles Drummond : “O Zé Carioca”.
Guy de Almeida : “Aparecido no DF”.
Angelo Oswaldo: “O Compromisso Cultural de José Aparecido”.
Wilson Figueiredo : – “A Arte de Negociar Divergências”.
Paulo Casé : “Manifesto AAZA”.
Oscar Niemeyer: “JAO”.
Ziraldo: “As Aventuras de José Aparecido”.
Mauro Santayana: “Conversações na Rua Caraça”.
Alberto Pinto Coelho: “Demiurgo das Utopias Realizáveis”.
Silvestre Gorgulho: “Lições e Segredos de Um Mestre”.
E eu : “12 Historias de José Aparecido” .
Por ultimo, o José Maria Rabelo, porque algumas lembranças dele me deixaram a alma dolorida. Em 1950/60 nós éramos jornalistas e ativistas políticos vendo a pátria, o povo, o futuro. Nossos heróis, mesmo quando deles divergíamos, não nos envergonhavam. Hoje, a Operação Lava-Jato mostrou uma elite política que afunda no dinheiro, na corrupção.
O José Dirceu, tão preparado e tão guloso,é um desperdício nacional.
JOSÉ MARIA
1.- “A Praça Sete era naqueles tempos, por volta de 1950, o coração político de Belo Horizonte, onde nós, estudantes idealistas, passávamos horas do dia discutindo os problemas daqui e do resto do mundo”.
  1. - “Ao lado de Hélio Pellegrino, Palmius Paixão Carneiro, Fernando Correia Dias, Bernardino Machado de Lima, Wilson Vidigal e outros insensatos salvadores da pátria, todos pertencentes ao antigo Partido Socialista Brasileiro, eu participava ativamente das discussões na praça, não poupando munição contra os adversários: de um lado os integralistas, de outro os comunistas stalinistas. Nós tínhamos a chama da verdade, o socialismo democrático, com a qual iríamos incendiar o planeta”.
  2. – “Um dia, eu estava lá, fazendo minha pregação e distribuindo impropérios à direita e à esquerda. Foi quando um grupo de integralistas se aproximou, com alguns deles passando a insultar-me e ameaçar-me de agressão. Aí surgiu meu futuro amigo, e usando um porrete, que não sei de onde tirara,avançou sobre os provocadores,forçando-os a fugir praça afora”
  3. – “O Zé Aparecido me explicou por que tomara aquela atitude quixotesca, que poderia ter tido outras consequências. Primeiro, porque nunca admitira a ideologia integralista, herdeira do fascismo, de gente como aquela, fanática 1e totalitária. Segundo, pela iminência de um ato de covardia., diante de seus olhos, com um bando de provocadores lançando-se contra uma pessoa sozinha, unicamente por divergir deles”.
  4. – “A partir daquele episódio, nasceu entre nós uma grande amizade, que se manteria inabalável por mais de meio século, apesar das contingências de tão extensa travessia. Mais tarde, ele foi morar em nossa república, que ficava numa velha casa. Parece-me que hoje tombada pelo patrimônio histórico da capital mineira, no cruzamento das ruas Aimorés e Maranhão, Bairro dos Funcionários. Ali, eu e o Euro Arantes vivíamos e redigimos os primeiros números de nosso jornal “Binômio”.
PETROLÃO
  1. – “Todos levávamos uma vida muito apertada, estudando e ganhando algum dinheiro como jornalistas principiantes. Lembro-me que o Zé Aparecido possuía apenas dois trajes, ou, como se dizia, duas mudas de roupa. Um deles era um terno jaquetão preto, que o acompanhou por longo e longo tempo. De tal forma o jaquetão preto se identificou com o portador, que muita gente achava que, ele fazia questão de usar por esquisitice”.
  2. - Nesse tempo, graças a suas relações com a UDN, conseguiu uma cópia do famoso inquérito do Banco do Brasil, revelando uma grossa negociata no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. Entre os denunciados, apareciam importantíssimas figuras da República”.
Corrupção sempre houve. Mas o petrolão e o PT são incomparáveis.



O DONO DA OCA

O então governador do Rio, Leonel Brizola, ao lado do cacique Juruna e de Darcy Ribeiro, inaugura o Ciep Zumbi dos Palmares.
Juruna, o selvagem cacique xavante que até os 18 anos flechava avião voando baixo em Barra do Garças, estava comovendo o país, de gravador na mão, provando que em Brasília “governo de branco mente”.

Juruna ficou indignado com o representante da Funai em Mato Grosso, que o enganou, e contou a um pastor que ia matá-lo e fugir para o Paraguai. O pastor ligou para Darcy Ribeiro, que sugeriu que levasse Juruna urgente para o Rio. E pediu a Lysaneas Maciel e a mim para recebermos o cacique no Galeão.

Fomos e o levamos para o apartamento de Brizola, em Copacabana, onde Brizola e Darcy nos esperavam. Juruna entrou e ficou em pé, com aquele tamanhão, o cabelo tosado, calado.. Darcy convidou-o a sentar-se. Juruna não se sentou e ficou olhando solene para Brizola.

Darcy disse a Brizola que ele não se sentou porque esperava uma ordem do dono da casa. Brizola falou, ele sentou-se. Brizola pensou em lança-lo para o Senado, lançou para deputado, elegeu-se e foi tragado pela visceral corrupção política do “homem branco”.

Quando saímos do apartamento de Brizola para levar Juruna a um pequeno hotel em Copacabana, perguntei ao cacique porque ele não se sentou ao chegar à casa de Brizola.

– É a lei.

E nada mais disse. Pela lei do índio quem manda é o dono da oca.

SUPREMO

No Brasil, nos países democráticos, a “oca” é o Supremo Tribunal. O STF é a lei. Até chegar a ele, a sociedade tem numerosos degraus legais: delegados, procuradores, juízes, tribunais intermediários. Mas só o Supremo manda sentar-se e levantar-se, dá a palavra final.

Aquelas 11 togas ali sentadas é que abençoam ou amaldiçoam uma lei. Elas são a voz, a garganta da Constituição. Há meses o bravo e sereno juiz Sergio Moro, o hábil procurador Janot, a Policia Federal dão ao pais o magnífico exemplo de cumprimento do dever conduzindo a Operação Lava Jato. Agora, chegará tudo ao Supremo. Ele vai comandar a lavagem final.

Com a palavra os donos da oca.

HISTÓRIA

O professor e ex-deputado Helio Duque, sempre patrioticamente atento ao que acontece no pais, relembra a historia do Supremo:

1. - D. João VI, em 1808, desembarcou com sua comitiva real no Rio de Janeiro e imediatamente instalou o principal órgão da Justiça Nacional: a Casa de Suplicação do Brasil. Em Portugal, a corte suprema tinha o nome de Casa da Suplicação. Essa é a origem histórica do STF (Supremo Tribunal Federal). Uma casa de Suplicações ou de Suplícios?

2. - No Império e na República o Supremo sempre foi o guardião da Constituição, mas nas ditaduras o perfil da Corte sofreu reveses. Em 1968, com o AI-5, foram cassados os ministros Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva. Em reação à violência, os ministros Gonçalves de Oliveira, presidente do STF, e Antonio Carlos Lafayette de Andrada renunciaram em solidariedade aos ministros vítimas da violência.

3. - No governo Castelo Branco, o ministro Ribeiro da Costa, presidente do STF, advertia:

– “Pretende-se atualmente fazer com que o Supremo dê a impressão de ser composto por onze carneiros que expressam debilidade moral, fraqueza e submissão.”

SARNEY

Vozes cavernosas e de um passado triste já começam a desavergonhadamente se manifestar. O notório José Sarney, que sempre sabe do que e por que está com medo, acusa:

– “O Sergio Moro sequestrou a Constituição e o país. O Supremo Tribunal Federal não pode se apequenar”.

Em artigo o juiz sugere que Sarney é mafioso:

– “Quem, em geral, vem criticando a colaboração premiada é aparentemente favorável à regra do silêncio, a omertà das organizações criminosas”.

NO MUNDO

A duração dos mandatos varia de pais para pais. No Brasil, agora, os ministros dos tribunais superiores têm mandato até os 75 anos, como os demais servidores públicos. Na Alemanha, no Tribunal Constitucional, os ministros têm mandato de 12 anos. Na França, 9 anos. Na Itália, também 9 anos, como na Espanha. À exceção dos EUA e outros poucos, são raros os mandatos vitalícios.

A “vanguarda do atraso” (como o saudoso Fernando Lyra chamava Sarney) vem conspirando para derrubar, nos tribunais, a “Operação Lava Jato”, acreditando que a vitaliciedade poderá ser uma aliada na impunidade geral e irrestrita dos delinquentes.

A oca vai dizer se os tempos mudaram no Brasil.


O MINISTRO DE PATOS







João Grande, lá na Paraíba, era um tropeiro muito alto e muito forte, de mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro. Levou uma tropa para Patos, cidade vizinha, depois sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou ali olhando a praça e o povo.



Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas iam andando e, de repente, quando chegavam diante de uma casa, desciam da calçada, davam uns passos na rua, subiam novamente a calçada e seguiam.



Foi ver o que era. Era a casa do delegado, que tinha posto uma placa na porta proibindo qualquer pessoa de passar pela calçada da casa dele, para não fazer barulho, porque ele gostava de tirar uma madorna, uma soneca, toda tarde.
JOÃO GRANDE



João Grande ficou indignado. Arrancou a placa e começou a andar na calçada proibida, batendo forte no chão com suas botas cravadas de ferro. O delegado, irado, saiu de lá de dentro como uma fera, os olhos esbugalhados, abriu a porta, viu aquele homenzarrão de botas barulhentas, deu um sorriso amarelo, afinou a voz:



– Boa taaarde!



João Grande não disse nada. O delegado também calou e não disse nada. Na calçada, já pronto para descer, andar pela rua e subir novamente a calçada, como fazia o dia inteiro, a semana toda, vinha vindo um homenzinho baixinho, pequenininho, trotando, quase correndo, com um cesto na cabeça, equilibrando numa rodilha de pano. Quando viu a cara amofinada do delegado, parou, olhou bem para ele e gritou:



– Olha o abacaxi!!!!



Nunca mais, a partir daquele dia, o homenzinho do abacaxi desceu da calçada do delegado. Ele nem ninguém. João Grande jogou a placa na rua e voltou para sua terra com as mãos enormes e as botas cravadas de ferro.



EDUARDO CARDOSO



Em 1969, logo depois do AI-5, Carlos Petrovich, diretor do Curso de Teatro da Universidade de Brasília, ocupada e estrangulada pela ditadura, convidou o saudoso Ariano Suassuna, gênio rebelde de “A Pedra do Reino” e “Auto da Compadecida”, para uma palestra. O auditório estava cheio de arapongas do SNI. Suassuna começou contando a história de João Grande.



Esta semana, o ministro da Justiça, Eduardo Cardoso, foi apanhado em flagrante reunindo-se às escondidas, no ministério da Justiça, com um punhado de advogados dos réus do escândalo da “Operação Lava a Jato”, na roubalheira da Petrobrás para dar dinheiro ao PT e seus aliados.
Ora, o processo é uma gravíssima e indispensável operação da Policia Federal, do Ministério Publico Federal e do Supremo Tribunal Federal para desbaratarem “o maior escândalo financeiro da historia do pais”. O ministro da Justiça não tem o direito de estuprar a legalidade para tentar desviar e obstruir o encaminhamento das atribuições da Policia Federal,  da Procuradoria Geral da Republica, da Controladoria Geral da Republica, do Tribunal de Contas da União e do Supremo Tribunal.



O ministro da Justiça precisa respeitar o pais. Se ele quer ser o  delegado de Patos de um século atrás só chamando um tropeiro João Grande para jogar a placa dele na rua.



JOAQUIM BARBOSA



Tem razão o sempre lúcido, equilibrado e bravo ex-presidente do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa:



– “Nós, brasileiros honestos, temos o direito e o dever de exigir que a Presidente Dilma demita imediatamente o Ministro da Justiça.



“Reflita você: – para defender alguém em um processo judicial, ao invés de usar argumentos e métodos jurídicos perante o juiz, você vai recorrer à política”?



E logo a pior política, com o governo rasgando o processo e a lei?



A LISTA DO XILINDRÓ



O clássico do cinema americano, filme de 1993, de Steven Spielberg, chamava-se “A Lista de Schindler!”. Um poema da bravura humana.



Está chegando fevereiro. E foi para fevereiro que o Procurador Geral da Republica, Rodrigo Janot, e o ministro relator da ação no Supremo Tribunal, Teori Zavascki, prometeram a divulgação da lista dos políticos acusados na Operação Lava a Jato, por terem foro privilegiado.


Vai ser a “Lista do Xilindró”.



ZUM, ZUM, ZUM, ESTÁ FALTANDO UM


UM BAIANO IMORTAL


UM PARTIDO PASCISTA

DONA PEROLINA DO PMDB


O DEDO DE DILMA

RABO DE CAVALO, CRESCENDO PARA BAIXO 

PRESIDENCIALISMO DE CORRUPÇÃO

O SUPREMO COCHICHO 

UM PARTIDO FASCISTA

LIÇÕES PARA AÉCIO E EDUARDO