CONTEÚDO LIVRE


QUEM VAI APARELHAR O BRASIL EM 2019?

PEDRO AUGUSTO PINHO -


O mundo no século XXI tem diferença fundamental do mundo no século XX. Este, por seu lado, também diferia bastante da sociedade do século XIX.

As conquistas científicas, tecnológicas, o aumento das populações, a escassez de recursos, seja pela exaustão das fontes seja pelo custo da distribuição, aguçaram as desigualdades. Apenas estes fatos, independentes de opções políticas e econômicas adotadas, já exigiriam maior cuidado dos governantes para suas decisões. Em que esfera estamos entre as nações: colônia ou colonizador?

Ocorreu, ao longo do século passado, em especial na segunda metade, uma transformação ainda maior e mais profunda no sistema colonial. O empoderamento daquele que dominou os Estados Nacionais, suplantou as ideologias e as religiões.

Denomino banca, o sistema financeiro internacional que vem aparelhando os Estados Nacionais, ao norte e ao sul do Equador, com objetivo de se apoderar de todas as rendas e promover a permanente concentração da riqueza.

Certamente meu ilustrado leitor já leu análises políticas, econômicas, sociológicas, geoestratégicas sobre a ação da banca, principalmente sob a designação de Nova Ordem Mundial.

Sendo meu único interesse o Brasil, apresentarei a banca sob a ótica da estrutura do Estado Nacional Brasileiro.

O que caracteriza nossa estrutura organizacional?

A importação de um modelo colonial chegou às nossas praias com o 1º Governador Geral, Tomé de Souza, em 1549. Recordemos que a primeira tentativa de estabelecer nossa colonização com a iniciativa privada (Capitanias Hereditárias) fracassara.

Tomé de Souza trazia na bagagem a estrutura institucional constituída de três funções ou ofícios: defesa, justiça e fazenda.

Historiadores portugueses e brasileiros esclarecem que inexistia o “funcionário colonial”. Havia o detentor de um ofício e, em razão da natureza corporativa da sociedade, estes ofícios eram hierarquizados. Um cargo público era melhor posicionado do que o ofício de ferreiro.

Como evidente, os ofícios do Estado eram preenchidos pelos portugueses (colonizadores). E suas ações constavam dos “regimentos”, modos de proceder, instituídos pelas autoridades coloniais. Em suma, vivia-se no Brasil sob as normas estrangeiras, aplicadas por estrangeiros.

Nada diferiria a Índia e nações africanas, três séculos depois, colonizados por ingleses, que, como aqui, impunham também seu idioma. Nem de qualquer país, “descoberto” a qualquer tempo pelos europeus.

Estes civilizados conquistadores trataram também, em especial nas Américas, de promover o holocausto das populações nativas.

Portanto o Brasil surgiu com um modelo de organização que estava adequado a promover a defesa da colônia, frente a outros colonizadores, de praticar a defesa dos interesses dos imigrantes e do Império, pela justiça exportada para nós, e para arrecadar os tributos das atividades mercantis e evitar que se constituísse aqui um modelo produtivo, não exportador, com a ação fiscalizadora da fazenda. Nada mais era necessário.

Relato um fato histórico em perspicaz análise de escritor equatoriano.

Bolívar e Washington foram líderes, brilhantes generais, que levaram suas tropas a conquistar a independência nas lutas contra os colonizadores. Procuraram erigir novos Estados Nacionais. Um foi amplamente vitorioso, outro viu seu esforço se desfazer em interesses menores, em partilhas que estilhaçaram o Estado libertado. Por que?

A resposta que li é instigante. Pelo Ministro da Economia escolhido.

Bolívar teve a desventura de escolher um contador cujo objetivo era equilibrar receitas e despesas: não gastar mais do que dispunha. A história o esqueceu.

Washington teve Alexander Hamilton (1757-1804). Hamilton apoiou firmemente a intervenção do Estado em favor dos negócios, tal como Jean-Baptiste Colbert (1619-1683), Ministro da Economia de Luis XIV, o Rei Sol, na França.

Hamilton opôs-se às ideias britânicas de livre-comércio, pois, obviamente, só poderiam beneficiar os poderes coloniais. Lutou em defesa do protecionismo e pela industrialização dos Estados Unidos da América (EUA), fundamentais para desenvolver a economia da nação. E, como se lê em seus escritos, não se incomodava com dívidas, desde que empregadas para construir infraestrutura e financiar indústrias e inovações.

O resultado do equilíbrio das contas vê-se hoje na Venezuela, na Colômbia, no Peru, no Equador. O endividamento do Estado, para financiar o desenvolvimento econômico,  resultou nos EUA, ainda a maior potência do planeta.

Mais de 500 anos, nossa estrutura continua privilegiando a justiça e a fazenda, até esqueceu a defesa. E há explicação para isso.

Quando se propôs a Constituição que sepultaria os períodos de governo militar, tratou-se de ressaltar a justiça, a fazenda e as conquistas libertárias. Esqueceram de criar um Estado Nacional. É como se lê na Carta de 1988.

Vejam que a preocupação, desde o Preâmbulo e nos Princípios Fundamentais, é um “Estado Democrático” e não o Estado Nacional Soberano. A palavra soberania, sem a qual nenhum outro direito pode ser efetivamente assegurado, está entre os cinco fundamentos de um “Estado Democrático de Direito”, no mesmo patamar do “pluralismo político” e do “valor social do trabalho e da livre iniciativa”.

Industrialização e tecnologia correm juntas, uma precisa da outra, e esta última se realiza na indústria. A industrialização importada se esvai e nada deixa. E é esta a razão de todos os óbices, de todas as falsas razões e argumentos para impedir ou destruir a indústria brasileira. Dois estadistas buscaram reverter este processo de dominação colonial: Presidente Getúlio Vargas e Presidente Ernesto Geisel. Ambos aproveitando períodos de governo autoritário que dificultavam as eternas vozes de interesses estrangeiros em nosso País.

A banca, com suas falácias, mentiras, subornos, criou a fantasia do estado mínimo. Mínimo em que? Ora, meus prezados, na defesa do Brasil. A mesma ideia de um banco central independente. Independente de quem? Do interesse nacional, por óbvio; dependente da banca.

Façamos um confronto da estrutura do Estado Brasileiro com dois governantes que, no entender deste administrador, foram dóceis, senão agentes da banca: Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Dilma Vana Rousseff (DVR).

FHC teve 24 funções com status de Ministro, DVR teve 39. Qual a diferença fundamental? Nenhuma.

O que esperaríamos de uma estrutura que privilegiasse a Soberania Brasileira, que favorecesse as decisões onde estivesse em questão o interesse nacional, a Pátria?

Que tivesse Ministérios que buscassem, principalmente, a total defesa nacional, ou seja, Forças Armadas com recursos semelhantes aos dos eventuais contendores ou colonizadores brasileiros, e solidez na economia e atendimento à população que garantisse sobreviver a bloqueios, sanções e todas as armas com que se procura destruir o Estado Nacional Soberano.

Seriam estes órgãos de primeira linha, por óbvio, as Forças Armadas e de Informação e Inteligência. Poderíamos, no sentido das operações conjuntas, ter um Estado Maior das Forças Armadas ao qual se vinculariam as forças de terra, mar e aeroespaciais e, em separado, o órgão de Informação e Inteligência.

Em seguida toda estrutura produtiva própria, com ênfase nas ciências e tecnologias. Como exemplos: Ministério da Ciência e Tecnologia, do Desenvolvimento das Tecnologias da Informação e da Comunicação, do Desenvolvimento das Indústrias de Base, do Desenvolvimento das Indústrias de Bens de Consumo, do Desenvolvimento da Engenharia Nacional, da Infraestrutura, das Minas, dos Transportes e das Energias e Petróleo. Também, neste mesmo nível, os Ministérios do Desenvolvimento Agrário, da Produção Agropecuária e Piscicultura e do Comércio e Serviços.

Esta sugestão criaria 14 Ministérios onde Tomé de Souza criou um (defesa), FHC, oito, e DVR, onze.

Não é a quantidade de “ministérios”, mas o sistema de integração organizacional que vai fazer a diferença. Os 11 Ministérios/Secretarias da DVR atendiam a interesses distintos, quer político-parlamentares, quer regionais, quer econômicos. Não se fazia a integração até porque se desconhecia o objetivo maior: constituir o Estado Nacional Soberano.

Vê-se, portanto, que menos do que o número de Ministérios, são os objetivos, o  que mais exige o Brasil para sua consolidação como Estado Nacional Soberano, que devem orientar o dirigente.

Não tratamos, mas é indiscutivelmente importantíssima a estrutura para  construção da cidadania. Também a estrutura integrada da segurança interna. Na verdade, o governo, em qualquer país, deve ter sua estrutura focada nas três principais questões: soberania, segurança e cidadania. Integrados, os órgãos que se constituírem, irão aprofundar o conhecimento, planejar, incentivar, orientar e controlar estas ações fundadoras da Pátria e da nacionalidade.

O Brasil não pode ter um estado mínimo. São 8,5 milhões de quilômetros quadrados de território para ocupar e 210 milhões de habitantes para promover a cidadania.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado




***




PEDRO AUGUSTO PINHO -

Para o jovem professor universitário, colunista de jornais cariocas, estudante de pós-graduação, o movimento de maio de 1968, na França, pareceu uma questão de poder, pelas ambições de uma geração que não queria apenas repetir o que seus pais já haviam conquistado. Com a distância destes 50 anos, entendo ser uma manobra que os Estados Unidos da América (EUA), com problema da impopular guerra no Vietnã e das drogas, consumidas pelas suas gerações destinadas ao Poder, enfrentavam com a grande difusora cultural - França - conduzida pelo líder nacionalista Charles De Gaulle, que trocava notas de dólar por ouro.

Paris, 1968 (Reprodução/Google)
A Era do Aquário foi o momento que, com a primeira crise do petróleo, os EUA iniciam a cooptação dos árabes (Arábia Saudita), para ter no dólar sua única moeda nas transações internacionais. Começava a substituição do dólar/ouro e o fim do Acordo de Bretton Woods.

Portanto, sem querer ver fantasmas, os movimentos na França, nos EUA, na Inglaterra poderiam ter o pano de fundo da luta do capital financeiro contra o capital industrial. De certo modo, esta compreensão está também em Jessé Souza. Transcrevo:

“Os capitalistas viam-se diante de algo novo e verdadeiramente revolucionário, um movimento cujo suporte social eram seus próprios filhos bem-educados. O objetivo da revolução expressivista era redefinir os fins da vida social e modificar por dentro o uso do poder”, e adiante “O que explica em grande medida o êxito do capitalismo financeiro é o fato de ele ter conseguido engolir o protesto expressivista e depois regurgitá-lo segundo seus próprios termos” (A classe média no espelho, Estação Brasil, 2018).

No Brasil foi um momento de virada. A política da “austeridade”, implantada por  Castello Branco, passou para “economia heterodoxa”. E, em 1968, apresentava seu resultado satisfatório com o crescimento de 14% no setor industrial. No mundo político, este afrouxamento econômico teve a contrapartida do enrijecimento, com o Ato Institucional nº 5.

Mas o Brasil estava longe da eficiência industrial dos países centrais. Coube aos militares, de Costa e Silva a Geisel, tentar implantar a estrutura tecnoburocrática, weberina, de impessoalidade e assepsia administrativa. Cometeram o erro de todos, ou a maldade de alguns, de implementar mudanças de conteúdo a partir da cúpula.

Recordo, nas aulas de administração, a comparação dos processos decisórios nos EUA e no Japão. Os primeiros centralizavam em poucos dirigentes esta condição e a decisão era quase imediata. Depois passava-se longo tempo explicando e ensinando a toda estrutura da empresa como deveria agir e corrigindo os erros de entendimento. No Japão, o processo decisório começava na base da estrutura. Ia ganhando consenso e esclarecimento. Ao chegar à alta administração, toda empresa já sabia como agir. Bastava a decisão e, de imediato, estava implementada.

1968, no Brasil, ficou mais marcado pela Passeata dos Cem Mil do que qualquer outra manifestação de classe média. As questões que tomavam conta do norte - A Galaxia de Gutenberg (1962) com as icônicas expressões “aldeia global” e “o meio é a mensagem”, de Marshall McLuhan; “O Espírito do Tempo” (a cultura de massa), também de 1962, de Edgar Morin; “O uso humano de seres humanos” (Cybernetics and Society, 1950) de Norbert Wiener, e a imensa obra que já discutia as implicações da teoria da informação (Abraham Moles, J. R.Pierce, Ross Ashby etc) - estavam afastadas das academias e das edições nacionais.

Na minha avaliação, a relevância nacional, deste período, foi a segunda tentativa - a primeira foi de Vargas - de construir o Estado Nacional Brasileiro.

Passou meio século. A banca (sistema financeiro) reina sobre o norte e o sul. Domina o processo produtivo, não para dotá-lo de eficiência, mas para transferir para o financismo, o rentismo, os seus ganhos. E destrói os Estados Nacionais. Volto a Jessé Souza, na referida obra: “Na esfera política, esse domínio (do capital financeiro) se reflete no parcial desmonte do Estado social pelo enfraquecimento de sua base, ou seja, de sua capacidade de cobrar impostos. Controlado por grandes bancos e fundos de investimento, o capital financeiro consegue sonegar impostos em escala planetária, fazendo do Estado cobrador de impostos um Estado acumulador de dívidas. Incapaz de cobrar impostos dos mais ricos, o Estado é obrigado a pedir emprestado aos próprios capitalistas, e ainda acrescido de juros, o que antes recebia como imposto devido. Esse é o real sentido da globalização”.

O que ocorre com os gilets jaunes (coletes amarelos)? Quem produziu e sustenta esta manifestação “espontânea”?

Não mais um jovem recém-formado, mas um avô aposentado, procura também uma resposta.

Em algum artigo recente, observei que a propriedade fora mudada nos empreendimentos privados. Não mais tínhamos os nomes de importantes membros da sociedade e da política, como os Rockefeller por quase um século. Hoje temos um CEO (Chief Executive Officer), nem mesmo um Presidente, na condução dos negócios. E quem o designa? Um fundo de investimento, ou um conjunto de fundos de investimentos, de anônimos e dispersos investidores. Em grande parte com residência em paraísos fiscais e, em não poucas vezes, representando ilícitas origens (drogas, contrabandos, corrupções, dinheiros lavados).

No Monitor Mercantil, sexta-feira, 23/11/2018, na coluna Acredite se Puder, Nelson Priori, sob o título “Registros falsos para financiar indústria da maconha” escreve: “A Paragon Coin Inc., uma entidade online, levantou aproximadamente US$ 12 milhões para desenvolver e implementar seu plano de negócios para adicionar tecnologia de blockchain à indústria de cannabis e trabalhar para a legalização da cannabis. Nem a Airfox nem a Paragon registraram suas ICOs de acordo com as leis federais de valores mobiliários, nem se qualificaram para uma isenção dos requisitos de registro”, na Securities and Exchange Comission (SEC).

Para este ambiente neoliberal internacional não encontramos uma oposição articulada, um discurso efetivo. Não há esquerda ou direita, todos se ajoelham diante da banca, diante dos seus ilícitos. E ainda usam o farsante discurso moralista. Jessé Souza escreve: “A ascensão do PT ao poder de Estado .... ainda que tenha desenvolvido políticas sociais fundamentais em um país de desigualdade tão perversa, o fez sem qualquer discurso articulado acerca do que estava fazendo. Não havia a narrativa deliberada de um projeto nacional alternativo ao projeto liberal antipopular”. Ao que acrescento, nem buscou apurar os ilícitos cometidos pela banca, nem mesmo em governos anteriores.

Voltemos aos coletes amarelos.

Emmanuel Macron, como se sabe, saiu do Banco Rothschild para a administração do Estado Francês, pelas mãos socialistas. Como esperado seu governo já provocou mais desemprego, menos salários, menos presença do Estado.

Esta agressão ao povo, no Brasil, atinge diretamente a classe mais despossuída. Mas na França atinge parcela da classe média. Também a classe industrial, derrotada desde os anos 1980, mais ainda não sepultada, sentiu um certo alento com a política econômica de Donald Trump.

Recentemente, Angela Merkel anunciou, após a derrota de sua coalisão na Bavária, que não disputaria sua permanência na liderança do CDU. Estaria cedendo ao industrialismo, que gera produção, emprego e renda?

É cedo, mas há, além da violência da fome, a presença de novos atores religiosos, os neopentecostais. Todo este caldo está sendo canalizado nestes movimentos franceses, belgas e germânicos.

Desde o período pré-eleitoral tenho escrito que o debate deveria ser a banca contra o nacionalismo. Volto a Jessé Souza: “Como no capitalismo financeiro em todo o mundo, a defesa abstrata de direitos difusos e das minorias toma o lugar da efetiva distribuição de riqueza e poder. FHC é, assim, a República Velha repaginada pelo discurso pseudoemancipador do capital financeiro, e com o charminho parisiense, livre-pensante, de sua origem uspiana. A visão liberal-chique - da qual o Ministro Barroso, do Supremo Tribunal Federal, é, hoje, um dos arautos - combina uma postura avançada na esfera dos costumes com uma posição conservadora na política social e econômica”.

Não sei como será na França. Mas no Brasil, a chegada de militares ao Poder pode refundar o Estado Nacional Brasileiro. Assim propunham os tenentes dos anos 1920. E, como escreve Jessé, voltamos com Dilma e Temer à República Velha.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado




***




LEITURAS DA HISTÓRIA OU PELO BRASIL INDEPENDENTE


PEDRO AUGUSTO PINHO -


Repito, com enorme desgosto, o que me é possível ler de nossa História. Somos, há 518 anos, uma colônia.

Imigrantes praticamos o genocídio dos povos autóctones, como o fizeram os espanhóis, ingleses e todos os civilizados europeus nas Américas, na África e por onde andaram.

Para cá também transplantamos enormes populações africanas, para nos servir como escravas, e garantimos, com sociedade submissa, dependente, permanente colônia aos senhores da ocasião.

Os primeiros aventureiros agiram como corsários, apenas interessados nos bens mais facilmente disponíveis e transportáveis. Deram a este período uma roupagem econômica denominando-o ciclo do pau-brasil.

Mas verificaram que esta terra fértil e imensa poderia suprir a Europa de um produto caro: o açúcar. Foram-se formando as bases da sociedade brasileira: escravista, agroexportadora, ignorante e dependente do estrangeiro.

A força com que esta classe permeou o imaginário nacional só tem semelhança com o inexistente empreendedor estadunidense, desbravador do oeste selvagem.

Mesmo empobrecida, cercada pelas dívidas, que é a principal arma do colonizador inglês, esta classe rural impediu a industrialização brasileira e ainda conduz, de modo elitista e antipopular, os destinos da nação. Com o relho e o preconceito.

Assistindo programa de entrevista na TV Curta, canal fechado, cerca de 10 historiadores, pensadores, psicólogos expuseram suas compreensões sobre nossa história. Pareciam 10 países diferentes. Por que estas desinformações? Estas incompreensões tão gritantes? Estas óticas tão particulares e excludentes?

Nem pretendo, nem tenho a paranoia de dono da verdade. Usarei o último livro do maior sociólogo brasileiro vivo: Jessé Souza, “A classe média no espelho” (Estação Brasil, 2018), suas pesquisas e análises, para orientar minha reflexões.

Inicio com a citação crítica da Lava Jato, elogiada à esquerda e à direita como redentora do País:

“Não entra no cérebro desses lacaios servis aos interesses dos seus senhores que a corrupção era seletiva e definida pelo algoz, o que explica por que apenas um lado tenha sido prejudicado e o outro ficado só com as vantagens”.

Quem perdeu? A industrialização, a engenharia, as empresas brasileiras. Quem ganhou? O sempre impune sistema financeiro e os interesses empresariais estrangeiros.

Vamos nos deter em dois pontos, vitais para a soberania, para a independência de qualquer país: energia e indústria, intimamente ligados.

Dois brasileiros e apenas eles merecem a qualificação de estadistas: Getúlio Vargas e Ernesto Geisel, não por mero acaso governaram com regimes autoritários, chamemos, para agradar gregos e troianos, ditatoriais. E ambos foram vítimas de golpes, pelas mesmas forças externas que lutam com uma parcela da classe dirigente brasileira pela manutenção do Brasil Colônia.

Não me deterei, já o fiz em outras artigos, sobre a formação da elite agroexportadora, que se colocou acima do Estado Nacional, desde 1808, e jamais, a não ser nos breves momentos de governo autoritário, saiu desta posição de mando e controle das decisões nacionais.

Repito que não há esquerda e direita no Brasil, há os que se submetem, hoje à banca (sistema financeiro internacional), e os que se voltam contra os colonizadores, até 1990 Estados Nacionais centrais (Europeus e os Estados Unidos da América - EUA).

Apenas um exemplo em Estado Central, para que se veja a ignorância e a desinformação que nos domina. Na Suécia, apenas 8% da hotelaria, por decisão de governo, pode estar em mãos estrangeiras. Absurdo? De modo algum. Protegendo a indústria nacional de mobiliários, materiais e equipamentos domésticos e toda cadeia produtiva a estes associada. Assim a Suécia garante emprego e renda para seus nacionais. Imagine se este setor estivesse em mãos alemães, onde estariam os empregos e as rendas?

A industrialização sempre foi combatida no Brasil. Não de modo franco e aberto como de Eugênio Gudin que dizia ser a siderurgia “coisa de branco”, não era para os mestiços brasileiros. Eram leis, regulamentos, orientações que, na prática, impediam o desenvolvimento industrial nacional. Veja a diferença das políticas de Vargas e da ação do BNDES nos Governos Médici e Geisel.

Vamos rever/reestudar a política de substituição de importações, tão brilhantemente conduzida por Marcos Pereira Vianna. Ao invés de desindexar despesas para cumprir o estúpido teto de gastos, como declarou ao Valor Econômico o “futuro ministro” Paulo Guedes (30/11/2018).

Voltemos à questão básica e estratégica da energia. Nossos dois estadistas criaram as empresas que se tornaram referência internacional de capacitação  técnica para conduzir a energia no Brasil: Petrobrás, Eletrobrás, Nuclebrás e o programa do Pró-álcool. Todas em processo de desestruturação, de infiltração política, de privatizações e desnacionalizações desde 1990, não por acaso o ano que a banca chegou, pelo voto, ao poder no Brasil.

O que nos leva - pois a ação administrativa é sistêmica, todos elementos estão de algum modo interligados, interdependentes - à questão da comunicação de massa. Quem controla a comunicação de massa, a indústria cultural no Brasil? Pois é esta força de comunicação que irá criar expressões, modismos, hábitos que influenciarão nosso modo de pensar e fornecerão os dados que corroborem suas farsas, seus preconceitos e desinformações.

Para ficar no exemplo da Petrobrás, foram seus técnicos que descobriram campos gigantes, no Brasil e no exterior, depois que as grandes empresas de petróleo - as majors - abandonaram estas áreas pela “inexistência” de petróleo.

Foi o caso do Campo de Majnoon, no Iraque, e vários, inclusive o pré-sal, no Brasil. Hoje Majnoon está entregue à Royal Dutch Shell (anglo-holandesa) e à Petronas, da Malásia. E o pré-sal sofre o assédio das estrangeiras, estatais e privadas, no Senado.

Não sei se Lênin ou Stalin quem pronunciou a frase muito citada em artigos sobre energia: socialismo é igual a poder soviético mais eletrificação.

Mas sem dúvida, o poder nacional está intimamente vinculado à energia. Privatizar (o que significa internacionalizar o controle) a Petrobrás, a Eletrobrás, a Nuclebrás, os programas de biocombustíveis, é colocar o Brasil de joelho.

A privatização vai também se infiltrando em novas formas de estrutura societária. A Vale (ex-Vale do Rio Doce, uma riqueza brasileira sem semelhança no mundo), recebida em quase doação por empresário nacional e Fundos de Pensão de empresas de economia mista, está hoje desnacionalizada, legalmente mas ilicitamente, por jogadas com ações, vinculação ao “novo mercado” da Bolsa de Valores, acordos de acionistas, que entregaram 52,9% do capital para mãos estrangeiras e com outros prejuízos à participação nacional com conclusão, já definida, em  2020.

Mesmo o agronegócio exportador, que tão ardentemente defende e sempre apoiou a manutenção colonial, não percebe que a terra produtiva e a água doce já estão na mira dos interesses estrangeiros, transformando-os em “bens de mercado”, ou seja, para serem propriedade dos BlackRock, Vanguard, State Street Global Advisors (SsgA), Fidelity e outros trilionários fundos de investimentos de difusa propriedade pelos países centrais. Contra eles Blairo Borges Maggi, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias e outras importantes personalidades da agropecuária brasileira não terão qualquer força.

Tratemos de mais um tema sensível à independência nacional: o tráfico de drogas, de armas e ilícitos associados.

De acordo com o órgão da ONU para Drogas e Crimes (UNODC - UN Office on Drugs and Crimes), em 2010, este complexo econômico movimentou 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Apenas o narcotráfico,representava R$ 490 bilhões (14%), dos R$ 3.480 bilhões, que circulavam no sistema financeiro do país, segundo o ex-Ministro Chefe da Casa Civil (1995-1999), Clóvis Carvalho, no relatório da Comissão Especial de Estudos sobre o Sistema Financeiro, por ele presidida.

Engana-se quem vê o negócio das drogas, armas, tráficos de pessoas e órgãos humanos, lavagem de dinheiro e crimes semelhantes como ação de cartéis ou “famílias” mafiosas. É um imaginário que a comunicação de massa ajuda a divulgar na proteção deste trilionário negócio. É uma sólida cadeia integrada de produção, comercialização e finanças.

Com as desregulações de Thatcher/Reagan, ao longo dos anos 1980, os ilícitos fizeram “surgir no mercado”, entre 1990 e 2000, cerca de US$ 4 trilhões. Foi grande upgrade para a banca. Já nadando em petrodólares.

Parte desta fortuna está nas corrupções que um sistema parlamentar facilita, ainda mais num estado aparelhado.

Também tenho lido no facebook (pode não ser fonte confiável, mas relatórios bancários o seriam?) que as igrejas, notadamente as neopentecostais, que são abundantes em áreas carentes, estão sendo atraídas e incluídas no sistema de lavagem do tráfico. As “doações” , isenções tributárias, ausência de fiscalizações muito ajudam.

Toda esta gestão do crime, dos ilícitos, desagua na violência urbana, que foi dos temas mais importantes da última eleição.

É muito fácil ser técnico na segunda-feira, como sabe todo amante de futebol, mas é muito pertinente o que escreveu o sociólogo Francisco de Oliveira, em “O momento Lênin” (Novos Estudos CEBRAP, nº 75, julho/2006), cuja conclusão resumo a seguir.

Em 1917, Alexandre Kerensky assume a direção da Rússia (primeiro-ministro), uma republica parlamentar, com o fim do czarismo. Tenta salvar as instituições, cujo modelo desacreditado colocava sua autoridade diluída. Havia comandos independentes em diversos segmentos do Estado. Fracassa e é substituído pelos bolcheviques, liderados por Lênin, que derrubam aquele modelo parlamentar.

Não há repetição histórica, mas semelhanças em contextos diferentes.

Lula assume em 2003 um Estado já tomado pela banca. Não tenho certeza, talvez uma pesquisa histórica aprofundada nos esclareça porque não promoveu a reforma necessária ao controle do Estado. Compromisso na manutenção da situação encontrada? Falta de condição - técnica ou política - de alterá-la? Conivência? O fato é que seu destino, naquele momento, ficou traçado.

Kerensky foi derrubado pela liberdade parlamentar; Lula pela dinâmica do capitalismo financeiro. O Estado Nacional Brasileiro, em 2018, ainda é uma questão em aberto.

O que nos aguardará 2019?

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado




***




SOU COMO ME FIZERAM E NUNCA PERCEBI


PEDRO AUGUSTO PINHO -

Jessé Souza, o maior sociólogo brasileiro vivo, publica seu aguardado estudo sobre a classe média ocidental (A classe média no espelho, Estação Brasil, 2018). Um trabalho que, em vários momentos, lembra Pierre Bourdieu, mas tendo estilo, foco e amplitude analítica próprios deste mestre nacional.

Não faço resenha, nem estudo crítico. A partir das pesquisas e análises de Souza, procuro entender as manifestações e compromissos políticos que desenham a sociedade brasileira nesta classe que, segundo seu trabalho, representa 20% de nossa população.

Fica claro que classe média não é somente um grupamento econômico. Nenhuma classe o é. As classes sociais são um conjunto de reconhecimentos mútuos e por outras classes, inclusive dos invisíveis, onde a quantidade de dinheiro interfere mais pela educação, latu senso, do que pelas propriedades. É a distinção, que Jessé Souza (JS) também considera.

Uma de suas grandes contribuições é a gênese. Como se forma a classe média e, em geral, as classes sociais.

Com perspectiva diferente, João Fragoso e Manolo Florentino escreveram O Arcaísmo como Projeto (Diadorim, RJ, 1993), mostrando que a sociedade agrária e a elite mercantil se uniram para perpetuar a sociedade excludente escravista e colonial. Tenho afirmado que o Brasil jamais deixou de ser colônia. Teve poucos momentos de rebeldia libertadora, logo sufocados por golpes e pela desconstrução e deformação do ideal de um poder nacional.

Também foi este modelo que impediu, diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos da América (EUA), a formação da elite industrial. No Brasil ela nasceu com imigrantes que logo se acomodaram e se uniram ao poder naquela sociedade agrária-exportadora-financista, e dependente.

Quando começa a se formar nossa classe média? Temos uma colonizada e outra de objetivos próprios. Esta primeira tem origem nos “agregados”, figura da história e das ficções nacionais. Os tenentistas dos anos 1920 constituirão “a primeira grande expressão articulada” da classe média, com a “ideia de refundar o Brasil” (JS) e terão seguidores em militares, políticos e intelectuais nacionalistas.

Sempre interessou à minoria que detém o poder, em todos lugares e todas as épocas, manter a ignorância da maioria, em especial sobre sua situação. Para isso usa o sobrenatural, o desconhecimento sobre a natureza, e coloca falsos objetivos para reivindicações destas maiorias.

Como acentua Jessé Souza, os tenentes queriam refundar o Brasil. Eles, quando no poder com o contragolpe de 1967, agiram no sentido da criação do Estado Nacional forte e rico. Só um Estado Nacional Soberano seria capaz de promover justiça social, educação, saúde, transporte, segurança e cidadania.

Todo esforço do neoliberalismo está em demonstrar que o Estado é fraco e incapaz. Mas ocultam que este Estado sempre foi dirigido pelo poder dependente, agrário-exportador, cuja receita era definida pela taxa de câmbio estabelecida no exterior.

Em resumo: um poder permanentemente endividado.

Tratemos, sinteticamente, da importante questão cambial neste universo de engodos e desinformações.

Entre 1961 e 1968, o Brasil adotou um sistema de taxa de câmbio nominal fixa, com maxidesvalorizações esporádicas. Em 1961, este sistema definiu duas taxas cambiais: uma para exportação de café e cacau e outra para exportações dos demais produtos e para as importações. No entanto, as pressões da elite já referida e de interesses estrangeiros no Brasil, obrigaram o governo a usar esquemas de “bonificações” e de “descontos” os quais, efetivamente, aumentavam a quantidade de taxas cambiais, tanto para exportações quanto para importações. Mas sempre em prejuízo do Estado Nacional.

Este sistema foi estabelecido pela Instrução 204, da Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC). Um instrumento da política anti-industrial e de desemprego, sob a fantasia do “realismo cambial”.

Em 1964 foi unificada a taxa de câmbio e, até 1968, houve apenas três correções cambiais. Não é simples coincidência os governos Jânio Quadros e Castello Branco adotarem políticas contracionistas - hoje seriam de austeridade - que desestimularam a industrialização nacional e promoveram o desemprego.

De 1968 a 1990, o sistema adotado foi das minidesvalorizações. Porém o que se torna mais relevante é o estabelecimento de diversas taxas cambiais, conforme as estratégias de desenvolvimento nacional - I PND (1972-1974) e II PND (1975-1979). Havia, por exemplo, o câmbio para o trigo, para o papel de jornal, para o pagamento de serviços da dívida, para o petróleo cru e derivados etc. Estas taxas permitiram o Brasil atingir altos níveis de crescimento e implantar os programas nuclear, de informática, de energia da biomassa entre outros.

Voltava a ser construído o Estado Nacional Brasileiro, projeto inconcluso de Getúlio Vargas.

A partir de 1990, sob o domínio da banca, as taxas cambiais passam a ser fixadas pelos interesses deste sistema financeiro, no regime do câmbio flutuante. É um retorno ao Império, à República Velha.

O poço sempre pode ser mais profundo, mas já descemos bastante quando o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o Estado mais industrializado do País, não é um industrial; como o juiz, considerado campeão na luta contra corrupção, está envolvido no Caso Banestado, da maior evasão de divisas do Brasil, de fraudes processuais, atestadas pela Polícia Federal e outros ilícitos. E é entregue a denominação religiosa o projeto de “escola sem partido”. Nem dá para rir.

Esta situação é o resultado de políticas anti-nacionais, desenvolvidas pelas esquerdas e pelas direitas, a partir de 1980, quando as Forças Armadas deixaram a condução do País.

Voltemos ao trabalho de Jessé Souza.

“Todo nosso comportamento está baseado em ideias, quer saibamos disso ou não. E, se não sabemos, não há como nos defender dessas ideias que influem em nossos atos, por vezes até em sentido oposto aos nossos interesses”.

São três formadores da opinião da direita e da esquerda no Brasil, segundo Souza: o “filósofo” Sérgio Buarque de Holanda, o “historiador” Raymundo Faoro e o “político” Fernando Henrique Cardoso. Esta “santíssima trindade” só poderia surgir em São Paulo, baluarte de nosso “ancien régime”, que combateu a formação do Estado Nacional de Vargas. JS afirma que o maior motivo foi a perda do “controle militar do Estado” pela elite agrário, exportadora, dependente paulista. Veja que, ainda nos anos 1960, o café tinha cambio privilegiado.

São Paulo identificou a necessidade de controlar o pensamento nacional (USP), a aviação independente da militar nacional (VASP), e a indústria submissa ao financismo, como na Inglaterra. Enquanto todo Brasil se desenvolvia com a União, a elite paulista buscava o desenvolvimento excludente, próprio, agindo como colonizador nativo. Os partidos que vem comandando o Brasil tem origem paulista e são, ambos, aliados da banca: PSDB e PT.

O banca, como escrevi diversas vezes, é socialista, é capitalista, é homofóbica,  é pela política de gênero, é religiosa, é ateísta, ela só não é nacionalista. O Estado Nacional é seu grande e maior inimigo. Veja os EUA, onde o aparelhamento do Estado, nos governos republicanos e democráticos, luta contra o industrialismo de Trump.

Nem esta ignorância, que nos impede de saber quem somos, é privilégio brasileiro.

Nas recentes manifestações, que tomam a França - les gilets jaunes (coletes amarelos) -, que deveriam ser a luta contra o neoliberalismo que domina o país (com socialistas e populares/direitistas, UMP) desde 1981, não é vista esta consciência, conforme podemos ler no Le Monde e Le Figaro e assistir nos jornais do canal TV5. São pessoas simples, pobres, como o jovem de uma cidade de 5.000 habitantes, que declarou ter comido, pela primeira vez, um “foi gras” deixado por automobilista numa mesa que coletava recursos para os bloqueadores de estrada. Nenhuma consciência de sua ação. Nenhuma compreensão da luta  em favor do Estado francês. Um mínimo ganho já o deixava contente, o “comprava”.

As Forças Armadas dos tenentes de 1920 tem enorme responsabilidade pela “refundação” do Estado Brasileiro. É a única instituição, de ação por todo território brasileiro, com força e confiança do povo para derrotar a banca, em suas diversas fantasias, laicas ou religiosas, psebistas ou petistas, de imagem séria ou corrupta, pois a banca nunca mostra a verdadeira cara.

Este livro de Jessé Souza ainda renderá outras reflexões.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado




***





JORNALISMO E DITADURA MILITAR NO BRASIL: DA CENSURA À RESISTÊNCIA NAS REDAÇÕES

REDAÇÃO -


Censura e opressão.

A primeira consideração relevante sobre o jornalismo durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985) é que a atuação da censura aos meios de comunicação, em sua forma mais coercitiva e opressora, ocorreu após 13 de dezembro de 1968, quando foi decretado o Ato Institucional número 5. Com a suspensão das garantias constitucionais, o Congresso Nacional foi fechado e instituída a censura prévia à imprensa, além de prisões em massa de parlamentares oposicionistas, líderes estudantis e sindicais, intelectuais e artistas. Entre 1964 e 1968, a intervenção governamental em jornais e revistas ocorria em casos relativamente esparsos, através de bilhetes ou telefonemas aos proprietários das empresas jornalísticas, em que as autoridades militares passavam recomendações ou se queixavam de determinadas matérias. Com a vigência do AI-5, jornalistas e donos de jornais sentiram o impacto e a violência da censura policial.

O jornalista Alberto Dines, então editor-chefe do Jornal do Brasil, relata que, até o AI-5, o regime autoritário não havia provocado mudanças significativas na rotina da redação que dirigia. O golpe militar reforçou posições conservadoras da chamada grande imprensa, que já vinha fazendo carga contra a radicalização nacionalista do governo do presidente João Goulart. Após a deposição de Goulart em 1964, segundo Dines, não houve alterações no exercício do jornalismo na imprensa tradicional: “(...) Cobria-se tudo, publicava-se tudo, tudo que chegava nós publicávamos. As grandes alterações aconteceram a partir de 1968.” (1)

A instalação da censura prévia à imprensa foi consolidada no decreto-lei n° 1.077, de 26 de janeiro de 1970, no qual o general-presidente Emílio Garrastazu Médici advertia que não seriam admitidas publicações contrárias ao regime, à moral e aos bons costumes, em quaisquer meios de comunicação. A submissão de textos, fotos, ilustrações e charges aos censores da Polícia Federal restringiu dramaticamente a liberdade de expressão e as possibilidades de divulgação de certas informações julgadas inadequadas, suspeitas ou subversivas pelo regime. Os comandos das redações recebiam, frequentemente, comunicados da Polícia Federal informando que temas ou acontecimentos não deveriam ser noticiados, ou que deveriam merecer tratamento cauteloso e contido. Tais ordens eram cumpridas à risca pelas empresas jornalísticas, sob pena de punições, como abertura de processos judiciais e ameaças de suspensões de circulação, e represálias, que incluíam, por exemplo, corte de verbas publicitárias do governo federal.

O jornalista Clóvis Rossi, que trabalhava em O Estado de S. Paulo, conta que, o período que sucedeu o AI-5 abalou os repórteres do jornal e fez com que ficasse claro que a ditadura estava efetivamente instaurada: “Até 1968 ainda dava [para divulgar certas informações]. É claro, com cuidado, com meias palavras, com entrelinhas – coisas que eu detesto fazer, mas era inevitável, indispensável. Até 1968 dá. Aí é que, em 1968, isso muda completamente. Eu me lembro bem que, na noite do AI-5, nós fechamos o jornal com a notícia do novo Ato Institucional e fomos reunir os repórteres e amigos, fomos para um boteco, (...) num ambiente de “o mundo acabou, não tem futuro, não tem horizonte, o que vai fazer, o que não vai fazer.” Enfim, todas as vias de futuro tinham sido fechadas. (2)

O jornalista Pery Cotta, um dos editores do Correio da Manhã, considera que o episódio mais dramático vivido por ele durante a ditadura militar ocorreu na noite em que foi decretado o AI-5. A experiência de acompanhar de perto a ocupação da redação foi tão traumática que, depois disso, ele só permaneceu no jornal por mais alguns dias. Cotta completa: “Quando a ditadura invade o jornal, quando o regime militar toma conta do jornal, [ele] mata a alma do jornal. É o fim do jornal, acho que foi aí, um fim anunciado, porque eles cortaram publicidade, jogaram bomba em agência do jornal, da principal agência do jornal (...) fizeram todo o cerceamento possível, estrangular financeiramente e comercialmente o jornal. Felizmente depois do AI-5 eu passei só cinco dias na redação do jornal porque me neguei a continuar escrevendo sobre política, pedi que me mandassem para outra área. Não me mandaram, disseram que eu teria que continuar escrevendo sobre política e no quinto dia me demitiram”. (3)

Com base nos depoimentos de vários jornalistas que à época atuavam nas redações, é possível notar que, por um lado, nos jornais em que havia a presença física de um censor da Polícia Federal dentro da redação, a elaboração de estratégias para fugir da censura se tornava uma tarefa mais difícil. Por outro, a convivência com os censores possibilitava, em alguns casos, uma margem de negociação, que não existia nos veículos em que a censura prévia era feita nas sedes de órgãos do governo. Alguns jornalistas relembram que, em determinadas situações, a proximidade física com os agentes ajudava os repórteres a perceber os critérios usados no corte de matérias e o modo de atuação dos censores. Ricardo Kotscho, então repórter de O Estado de S. Paulo, depõe: “Como a gente ia trabalhar, os censores também iam. Com o tempo, a gente começou a conviver com os caras e negociar com eles na oficina. Eu percebi que eles liam só o começo da matéria, se fosse assunto sério eles liam tudo, mas se fosse bobagem eles deixavam passar. Aí eu comecei a escrever com pirâmide invertida ao contrário, porque o jornalista tem sempre que abrir com o mais importante. Eu abria com qualquer abobrinha e deixava as coisas mais importantes para frente. Uns dias depois o cara percebeu, alguém falou com ele, e ele ficou bravo. A gente tinha essa relação com o censor, não tinha outro jeito.” (4)

Clóvis Rossi levanta outra questão. Sem negar as consequências negativas para a liberdade de informação da presença do censor na redação e para o trabalho cotidiano, o jornalista comenta que, no caso do Estado de S. Paulo, a introdução da censura prévia gerou um único fato positivo: o fim da autocensura. “A censura nos liberou da autocensura, o que é um benefício, porque a autocensura é muito ruim para quem a faz. Você se sente mal, você se sente cúmplice e a censura nos liberou disso. Você não precisava fazer isso, porque sabia que os censores iam proibir – e proibiriam mesmo. (...) Trabalhávamos com um teor de normalidade muito maior do que a ditadura externa permitia, porque nós sabíamos que cada um tinha seu papel. Nosso papel era fazer um jornal e o da censura era cortar o que eles quisessem cortar, e assim vivíamos nessa situação estranha, mas melhor, acho eu, do que a autocensura.” (5)

De acordo com Augusto Nunes, que também trabalhava em O Estado de S. Paulo, o clima na redação sob censura prévia era o pior possível. “Num primeiro momento, você acha que é herói da resistência e aí você decide que vai escrever e eles vão cortar”, diz Nunes. “O problema da censura é que ela te emascula, ela acaba fazendo o afogamento na origem. Você cansa de escrever sabendo que vão cortar. Você escreve uma vez, escreve outra, quando vem a terceira matéria com aquele lápis vermelho, é difícil você escrever, porque vira uma coisa teimosa... Não é que você pratique a autocensura, você se rende, não há o que fazer. E aí você começa a publicar receita, essas coisas.”(6)

Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro durante o último governo militar, do general João Baptista de Figueiredo, José Carlos Monteiro analisa que, embora os anos de chumbo tenham sido críticos para toda a imprensa, havia condições diferenciadas de trabalho e coação nos veículos. Ele relembra que, no jornal O Globo, onde foi um dos editores do noticiário internacional, “foram tempos duros, tenebrosos” de 1968 em diante. “O clima na redação era sufocante. Apesar de Roberto Marinho [proprietário do jornal e do grupo Globo] ter apoiado, desde o começo, o movimento golpista, o jornal não escapou da repressão. Do ponto de vista profissional, pessoal e político, a atmosfera era um misto de perplexidade, desorientação, desalento e de uma grande disposição de resistência. Não era só a editoria de política que era visada pela censura. De forma geral e indiscriminada, a prática da censura atingia praticamente todos os setores da redação, até o setor de pesquisa e de arquivo.” Quando se transferiu para o Jornal do Brasil, as coisas melhoraram bastante. “Eu tive mais liberdade. Trabalhei na coluna Informe JB, que me permitia um maior espaço de resistência”, ressalta Monteiro. (7)

Formas de resistência

As maneiras de driblar a censura, divulgando informações contrárias aos interesses do regime, variavam de veículo para veículo, bem como a intensidade do controle aplicado a cada jornal. Um exemplo dessas diferenças está na comparação que pode ser estabelecida entre os jornaisEstado de S. Paulo e O Globo. No primeiro caso, o inconformismo diante de ordens da censura incluiu a família Mesquita, proprietária do jornal, o que contribuiu, por um lado, para a instauração da censura prévia, mas possibilitou, por outro, uma margem maior de atuação para os jornalistas na redação. Em O Globo que apoiou o golpe militar desde o começo, houve formas de controle interno da informação e da opinião. Procedimento semelhante se observou em outros veículos, como mencionado em livros e teses que abordam o período. Neste caso, a censura empresarial agiu de forma mais acentuada, minimizando, ainda mais, os espaços de resistência.

José Carlos Monteiro explica que, durante os anos de chumbo, as estratégias para driblar os mecanismos de censura em O Globo tinham que ser bastante sutis. Segundo ele, os jornalistas não tinham liberdade de informar criteriosamente o leitor sobre o que acontecia no mundo. “Aos jornalistas o que cabia era descobrir maneiras, procedimentos de contornar essa censura, essa repressão. No nosso caso, dos jornalistas que trabalhavam nas grandes empresas de comunicação, além da censura do regime, estávamos sujeitos às regras da empresa. Por exemplo, escrevíamos matérias de apoio a movimentos literários, musicais, que prestigiassem o teatro brasileiro, o cinema, etc. Na hora da edição, colocávamos uma foto aqui, uma legenda ali. Mas os que exerciam a censura não eram burros. Eles chamavam a atenção da gente”. (8)

Na avaliação de Alberto Dines, a experiência no Jornal do Brasil mostrou que obedecer estritamente às ordens dadas pela censura também poderia ser uma forma de desobedecer. Isto é, a seu ver, era possível acatar as ordens e, ao mesmo tempo, interpretá-las com alguma margem de liberdade e ousadia. Como exemplo disso, Dines conta que, no dia da deposição do presidente chileno Salvador Allende por um golpe militar (11 de setembro de 1973), a Polícia Federal ordenou que o jornal não usasse a notícia como manchete. A solução encontrada pelos jornalistas foi, de acordo com ele, uma forma de conciliar a orientação recebida com uma mensagem subliminar de resistência:

“Eu disse [aos colegas de redação]: ‘a gente vai cumprir estritamente, eles não querem manchete, fazemos um jornal sem manchete... Vamos fazer um negócio: tira a manchete, vamos dar aí três ou quatro blocos, corpo o maior possível, contar essa história toda, sem manchete, e essa história, ela vai servir de manchete. Nós estamos cumprindo estritamente às ordens da censura, estamos fazendo um jornal em que o Allende não está na manchete’. Não esqueci dos telefonemas que eu recebi e do impacto que causou e a edição não sobrou nada, porque foi muito impactante para o leitor um jornal sem manchete.” (9)

É importante assinalar que muitos jornalistas temiam que, depois de conviver por muito tempo com a censura, inconscientemente, adotassem uma autocensura, que acabasse atrapalhando o exercício de suas funções. Como explicita Maria Aparecida de Aquino em seu estudo sobre os efeitos da censura na imprensa: “Uma das maiores preocupações dos profissionais da imprensa referia-se à introjeção da autocensura, mesmo após o término de sua vigência. Ou seja, após tantos anos de convivência com ‘ordens superiores’ ou com o censor instalado nas redações, impedindo ou mutilando o exercício de seu trabalho, temiam os jornalistas que, retirada a censura prévia, a autocensura viesse tomar o seu lugar, como um alter-ego, bloqueando sua produção e a sua função de informar o leitor.” (10)

Quando ocorreu, efetivamente, o fim da censura, os jornalistas vivenciaram uma fase de readaptação, em que tiveram que se reacostumar à possibilidade exercer a profissão com mais liberdade – ainda que não absoluta, já que as empresas jornalísticas continuaram e continuam aplicando suas diretrizes editoriais e zelando por seus interesses políticos e econômicos. As dificuldades anteriores afetaram alguns profissionais, que precisaram de tempo para se readaptar às tarefas cotidianas, porque ainda sentiam um certo medo de escrever, temendo a censura ou as reprovações de seus chefes imediatos. Na verdade, eram os efeitos da autocensura que se faziam sentir. Sem querer, não eram poucos os jornalistas que se continham demais ao escrever, se autocensurando. Mesmo quando a censura desapareceu, editores e redatores receavam arriscar em determinados títulos e manchetes. Só aos poucos fomos relaxando”, atesta José Carlos Monteiro. (11)

Considerações finais

Podemos concluir, a partir da análise dos depoimentos dos jornalistas que estavam nas redações no período mais agudo da ditadura, que, apesar das restrições à liberdade de imprensa e de expressão, em muitos casos, foi possível transmitir informações relevantes aos leitores. A censura levou jornalistas mais conscientes a buscarem outras maneiras de veicular notícias sobre a realidade do país. Isto é, por conta das dificuldades enfrentadas, os profissionais precisaram fugir dos padrões de escrita e de edição tradicionais do jornalismo, encontrando, assim, outros mecanismos eficientes de comunicação e, de algum modo, apurando o estilo textual. Embora muitas tarefas cotidianas tenham sido prejudicadas por cortes e proibições da censura, houve ocasiões em que foi possível reagir às imposições, através de artifícios para burlar o controle da informação.

Importante perceber que vários jornalistas que se opunham à repressão atribuem, nos dias de hoje, enorme importância à função da imprensa na resistência ao regime ditatorial, tanto como forma de cumprimento do papel social do jornalista, quanto como exercício de cidadania. Ou seja, gerações de jornalistas consideram que a experiência de trabalhar sob censura em determinada medida contribuiu para a formação pessoal e profissional. Os depoimentos revelam que os episódios de resistência às imposições censórias foram fundamentais para a construção de suas reputações, já que defendiam a ética e a veracidade informativa.

Alguns jornalistas afirmam, ainda, que o aprimoramento da escrita e a linguagem metafórica usada para transmitir conteúdos proibidos produziram mudanças importantes em suas práticas e estilos profissionais. Como revela Mino Carta sobre o período em que dirigiu a revista Veja: “A censura nos levou a repensar a conjuntura em que vivíamos de forma bem diferente da do início da revista. E mais, levou a revista a se esmerar na informação de qualidade. Por incrível que possa parecer.” (12)

Flávio Tavares, redator e depois correspondente de O Estado de S. Paulo, diz que foi necessário aprimorar a forma de dizer as coisas nas matérias, para escapar à vigilância. Mesmo que tenha sido algo forçado pelas circunstâncias, essa experiência acabou resultando em aprimoramento profissional: “Eu me soltei muito mais depois de 1964. É uma total contradição dizer isso, de que eu me soltei mais como jornalista num período autoritário, ditatorial, de total vigilância, mas é verdade. Apurei meu estilo, passei a dizer tudo de uma forma mais elegante que marca meu estilo até hoje.” (13)

Uma das lições a extrair, segundo Monteiro, é a necessidade de a sociedade civil organizar-se para atuar como “uma caixa de ressonância dos desejos de transformação”. Sem isso, ele conclui, “os jornais alternativos ficam escrevendo as suas coisas, a grande imprensa fica fingindo que faz parte da democracia escrever e dizer o que ela diz e nada muda”. (14)

A resistência da imprensa durante a ditadura militar provou que a luta por um sistema democrático está atrelada à defesa da livre circulação das informações e à necessidade de os meios de comunicação refletirem a variedade de opiniões, visões de mundo e valores que se manifestam na sociedade. Desta forma, o jornalismo de qualidade pressupõe liberdade de expressão e diversidade de fontes, temáticas e conteúdos, a fim de que a sociedade possa se informar da forma mais ampla possível, formar seus próprios juízos e participar da vida do país de forma consciente.

NOTAS:
(1) Entrevista de Alberto Dines ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo. Disponível em:
http://www.ccmj.org.br/sites/default/files/pdf/5/ALBERTO_DINES%20final.pdf

(2) Entrevista de Clóvis Rossi ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo.  Disponível em:

http://www.ccmj.org.br/sites/default/files/pdf/5/Arquivo%20para%20download_12.pdf

(3) Entrevista de Pery Cotta ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo.  Disponível em:

http://www.ccmj.org.br/sites/default/files/pdf/5/Arquivo%20para%20download_20.pdf

(4) Entrevista de Ricardo Kotscho ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo. Disponível em: http://www.ccmj.org.br/video-detalhes/607


(5) Entrevista de Clóvis Rossi ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo. Já citada.

(6) Entrevista de Augusto Nunes ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo. Disponível em:
http://www.ccmj.org.br/sites/default/files/pdf/5/Arquivo%20para%20download_5.pdf

(7) Entrevista de José Carlos Monteiro à autora, em 18 de junho de 2012.

(8) Idem

(9) Entrevista de Alberto Dines ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo, já citada.

(10)AQUINO, Maria Aparecida de. Censura, imprensa, estado autoritário (1968-1978). Bauru: EDUSC, 1999, p. 16.

(11)Entrevista de José Carlos Monteiro à autora, já citada.

(12) Entrevista de Mino Carta. In PEREIRA, Fábio. Jornalistas-intelectuais no Brasil. São Paulo: Summus, 2011, p. 125.

(13) Entrevista de Flávio Tavares. In: PEREIRA, Fábio. Jornalistas-intelectuais no Brasil. São Paulo: Summus, 2011, p. 125.

(14) Entrevista de José Carlos Monteiro à autora, já citada.

---
*Fonte: América Latina en Movimiento, publicado em fevereiro de 2014 / Texto de Lívia Assad. Este artigo é uma versão resumida da monografia “Ditadura militar: os jornalistas e o exercício da profissão nas décadas de censura e autoritarismo”, aprovada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro para conclusão do curso de Comunicação Social (Jornalismo) em dezembro de 2012.




***





O DIA SEGUINTE


Por PEDRO AUGUSTO PINHO -

“Não se pode olhar para a política pelo velho espectro da esquerda e direita”, (Marine Le Pen, Paris, 19 de março 2018).

Como será o Brasil de 2019?

Será que os eleitores de ambos candidatos a Presidente estão pensando, além de seus pequenos umbigos, na crise que se avizinha? Na transformação do mundo e na minúscula posição que o governo Temer, com seus Ministros das Relações Exteriores, verdadeiros lobistas de interesses estrangeiros, posicionaram o Brasil?

Não sou melhor nem mais arguto analista que qualquer outro. Talvez a distância que tomo das ideologias, o interesse único no Brasil Soberano, Livre e Cidadão, permitem-me observar certos fatos sem o óculos da política partidária nem as deformações da pedagogia colonial.

Parto de nosso estado colonial. Salvo em pequenos e fugazes momentos de rebeldia, para construir algo de nacional - sempre me vem à mente alguns momentos de Vargas, JK e Geisel - o Brasil jamais deixou de ser colônia.

Até 1990 fomos colônias de Estados Nacionais, a partir de então de um sistema que denomino banca, o sistema financeiro internacional.

Mas há sempre um poder e um desejo de poder, uma situação e uma oposição. A eleição de Donald Trump, o plebiscito do Brexit, no Reino Unido, o nacionalismo russo e o neomercantilismo chinês mostram a pluralidade de caminhos tomados pelas nações.

Há quase três anos venho insistindo na eclosão de nova crise financeira. Não que a economia mundial esteja em dificuldade, ela colocou-se em dificuldade no momento em que se submeteu aos objetivos da banca. E procurou desconhecer a existência de regimes democráticos, da necessidade de bilhões de seres humanos e da emergência da China.

Vejamos o que disse Steve Bannon, que não pode ser minimizado como marqueteiro de Trump, no discurso ao Congresso da Refundação do Front National, francês, em março passado, na tradução sempre magnífica do Vila Mandinga:

“E em Washington, DC, essa semana nosso amado presidente Trump finalmente pôs porta a fora os globalistas. Já era mais do que hora!

Vocês viram na Itália, o movimento 5 estrelas e a Lega, não que concordem em tudo, não, de fato o movimento 5 estrelas é movimento de centro-esquerda. Mas uniram-se para votar contra a elite política de Roma e de Bruxelas”.

Ou seja, abrem-se nos Estados Unidos da América (EUA) e na Europa (Itália) duas frentes contra a banca. Mas esta, por óbvio, reagirá. E como o fará?

Tanto os economistas da Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos (ATTAC), quanto aqueles dos Departamentos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e diversas consultorias europeias, estadunidenses e asiáticas estão prevendo para muito breve - até 2020 - o detonar da crise que, estes mesmos analistas estimam, será a maior de todas, desde 1929.

Mas para onde a banca dirigirá a crise. Já manifestei que via no euro o epicentro da crise. Mas também imaginava que os pensadores, os estrategistas da banca deveriam temer a queda das moedas ocidentais e uma vitória do yuan chinês.

Na luta pelo domínio do mundo, defrontam-se a banca - com seus objetivos de apropriação dos ganhos pelo sistema financeiro e da concentração de renda - impondo a ideologia neoliberal, os EUA, com seu modelo colonial econômico e cultural, e a China com um neomercantilismo, buscando assumir a condição de fornecedora única ou majoritária de todos produtos consumidos no planeta.

É conveniente ter sempre em mente que a banca acolhe todos os resultados das ações ilícitas em todo mundo. Não é exagero afirmar que os traficantes - de drogas, de seres e órgãos humanos, de armas - assim como os corruptos, nos variados níveis, são sócios da banca. E que ela vê os Estados Nacionais como inimigos.

Em julho de 2009, Anthony Guinada Baah e Herbert Jauch editaram “Investimentos Chineses na África: Oportunidade ou Ameaça para os Trabalhadores?”, onde se lê (tradução livre):

“O termo “consenso Beijing” foi usado para descrever a maneira que a China trata outros países. A aproximação da China centra-se sobre o comércio bilateral e um papel forte para o estado. Pouco ou nada de privatização e livre comércio. Ao contrário dos programas de ajuste estrutural que os neoliberais Banco Mundial e FMI impõem à África, a China não exige privatização, liberalização de comércio, nem corte de despesa social e sustenta, preferivelmente, projetos baseados em acordos bilaterais”.

Dados de 2008, em plena crise, mostravam a transferência de cerca de US$ 28 bilhões da África para China (quase metade em petróleo angolano) e de  US$ 26 bilhões da China para África.

Em 2017, o estoque de investimentos diretos chineses nos países latino-americanos e caribenhos alcançou cerca de US$ 115 bilhões, de acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

O Brasil não pode nem deve se curvar diante destes três conquistadores. Não se trata de escolher mal menor, mas de firmar-se como País Soberano.

Para tanto temos território, população, recursos naturais de toda ordem, no campo das energias, dos minérios, terras raras, aquíferos, solo, recursos da flora, especialmente na biodiversidade, e polos de conhecimento em áreas relevantes como a nuclear, aeroespacial, petróleo, energias “limpas”. Falta-nos a área relevante, desconstruída e demolida depois do Governo Geisel, das tecnologias da informação e da comunicação.

A este Brasil se opõe, evidentemente, interesses colonizadores externos e a elite política e econômica que nos dirige desde o Império.

A crise será uma oportunidade de construção deste novo Brasil?

Pergunto então, será possível, com os compromissos que, a cada dia, nos são revelados pelos dois candidatos, termos esta expectativa libertadora. Ou continuaremos vivendo, sob governo autoritário ou democracia jurídico-parlamentar, numa Pátria colonizada?

Como já apontei, a questão nacional não entrou nas pautas eleitorais. Nenhum dos temas aqui tratados foi objeto de debate ou de programa de governo ou propaganda eleitoral. Que Brasil surgirá então em 1º de janeiro de 2019?

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado




***




SOB IMPACTO


Por VIRGÍNIA FONTES -

É muito difícil escrever sobre essas eleições proporcionais e sobre o primeiro turno das eleições presidenciais. A maioria de votos em Jair Bolsonaro era prevista, embora não na proporção em que apareceu. A estranhar, a grande diferença entre entre as pesquisas prévias e os resultados do primeiro turno. O segundo turno reabre a contagem e reabre os embates. Reverteremos o cenário.

Nesse momento, é hora de unir todas as forças democráticas, as forças civilizatórias, todas as forças que conservam a humanidade como valor fundamental, as variadas forças da esquerda, todas as forças que defendem a vida, para enfrentar algo que todos pensávamos ter ficado para trás. Algo que deveria estar no passado distante, como a defesa da tortura, os atos e gestos retomando as práticas do nazi-fascismo. Ele volta a pairar como ameaça concreta sobre todos os seres humanos.

Estou tristíssima. E estou com medo. Não o medo paralisante, mas o que acende a luz de alerta. O que nos deixa atentos e alertas. Precisamos estar prontos para interferir, para não permitir que um retrocesso dessas proporções atinja o país. O medo é real, pois Bolsonaro sobe em palanque ensinando menininhas a empunhar armas, enquanto seus seguidores não hesitam em humilhar mulheres que cuidam de crianças em praças, não têm vergonha de amedrontar mães que amamentam como se isso fosse indecente, nem de espancar seres indefesos. O medo é real e acende a luz de perigo.

Medo principalmente pois Bolsonaro, que é a continuidade do governo Temer tenta se apresentar como se fosse a mudança. É a continuidade econômica, apoiando o ataque feito pelo parlamento-mídia-empresariado contra os direitos dos de baixo. É a continuidade econômica, com olhos de ave de rapina sobre o que Temer ainda não conseguiu destruir do patrimônio público, como a previdência pública que ainda assegura aposentadorias a milhões. É a continuidade de Temer pela entrega das chaves dos cofres públicos aos empresários. Mas, pior ainda, a continuidade de Temer através de Bolsonaro é a continuidade da crise. Bolsonaro é apenas a maior escala da política de Temer. Que só piorou a crise. Mas com Bolsonaro ela pode ser ainda pior, e derreter a moeda brasileira, como está ocorrendo com a Turquia ou com a Argentina. As magras poupanças dos pequenos serão devoradas, mas alguns endinheirados ganharão com a especulação. Terá valido a pena esse dinheiro cheio de sofrimento? O que restará na terra arrasada?

Bolsonaro é a continuidade de Temer, com o aprofundamento da violência e da insegurança. Violência e insegurança que já existem há muitos anos e que pesam mais sobre a maioria da população pobre. Pesa nos trens, nos bairros, nas festas, nas famílias. Como se sabe, o Rio de Janeiro continua a ser o laboratório da experiência dessa violência de dentro e de fora do Estado, que se veste de roupas de Exército, de polícia, de milícia e do tráfico para se impor pelo terror. Contra tudo e contra todos. Não há pesquisa, não há investigação. Atuam tristemente de maneira parecida. As favelas do Rio conhecem bem essa violência e estão fartas dela. Jogar mais bombas e atirar covardemente desde helicópteros sobre toda a população, como faz o tráfico e fez o governo Temer não diminuiu a violência. Seu aumento brutal nos anos Temer será continuado por Bolsonaro. A pequena violência dos pequenos futos nos bairros ricos talvez volte a ser punida com a morte imediata. A frio e sem Justiça. Já vimos que ousar pensar diferente, ousar enfrentar pelo argumento ou pela Justiça pode ser punido com o extermínio, como aconteceu com Marielle Franco e com Anderson Gomes no governo Temer. A família Bolsonaro faz questão de se associar a mais essa violência. Democracia? Estado de direito?

Na sequência do governo Temer, agora na figura de Bolsonaro, ninguém sabe se haverá alguma Justiça. É sempre bom lembrar que quando a grande maioria não tem justiça nem direitos, as minorias descobrem que suas próprias vidas pouco valem.

Os ricos se cercarão de mais de muros, mais arames farpados e concertinas, mais carros e helicópteros blindados, pois a violência sobre as maiorias trará o combate a cada dia mais perto. Seguramente muitos fugirão para longe, quando a situação apertar. Irão para os Estados Unidos ou Europa, onde as leis ainda valem para todos. Lá, sabem que não podem desdenhar os que lhes servem. E aqui? Vigilantes, faxineiros, cozinheiras, babás, manicures, motoristas, enfermeiros, professores… Serão tratados como gente?

Na corrupção, Bolsonaro será diferente de Temer? O MDB de Temer é o campeão, e lembramos das malas de Geddel. Mas também o PT, o PSDB e praticamente todos os partidos foram atingidos. O partido de Bolsonaro mudou de nome, para desvencilhar-se das denúncias. De Partido Social Cristão tornou-se Partido Social Liberal… A história brasileira é povoada pela corrupção. Corrupção começa pelo alto, pelos grandes, que não pagam impostos, que têm descontos para pagar o que deviam quando atrasam, que levam seus dinheiros para o exterior ilegalmente e podem trazê-los de volta, lavados e limpos de impostos, por ofertas de Temer. Para corromper alguém é preciso ter dinheiro e em todos os casos, os grandes empresários foram ativos na corrupção. Será que um congresso povoado de empresários riquíssimos e de políticos como Bolsonaro, que diz que fará tudo o que os empresários querem será limpo? O mais provável é que um governo Bolsonaro imponha mordaças e que só apareça o que for conveniente para eles. Será que todos os empresários são iguais? Ou devemos esperar que alguns se levantem contra a monstruosidade que se anuncia?

Será que essa violência contra os de baixo exprime a religião e a religiosidade do povo brasileiro? Sei que não. Muitas famílias querem uma vida mais tranquila, com menos assaltos, com menos sobressaltos. Melhor transporte, melhor saúde, mais e melhores escolas, universidades para seus filhos e netos. Essas famílias têm razão, e lutaram muito por uma vida correta. Não devem o que conseguiram a ninguém e se houve políticas que as beneficiaram, era apenas uma questão de justiça. Como essas famílias farão quando a injustiça dominar com Bolsonaro, como Temer já começou a fazer? Quando Bolsonaro ainda aumentá-la? Como farão se desgraçadamente seus filhos forem agredidos, apenas por morarem em subúrbios ou terem cor de pele diversa de seus agressores? Terão mais uma vez de silenciar, por medo? Seus padres e pastores dizem ter compromisso com o seu sofrimento. Estarão do lado de seu sofrimento ou serão prostrados por seus algozes, eles também atemorizados?

A censura está às portas, e pela violência. Silenciamento acrescido de atemorização direta, pela violência de novos grupos que nem sabemos quem são, pois não se identificam e atacam escondidos… Mas que já circulam de camisetas ‘bolsonaro’, que já atiram a esmo nas ruas, que impedem aulas, que intimidam os que discordam, que proíbem a cultura. O que farão quando o chefe estiver no governo?

Não tenho dúvidas de que em todo o espectro político há gente digna. Do centro e da direita, das religiões e dos clubes deverão emergir vozes em defesa do ser humano e das liberdades democráticas. O horror do totalitarismo é a única coisa democrática a sobreviver quando um pesadelo desse tipo se estabelece. O totalitarismo persegue, discrimina, humilha, tortura e assassina. Em primeiro lugar ataca aqueles que escolhe como inimigos, os que pensam diferente dele. A liberdade de pensamento acaba. Reclamar pode ser uma sentença de morte.

Essa violência pode voltar-se contra qualquer um, inclusive os filhos de poderosos, que discordem por uma razão ou outra. O horror pode ser ainda mais arbitrário e designar como inimigos grupos ou setores inteiros da população, até mesmo da própria classe dominante. Isso já ocorreu na Alemanha, quando os judeus, pobres ou riquíssimos, foram perseguidos. Foram expropriados, perseguidos, assassinados. Reduzidos ao mesmo pó que os demais, os comunistas, os homossexuais, os ciganos e algumas religiões. Apenas por existirem.

Não é possível normalizar e comparar candidaturas como a de Bolsonaro e a de Fernando Haddad. Por mais horror que agora alguns poderosos tenham a Lula, depois de enriquecerem como nunca em seu governo, precisam lembrar que o candidato é Fernando Haddad e não Lula. Que os governos Lula jamais impuseram uma ditadura totalitária. E esse é o risco brutal que corremos. Se imaginam que conseguirão controlar Bolsonaro, que o disciplinarão, precisam lembrar-se que sequer o Exército conseguiu esse feito.

A imprensa precisaria cumprir seu verdadeiro papel e interrogar sobre o que todos sabem (a violência, a desigualdade, o anti-feminismo, o racismo, a difusão de falsas informações). Esclarecer sobre os programas, interrogá-los a fundo e não transformar os debates num pastiche esterilizado.

A imprensa brasileira está acostumada a amedrontar a maioria da população, para garantir suas próprias posições. Mas agora, que o medo da barbárie é real e palpável, finge que não está acontecendo nada. Mesmo seus pares, os jornalistas estrangeiros, se espantam. Como é possível tratar a truculência de Bolsonaro e de seus sequazes como se fosse ‘normal’?

Não há dúvidas do que fazer. Organizar a defesa da humanidade e construir as brechas que permitam ir além do pesadelo no qual estamos mergulhados. Temos muitas críticas ao PT, mas nesse momento ele é a única possibilidade de que não trucidem tudo o que humanidade conquistou. Todos perderemos algo. É pouco diante do imenso abismo com o qual Bolsonaro nos ameaça.

Esse é um grito de alerta. O Brasil não pertence a alguns grandes proprietários nem aos que pregam a violência gratuita. A defesa da vida começa com cerrar fileiras com Fernando Haddad, e com todos os que defendem que humanidade e democracia não são palavras vazias. Votar agora é mais importante do que nunca.

*Virgínia Fontes, historiadora, professora-pesquisadora da EPSJV e da Universidade Federal Fluminense (UFF), autora do livro “O Brasil e o capital-imperialismo". (Foto: José Cruz/Agência Brasil)





---


Preencha os campos abaixo para entrar em contato. Não esqueça de preencher o campo com seu e-mail para respondermos, se for necessário. Os campos marcados com "*" são obrigatórios.
Seu Nome: *
Seu E-mail: *
Sua mensagem: *