CONTEÚDO LIVRE


Democracia e Ditaduras
No Cardápio Eleitoral

Por PEDRO AUGUSTO PINHO

Uma questão está colocada por analistas políticos e jornalistas que não conseguem entrevistar o candidato mais votado no primeiro turno da eleição presidencial: qual a razão desta fuga?

É sobre esta questão que tentarei dar uma resposta.

Qual Projeto Será Vencedor

O Capitão, como todos já perceberam, não é pessoa preparada, ao contrário, diríamos que é bastante tosco, desconhece questões relativamente simples de economia e direito. E após mais de 20 anos como parlamentar, o que demonstra seu descaso pelo conhecimento, pela dedicação ao próprio trabalho.

Juntaram-se a ele, nesta eleição, dois grupos de interesses, buscando dominar o futuro do Brasil.

Um, que trato em diversos artigos, é o sistema financeiro, a banca. Um projeto de poder global, de ideologia neoliberal. Seu representante no grupo Bolsonaro é o economista Paulo Guedes, a quem o candidato chamou de “Posto Ipiranga”.

Mas temos observado que ora o “Posto” é desmentido pelo candidato, ora se apresenta, como seu porta voz, em reuniões fechadas de “financiadores”.

O segundo grupo, embora nacional, também tem amarras no exterior. É uma consequência do sistema colonial sempre vigente, desde o descobrimento, no Brasil. Denomino-o “jurídico-militar”.

É um projeto de apropriação do Estado para usufruto de alguns estamentos, onde ressaltam o jurídico (magistrados, promotores, procuradores, defensores públicos, delegados) e o militar. Não há um representante, mas os principais membros são o candidato a vice-presidente, General Hamilton Mourão, o General Sérgio Westphalen Etchegoyen, representando o atual governo de Michel Temer, o General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, uma espécie de Papa Negro (o superior jesuíta, por muitos anos a maior influência no Vaticano) e o Ministro José Antonio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que nomeou o General Fernando Azevedo e Silva seu assessor, para a interligação jurídico-militar.

Este grupo tem, apenas, o projeto pessoal e classista de manter a apropriação dos recursos públicos, com privilégios, vantagens e benefícios, tributários, salariais, financeiros, e de toda ordem, como as elites sempre o fizeram no Brasil. E ainda falam de corrupção!

Estes dois grupos ainda não sentaram à mesa para repartir o butim chamado Brasil. Daí a dificuldade de Bolsonaro enfrentar uma equipe de jornalistas, a não ser os amestrados e disciplinados aliados, e, principalmente, debater com seu adversário.
Como responder, por exemplo, o que fará com a Embraer? Os interesses são conflitantes. A banca quer colocá-la nos ativos da Boeing (Pentágono). Já o estamento jurídico-militar vê os cargos e as comissões que a empresa lhes proporcionaria.

Consequências de um Grupo Prevalente

Podemos fazer cenários. As realidades são as nuvens do ardiloso político e banqueiro Magalhães Pinto, ora estão de um jeito, ora de outro.

Partimos de uma situação que é vista como inevitável nos próximos dois anos: a 14ª crise, desde que a banca assumiu o poder financeiro-econômico-político-midiático no mundo.

Esta crise é prevista por economistas do ATTAC (Associação pela Taxação das Transações pela Ação Cidadã), um grupo contra a banca, e pelos servidores da banca no Fundo Monetário Internacional (FMI).

No Brasil, já fragilizado pelas ações do Governo Temer e pelas ações parlamentares e da própria Dilma Rousseff, em seu segundo e incompleto mandato, com reservas em dólares estadunidenses, que deverão ser desvalorizadas no curso da crise, com qualquer dos dois grupos no comando da Nação, só poderá naufragar. Antevejo ondas de desempregados e saques e violência urbana aumentando. Uma insegurança de toda ordem: pessoal, patrimonial, jurídica, econômica e social. Pois, como ficou óbvio, nenhum dos litigantes no campo do Bolsonário tem projeto para a Pátria Brasileira.

Ambos grupos e, na verdade, toda esta campanha eleitoral, com a exceção do candidato Ciro Gomes, discutiram violência, sexo, ideologia, corrupção, tudo que não fosse a Questão Nacional, a Soberania do Brasil.

Chegaremos desguarnecidos a esta crise. Observe, o caro leitor, que, praticamente, tivemos uma crise a cada dois anos de dominação da banca (1990-2018). Elas são necessárias para a concentração de renda.

Como lhe rouba a banca

Façamos breve pausa nesta análise eleitoral para entender uma das ações da banca. Como é evidente, são ações financeiras, uma vez que é a própria área de sua especialização.

Uma determinada instituição financeira (lembremos as desregulações dos anos 1980) cria vinte fundos de captação de recursos das pessoas, físicas e jurídicas.

Para o Fundo Um, o mínimo de aplicação é 500 milhões de dólares; para o Fundo Dois, o mínimo baixa para 200 milhões, o Fundo Três, 100, até o Fundo 20, para o qual não há valor mínimo. Nas crises, os aplicadores dos Fundos 10 a 20 perderão tudo ou percentuais decrescentemente variáveis, que servirão para incrementar os ganhos, também diferenciados, dos aplicadores nos Fundos 1 a 9. Chama-se concentração de renda e é um dos objetivos da banca.

Com estas captações, muitas originadas de paraísos fiscais, os fundos chegam a acumular vários PIBs brasileiros, hoje o 9º do mundo.

Acima de um trilhão de dólares temos oito empresas: BlackRock (4 trilhões), State Street (2), Allianz (2), Vanguard (2), Fidelity (1,8), J.P.Morgan (1,4), BNY Mellon (1,3), Amundi (1). Com estas fortunas os grupos tornam-se os donos ou principais acionistas de todas empresas multinacionais: ExxonMobil, Shell, Chevron, Unilever, Colgate-Palmolive, Coca-Cola, Nestlé, GM, Ford etc.

Após a crise, você que tem apenas seu salário e colocou, com sacrifício, um pouco dele em um fundo, estará mais pobre. Por outro lado, a família real inglesa, os Windsor (ex Saxe-Coburgo-Gota), uma das maiores fortunas do mundo, estará mais rica.

É a consequência dos governos da banca. Transferir dinheiro dos mais pobres - pessoas ou países - para os mais ricos.

Estamento jurídico-militar

Pode parecer estranho que não tenha tratado da mídia. Esta tem e sempre teve influência decisiva no que denomino pedagogia colonial, em outras palavras, na formação de seu conhecimento, seu pensamento e de seu raciocínio.

É que a mídia brasileira também tem interesses conflitantes. Veja o caso do Sistema Globo. Sempre aliado da elite brasileira, por sua vez, pelo modelo agrário exportador, majoritário em sua formação, também dependente do exterior. Há alguma identidade de propósitos entre estes 1% de brasileiros e a banca.

No entanto, como no exemplo acima, poucos, na verdade nenhum é  investidor do Fundo 1. No melhor, estarão nos Fundos 8 ou 9, de menores ganhos, ou até dos 10 ou 11, das menores perdas. A Globo assim se posiciona. Também a Record, do Bispo Macedo, apoiadora do Capitão.

Vemos portanto um conflito que se explicita em afirmações ou interrogações dos âncoras, comentaristas ou repórteres destas emissoras.

O estamento jurídico-militar é majoritariamente de classe média, dos capitães-do-mato, um ou outro, pouquíssimos, estão no 1% da elite dominante, voltadas para o exterior.

É esta promoção o maior incentivo deles, daí serem os corruptos mais facilmente identificados, como os parlamentares, magistrados (juízes e desembargadores), promotores e empresários, frequentemente citados em delações.

Os banqueiros, por outro lado, não frequentam a lista da corrupção, como se o dinheiro, que circula em suas mãos, tivesse recebido absolvição e indulgência plenária.

Ambos grupos, banca e estamento jurídico-militar, esperam a ditadura, já a estão formando com os “fakes” pós eleitoral, caso seu candidato seja escolhido. Na democracia suas ações sempre podem e, certamente, serão conhecidas e divulgadas. Principalmente pelas comunicações virtuais, que, em meu cenário, serão prioritariamente atingidas.

Oposição

Denomino “Oposição” pois o Brasil é hoje dirigido pelo Consórcio Banca-Estamento Jurídico-Militar. Como já antecipei, não entrou nesta campanha a Questão da Pátria Brasileira.
O que propõe, então, o candidato Haddad?

Apenas, e nem é pouco, manter ou reviver a democracia. Daí certas dificuldades em se pronunciar sobre o governo onde estarão, provavelmente, representantes de muitas forças, até as que formaram oposição a seu partido.

Poderíamos afirmar que é uma geleia geral. Mas o que é a democracia senão o sistema que acolhe todos os contrários? Que aceita e inclui todos?

Seria mais do mesmo? Não creio. A sociedade também não é a mesma. Mas haverá um mínimo, como nos governos Lula, de avanço social. E os banqueiros, as elites voltadas para o estrangeiro, o estamento jurídico-militar continuarão atuando. As questões transversais também reivindicando espaço no poder, cidadania e reconhecimento.

E a formação da civilização brasileira mantendo seu projeto de nação plural.

Isto resolverá a questão da crise preparada pela banca?

Certamente não, mas poderá repatriar as reservas, antes que derretam, e usá-las na garantia de emprego e renda no Brasil. Poderá rediscutir as prioridades do Banco Central e proteger a economia, a indústria, o comércio e o agronegócio nacionais, deixando os multinacionais a cargo de seus donos.

Na democracia todas as opções podem ser colocadas à mesa, sem que seja necessariamente para divisão do espólio, do que restou após o tsunami da banca.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado





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Os fatos históricos estão sujeitos a uma dupla ordem de especulação e de conhecimento: em primeiro lugar podem ser vistos e estudados como um fato, que se verificou em condições de tempo e de espaço determinadas. Partindo desse ponto de vista, o conhecimento que obtemos é descritivo, e nele se compreende não só a identificação e caracterização do fato, como o estudo de seus antecedentes, das influências externas ou internas que agiram sobre ele e sobre seu protagonista. A segunda ordem de conhecimento a que me refiro é o conhecimento simbólico: um fato histórico ao se projetar no tempo adquire um sentido.... Depois de iluminar o mundo real, tornando-se inteligível, um incessante intercâmbio se inicia, pois irradia sobre a existência a sua força persuasiva, e recebe da consciência humana novos matizes de compreensão” (San Tiago Dantas, D.Quixote um apólogo da alma ocidental, 1947)

Os jornais, impressos e virtuais, noticiaram como manchete, na segunda-feira, após as eleições de 7 de outubro, a vitória da direita: “onda de direita”, “virada à direita”. Teria efetivamente ocorrido?

Confronto dos dados com as interpretações

Tomemos para análise o mais importante órgão representativo da democracia brasileira, o Congresso Nacional.

Considerando como de centro-esquerda, esquerda ou extrema-esquerda os parlamentares do PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB, PPL, Rede, PMN e PV, temos, na atual legislatura, 129 deputados federais. Teremos 142, em 2019.

No entanto, quer para esta conta quanto aquela para os partidos à direita, não é o raciocínio, a lógica política e ideológica que prevalecem. São as emoções e as questões pessoais que movem os parlamentares, seres humanos. Vejamos, por exemplo, Marina Silva. Seu posicionamento político a colocaria à esquerda, mas seu ódio a Lula e a Dilma, que ela considera usurpadora de seu direito de candidata do PT à eleição em 2010, supera a lógica partidária.

Também questões municipais, estaduais, rixas de família levam a estes partidos de esquerda - como os de direita - políticos que não comungam com seus posicionamentos programáticos.

Nos partidos de direita, o que se observou foi a migração do centro-direita e da direita para a extrema-direita. PSDB sai de 49 para 29 deputados federais; o DEM de 43 para 27, o PP de 40 para 36 e o PR de 38 para 33 parlamentares.

O Congresso Brasileiro sempre foi majoritariamente de direita, em suas diversas expressões. A esquerda sempre foi minoria, oposição. Os avanços sociais foram obtidos por acordos e sujeições a interesses menores. Os avanços nacionalistas a governos fortes, autoritários ou ditatoriais, deixando esta qualificação aos sentimentos dos leitores.

Em sua coluna, Fatos&Comentários, no jornal Monitor Mercantil de 08/10/18, o percuciente Marcos de Oliveira escreve: “Candidatos a governador parecem síndicos de massa falida, longe da questão nacional. Presidenciáveis são pressionados a revelar quantos policiais vão contratar ou quantas creches construir. Nada sobre a direção do Estado brasileiro, um projeto de país ou forma de unir a nação”.

Brasil é slogan, não um país em busca da Soberania

Desde que a banca, como designo o sistema financeiro internacional, assumiu o poder e mesmo antes, quando destronava o capitalismo industrial, o desmantelamento dos Estados Nacionais vem sendo um de seus objetivos. E dos mais incisivos.

Nesta e em outras ações, a banca busca colocar questões que não evidenciem seus objetivos, desconcertem os opositores, ganhem adeptos e iludam a todos. Dentre estas estão as questões que denomino transversais, pois são comuns a todas as sociedades, representam um momento da construção civilizatória.

Para a banca a morte das baleias, o envenenamento por agrotóxicos da alimentação infantil, o femininocídio são questões irrelevantes. Importa transferir para as finanças os ganhos dos lucros industriais, as receitas das locações e maiores parcelas dos salários. E promover permanentemente a concentração de renda.

Nesta eleição de 2018 a banca colocou duas questões: a corrupção e a violência.

Ambas começaram bem antes, para que fosse construído um cenário que colocasse o Partido dos Trabalhadores (PT) no foco da culpa, da criminalização. Tiveram início com a primavera de 2013 (recordar as primaveras que destruíram os países árabes do norte da África e do Oriente Médio, escapando os aliados Arábia Saudita, Kuwait, Catar) e com a Lava Jato (lembrar as “Lava Jato” no Equador, na Argentina, no Peru, na África do Sul e na Guiné Equatorial).

Bastam estes exemplos para ver que nada há de nacional brasileiro, mas a articulada e internacional investida contra governos e países que não se submeteram à banca. Vejam-se também os políticos favoráveis ao Brexit e a posições nacionalistas na Europa. Como diz o competente jornalista Beto Almeida, “desconheço teorias conspiratórias, mas sempre encontrei práticas conspiratórias”.

Corrupção

A corrupção é velha e conhecida imputação, no Brasil e no mundo, a políticos e partidos que lutam pela maioria desfavorecida, que se insurgem contra os poderes dominantes. Assim foi com Getúlio Vargas, com Juscelino Kubitschek, com João Goulart, com Lula. Só escaparam Médici e Geisel pois, além da política nacionalista e não dirigida diretamente aos pobres, seriam carimbados como torturadores e assassinos.

A colonizada elite brasileira, escravista e rentista, aproveitou, com apoio do juridicismo ianque, para criminalizar o partido que a vinha derrotando em eleições sucessivas para o executivo nacional.

Criou-se, então, o mito da corrupção petista embora a maioria dos políticos envolvidos em casos de corrupção fossem do PP, do PSD, do PSDB e do DEM. E, embora seja impossível haver corrupção sem que haja envolvimento dos bancos, nenhum foi sequer citado nas investigações. Um estranho e misterioso fenômeno que movimenta milhões de reais, de dólares, no Brasil e no exterior, à margem da participação dos bancos!

O uso político da corrupção já deveria ser do conhecimento de todos se houvesse um mínimo de racionalidade ou um pouco menos de emotividade no acompanhamento dos fatos e personagens políticos.

Violência

Há violência nos tráficos de droga, de armas, da inominável mercantilização de pessoas e órgão humanos. E a banca fatura todos estes e muitos outros crimes execráveis.

Para que não seja uma afirmação vã, recorro-me dos dados do FMI. Na década 1990/2000, a primeira em que a banca controlou as finanças então desreguladas, a economia cresceu 1,5 vezes, malgrado a recessão industrial. Compare-se com os 2,1 dos anos 1980 a 2000. Não é difícil concluir que a banca absorveu enormes quantidade de valores ilicitamente obtidos e acumulados em  ações contra a humanidade.

Com sua amoralidade, a banca alia-se à esquerda e à direita, aos crimes e às religiões. É um fator desestabilizador das sociedades.

No Brasil a violência tem origem antiga, na escravização e morte de índios, na importação de africanos para o trabalho escravo e mesmo na forma como se deu a “libertação dos escravos”, lançados à própria sorte.

A violência se insere na questão nacional. Na construção de um país que dê garantias aos direitos, às pessoas e às instituições e patrimônios. Vivemos, principalmente com o golpe de 2016, uma demolição, um desmonte das instituições criadas pela Constituição de 1988.

Pode-se afirmar que se vive, atualmente, mais do que em qualquer outra época, inclusive dos regimes autoritários, com a insegurança jurídica no Brasil.

Não é questão de distribuição de armas - que fará, de uma fechada no trânsito, um homicídio - nem da violência policial, conhecida por negros e pobres, e os que de tão pobres viram negros.

É, antes de tudo, uma questão nacional, da reestruturação do Estado, em moldes brasileiros, com as culturas e soluções nacionais, com os recursos por todos entendidos e capazes de serem aplicados, que dê ao povo, de todas as raças e economias, segurança e confiança no Estado.

Próximos Passos

Tenho para mim que qualquer resultado deste próximo segundo turno causará enorme decepção aos brasileiros.

Nos limites nacionais por Congresso e Assembleias eleitos em clima de ódio e desforra, excluindo as vozes da ponderação e do acordo, e sem projeto para o País. Será tomado por um novo centrão, ávido de mostrar poder e de enriquecer num sistema institucional carcomido.

Na área internacional pela crise que tornará as de 1929 e de 2008 “marolinhas”.

Examinem os analistas que estão vendo a construção desta crise desde 2010, como os franceses signatários do “Manifeste des Économistes Atterrés” e os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Este organismo acaba de divulgar que a dívida global bateu, em setembro de 2018, novo recorde - US$ 182 trilhões - 60% maior do que a de 2007.

Em abril de 2016, escrevi “Haverá crise em 2016?”, onde após discorrer sobre as crises da Era da Banca, previa que esta próxima teria na Europa seu epicentro. Em análises anteriores, supus que o “think tank” da banca temia que esta crise, pelas dimensões e alcance nas principais moedas do ocidente - euro, libra inglesa, franco suíço e dólar estadunidense - mais do que um tsunami financeiro e econômico causasse prejuízo à civilização ocidental. Ou seja, o fluxo civilizatório, após mais de seis séculos, mudaria o sentido de ocidente para oriente para oriente-ocidente.

A presença econômica e cultural, que já se observa, será mais forte, mais intensa e, provavelmente, como anteviu Monteiro Lobato, em “O Presidente Negro”, trocaremos o “american way of life” por um “asian mood”.

Que importância terá esta crise para nossa Pátria?

Defesa Nacional

Desde o fim dos governos militares, em especial com os do PSDB, o Brasil abandonou qualquer estratégia de construção de país soberano. Salvo algumas ações dos governos de Lula e Dilma, as Forças Armadas foram alijadas do projeto de desenvolvimento nacional. Grave erro. Os Estados Unidos da América (EUA), no período de predominância do capitalismo industrial, desenvolveram o complexo industrial-militar, que sobrevive em algumas áreas.

Mas fortaleceu, com o domínio da banca, a mais importante tecnologia deste século: da informação.

Esta tecnologia, com início antes da II Grande Guerra, é indispensável não apenas na área das transferências de valores monetários, como na segurança nacional e dos centros urbanos e zonas rurais, com os drones, por exemplo.

O Presidente Geisel tentou dar independência tecnológica ao País com investimentos públicos e incentivos à iniciativa privada. Cobra e Itautec são exemplos que foram demolidos pela onda neoliberal que destruiu boa parte de nossos investimentos em tecnologia e engenharia.

A ausência de um projeto de soberania, de reconstrução nacional por todos os candidatos, como já mencionamos, inclusive nestes que disputam agora a Presidência, encontrará um País desarmado diante da crise e da eventual, mas não pequena, alteração nos padrões de relacionamentos internacionais.

Sem vocação de Cassandra, receoso da Pátria em que viverão meus netos e minha filha, que busco sensibilizar os novos eleitos para se debruçarem sobre as questões nacionais, deixando os fake fatos da banca de lado.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado



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SOB IMPACTO


Por VIRGÍNIA FONTES -

É muito difícil escrever sobre essas eleições proporcionais e sobre o primeiro turno das eleições presidenciais. A maioria de votos em Jair Bolsonaro era prevista, embora não na proporção em que apareceu. A estranhar, a grande diferença entre entre as pesquisas prévias e os resultados do primeiro turno. O segundo turno reabre a contagem e reabre os embates. Reverteremos o cenário.

Nesse momento, é hora de unir todas as forças democráticas, as forças civilizatórias, todas as forças que conservam a humanidade como valor fundamental, as variadas forças da esquerda, todas as forças que defendem a vida, para enfrentar algo que todos pensávamos ter ficado para trás. Algo que deveria estar no passado distante, como a defesa da tortura, os atos e gestos retomando as práticas do nazi-fascismo. Ele volta a pairar como ameaça concreta sobre todos os seres humanos.

Estou tristíssima. E estou com medo. Não o medo paralisante, mas o que acende a luz de alerta. O que nos deixa atentos e alertas. Precisamos estar prontos para interferir, para não permitir que um retrocesso dessas proporções atinja o país. O medo é real, pois Bolsonaro sobe em palanque ensinando menininhas a empunhar armas, enquanto seus seguidores não hesitam em humilhar mulheres que cuidam de crianças em praças, não têm vergonha de amedrontar mães que amamentam como se isso fosse indecente, nem de espancar seres indefesos. O medo é real e acende a luz de perigo.

Medo principalmente pois Bolsonaro, que é a continuidade do governo Temer tenta se apresentar como se fosse a mudança. É a continuidade econômica, apoiando o ataque feito pelo parlamento-mídia-empresariado contra os direitos dos de baixo. É a continuidade econômica, com olhos de ave de rapina sobre o que Temer ainda não conseguiu destruir do patrimônio público, como a previdência pública que ainda assegura aposentadorias a milhões. É a continuidade de Temer pela entrega das chaves dos cofres públicos aos empresários. Mas, pior ainda, a continuidade de Temer através de Bolsonaro é a continuidade da crise. Bolsonaro é apenas a maior escala da política de Temer. Que só piorou a crise. Mas com Bolsonaro ela pode ser ainda pior, e derreter a moeda brasileira, como está ocorrendo com a Turquia ou com a Argentina. As magras poupanças dos pequenos serão devoradas, mas alguns endinheirados ganharão com a especulação. Terá valido a pena esse dinheiro cheio de sofrimento? O que restará na terra arrasada?

Bolsonaro é a continuidade de Temer, com o aprofundamento da violência e da insegurança. Violência e insegurança que já existem há muitos anos e que pesam mais sobre a maioria da população pobre. Pesa nos trens, nos bairros, nas festas, nas famílias. Como se sabe, o Rio de Janeiro continua a ser o laboratório da experiência dessa violência de dentro e de fora do Estado, que se veste de roupas de Exército, de polícia, de milícia e do tráfico para se impor pelo terror. Contra tudo e contra todos. Não há pesquisa, não há investigação. Atuam tristemente de maneira parecida. As favelas do Rio conhecem bem essa violência e estão fartas dela. Jogar mais bombas e atirar covardemente desde helicópteros sobre toda a população, como faz o tráfico e fez o governo Temer não diminuiu a violência. Seu aumento brutal nos anos Temer será continuado por Bolsonaro. A pequena violência dos pequenos futos nos bairros ricos talvez volte a ser punida com a morte imediata. A frio e sem Justiça. Já vimos que ousar pensar diferente, ousar enfrentar pelo argumento ou pela Justiça pode ser punido com o extermínio, como aconteceu com Marielle Franco e com Anderson Gomes no governo Temer. A família Bolsonaro faz questão de se associar a mais essa violência. Democracia? Estado de direito?

Na sequência do governo Temer, agora na figura de Bolsonaro, ninguém sabe se haverá alguma Justiça. É sempre bom lembrar que quando a grande maioria não tem justiça nem direitos, as minorias descobrem que suas próprias vidas pouco valem.

Os ricos se cercarão de mais de muros, mais arames farpados e concertinas, mais carros e helicópteros blindados, pois a violência sobre as maiorias trará o combate a cada dia mais perto. Seguramente muitos fugirão para longe, quando a situação apertar. Irão para os Estados Unidos ou Europa, onde as leis ainda valem para todos. Lá, sabem que não podem desdenhar os que lhes servem. E aqui? Vigilantes, faxineiros, cozinheiras, babás, manicures, motoristas, enfermeiros, professores… Serão tratados como gente?

Na corrupção, Bolsonaro será diferente de Temer? O MDB de Temer é o campeão, e lembramos das malas de Geddel. Mas também o PT, o PSDB e praticamente todos os partidos foram atingidos. O partido de Bolsonaro mudou de nome, para desvencilhar-se das denúncias. De Partido Social Cristão tornou-se Partido Social Liberal… A história brasileira é povoada pela corrupção. Corrupção começa pelo alto, pelos grandes, que não pagam impostos, que têm descontos para pagar o que deviam quando atrasam, que levam seus dinheiros para o exterior ilegalmente e podem trazê-los de volta, lavados e limpos de impostos, por ofertas de Temer. Para corromper alguém é preciso ter dinheiro e em todos os casos, os grandes empresários foram ativos na corrupção. Será que um congresso povoado de empresários riquíssimos e de políticos como Bolsonaro, que diz que fará tudo o que os empresários querem será limpo? O mais provável é que um governo Bolsonaro imponha mordaças e que só apareça o que for conveniente para eles. Será que todos os empresários são iguais? Ou devemos esperar que alguns se levantem contra a monstruosidade que se anuncia?

Será que essa violência contra os de baixo exprime a religião e a religiosidade do povo brasileiro? Sei que não. Muitas famílias querem uma vida mais tranquila, com menos assaltos, com menos sobressaltos. Melhor transporte, melhor saúde, mais e melhores escolas, universidades para seus filhos e netos. Essas famílias têm razão, e lutaram muito por uma vida correta. Não devem o que conseguiram a ninguém e se houve políticas que as beneficiaram, era apenas uma questão de justiça. Como essas famílias farão quando a injustiça dominar com Bolsonaro, como Temer já começou a fazer? Quando Bolsonaro ainda aumentá-la? Como farão se desgraçadamente seus filhos forem agredidos, apenas por morarem em subúrbios ou terem cor de pele diversa de seus agressores? Terão mais uma vez de silenciar, por medo? Seus padres e pastores dizem ter compromisso com o seu sofrimento. Estarão do lado de seu sofrimento ou serão prostrados por seus algozes, eles também atemorizados?

A censura está às portas, e pela violência. Silenciamento acrescido de atemorização direta, pela violência de novos grupos que nem sabemos quem são, pois não se identificam e atacam escondidos… Mas que já circulam de camisetas ‘bolsonaro’, que já atiram a esmo nas ruas, que impedem aulas, que intimidam os que discordam, que proíbem a cultura. O que farão quando o chefe estiver no governo?

Não tenho dúvidas de que em todo o espectro político há gente digna. Do centro e da direita, das religiões e dos clubes deverão emergir vozes em defesa do ser humano e das liberdades democráticas. O horror do totalitarismo é a única coisa democrática a sobreviver quando um pesadelo desse tipo se estabelece. O totalitarismo persegue, discrimina, humilha, tortura e assassina. Em primeiro lugar ataca aqueles que escolhe como inimigos, os que pensam diferente dele. A liberdade de pensamento acaba. Reclamar pode ser uma sentença de morte.

Essa violência pode voltar-se contra qualquer um, inclusive os filhos de poderosos, que discordem por uma razão ou outra. O horror pode ser ainda mais arbitrário e designar como inimigos grupos ou setores inteiros da população, até mesmo da própria classe dominante. Isso já ocorreu na Alemanha, quando os judeus, pobres ou riquíssimos, foram perseguidos. Foram expropriados, perseguidos, assassinados. Reduzidos ao mesmo pó que os demais, os comunistas, os homossexuais, os ciganos e algumas religiões. Apenas por existirem.

Não é possível normalizar e comparar candidaturas como a de Bolsonaro e a de Fernando Haddad. Por mais horror que agora alguns poderosos tenham a Lula, depois de enriquecerem como nunca em seu governo, precisam lembrar que o candidato é Fernando Haddad e não Lula. Que os governos Lula jamais impuseram uma ditadura totalitária. E esse é o risco brutal que corremos. Se imaginam que conseguirão controlar Bolsonaro, que o disciplinarão, precisam lembrar-se que sequer o Exército conseguiu esse feito.

A imprensa precisaria cumprir seu verdadeiro papel e interrogar sobre o que todos sabem (a violência, a desigualdade, o anti-feminismo, o racismo, a difusão de falsas informações). Esclarecer sobre os programas, interrogá-los a fundo e não transformar os debates num pastiche esterilizado.

A imprensa brasileira está acostumada a amedrontar a maioria da população, para garantir suas próprias posições. Mas agora, que o medo da barbárie é real e palpável, finge que não está acontecendo nada. Mesmo seus pares, os jornalistas estrangeiros, se espantam. Como é possível tratar a truculência de Bolsonaro e de seus sequazes como se fosse ‘normal’?

Não há dúvidas do que fazer. Organizar a defesa da humanidade e construir as brechas que permitam ir além do pesadelo no qual estamos mergulhados. Temos muitas críticas ao PT, mas nesse momento ele é a única possibilidade de que não trucidem tudo o que humanidade conquistou. Todos perderemos algo. É pouco diante do imenso abismo com o qual Bolsonaro nos ameaça.

Esse é um grito de alerta. O Brasil não pertence a alguns grandes proprietários nem aos que pregam a violência gratuita. A defesa da vida começa com cerrar fileiras com Fernando Haddad, e com todos os que defendem que humanidade e democracia não são palavras vazias. Votar agora é mais importante do que nunca.

*Virgínia Fontes, historiadora, professora-pesquisadora da EPSJV e da Universidade Federal Fluminense (UFF), autora do livro “O Brasil e o capital-imperialismo". (Foto: José Cruz/Agência Brasil)





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