CULTURA



PROGRAMAÇÃO SHOWS/FESTAS - TEATRO RIVAL PETROBRAS E RIVALZINHO :: MARÇO 2017
(sujeita a alteração)

16/03 (quinta-feira) DJ Negralha e Banda: Quando se fala em Negralha, as primeiras associações que nos ocorre é do músico do Rappa há 15 anos e, em sua carreira paralela, como DJ nas pistas do Brasil e exterior. Em 2015 o artista resolveu formar uma banda. Sim, a carreira do multi homem dos toca discos se abriu para mais este formato. Em fase final de gravação de seu primeiro EP, onde poderemos escutar faixas como “Baila Baile”, “Tudo Bem” - esta com participação especial da cantora britânica Jesuton - entre outras, programado para lançamento no segundo semestre de 2017. No repertório, a banda executa de forma eletrônica/orgânica, todo o repertório autoral do compositor/Produtor/DJ, além de versões de músicas de Nação Zumbi, Cartola e é claro, O Rappa. Este show já passou em importantes palcos do Brasil como Circo Voador, abertura dos jogos olímpicos na praça Jardim de Alah no Leblon e Imperator no Rio de Janeiro, Espaço Cultural Rio Verde em São Paulo, John Bull Pub em Curitiba, entre outros. O grupo é formado por Bira Andrade no Baixo, Jomar Schrank nos teclados e noises, Rafael Casqueira guitarra e vocais, Valtinho AC percussão e vocais, Jerônimo no trompete e Leo Antunes no Sax. Horário: 21h. Preços: R$ 40 (1o. lote) e R$ 60 (2o. lote).


17/03 (sexta-feira) Pororoca Purpurina: No vocabulário do carnaval, pororoca é sinônimo de encontro de blocos e purpurina é o adereço estético que representa uma nova cena, identificada em projetos que reúnem diversidade musical, estética irreverente e amor ao desbunde. São blocos, festas, bailes, orquestras, que constituem o que podemos chamar de novos carnavais cariocas. A Pororoca Purpurina é um encontro, um movimento que celebra tudo isso e reúne expoentes desse universo de transgressão e alegria. Sob o comando de Matheus VK (Bloco Fogo & Paixão), Natascha Falcão (Pirarucu Psicodélico), Tyaro Maia (Maracutaia e Etnohaus), Tarcísio Cisão e Gabriel Gabriel (Amigos da Onça e Vulcão Erupçado), a folia, que começa na rua, em plena Cinelândia, mergulha para dentro do Teatro Rival, onde a explosão acontece. O repertório do show traz músicas autorais, tanto inéditas quanto outras já conhecidas do público carioca, numa mescla sinestésica com canções consagradas, marchinhas, frevos, bregas, funk e axé. Toda a reverência à liberdade e à libertinagem dos dias mais iluminados do ano. Salve o Carnaval! Viva os encontros! Viva a Pororoca Purpurina! Horário: 0h. Preço: R$ 60. No Rivalzinho: DJ Taw (dia 17, 19h).


18/03 (sábado) Festa Sopa: Horário: 23h. Preços: R$ 30 até 1h/ R$ 40 até 3h / R$ 50 depois.


22/03 (quarta-feira) Aniversário do Rival com Alice Caymmi: Horário: Preço:


23/03 (quinta-feira) Moyseis Marques em ‘Made in Brasil pra dançar - Baile de Quintal’: A turnê “Made in Brasil“ tem sido um sucesso no Brasil e mundo afora, desde o lançamento do disco em 2015. No ano de 2016 - um ano difícil - Moyseis andou por São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, São Luís, Natal, Recife, Manaus, Rio Branco, Amsterdam, Boulder, Juiz de Fora, Campos, Resende, e é claro, nosso Rio de Janeiro querido. Mas o assunto que queremos tratar agora é outro: É o Baile de Quintal, em sua segunda edição, depois do enorme sucesso da primeira edição na casa Alto Lapa Santa. Sabemos do prazer que Moyseis Marques tem em conduzir uma noite animada, de samba, de forró, de boa musica e de boa gente. O sujeito é experiente, e a velha MPB está em forma habitando o coração e as cordas vocais desse cantor tão carioca, tão brasileiro, tão apaixonado pela nossa cultura.
O Teatro Rival Petrobras, espaço querido de todos nós, de resistência, que tem recebido eventos esporádicos de grande porte e de grande sucesso, abriu as portas do seu quintal para que Moyseis faça dele o seu playground, com seus musicos e convidados. Estaremos, literalmente, no quintal da nossa casa, fazendo um baile brazooka, nosso som, do jeito que a gente gosta. O time convocado é da pesada : Gabriel Guenter na bateria, Chris Mourão nas percussões, Rafael Mallmith no 7 cordas, Luis Louchard no contrabaixo, Dudu Oliveira nos sopros e o anfitrião armado de voz, violão, tamborim e coração. No repertório, as canções de Moyseis com seus parceiros, Moacyr Luz, Zé Paulo Becker, Edu Krieger, Vidal Assis, Alfredo Del-Penho, Zé Renato, Mauro Aguiar, Aldir Blanc, Nei Lopes, João Martins, Fernando Temporão, além das referencias do repertório de Moyseis: Paulo César Pinheiro, Luiz Carlos da Vila, João Bosco, Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Jorge Ben, Pixinguinha, Gil, João do Vale e Edu Lobo. Tem samba de partido alto e ijexá, bossa nova e baião, samba rock e xote coladinho. Tem espaço pra chegar no sapatinho e riscar o salão. Tem a mão que conduz a dança e a outra que bebe ou segura a criança. Tem a lua abençoando e o Rio sorrindo pra gente sambar! Para o baile ficar completo, teremos nas carrapetas o DJ Cyro Novello com o melhor da música brasileira, sua especialidade há mais de 10 anos. Horário: 20h30. Preços: R$ 40 (1o. lote) e R$ 60 (2o. lote).


24/03 (sexta-feira) Zélia Duncan: O disco de sambas que Zélia Duncan prometia a si mesma faz tempo, agora pede passagem. ‘Antes do mundo acabar’, um samba dolente de Zeca Baleiro e Zélia, dá título ao álbum e ao show, que reúne sambas inéditos, compostos por Zélia e vários parceiros, e outros que surgiram nas pesquisas de repertório. O repertório do show destaca canções do novo trabalho como Por que Você Não Me Convida Agora (Riachão), Vida da Minha Vida (Moacyr Luz / Sereno), Por Água Abaixo (Pretinho da Serrinha / Leandro FAB / Fred Camacho) e as parcerias Dormiu, Mas Acordou (Arlindo Cruz / ZD), Olha, O Dia Vem Aí (Xande de Pilares / ZD), Pra Quem Sabe Amar (Ana Costa / ZD), Um Final (Pedro Luís / ZD) e Antes do Mundo Acabar (Zeca Baleiro / ZD). Com direção musical de Bia Paes Leme, que também produziu o disco, o show Antes do Mundo Acabar tem cenografia de Simone Mina, que divide a direção com Zélia, com quem vem trabalhando desde o elogiado espetáculo Totatiando. Com Antes do mundo acabar, Zélia se consagrou na 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira com três prêmios, o de melhor canção (“Antes do Mundo Acabar”) e os de melhor álbum e melhor cantora na categoria de samba. Horário: 20h. Preços: R$ 120 (mesas Setor A), R$ 100 (mesas Setor B) e R$ 60 (lounge). No Rivalzinho, DJ MB Groove (19h).


25/03 (sábado) Não Recomendados: Uma banda, um show, um movimento, um delírio, uma #hashtag? Não Recomendados é um espetáculo com a união de três autores intérpretes; Caio Prado, Daniel Chaudon e Diego Moraes e um produtor autor; Edu Capello, todos inquietos e com a mesma vontade: transformar, questionar e provocar os padrões comportamentais e viciados da sociedade. A união em virtude da arte transformadora, refletindo a realidade nua de conceitos baseados em heranças desproporcionais, e o espetáculo, como um palco laboratorial, se torna uma extensão das próprias vivências de cada integrante, os becos, as ruas, as noites, as lutas. Tudo refletido no palco. Horário: 23h. Preço: R$ 60 (mesas) e R$ 40 (lounge).


30/03 (quinta-feira) Mariana Aydar: Horário: 20h. Preço: R$ 60 (mesas setor A), R$ 50 (mesas setor B) e R$ 40 (lounge)


31/03 (sexta-feira) Rita Benneditto: Após fazer por onze anos ininterruptos a turnê ‘Tecnomacumba’, a mais longa da música brasileira, Rita Benneditto volta ao palco com novo nome (era Rita Ribeiro até 2012) e o show ‘Encanto’. Baseado no mais recente disco da cantora, o espetáculo que estreou em março de 2015 e vem sendo apresentado em várias capitais brasileiras, volta agora ao Teatro Rival Petrobras. Tendo como fio condutor o repertório do CD ‘Encanto’, o roteiro do show traz canções inéditas na voz de Rita Benneditto, como ‘Guerreiro do Mar’ (Marcio Local e Felipe Pinaud) e De Mina (Josias Sobrinho). Em justaposição, compositores como Roberto Carlos e Erasmo Carlos (‘Fé), Gilberto Gil (‘Extra’), Djavan (‘Água’), Jorge Ben Jor (que comparece com ‘Zumbi’, ‘Domingo 23’ e ‘Santa Clara Clareou’)  e Arlindo Cruz (‘O que é dela é meu’) coadunam o discurso da artista, que mostra ainda sua produção autoral em canções como ‘Centro da Mata’ e ‘Sete Marias’ (ambas em parceria com Felipe Pinaud). Em termos de sonoridade, é o espetáculo mais rock’n roll de Rita, com arranjos mais pesados, que transitam entre o funk, o pop e o rock, numa pegada bem contemporânea. Rita se apresenta com a banda “Os Encantados”, formada por Frederico Ferreira (guitarra e vocais), Pedro Dantas (contrabaixo e vocais), Ronaldo Silva (bateria, programações eletronicas e vocais). Completam a ficha técnica Victor Dzenk (figurino) e Daniela Sanches (iluminação). Horário 20h. Preço: R$ 60 (mesas) e R$ 40 (lounge). No Rivalzinho, DJ Montano (19h).


Serviço:

Teatro Rival Petrobras
Rua Álvaro Alvim, 33/37 - Centro/Cinelândia - Rio de Janeiro
(21) 2240-4469 : https://www.facebook.com/teatro.rival/
Capacidade: 400 pessoas
Censura: 18 anos

Bilheteria: terça à sexta das 12h às 22h / sábados de 16h às 22h.

VENDA DE INGRESSOS ONLINE: www.eventim.com.br
(com cobrança de taxa de conveniência)

Aceitamos cartões de crédito e débito.

Abertura da casa: 1h antes do show

Fotos de divulgação: https://drive.google.com/open?id=0B79xtqZ58w7femhZTGpPY3FsMms

Assessoria de comunicação: Joca Vidal (ascom.rivalpetrobras@gmail.com) (21) 98798-6268

Programação: Camila Silva (rival.agenda@gmail.com)

Patrocínio:




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NO PALCO DO TEATRO RIVAL PETROBRAS, COM REPERTÓRIO EMOCIONANTE JOÃO BOSCO ENCANTA O PÚBLICO

ILUSKA LOPES -

João Bosco / Foto: Daniel Mazola.
Completando 40 anos de carreira, o cantor, violonista e compositor João Bosco de Freitas Mucci, 70 anos, mais conhecido como João Bosco, apresentou ontem (4) no palco do Teatro Rival Petrobras um espetáculo solo com canções que emocionam e nos levam há uma viagem reflexiva por todo esse tempo.

Em formato voz e violão, o tarimbado artista brindou o público que lotou a Casa com músicas marcantes como Incompatibilidade de Gênios, O Mestre Sala dos Mares, Papel Machê, Jade, Quando o amor acontece, O Bêbado e a Equilibrista, Corsário e outras fundamentais nessa estrada.

Durante o espetáculo, o público teve a oportunidade de ficar mais perto do artista e conhecer mais sobre o processo criativo das suas composições. Entre algumas músicas João contou episódios marcantes da vida e do envolvimento e parceria com outros gênios da música.

Lembrou que em 1967, na casa do pintor Carlos Scliar, conheceu Vinícius de Moraes, com o qual posteriormente foi parceiro e compôs canções como: rosa-dos-ventos, Samba do PousoO mergulhador - dentre outras. Falou de como afinava o violão de João Gilberto com um aparelho digital sem que ele soubesse, causando risos na plateia.

Em 1970 conheceu aquele que viria a ser o mais frequente parceiro, com quem compôs mais de uma centena de canções: Aldir Blanc, O Mestre Sala dos Mares, O bêbado e a equilibrista, Bala com bala, Kid cavaquinho, Caça à raposa, Falso brilhante, O rancho da goiabada, De frente pro crime, Fantasia, Bodas de prata, Latin Lover, O ronco da cuíca, Corsário, dentre muitas outras.

Eles foram apresentados por um amigo de Blanc, Pedro Lourenço, quando Bosco estava começando a carreira em Ouro Preto, no final dos anos 1960.

Daniel Mazola, João Bosco, Iluska Lopes / Foto: TIS
"Eu ficava tocando violão nos bares de Ouro Preto, quando um amigo do Aldir, Pedro Lourenço, se aproximou, após me ouvir tocando aquelas músicas somente com onomatopeias e fonemas africanos, e disse que tinha um amigo no Rio de Janeiro que ele, Pedro, apostava que iria gostar de ser meu parceiro", contou João Bosco aoeditor Daniel Mazola após o show, quando foi ao encontro do público causando alvoroço e alegria.




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ISA COLLI -

"A música sempre ocupou um papel importante na vida das pessoas."


Muitas famílias faziam questão de enviar seus filhos às escolas sofisticadas, para que estudassem piano, violino, e outros instrumentos requintados como parte da primorosa educação.

Pesquisas científicas afirmam que incluir um instrumento musical no currículo escolar ajuda assimilar conteúdos de diversas disciplinas. Além disso, a musicalização infantil melhora a concentração, a autoestima e a capacidade de raciocínio lógico.

Segundo o filósofo e pesquisador educacional parisiense, Georges Snyders, a função mais evidente da escola é preparar os jovens para o futuro, para a vida adulta e suas responsabilidades.

Mas ela pode parecer aos alunos, um remédio amargo, de delicada ingestão. É difícil para um jovenzinho compreender de imediato a importância dos estudos para assegurar, num futuro indeterminado, uma felicidade bastante incerta.
"A música pode contribuir para tornar esse ambiente mais alegre e descontraído, afinal, propiciar alegria no presente é a dimensão essencial da pedagogia e papel fundamental do educador."
É preciso que os esforços dos alunos sejam estimulados e recompensados, proporcionando um ambiente escolar feliz.

Esse método, portanto, também atua no processamento e na produção de emoção.

música tem potencial para facilitar o desenvolvimento, tanto nas funções cognitivas, quanto nas modulações relacionadas à questão emocional.
"A inserção da criança ao mundo da música faz com que ela lide melhor com as impressões negativas do dia a dia."
Outro estudioso comportamental, o neuropediatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Mauro Muszkat, afirma que a música estimula regiões específicas do cérebro, entre as quais, estão as áreas exclusivamente responsáveis pelo sucesso da assimilação de conteúdos de matemática e da língua maternal.

Ele diz que o silêncio, os vários sons, ruídos e suas combinações, despertam sentidos e significados no início da vida do bebê, que no processo de aprendizagem, leva-o a assimilar tudo ao seu redor, estimulando a fala, os movimentos, situando-o no tempo e no espaço.

O uso da música na formação da criança é fundamental, pois a ela está em praticamente tudo na vida. A intimidade musical desde o nascimento, de maneira correta, contribui para a formação de seres humanos sensíveis, criativos e reflexivos.

A importância da música na grade de educação básica já foi formalizada pelo governo em 2008, com a sanção da Lei n° 11.769, que torna obrigatório, mas não exclusivo, o ensino da disciplina na educação básica. Ela pode ser integrada a outras matérias, mas sem obrigatoriedade específica.

Neide de Aquino Noffs, pedagoga e professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC), aponta a falta de profissionais capacitados, como um grande problema a ser superado. “Há uma discussão sobre quem deve lecionar música nos colégios. Os professores chamam cantigas infantis de musicalidade e essa visão precisa ser modificada”, ressalta ela.

Neide diz, que musicalidade é essencial para o desenvolvimento individual e os alunos que não apresentam talentos para tocar um instrumento, certamente têm talentos para cantar, dançar ou representar.
"Coral infantil, por exemplo, é uma ótima ideia para criar situações de interatividade e comunicação."
A música ajuda o aluno compreender seus sentimentos, expressar e pensar sobre a realidade cotidiana, desenvolver capacidades, habilidades e competências.

Cria situações de conectividade entre a realidade e a fantasia dos processos de criação, interpretação e fruição, desenvolvendo a dimensão sensível que a música traz ao ser humano.

A linguagem musical é tão rica, que facilmente favorecerá descobertas e possibilidades de vivências no processo de aprendizagem, tornando as aulas mais significativos e eficientes para todos.
"O professor deve utilizar-se do atrativo para as suas aulas sem perder a propriedade pedagógica."





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ISA COLLI -



Crianças portadoras de deficiência intelectual têm aumentado no mundo inteiro. E considerando-se a dificuldade apresentada em assimilar conteúdos, entram em cena os jogos e os brinquedos, aliados educativos poderosos e eficientes.  Eles melhoram e estimulam o desenvolvimento físico e cognitivo ajudando a resolver problemas, compreender ideias abstratas “como os valores monetários, noção de tempo, e metáforas”, entender e obedecer a regras, estabelecer relações sociais, e realizar atividades cotidianas.

Para a psicopedagoga especialista em inclusão, Daniela Alonso, o professor é capaz de perceber as limitações do aluno já nas primeiras semanas de aulas e o melhor caminho para se trabalhar, é identificar e classificar as suas habilidades. As técnicas e dinâmicas utilizadas na execução das tarefas farão toda a diferença, desde que os talentos sejam aproveitados, utilizando-se estratégias diversificadas e material especializado.

brinquedo tem um papel de destaque nessa prática. É um facilitador importante no processo universal de aprendizagem, já que por meio dele, a criança explora seu corpo e o ambiente. Brincar para estes pequenos representa inclusão e faz com que adquiram independência em suas relações com o mundo.

A mediação entre o educador e o educando no que diz respeito à organização da rotina é fundamental. Falar previamente para o aluno com deficiência intelectual, o que será necessário para realizar determinada tarefa e quais etapas devem ser seguidas é de igual relevância.

Outra ferramenta importante para a integração e socialização dos portadores desse tipo de deficiência é o engajamento familiar no processo de aprendizado. São os parentes que potencializam a iniciativa da criança, respeitam seu ritmo e incentivam.

Fundação ABRINQ (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos), afirma que os brinquedos para incapacidade motora e intelectual devem ser fáceis de encaixar, ter estruturas grandes, “não deve obrigar a realização de movimentos muito rápidos”, inquebráveisagradáveis ao toquesem extremidades agudas, cores fortes e com diferentes texturas. Ela aconselha a opção de brinquedos que emitam sons da natureza, zoada de máquinas, o timbre da voz, etc.

MAS CHAMA A ATENÇÃO PARA UM CUIDADO IMPORTANTE: brinquedos sonoros encantam a criançada, contudo, é preciso que o barulho esteja dentro do parâmetro permitido pela lei, que é de 85 decibéis. Jogos com explosões, aviões, telefones, dinossauros que rugem alto, guitarras e carrinhos com sirenes, podem ser muito perigosos.
"É importante observar se o brinquedo tem o selo do INMETRO como garantia de que o nível de ruído está dentro dos limites estabelecidos na legislação."
Eis alguns exemplos de brinquedos que cumprem estes requisitos: bola de borracha macia “que faça barulho”, animais de borracha ou de pelúciachocalhosbonecas de trapoquebra-cabeçasfantoches, outros brinquedos “em tecido, madeira e/ou borracha”.



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A DOMESTICAÇÃO

 DO SAMBA


LUIZ ANTONIO SIMAS -

O mito da alegria nacional, o marketing agressivo e o lento e doloroso processo de rompimento com as origens africanas.



Se o morro vive de samba, de samba eu vivo e morro. Esta foi uma das várias frases estampadas em garrafas que uma das marcas de cerveja mais vendidas do país lançou em 2016, numa edição especial com motivos relacionados ao samba e ao carnaval. A diretora de marketing da cervejaria declarou a intenção de eternizar nas garrafas a reconhecida paixão dos brasileiros pelo ritmo.

Um breve mergulho na história do samba, todavia, é suficiente para que o mito da unanimidade nacional do gênero se esfarele. O consenso que as comemorações do centenário de Pelo Telefone – a música que Donga e Mauro de Almeida lançaram para o Carnaval de 1917 – sugere nos nossos dias, esconde um embate mais feroz do que aquilo que as imagens sorridentes vinculadas ao samba permitem supor.

Em 1939, por exemplo, o jornal O Estado da Bahia abria espaço para um debate entre Pedro Calmon – diretor da Faculdade Nacional de Direito – e o escritor José Lins do Rego. Em artigo publicado no dia 15 de julho daquele ano, chamado de “O Sr. José Lins é a favor do samba”, Calmon desancava o gênero com sentenças como “o samba é o perfil sombrio da senzala”; “o samba não é nosso, ele veio da Costa do Marfim, da Cubata de Luanda e da Selva Senegalesa”; “a expressão do povo é a Pátria, e não o Morro do Salgueiro” e “não somos o Haiti ou a Libéria”.

Para Calmon, o Brasil deveria se assumir como um país “formado por portugueses da casa-grande, angolas do eito e índios da selva, mas em que prevaleceu a cultura euro-americana”.

defesa de José Lins do Rego também não era destituída de preconceito. O autor de Fogo Morto achava que o samba era coisa nossa, ao contrário do que insistia Calmon, mas deveria ser “refinado e sofisticado” pela influência de intelectuais e artistas mais elaborados, como Villa-Lobos.

Pouco depois da polêmica entre Calmon e Zé Lins, o crítico literário Berilo Neves resolveu empunhar a caneta como uma espada afiada e analisar o que era o samba na Revista da Semana, publicada no Rio de Janeiro. Afirmando que tinha, inclusive, se disposto ao sacrifício de escutar os batuques, o crítico concluía:

"O samba é uma reminiscência afro-melódica dos tempos coloniais. Não é a expressão musical de um povo: é o prurido eczematoso do morro. É o irmão gêmeo destas entidades abstrusas que se chamam Suor, Jogo do Bicho e Malandragem”.

Em 1942, o jornalista Sylvio Moreaux mostrou-se, em artigo no Jornal do Brasil, favorável ao carnaval e ao samba, contanto que fossem censurados “assuntos apologistas de baixezas, como as macumbas e as malandragens”. O samba poderia “livrar o nosso povo das ideias africanistas que lhe são impingidas pelos maestrecos e poetaços do chamado morro”. O samba, com indiscutível origem rítmica africana, deveria, segundo Moreaux, simplesmente nos livrar das ideias africanistas.

Outro exemplo, este mais famoso, de inimiga do samba é o da crítica de rádio Magdala de Oliveira, titular de uma coluna no Diário de Notícias. Dona Mag, era assim que ela assinava seus arrazoados, atacava sistematicamente a música popular, especialmente o samba e os sambistas, e defendia valores civilizatórios europeus.

Para responder aos ataques de Magdala, Janet de Almeida e Haroldo Barbosa compuseram, em 1941, o samba “Pra que discutir com Madame”, só gravado em 1956. A música fez sucesso, mas Mag também não saiu da história com uma mão na frente e outra atrás: apesar de sonhar com um Brasil europeu, virou nome de praça em Campo Grande, no Rio de Janeiro.

Os exemplos mencionados acima sugerem duas constatações. A primeira é a de que os detratores do samba, com pequenas variações, usavam o mesmo argumento: a origem africana do gênero nos remetia a um Brasil que deveria ser superado para que o país adquirisse um status civilizatório digno. Bárbaro filho das senzalas, o samba era o testemunho de um primitivismo que deveria ser varrido da cultura brasileira.

A segunda constatação: alguns defensores do samba, como é o caso de José Lins do Rego, usavam argumentos que, paradoxalmente, concordavam com a aversão aos africanismos denunciados pelos detratores. Para ser utilizado como um elemento de construção de um projeto de identidade nacional pelo Estado, e para ser incorporado à indústria fonográfica como uma música de consumo acessível, o samba precisava ser domesticado, desafricanizado e desmacumbado.

O projeto de domesticação do samba, em larga medida, com tensões e contrapontos potentes como os de Candeia, Clementina de Jesus, Nei Lopes, Wilson Moreira e outros, se consolidou. Desvinculado de suas ligações mais fortes com as áfricas e as macumbas, o samba aliou-se no imaginário popular a uma mítica alegria brasileira e funciona, as garrafas estão aí para provar, como elemento estimulador da inclusão pelo consumo de bens. É neste sentido que o mercado publicitário o retrata, limitado ao território estreito e fabular onde mora a alegria e o consenso social e onde o racismo estrutural brasileiro parece ser só uma história da Carochinha.

Recentemente, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia organizou inúmeras atividades em Salvador para comemorar o centenário do samba. O orgão público responsável pela organização das homenagens na capital baiana foi a fundação que homenageia em seu nome Pedro Calmon, o homem que definiu o ritmo como “o perfil sombrio da senzala”. Fica a dúvida: o samba engoliu o doutor ou o doutor engoliu o samba?

*Publicado no site Projeto Colabora.




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LUIZ ANTONIO SIMAS -


Grupo Molejo, a majestade musical. Só o carnaval para nos proporcionar isso. Quem viu o desfile (como eu) pode confirmar: poucas coisas foram mais animadas na história da Sapucaí. A escola quicava na avenida e cantava feliz. Admito que, nas frisas, perdi a compostura e fiz a dança da vassoura. Vi também gente que detestava o samba antes do carnaval começar a requebrar desvairadamente assim que a escola pisou na avenida. O samba simplesmente explodiu. O auge do "vou correndo pra galera" na história do Rio de Janeiro foi o Molejão no grupo de acesso: Quem samba com Molejo, samba diferente / A Formiga tira onda e da um show de samba quente... Um "levanta defunto" pra espantar a bruxa!

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Em 1966, Mestre Didi lançou o livro Porque Oxalá usa Ekodidé, recontando o famoso poema de Ifá. Em 1984, o livro do Mestre foi enredo do Cubango no carnaval de Niterói. Emocionante para a turma do Candomblé, até porque o carnavalesco foi o professor Nilson Feitosa, o babalorixá Nilson de Ossain, filho de santo de Seu Santinho, Babá Agenor Miranda. Lindo, lindo, lindo.

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O maior samba sobre uma orixá da história do Carnaval: Mar baiano em noite de gala, a obra-prima de Carlão Elegante, Pedro Paulo e Joãozinho para Lucas. O samba é de 1976, o mesmo ano do "Lenda das sereias" do Império Serrano; um enredo bem parecido. A safra de 1976, aliás, é uma das melhores (para o meu gosto disputa com 1983 a primeira posição) da história. Carlão Elegante canta essa linda louvação a Iemanjá.



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LUIZ ANTONIO SIMAS -


Está chegando o carnaval e começam a aparecer análises sobre escolas de samba, críticas, gente defendendo que não seja investido dinheiro público na festa e coisas do gênero. No meio do bafafá, o enredo da Imperatriz está sob ataque do agronegócio. Em comum - eu já li alguns artigos do nível, na rede e em jornal - o seguinte detalhe: a quantidade de escorregadas que a turma anda dando sobre a história das escolas de samba e do carnaval é um espanto. Em um serviço de utilidade pública para analistas de ocasião (que normalmente detestam escolas de samba e decretam a morte dos desfiles) e jornalistas, faço aqui alguns lembretes com a intenção de ajudar sobre as derrapadas que mais encontro:

1- A exigência de temas nacionais nos enredos das escolas do Rio não foi decisão do Estado Novo de Getúlio Vargas e do seu Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A crescente interferência do poder público no desfile das escolas de samba - que começa a se insinuar em 1935 - é reforçada ao longo da década de 1940 e após a ditadura de Vargas. O primeiro regulamento diretamente negociado com o governo e que exige temas com motivos nacionais é o de 1947. Em 1948, o regulamento fala em temas com finalidades nacionalistas; de interesse nacional. O contexto era o de início da Guerra Fria e o presidente era o Marechal Eurico Dutra, democraticamente eleito.

2- O desfile de escolas de samba não foi inventado por nenhum governo. Após os dois concursos de samba estimulados pelo Alufá Espinguela, aconteceu em 1932 o primeiro desfile em cortejo das escolas. A iniciativa foi do jornal Mundo Sportivo, comandado por Mário Filho. A ideia surgiu como uma alternativa aos meses de verão em que o campeonato carioca de futebol era interrompido. Para que o jornal, especializado na cobertura do futebol, tivesse assunto, houve a ideia de se fazer uma disputa entre as escolas de samba. Em 1935, com Pedro Ernesto, a prefeitura do Rio de Janeiro (e não o governo Vargas), apoiou oficialmente o concurso, patrocinado pelo jornal A Nação.

3- A Deixa Falar do Estácio nunca desfilou como escola de samba, de acordo com o que foi um desfile a partir da década de 1930. Apesar de se alcunhar em 1929 como escola de samba (em 1931 passou a ser rancho), a Deixa Falar nunca se apresentou cantando samba. Cantou, em 1929, uma marcha composta por um maestro da Polícia Militar que andava pelo Estácio, infelizmente perdida no tempo. A homenagem que a Deixa Falar fez a Vargas em 1932 foi em um desfile como rancho e a música cantada em louvor à dita Revolução de 1930 foi uma marcha-rancho.

4- A historiografia sobre as escolas de samba rompeu faz tempo com uma visão que considerava as agremiações como meros fantoches dos interesses do estado em controlar o carnaval. o desenvolvimento das escolas de samba é cheio de lances, até concomitantes, de adesão, resistência, afago, porrada, confronto, negociação e adequação. As agremiações caminham lidando o tempo todo com o conflito entre o desejo de expressar suas tradições, concepções de mundo e bens simbólicos e a necessidade, para que esse desejo seja realizado, de atendimento às exigências de instâncias aparentemente fora do ambiente do samba: o poder instituído, a indústria turística, a mídia ou o crime, por exemplo. O vício de se contar a história do carnaval a partir exclusivamente do estado faz com que ignoremos os agentes sociais da festa: sambistas e foliões em geral e suas expectativas.

5- A imensa Dona Ivonne Lara não foi a primeira mulher a furar o cerco do machismo e compor samba de enredo para uma escola de samba, em 1965. Até onde as fontes podem comprovar, a primazia é de Carmelita Brasil. Entre 1959 e 1964, todos os enredos e sambas da Unidos da Ponte são de autoria dela. Altamente politizada, Carmelita foi presidente da escola, além de compositora e enredista, e assinou ainda os enredos entre 1965 e 1969. É uma das personagens mais fascinantes da história do carnaval.

6- Sobre os dias atuais: os sambas de enredo não estão cada vez mais acelerados. Por favor. Depois do auge da aceleração - com a fase tenebrosa das marchas de enredo da década de 1990 - a tendência tem sido (ainda bem) a de menor aceleração do sambas e das baterias. Ainda está distante do que considero ideal, mas tem melhorado bastante.

7- As escolas de samba do grupo especial não cresceram a ponto de ter uma quantidade absurda de componentes nos tempos atuais. O número de componentes tem diminuído em relação às décadas de 1970, 1980 e 1990.

8- A entrada da primeira mulher na bateria de uma escola não é recentíssima, conforme li. A generalização das mulheres em baterias pode até ser, mas o babado é antigo. Durante o período em que Adalberto dos Santos, o mestre Betinho, comandou os ritmistas portelenses, a escola introduziu na bateria elementos como a caixa-surda, o reco-reco e o apito. Além disso, trouxe a primeira mulher arrepiando no couro, com Dagmar tocando surdo.

9- Lendas e Mistérios da Amazônia (Portela, 1970) inaugura a temática exclusivamente indígena nos desfiles. O Xingu já foi enredo algumas vezes, com destaque para a Mocidade Independente de Padre Miguel (1983) e para a Tradição (1985).

Ninguém precisa gostar de escola de samba, mas não custa esculhambar com o mínimo de conhecimento sobre o assunto. Esculhamba direito, pô. Aconteceram coisas nos últimos vinte e cinco nas escolas e na historiografia do babado. Fica a dica.




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‘2 ARLINDOS’ ESQUENTAM OS AMANTES DO SAMBA NO RIVAL

DANIEL MAZOLA -

Seu Jorge, Arlindo Cruz, Rogê, Arlindo Neto / Foto: Iluska Lopes.
Arlindo Cruz e o filho, Arlindo Neto, ontem (12) à noite, esquentaram o palco do Teatro Rival Petrobras com o sensacional show do novo álbum, independente, ‘2 Arlindos’. Com 2 horas de duração, pai e filho cantaram, batucaram e tocaram sambas históricos, músicas novas e sucessos como ‘O Meu Lugar’ e ‘Ogum’, além de outras belas canções já conhecidas pelos amantes do gênero.

Este clima popular e familiar, agregador como o da roda de samba, está impregnado em ‘2 Arlindos’ que une duas gerações de sambistas cariocas. Com mais de 30 anos de estrada, 20 álbuns e 700 composições gravadas por outros artistas, Arlindo é ex-integrante do Fundo de Quintal - um dos mais tradicionais grupos de samba.

A ideia surgiu das nossas festas aqui em casa. A gente toca e canta em festa de São Jorge, festa de São João, é assim”, explica Arlindo Cruz, que preserva o modo de viver que aprendeu em sua infância. Surgida naturalmente no cotidiano familiar, a parceria entre pai e filho é festejada. “Compor com ele é uma realização. Eu fico bem mais tranquilo em saber que ele não está na rua, está do meu lado. Qualquer coisa eu estico a mão e seguro ele neste mundo perigoso”, entrega o pai zeloso.

É uma aprendizagem incrível, estou ao lado de um mestre, do melhor compositor para mim. Estou sempre aprendendo com ele. E ele, comigo um pouquinho, né? Estar com ele, conviver com ele, é espetacular”, diz, orgulhoso, o filho.

Arlindo Cruz e Daniel Mazola / Foto: Iluska Lopes
Em determinado momento Arlindo Cruz lança um carinhoso desafio: uma mulher negra com ‘cabelo samambaia’ deveria subir ao palco e sambar de verdade. Surge a rainha de bateria da Escola de Samba Cubango, Thaís Macedo, que além de sambar cantou a música “Num corpo só”, sucesso na voz de Maria Rita.

Com ênfase no banjo e cavaco, a dupla estava acompanhada de seis outros músicos de primeiríssimo time. No fim da roda de samba da família Cruz, surpreendentemente, aparece no palco outro bamba, Seu Jorge. Então encerram com a música, ”Amiga da minha mulher”.





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MEU ANO NOVO BRASILIANO

LUIZ ANTONIO SIMAS -


A comemoração do Ano Novo no primeiro dia de janeiro é relativamente recente. Ao longo dos tempos e das diversas civilizações, a data de celebração de um novo ciclo é diversa. Os babilônicos costumavam comemorar o novo ano no equinócio da primavera; os assírios e egípcios realizavam os festejos em setembro; os gregos celebravam o furdunço em finais de dezembro; os velhos persas escolheram março.

Chineses, japoneses, judeus e muçulmanos ainda têm datas próprias e motivos diferentes para comemorar a virada; como os quechuas de Twianacu, que comemoram o novo ano no inicio do ciclo agrícola, em junho.

Os hindus da Índia pegam pesado. Dependendo da região do país, onde prevalece o calendário lunar, há os que datam os meses pela lua cheia e os que fazem isso pela lua nova. Breve esclarecimento: na tradição hindu o ano começa com o retorno de Lakshmi, a deusa da prosperidade, que em certo momento do ciclo se empirulitou. Para que a deusa encontre o caminho de volta, as casas e ruas são iluminadas e fogos de artifício são utilizados. A data da volta da deusa, todavia, muda de acordo com a região do país.

Entre os povos ocidentais, a data de primeiro de janeiro tem origem entre os romanos (Júlio César a estabeleceu em 46 A.C.). Só em 1582, com a adoção do calendário gregoriano, a igreja católica oficializou o primeiro dia de janeiro como o início do novo ano no calendário ocidental.

Para os cariocas, o hábito de se comemorar a virada na praia começou com os umbandistas, que durante muitos anos ocupavam sozinhos as areias para louvar Iemanjá. A iniciativa de se fazer a festa na praia de Copacabana partiu da turma que acompanhava Tancredo da Silva Pinto, o Tata Tancredo, líder religioso, sambista (foi fundador da Deixa Falar do Estácio) e personagem fundamental da cultura do Rio de Janeiro.

Como, portanto, cada cultura estabelece marcos e datas diferentes para a mudança de ciclo, acho que continuarei dando pouca pelota para o primeiro de janeiro. A verdade é que escrevi essa presepada toda apenas para dizer que no meu imaginário o novo ciclo começa sempre na quarta-feira de Cinzas e o meu rito de virada, esquecimento, memória e renovação, é o Carnaval.

O novo ano, ao menos na minha percepção emocional do que é o ciclo, começará, como sempre, na quarta-feira de Cinzas.

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O ANO NOVO É...

A cerveja gelada, o fígado em ordem, o coração nos conformes, os amigos presentes, a bola na rede, a mão na roda, Pixinguinha na vitrola, Exu centroavante, Ogum de ronda, Xangô no apito, o camarão no prato, o moleque na escola, o samba no terreiro e o dia bonito.

O papo na esquina, o botequim aberto, a televisão desligada, a pipa no ar, a rua sem carro, o trem no trilho, a barca no mar, a canoa no rio; o Rio. A casa de vila, a troça, a taça, a prosa, a sanfona, a folia, o dia, a água gelada, o Buraco Quente, Nelson Cavaquinho, Odé de frente e peixe assado. Mais feira, menos mercado.

A festa de Cosme, a festa na Penha, o traçado, o trabalho leve, a cantiga breve, o subúrbio livre, o livro. A paz, o pão, o pião, o rodopio, o batuque, o desvio, o truque sem trambique. O batuquejê, o acarajé e o tremelique.

A comida farta que anda sumida: pirão, mocotó, rabada, pururuca, dobradinha. Para quem preferir, boa salada. O prazer sem tempo e sem tristeza; o desejo de dizer, movido a birinaites, numa mesa do Adônis, do Brasil, de qualquer parte, com patriótica certeza: a minha pátria é a língua à milanesa!

Cachaça, vinho, manga, reza, bamba, Bimba, candonga, sunga, pinga. Toque de bola, vento, varanda, gol da virada. A criança brincando, o homem sorrindo, a mulher amada.

É isso.

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CURTINHA BRASILIANA


Uma das fotos que definem o Brasil: a imagem do Dr. Castor de Andrade, entre dois federais, sendo conduzido ao Rio de Janeiro após ser preso visitando o Salão do Automóvel de São Paulo, em 1994. Castor, que estava foragido, resolveu ir, com notável cara de pau, " disfarçado" ao salão, achando que não seria reconhecido, com bigode postiço e cabeleira à Iracema, mais negra que as asas da graúna. Foi em cana e gerou tirada sensacional de um jornal popular da época: Castor de Andrade é preso disfarçado de Castor de Andrade. Preso na Polinter, Castor pintou o sete. Transformou as celas em suítes de luxo climatizadas, com frigobar, televisão e sessões de cinema. As festas eram de arromba, com champanhe, caviar, vinhos portugueses do tempo do Marquês de Pombal, quantidades bíblicas de uísque e outros salamaleques. Castor ainda resolveu reformar a Polinter toda e bancar novos carros para a polícia, diante de automóveis que alcunhou como vergonhosos para a segurança pública.

* Luiz Antonio Simas, Historiador e Professor.




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CARTÃOZINHO DE NATAL

Por STANISLAW PONTE PRETA (SÉRGIO PORTO) -

O texto abaixo foi extraído do livro "Rosamundo e os Outros", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1963, pág. 174. Especial para o Natal.


Até que eu não sou de reclamar, puxa! Taí, se há alguém que não é de reclamar, sou eu. Pago sempre e não bufo. Claro que procuro me defender da melhor maneira possível, isto é, chateando o patrão, cobrando cada vez mais, buscando o impossível — como diz Tia Zulmira —, ou seja, equilíbrio orçamentário. Se o Banco do Brasil não tem equilíbrio orçamentário, eu é que vou ter, é ou não é?

Mas a gente luta. Eu ganho cada vez mais e nem por isso deixo de terminar sempre o mês que nem time de Zezé Moreira: 0 x 0. Segundo cálculos da tia acima citada, que é bárbara para assuntos econômicos, eu sou um dos homens mais ricos do Brasil, pois consigo chegar ao fim do mês sem dever. Esta afirmativa não me agrada nada, mas dá uma pequena amostra de como vai mal a organização administrativa do nosso querido Brasil.

Aliás, minto...o cronista pede desculpas, mas estava mentindo. Eu vou no empate até dezembro, porque, quando chega o Natal, é fogo. Aí embaralha tudo. Não há tatu que resista aos compromissos natalinos. São as Festas — dizem.

O presente das crianças, a ganância do comerciante, as gentilezas obrigatórias, os orçamentos inglórios, a luta do consumidor, a malandragem do fornecedor e olhe nós todos envolvidos nesse bumba-meu-boi dos presentinhos.

E que fossem só os presentinhos. A gente selecionava, largava uma lembrancinha nas mãos dos amigos com o clássico letreiro: "Você não repare, que é presente de pobre" e ia maneirando. Mas tem as listas, tem os cartõezinhos.

O que me chateia são as listas e os cartõezinhos. A gente passa o mês todo comprando coisas pros outros sem a menor esperança de que os outros estejam comprando coisas pra gente. De repente, quando o retrato do falecido Almirante Pedro Álvares Cabral, que, no caminho para as Índias, ao evitar as calmarias, etc., etc. já é um raro no bolso dos coitados do que deputado em Brasília, vem um de lista.

O de lista é sempre meio encabulado. Empurra a lista assim na nossa frente e diz: — O pessoal todo assinou.  Fica chato se você não assinar. Então a gente dá uma olhada.  A lista abre com uma quantia polpuda — quase sempre fictícia — que é pra animar o sangrado. E tem a lista dos contínuos, tem a lista dos porteiros, tem a lista dos faxineiros, tem a lista das telefonistas, tem a lista do raio que te parta.

A gente assina a lista meio humilhado, porque, no máximo, pode contribuir com duzentas pratas, onde está estampada a figura de Pedro I, que às margens do Ipiranga, desembainhando a espada, etc., etc. e pensa que está livre, embora outras listas estejam de tocaia, esperando a gente.

Então tá. Há um momento em que os presentinhos já estão todos comprados, as listas já estão todas assinadas e você já está com mais ponto perdido na tabela do que o time do Taubaté. Deve pra cachorro, mas vai dever mais.

Vai dever mais porque faltam os cartõezinhos de apelação. A campainha toca, você abre para saber quem está batendo e é o lixeiro. Ele não diz nada. Entrega um envelopezinho, a gente abre e lá está o versinho: "Mil votos de Boas Festas/ Seja feliz o ano inteiro/ É o que ora lhe deseja/ O vosso humilde lixeiro."

E o vosso humilde lixeiro espalma sorridente a estira que a gente larga na mão dele. Meia hora depois a campainha toca. Desta vez — quem sabe? — é uma cesta de Natal que um bacano teve a boa idéia de enviar. Mas qual. É o carteiro, fardado e meio sem jeito, que passa outro cartãozinho de apelação. A gente abre o envelope e lá está: "Trazendo a correspondência/ Faça frio ou calor/ Vosso carteiro modesto/ Prossegue no seu labor/ Mas a cartinha que trás/ Nesta oportunidade/ É para desejar Boas Festas/ E muita felicidade."

Mas este ano eu aprendi, irmãos! Em 1963 vou comprar diversas folhas de papel (tamanho ofício) e organizar várias listas para as criancinhas pobres aqui da casa. Quando o cara vier com a dele, eu neutralizo a jogada com a minha. O máximo que pode acontecer é ele assinar 500 na minha e eu assinar 500 na dele... ficando a terceira da melhor de três para disputar mais tarde.

Também vou mandar prensar uns cartõezinhos. Quando o vosso humilde lixeiro ou o vosso carteiro modesto entregar o envelopinho, eu entrego outro a ele, para que leia: "No Inferno das notícias/ Mas com expressão seráfica/ Eu batuco o ano inteiro/ A máquina datilográfica/ Pro ano que vai entrar/ Não me sinto otimista/ Mesmo assim, felicidades/ Lhe deseja este cronista."

Conforme diz Tia Zulmira: "— Malandro prevenido dorme de botina."





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PARA CONHECER A HISTÓRIA DE UM PRESIDENTE QUE MORREU NO EXÍLIO

MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND -

João Vicente Goulart, filho do Presidente constitucional, João Goulart, deposto por um golpe empresarial militar, em abril de 1964, com o apoio ostensivo do Departamento de Estado norte-americano, recém lançou o livro Jango e eu – memórias de um exílio sem volta, pela Editora Civilização Brasileira.

É uma leitura recomendada a todos os brasileiros que queiram conhecer um período da história sem rodeios e a personalidade do presidente deposto, que acabou morrendo no exílio, sem poder retornar a pátria que tanto amava e que desde jovem dedicou-se de corpo e alma na defesa dos valores nacionais e do povo trabalhador. Acabou deposto por suas qualidades.

Jango e eu é o tipo do livro que se lê numa tacada só. Em linguagem cativante e acessível a todos os tipos de leitores, João Vicente Goulart conta em detalhes passagens do longo exílio vivido por seu pai, mãe, irmã e ele, desde o momento em que uma parte da família saiu às pressas da Granja do Torto, onde residiam Jango, Maria Teresa Goulart, a irmã de João Vicente, Denise, até Porto Alegre, São Borja e finalmente Montevidéu.

Passagens importantes não só no Uruguai, como também na Argentina, lembram a história recente dos dois países que atravessaram ditaduras que tiveram o apoio do governo de fato do Brasil. João Vicente conta com detalhes fatos que levaram a família Goulart a ter de deixa o Uruguai e se instalar na Argentina, que atravessava momento de abertura como o retorno de Juan Domingo Perón. Mas a abertura não se efetivou, muito pelo contrário.

Aos sete anos de idade, o autor do livro foi informado por sua mãe que estava chegando a um país de cor azul e lá em seguida reencontraria o pai, que esperava em pouco tempo retornar ao Brasil, o que nunca aconteceu porque a conjuntura política nacional, sob controle de setores subservientes a interesses econômicos estrangeiros, não permitiam.

Jango e eu - memórias de um exílio sem volta conta em detalhes as agruras do exílio de brasileiros que foram impedidos de seguir vivendo no país pelo fato de defenderem posições opostas aos que tomaram o poder pela força das armas com o apoio empresarial e externo, como comprovam os arquivos, já tornados públicos, do Departamento de Estado norte-americano.

O livro, que não é um trabalho acadêmico, como faz questão de comentar o próprio autor, tem também o mérito de fazer com que os leitores sejam informados sobre fatos escondidos da história pela mídia comercial conservadora e concluam que Jango Goulart foi um político injustiçado que procurou colocar em prática reformas de base, entre as quais a agrária, que se fossem mesmo realizadas, fariam o Brasil ingressar no Terceiro Milênio sendo um país mais justo e com menos desigualdade social.

Uma reforma agrária, vale assinalar, considerada por João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST, como o projeto mais avançado até hoje apresentado no Brasil.

Em suma, em um momento de retrocesso que o Brasil atravessa o livro Jango e eu- memórias de um exilado sem volta tem ainda o mérito de alertar os brasileiros sobre o perigo que representa as ideias defendidas por governos golpistas, portanto ilegítimos e usurpadores, como foram os dos generais de plantão e o atual que está levando o país a um retrocesso sem tamanho.




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ANGELA RO RO É OVACIONADA NO RIVAL, "SOU SEXAGENÁRIA E CHEIA DE TESÃO"


Rio de Janeiro - O Teatro Rival Petrobras recebeu na noite de sábado (19) uma das principais artistas do país. Dona de “uma vida de quase 67 anos bem intensa”, como ela mesma disse, Angela Ro Ro cantou sucessos de diferentes fases da carreira, além de belas canções internacionais, como Ne me quitte pas, All of me e Night and day. Estava acompanhada exclusivamente pelo sensacional tecladista Ricardo Maccord, parceiro musical de quase três décadas.

Interagindo com o público a cada música, bem humorada, chegou a dizer que vai contar casos do “arco da velha” na autobiografia que está escrevendo e que pretende lançar até o fim do ano. “Não quero fazer uma Bíblia, mas contar histórias, colocar poesias, algo ligeiro e divertido”.

A jornalista Iluska Lopes - que assistiu o show com o editor Daniel Mazola - lembra que alguns cantores e cantoras desenvolvem verdadeira ojeriza de seus maiores sucessos com medo de ficarem reféns de algumas poucas canções ou, na pior das hipóteses, de apenas uma. Não é o caso de Angela Ro Ro, que vibra com a popularidade de antigos sucesso como Amor, meu grande amor, seu maior hit (composto com Ana Terra), regravado pelo Barão Vermelho em 1996.

Para Daniel Mazola, Angela Ro Ro valoriza mais não se apega demais ao passado. Ela informou que no momento, aguarda uma data de estúdio para começar a gravar o próximo álbum de inéditas, que sairá pela Biscoito Fino. Preferiu não adiantar mais nada sobre o assunto, apenas informando, misteriosamente, que será "uma experiência hi-tech".

Eusébio Pinto Neto, Angela Ro Ro, Daniel Mazola e Iluska Lopes. Foto: Joana Dark/TIS.
O repertório e a performance da cantora são de arrepiar do início ao fim. “Sou uma pessoa tão privilegiada! Tenho o que comer, respiro, ando. Sou sexagenária, cheia de tesão e com alguma disposição significativa para viver. Saúde é tudo!”,falou e disse Angela Ro Ro.



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O CASO DO MENDIGO 




Os jornais anunciaram, entre indignados e jocosos, que um mendigo, preso pela polícia, possuía em seu poder valores que montavam à respeitável quantia de seis contos e pouco.

Ouvi mesmo comentários cheios de raiva a tal respeito. O meu amigo X, que é o homem mais esmoler desta terra, declarou-me mesmo que não dará mais esmolas. E não foi só ele a indignar-se. Em casa de família de minhas relações, a dona da casa, senhora compassiva e boa, levou a tal ponto a sua indignação, que propunha se confiscasse o dinheiro ao cego que o ajuntou.

Não sei bem o que fez a polícia com o cego. Creio que fez o que o Código e as leis mandam; e, como sei pouco das leis e dos códigos, não, estou certo se ela praticou o alvitre lembrado pela dona da casa de que já falei.

O negócio fez-me pensar e, por pensar, é que cheguei a conclusões diametralmente opostas à opinião geral.

O mendigo não merece censuras, não deve ser perseguido, porque tem todas as justificativas a seu favor. Não há razão para indignação, nem tampouco para perseguição legal ao pobre homem.

Tem ele, em face dos costumes, direito ou não a esmolar? Vejam bem que eu não falo de leis; falo dos costumes. Não há quem não diga: sim. Embora a esmola tenha inimigos, e dos mais conspícuos, entre os quais, creio, está M. Bergeret, ela ainda continua a ser o único meio de manifestação da nossa bondade em face da miséria dos outros. Os séculos a consagraram; epenso, dada a nossa defeituosa organização social, ela tem grandes justificativas. Mas não é bem disso que eu quero falar. A minha questão é que, em face dos costumes, o homem tinha direito de esmolar. Isto está fora de dúvida.

Naturalmente ele já o fazia há muito tempo, e aquela respeitável quantia de seis contos talvez represente economias de dez ou vinte anos.

Há, pois, ainda esta condição a entender: o tempo em que aquele dinheiro foi junto. Se foi assim num prazo longo, suponhamos dez anos, a coisa é assim de assustar? Não é. Vamos adiante.

Quem seria esse cego antes de ser mendigo? Certamente um operário, um homem humilde, vivendo de pequenos vencimentos, tendo às vezes falta de trabalho; portanto, pelos seus hábitos anteriores de vida e mesmo pelos meios de que se servia para ganhá-la, estava habituado a economizar. É fácil de ver por quê. Os operários nem sempre têm serviço constante. A não ser os de grandes fábricas do Estado ou de particulares, os outros contam que, mais dias, menos dias, estarão sem trabalhar, portanto sem dinheiro; daí lhes vem a necessidade de economizar, para atender a essas épocas de crise.

Devia ser assim o tal cego, antes de o ser. Cegando, foi esmolar. No primeiro dia, com a falta de prática, o rendimento não foi grande; mas foi o suficiente para pagar um caldo no primeiro frege que encontrou, e uma esteira na mais sórdida das hospedarias da rua da Misericórdia. Esse primeiro dia teve outros iguais e seguidos; e o homem se habituou a comer com duzentos réis e a dormir com quatrocentos; temos, pois, o orçamento do mendigo feito: seiscentos réis (casa e comida) e, talvez, cem réis de café; são, portanto, setecentos réis por dia.

Roupa, certamente, não comprava: davam-lha. É bem de crer que assim fosse, porque bem sabemos de que maneira pródiga nós nos desfazemos dos velhos ternos.

Está, portanto, o mendigo fixado na despesa de setecentos réis por dia. Nem mais, nem menos; é o que ele gastava. Certamente não fumava e muito menos bebia, porque as exigências do ofício haviam de afastá-lo da "caninha". Quem dá esmola a um pobre cheirando a cachaça? Ninguém.

Habituado a esse orçamento, o homenzinho foi se aperfeiçoando no ofício. Aprendeu a pedir mais dramaticamente, a aflautar melhor a voz; arranjou um cachorrinho, e o seu sucesso na profissão veio.

Já de há muito que ganhava mais do que precisava. Os níqueis caíam, e o que ele havia de fazer deles? Dar aos outros? Se ele era pobre, como podia fazer? Pôr fora? Não; dinheiro não se põe fora. Não pedir mais? Aí interveio uma outra consideração.

Estando habituado à previdência e à economia, o mendigo pensou lá consigo: há dias que vem muito; há dias que vem pouco, sendo assim, vou pedindo sempre, porque, pelos dias de muito, tiro os dias de nada. Guardou. Mas a quantia aumentava. No começo eram só vinte mil-réis; mas, em seguida foram quarenta, cinqüenta, cem. E isso em notas, frágeis papéis, capazes de se deteriorarem, de perderem o valor ao sabor de uma ordem administrativa, de que talvez não tivesse notícia, pois, era cego e não lia, portanto. Que fazer, em tal emergência, daquelas notas? Trocar em ouro? Pesava, e o tilintar especial dos soberanos, talvez atraísse malfeitores, ladrões. Só havia um caminho: trancafiar o dinheiro no banco. Foi, o que ele fez. Estão aí um cego de juízo e um mendigo rico.

Feito o primeiro depósito, seguiram-se a este outros; e, aos poucos, como hábito é segunda natureza, ele foi encarando a mendicidade não mais como um humilhante imposto voluntário, taxado pelos miseráveis aos ricos e remediados; mas como uma profissão lucrativa, lícita e nada vergonhosa.

Continuou com o seu cãozinho, com a sua voz aflautada, com o seu ar dorido a pedir pelas avenidas, pelas ruas comerciais, pelas casas de famílias, um níquel para um pobre cego. Já não era mais pobre; o hábito e os preceitos da profissão não lhe permitiam que pedisse uma esmola para um cego rico.

O processo por que ele chegou a ajuntar a modesta fortuna de que falam os jornais, é tão natural, é tão simples, que, julgo eu, não há razão alguma para essa indignação das almas generosas.

Se ainda continuasse a ser operário, nós ficaríamos indignados se ele tivesse juntado o mesmo pecúlio? Não. Por que então ficamos agora?

É porque ele é mendigo, dirão. Mas é um engano. Ninguém mais que um mendigo tem necessidade de previdência. A esmola não é certa; está na dependência da generosidade dos homens, do seu estado moral psicológico. Há uns que só dão esmolas quando estão tristes, há outros que só dão quando estão alegres e assim por diante. Ora, quem tem de obter meios de renda de fonte tão incerta, deve ou não ser previdente e econômico?

Não julguem que faço apologia da mendicidade. Não só não faço como não a detrato.

Há ocasiões na vida que a gente pouco tem a escolher; às vezes mesmo nada tem a escolher, pois há um único caminho. É o caso do cego. Que é que ele havia de fazer? Guardar. Mendigar. E, desde que da sua mendicidade veio-lhe mais do que ele precisava, que devia o homem fazer? Positivamente, ele procedeu bem, perfeitamente de acordo com os preceitos sociais, com as regras da moralidade mais comezinha e atendeu às sentenças do Bom homem Ricardo, do falecido Benjamin Franklin.

As pessoas que se indignaram com o estado próspero da fortuna do cego, penso que não refletiram bem, mas, se o fizerem, hão de ver que o homem merecia figurar no Poder da vontade, do conhecidíssimo Smiles.

De resto, ele era espanhol, estrangeiro, e tinha por dever voltar rico. Um acidente qualquer tirou-lhe a vista, mas lhe ficou a obrigação de enriquecer. Era o que estava fazendo, quando a polícia foi perturbá-lo. Sinto muito; e são meus desejos que ele seja absolvido do delito que cometeu, volte à sua gloriosa Espanha, compre uma casa de campo, que tenha um pomar com oliveiras e a vinha generosa; e, se algum dia, no esmaecer do dia, a saudade lhe vier deste Rio de Janeiro, deste Brasil imenso e feio, agarre em uma moeda de cobre nacional e leia o ensinamento que o governo da República dá... aos outros, através dos seus vinténs: “A economia é a base da prosperidade".

*Bagatelas, 1911. Reproduzido do site Memórias do Brasil.



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MOSAICO PATAH,

A VIDA EM CAQUINHOS...

Por DANIEL MAZOLA -

Camila Patah. Foto: página da autora no facebook.
O termo mosaico é originário de “mosaicon”, que significa musa. Essa forma de arte já existe há milênios, pois do Oriente os sumérios, por volta de sete mil anos atrás, já revestiam pilastras com cones de argilas coloridas e fixadas em massa, formando uma decoração geométrica. Os gregos e os romanos também utilizavam a técnica do mosaico no auge de suas culturas para decorarem os pisos e as paredes das construções.

Hoje, o mosaico ressurgiu, despertando grande interesse, sendo cada vez mais utilizado, artisticamente, na decoração de ambientes interiores e exteriores.

Agora, conheça e experimente o magnífico conjunto de sentimentos e sensações proporcionado pelas imagens do trabalho da artista plástica Camila Patah, é realmente sensacional. Em breve realizaremos entrevista exclusiva com a autora das obras.
A presidente Dilma Rousseff recebe das mãos do presidente do Sindicato dos Comerciários de SP e da UGT, Ricardo Patah (pai de Camila), obra da artista em homenagem a capital da República.
Por Camila Patah - Comecei essa arte em 2002 com a orientação, na época, de Prem Mukty Mayi, no começo achava tudo aquilo uma chatice de ficar colando caquinhos, principalmente porque me sentia obrigada a fazer, por ser parte de minha terapia psicológica.

Aprendi essa técnica para auxiliar na minha doença da dependência química.

Naquele ano de 2002, não compreendia bem qual a finalidade daquela terapia, mas o tempo passou e fui percebendo que conforme eu encaixava as peças do mosaico, a cada azulejinho colado eu integrava também dentro de mim: matéria, espírito e emoção.

Assim, a partir de 2005, o mosaico tornou-se profissão e paixão na minha vida.

Quando as peças não se encaixavam, observava que tinha algo errado e logo vinha uma recaída na abominável droga, pois naquele momento não conseguia lidar com certas situações.

Hoje, após minha recuperação mental e física, me encontro feliz por continuar colando os meus caquinhos internos e externos, fazendo lindos mosaicos que até me surpreendo.

O mosaico é Arte e ‘Terapia’, pois junta a criatividade num processo de "renascimento", dentro e fora, pois se quebra um azulejo inteiro para se construir uma nova forma.

E-mail:
mosaicopatah@gmail.com
Facebook:https://www.facebook.com/camillapatah/
Blog:http://mosaicopatah.blogspot.com.br/2014/04/minha-vida-em-caquinhos.html





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SUB-HUMANOS FORJADOS

GABRIEL FRÓES -


Desde a infância somos induzidos pela publicidade capitalista, pequenas esponjas. Viramos seres consumistas e individualistas, não respeitando outros como nós, “nossa imagem e semelhança”, pessoas criadas no mesmo mundo, uns na miséria das favelas e guetos do RJ e SP e outros poucos afortunados no berço esplendido.

Na prensa em que somos forjados, viramos seres com tendências violentas por natureza, causados pelo cotidiano capitalista em uma área de extrema pobreza, que gera em seus moradores humilhação e impotência. Tudo alimentado principalmente pelos nefastos meios de comunicação de massa capitalista, sendo a TV ainda hoje a principal ferramenta. Em muitos casos, humanos que pensam, querem a ruptura do velho Estado, mudar a realidade, fazer a Revolução Popular, construir o Novo. Não se avança com essa construção por falta de lideranças e principalmente por falta de conhecimento do povão, que nada sabe sobre luta de classes.

Quando os indivíduos e famílias, inseridos nessa triste realidade são bombardeados por todo esse lixo comercial, visando somente o lucro, tornam-se sub-humanos sociais, vítimas que reproduzem a ignorância, milhões iguais a ele cegos desde o berço até provavelmente um fim trágico, em função dos valores e ideologia que pertence, assumindo mesmo sem saber.

Nas camadas mais desprovidas da sociedade, seja financeira, de saúde, educação, etc... Nas favelas, continuam todos querendo consumir acima de tudo, mais sem nem ter capital o suficiente para as coisas mais básicas como alimento. Forçando e conduzindo tais humanos, crianças, jovens, pais de família, muitos sem emprego ou salário, por necessidade ou vaidade não hesitariam em tirar sua vida por 10 reais até. Expresso minha indignação pela  realidade social, ‘óbvio ululante’ que dura há anos. Meu sentimento é de ódio e tristeza, quando recordo o que fazem com o nosso país em nome do dinheiro e concentração de capital. Vamos todos acordar!

*Gabriel Pereira Fróes de Castro, estudante, 17 anos, colaborador do site TRIBUNA DA IMPRENSA Sindical.








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REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817 – BREVE HISTÓRIA


Por RAMON ALVARADO -

O espírito-santense Domingos José Martins, prócer, e a bandeira da nossa primeira república.
O episódio pouco destaque tem na historiografia brasileira, ou é tratado com menosprezo, “A Revolução dos Padres”. Tal se deve ao incômodo que até hoje o espírito do levante provoca na hegemonia do nosso pensamento histórico. Hegemonia centro-sulista, de feição aristocrática.

Malgrado a república, a aristocracia persiste na nossa história. Fez a independência, reagindo ao avanço constitucionalista de Portugal, consolidou o império e alojou-se na proclamação de Deodoro. Na fase imperial, foi atingida por uma abolição da escravatura que resultou mais na deposição do imperador do que na efetiva mudança das relações de produção. Impôs-se então, na década de 30, com idéias modernizantes, uma “revolução” que, por ser filha da oligarquia – ser uma dissidência desta e não um movimento popular – pouco  alterou o poder.

Portanto, não houve revolução. A sua proposta, qual seja, “modernizar”, mantém-se nos dias atuais: mudar tudo para tudo continuar na mesma, na sustentação da elite. E a nossa história, a história oficial, é a versão dessa elite, o ponto de vista dos vencedores, que apaga ou desqualifica os feitos dos vencidos.

Nestes se encontra a Revolução de Pernambuco. Nascida da insatisfação dos brasileiros com a opressão e a rapina do governo monárquico-absolutista, quando da estada de D. João e sua corte no Brasil, ela logrou vitória. Tendo a participação armada do povo, expulsou o governador da província, instituiu a república  e tornou independente a região e o nordeste. Também criou uma lei orgânica que previa a assembléia constituinte e a eleição de um presidente, como ainda planejou a abolição da escravatura. Para conduzir o governo, provisório, compôs uma junta formada de cinco membros, representando a agricultura, o comercio, a defesa, a magistratura e a religião (à qual, na época, estavam associadas a educação e a cultura).

O levante foi longamente preparado, com data marcada, o domingo de páscoa de 1817, quando o príncipe regente seria aclamado rei no Rio de Janeiro. Mas  ocorreu antes,  no dia 6 de março, por  fatos inesperados e a bravura  de um dos integrantes. A república que se instituiu em seguida, por outro lado, só durou 75 dias (dois meses e meio), pois, tão logo tiveram notícia dos acontecimentos o Conde dos Arcos (governador da Bahia e fiel vassalo de D. João) e o próprio príncipe (que adiou a sua coroação), o combate veio violento. O primeiro aprontou e expediu por terra um exército em direção a Pernambuco, enviando também para lá uma pequena frota naval, de guerra, e o segundo compôs uma esquadra, com tropa embarcada, para bloquear o porto de Recife e atacar a cidade.

Razões econômicas, sociais, ideológicas e militares motivaram a revolução. Com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, e a criação da Companhia de Comércio de Pernambuco – uma concessão monopolista a um grupo de ricos comerciantes portugueses e ingleses, que, com juros altíssimos, emprestava dinheiro aos proprietários rurais da região, tendo como garantia a produção deles – os proprietários, na maioria senhores de engenho, sem suportarem aquelas taxas, se sentiram explorados, vale dizer, escravizados por aquela companhia. O comércio varejista estava na mão dos portugueses, pejorativamente chamados pelos brasileiros de “marinheiros pés de chumbo”. A cada dia surgia um novo imposto, cujo único propósito era a sustentação do luxo da corte; e a população de trabalhadores livres (artesãos e vendedores ambulantes, mulatos e pretos forros na maioria), que morava em mocambos, amargava a miséria. Fora estes fatos, grande era a ocorrência, em Recife, de assaltos e homicídios, tendo o próprio governador sido vítima dos primeiros.

Após a “abertura dos portos às nações amigas”, a cidade passou a receber mercadorias européias e, junto com elas, as idéias iluministas, mais particularmente a dos enciclopedistas franceses. Ligada às últimas, a maçonaria se fez presente com duas lojas em Recife, onde, com idêntica ligação, também se fundaram academias literárias. O Seminário de Olinda, que era administrado pelos padres oratorianos e que, com a sua criação em 1800, havia revolucionado o ensino brasileiro da época, ministrava uma educação fundamental e religiosa francamente iluminista. Consistia ela na substituição da teologia justificadora do absolutismo monárquico por um cristianismo terreno e humanista, que preparava o aluno para as necessidades objetivas da vida e despertava-lhe o espírito crítico.

Militarmente, a capitania que se orgulhava de ter expulsado da terra os holandeses – com o empenho dos pernambucanos e não das tropas portuguesas – vivia submetida ao comando e à arrogância dos generais e brigadeiros vindos de além-mar. Aos brasileiros não cabia patente superior a de capitão e baixíssimo era o soldo desses oficiais, como também a paga para os demais elementos da tropa. Frequentemente ocorria quebra de hierarquia e indisciplina da parte dos Henriques, um batalhão formado de negros em homenagem a um dos heróis da reconquista pernambucana, Henrique Dias.

A bravura antecipadora da revolução, acima referida, ocorreu num quartel, o de artilharia. O governador de Pernambuco, Capitão General Caetano Pinto de Miranda Montenegro, que de militar só tinha a patente e a espada que lhe pendia da cinta – pois tivera formação jurídica em Coimbra e era dado à criação poética e literária – vinha acompanhando a agitação política da província, os “banquetes brasileiros” (forma de reunião e propaganda revolucionária), mas não acreditava no sucesso dela, tolerava a agitação e até da mesma zombava. Isso, até lhe chegarem cartas do paço real do Rio de Janeiro, exigindo diligência sobre certos atos “insultantes” praticados nas câmaras de algumas comarcas, e aumentarem as denúncias de conspiração e iminente insurgência.

Ele reúne então o seu estado-maior em conselho e, após ouvir sugestões como a de que os principais envolvidos pelas denúncias deveriam ser atraídos a palácio e assassinados (envenenados), decide pela prisão dos mesmos, pois acreditava que com essa medida a sedição abortaria. Em seguida, designa o marechal José Roberto para prender os líderes civis, o que leva o mesmo marechal  a encarcerar logo Domingos José Martins e buscar Padre João Ribeiro, Cruz Cabugá e outros dois conspiradores. Aos comandantes dos regimentos militares, ordena a prisão dos conjurados de cada unidade.

Chegando ao quartel de artilharia, e prendendo sem dificuldade o capitão Domingos Teotônio Jorge, o brigadeiro Manuel Barbosa de Castro, dirigindo-se ofensivamente a outro capitão, José de Barros Lima (o Leão Coroado), para também prendê-lo, ouve da parte dele: –“Pois morre miserável!”, frase acompanhada de um golpe de espada que somado a outros desferidos pelo tenente José Mariano, põe fim a sua vida. O ato tem o apoio da tropa e quando, enviado pelo governador, outro militar português chega ao quartel, este também é morto, fuzilado por ordem do capitão Pedro Pedroso.

Assim, estoura a revolução que ganha a rua com 800 homens, dentre eles o padre João Ribeiro. Caetano Pinto, informado do sucesso, refugia-se  na Fortaleza do Brum, deixando o marechal José Roberto no palácio do governo, para garantir não só a casa como também o Erário. A marcha revolucionária, seguindo pelas ruas e passando a contar com mais de 3000 homens armados, liberta da cadeia pública Domingos Martins e, da Fortaleza das Cinco Pontas, para onde fora levado, Domingos Teotônio Jorge. É chegada então a hora de atacar o palácio e, para isso, são formadas duas colunas que percorrem trajetos diferentes.

Na outra margem do rio Capibaribe, onde se encontra a Fortaleza do Brum e o bairro portuário, o governador, organizando a resistência, manda derrubar a ponte que ligava aquele bairro ao do palácio; pede reforços a Olinda e arma alguns portugueses. Estes, sendo vistos da margem oposta do rio pelo tenente Antonio Henriques, quando começavam a derrubar a ponte, são atacados por  uma peça de artilharia que dispara dois tiros certeiros. Dessa maneira, operando a peça, o tenente frustra a ação dos portugueses e permite a entrada subsequente dos revolucionários na área do porto.

José Roberto, contando somente com 300 homens quando os rebeldes chegam no palácio, não tem como garanti-lo. Se rende e, por esse ato, lhe é permitido juntar-se na fortaleza ao governador. Caetano, mesmo dispondo do efetivo vindo de Olinda, no dia seguinte, também capitula. Três dias depois, procurando livrar Pernambuco do símbolo da monarquia, os revolucionários o embarcam numa sumaca e o enviam para o Rio de Janeiro.

Tal êxito militar, no entanto, não se repetiu no posterior confronto da república com o exército enviado pelo Conde dos Arcos. Depois da prisão, sumário julgamento e execução do Padre Roma em Salvador – na verdade, ex-sacerdote, que para lá fora buscar a adesão de baianos eminentes – os revolucionários caíram em depressão. Amarras servis  e aristocráticas de muitos espíritos, e o fantasma da punição real, os fizeram superestimar as forças que marchavam para Recife. Acovardaram-se diante delas e assim foram perdendo batalha após batalha, melhor dizendo, foram batendo em retirada desde a cidade alagoana de Penedo, que já tinham conquistado. Em certo momento da guerra, para aumentar a crise da república, o comando do seu exército foi passado ao capitão-mor e senhor de engenho Francisco de Paula Cavalcanti, um desses espíritos vacilantes mais interessados em negociar os termos da rendição do que combater com bravura.

O comando leva então um dos cinco membros da junta governativa, Domingos José Martins, que representava o comércio e pouca experiência tinha  das armas, a deixar a sua função administrativa e organizar um segundo exército, seguindo com o mesmo para a frente de combate. Deixa Recife governado por João Ribeiro e pelo representante da defesa, Domingos Teotônio Jorge. Martins fazia uma última tentativa de salvar a “pátria” (assim os revolucionários chamavam a república, chamando-se também patriotas) como, intentando o mesmo e baseando-se na experiência bem sucedida da luta dos pernambucanos contra os holandeses, alguns padres organizam guerrilhas.

O general improvisado, junto com o padre João Ribeiro, foi das maiores lideranças da revolução. Nascido na capitania do Espírito Santo, transferiu-se jovem para Salvador, a fim de trabalhar no comércio, e dali seguiu para Portugal e Londres, onde tornou-se sócio de uma empresa importadora de açúcar e algodão do Brasil. Na capital inglesa, fez amizade com Hipólito José da Costa (o jornalista-editor do “Correio Brasiliense”) e com o maçom e libertador latino-americano Francisco de Miranda. Vindo sempre a Recife, em razão da atividade profissional, conheceu Maria Teodora da Costa – a filha do mais rico comerciante da cidade, fiel vassalo de D. João – e por ela se apaixonou. O pai de Maria Teodora não lhe cedia a mão da moça, nem mesmo com a intercessão do Padre João Ribeiro, amigo íntimo do pretendente, mestre do Seminário de Olinda e por todos respeitado na urbe pela bonomia e vastas luzes.

A vitória da revolução, no entanto, mudou a posição do pai e os dois noivos se uniram num enlace que foi o acontecimento social da república,  da sua fase inicial. Esta fase caracterizou-se pela pacificação dos ânimos entre pernambucanos e portugueses, para a qual foi fundamental a proclamação redigida pelo secretário de estado Miguel Joaquim de Almeida Castro, o Padre Miguelinho. E definiu-se também por um programa de governo que, além de estabelecer a igualdade de tratamento (Excelência foi substituído por Vós), aboliu as regalias e os impostos abusivos, como decretou livre a religião, o pensamento e a imprensa (o próprio governo montou a primeira gráfica do nordeste, sendo o primeiro documento impresso o famoso “Preciso”, escrito pelo jurisconsulto e representante da magistratura na junta governativa, José Luiz de Mendonça). O programa estimulava ainda a indústria (proibida no Brasil pelo príncipe regente) e preparava a abolição da escravatura.

Defendida por Martins e João Ribeiro, a abolição não foi bem recebida pelos senhores de engenho “republicanos”, por considerarem os escravos suas propriedades. Chegou mesmo a criar uma crise no governo, levando os dois membros da junta a recuarem e redigirem uma proclamação, na qual lamentavam a impossibilidade de pô-la em prática e a protelavam. A perspectiva abolicionista foi talvez a razão do enfraquecimento militar acima referido, já que muitos oficiais provinham da classe dos donos de terra, ou por ela eram influenciados. Da mesma classe, também fazia parte um dos membros do conselho consultivo da república, Antonio Carlos de Andrade, irmão de José Bonifácio, o que posteriormente veio a ser o “patriarca da independência”.

Além do Padre Roma (José Ignácio Ribeiro de Abreu e Lima, pai do capitão e depois general do exército libertador de Bolívar, José Ignácio de Abreu e Lima), outros voluntários se ofereceram para estender as fronteiras da revolução, destacando-se o subdiácono José Martiniano de Alencar (pai de José de Alencar, o escritor), que seguiu para a sua terra de origem, o Ceará, e o Padre Damasceno que foi para o Rio Grande do Norte. A Paraíba, que participara com filhos do processo conspiratório de Recife, aderiu quase que imediatamente à revolução. E a república, precisando reconhecimento internacional, como também adquirir armamentos para uma futura guerra com a monarquia portuguesa, enviou, como embaixador, para os Estados Unidos, o comerciante  Antonio Gonçalves da Cruz, o Cruz Cabugá, despachando ainda para a argentina (recém liberta do domínio espanhol) outro emissário.

O otimismo da fase inicial, porém, ia se transformando em medo à medida que avançavam as tropas do Conde dos Arcos, comandadas pelo marechal Cogominho de Lacerda; e se aproximava de Recife a esquadra do almirante Rodrigo Lobo, enviada por D.João. Estas forças, nada as podia deter. O exército de Domingos Martins foi derrotado – numa emboscada realista às margens do Rio Merepe, caindo o seu chefe prisioneiro – e Francisco de Paula Cavalcanti, estacionado com o seu efetivo em Ipojuca, ao se defrontar com a “superioridade numérica do exército inimigo”, ordenou a dispersão e a fuga dos seus comandados. Penetrando nas vilas e vilarejos do interior alagoano e pernambucano,  impondo o terror, Cogominho de Lacerda engrossava as suas fileiras pelo alistamento compulsório dos matutos, inclusive índios.

Paula Cavalcanti, em Recife, consegue recompor parte do seu exército e, pelo fato de estar a tropa sem condições de lutar, e ainda a cidade em pânico, sob a mira dos canhões de Rodrigo Lobo, ele tenta uma capitulação honrosa com o almirante. Envia-lhe mensagens, com a concordância dos dois últimos governadores ativos (João Ribeiro e Domingos Teotônio), recebendo, no entanto, do oficial português, sempre a mesma resposta: “rendição incondicional”. Tornado ditador pelo estado de guerra, Domingos Teotônio expede então um ultimato, ameaçando matar todos os portugueses da cidade se, até às 8 horas da manhã do dia seguinte, Rodrigo Lobo não revisse a sua posição.

Homem de elevada moral, Teotônio não iria cometer aquela atrocidade e como, esgotado o prazo dado, não veio resposta do almirante, e já se encontrava às portas de Recife o exército de Cogominho, os republicanos reúnem o que sobrou do seu exército e marcham para o interior, pelo caminho de Olinda. Alimentam ainda o sonho de erguer no espaço citado a “república dos lavradores” porém, ao estacionarem em Paulista, sem terem mais ânimo de prosseguir, resolvem se desmobilizar, indo se refugiar nas matas. Vendo baldados todos os esforços, o padre João Ribeiro põe fim a própria vida.

A repressão que se seguiu à entrada das forças portuguesas em Recife foi terrível. Lares foram devassados pelos agentes da monarquia, na busca dos envolvidos com a revolução, não sendo poupados, para a obtenção de pistas, os familiares daquelas pessoas, que foram torturados. Domingos Martins, José Luis de Mendonça e frei Miguelinho foram os primeiros, após a queda da república, a pagarem com a vida a aventura revolucionária. Enviados para Salvador num brigue, lá foram julgados por uma comissão militar, condenados à morte, e arcabuzados no Campo da Pólvora. Tornaram-se prisioneiros cerca de mil cidadãos (entre eles, Antonio Carlos de Andrade, José Martiniano de Alencar e Frei Caneca, que havia atuado como capitão de guerrilha), enviados também para Salvador, para as masmorras daquela cidade, pois Rodrigo Lobo, na condição de governador, temia que a presença deles em Pernambuco despertasse uma nova revolta.

A iniciativa mais cruel, porém, aconteceu no próprio Recife, visando escarmentar a população. Com o propósito de controlar melhor Pernambuco, D.João para lá enviou e nomeou como novo governador o brigadeiro Luiz do Rego Barreto, que passou a presidir a comissão de julgamento dos últimos aprisionados. Com aparato de festa cívica, Luiz do Rego levou à forca Domingos Teotônio Jorge, José de Barros Lima (o Leão Coroado), Pedro de Souza Tenório, Amaro Gomes da Silva Coutinho, José Peregrino de Carvalho, Antonio Henriques Rebello, Francisco José da Silveira, Padre Antonio Pereira e Ignácio de Albuquerque Maranhão.

Os atos, como a restauração monárquica, não devolveram o sono ao príncipe e seus fidalgos. Ameaçando mais pessoas, surtiam o efeito contrário ao pretendido, transformando Pernambuco num barril de pólvora prestes a novamente explodir. Recebendo denúncias de abusos cometidos pela comissão militar, o monarca a substituiu  então por uma Alçada (tribunal civil). A mesma não foi menos perversa mas também não levou ninguém ao patíbulo, devido ao desentendimento entre os desembargadores e do seu presidente (Bernardo Teixeira de Carvalho) com o governador. Ao se coroar em 1818, D.João, tornado D. João VI, mandou suspender todas as devassas e novas prisões, mantendo porém no cárcere, respondendo processo, os que lá já se encontravam. Gradualmente, foi baixando outras medidas de “misericórdia”.

Apesar de vencida, a Revolução Pernambucana, na fase que antecedeu a nossa independência, estimulava o processo emancipatório, e não só isso, mostrava o absurdo do absolutismo. As idéias liberais que ela pôs em prática já se faziam presentes em setores da nossa aristocracia mas ninguém ousava contrariar o rei. Coisa que não acontecia, porém, em Portugal, pois, em 1820, lá estourou a Revolução Constitucionalista do Porto que, saindo-se vitoriosa, impôs uma assembléia constituinte, de cuja carta D. João VI passou a ser vassalo, tendo que jurá-la.

Assim, quebrou-se a tirania no Reino Português e abriram-se as masmorras da Bahia onde se encontravam os presos políticos. Um deles, Francisco Muniz Tavares – que deixou registrada a História da Revolução Pernambucana e, depois de solto, ao invés  de seguir de embarcação para Recife, preferiu percorrer a pé os lugares onde ocorreu a guerra revolucionária – foi eleito deputado constituinte pela província de Pernambuco, viajando em seguida para Portugal.

Diante desse quadro, O grito do Ipiranga, sucedido em 1822, representou mais uma reação de D. João VI ao constitucionalismo – procurando preservar na nossa terra o absolutismo e a dinastia Bragança, pelo aconselhamento ao filho de fazer a independência – do que um movimento popular. Configurou também – o fato que interessava a aristocracia rural, aliada do monarca – uma providência para manter intacta a escravatura.

Das citadas intenções deu mostra D. Pedro I quando, após a consolidação da independência, ao receber dos deputados constituintes a primeira constituição do Brasil, não teve receio de rasgá-la, impondo em seguida uma constituição do seu gosto, a Constituição Outorgada. Este fato fez com que Pernambuco – que pela Convenção de Beberibe tanto contribuiu para a emancipação brasileira – novamente se levantasse em 1824, pela Confederação do Equador, uma reedição da revolução de 1817, liderada por Frei Caneca. A confederação também foi esmagada, dessa vez pelas forças do imperador.





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DISCURSO AUTORITÁRIO, CLICHÊS E SENSACIONALISMO, ASSIM É FEITO “JORNALISMO POLICIAL” NO BRASIL

DANIEL MAZOLA –

Com audiências de números impressionantes, obtidas a partir de um conteúdo relacionado à violência, os programas de televisão, da mídia corporativa, que veiculam o chamado jornalismo policial exercem um forte impacto sobre seus telespectadores. Para compreender como se dá esse processo de influência social resultante da exposição sistemática à criminalidade na mídia, Davi Romão desenvolveu a dissertação de mestrado Jornalismo policial: indústria cultural e violência, apresentada no Instituto de Psicologia da USP.




Durante cinco anos de pesquisa, a qual envolveu a leitura de uma ampla bibliografia sobre o tema e a análise de edições dos programas Brasil Urgente, Cidade Alerta e Balanço Geral, o estudo examinou a construção dessas atrações, feita sobre três pilares comuns: os clichês, o discurso autoritário e o sensacionalismo. Os programas de jornalismo policial, a partir do uso de estereótipos, posicionam-se como referências na temática da violência e adotam uma estratégia de cunho apelativo para envolverem os telespectadores, método que contribui para enraizar nas pessoas a perspectiva de que estão constantemente rodeadas pela ameaça da criminalidade.



Essa estrutura resulta em uma abordagem superficial da violência e revela aspectos importantes a respeito da sociedade brasileira. “A grande audiência desses programas se deve ao fato de que nossa sociedade tem uma cultura autoritária, violenta, moralista e incapaz de fazer análises políticas e sociais minimamente profundas”, segundo Romão.






Paranoia e conformismo 



Outros resultados da construção desses programas são o estímulo, na sociedade, de um sentimento de conformismo e de uma relação de paranóia com a realidade, a qual se deve, principalmente, ao formato adotado por essas atrações, que fazem uso do medo para a construção de seu conteúdo. Para Romão, esse é um dos problemas mais graves desse tipo de programa e é uma questão que deveria ser pensada atentamente.



“Precisamos refletir sobre como essa maneira paranóica de lidar com a violência, presente nesses programas e, certamente, disseminada no imaginário social, é nociva para todos os envolvidos, inclusive as vítimas imediatas da violência”, ressalta.  Outro efeito promovido por essas atrações é a repulsa em relação ao criminoso, visto que o discurso usado pelos programas incita o ódio dos telespectadores em relação aos infratores, o que contribui para a consolidação de estereótipos e atrapalha o processo de ressocialização daqueles que passaram pelo sistema penitenciário.



No entanto, é curioso perceber que, antes de qualquer coisa, essas atrações representam uma violência contra a própria população. “Esses programas são desrespeitosos com os cidadãos. Antes de fazer a pesquisa, já conhecia a estrutura básica deles, mas nunca os acompanhei. No entanto, no processo de pesquisa, foi terrível ver como os apresentadores, de modo geral, se dão permissão para serem absolutamente grosseiros com os entrevistados, os suspeitos, as vítimas, e, inclusive, com a própria equipe dos programas”, observa. 



“É uma tristeza ver que esse grau de desrespeito pelo outro pode ser algo valorizado na nossa sociedade, pode ser algo que faz com que esses apresentadores construam a imagem de ‘autoridades’”.



Diariamente nos depararmos com matérias “jornalísticas” que ferem a ética e maculam a imagem dos profissionais de Comunicação. Sobretudo quando se está assistindo Televisão, especialmente os “programas policiais”, ou navegando em portais de notícia na grande rede. Mais o cerne do problema estará longe de ser solucionado, porque reside na carência ética e moral a qual o Jornalismo brasileiro vive. 





No ramo jornalístico sempre tivemos “profissionais” que desonram a profissão, é perceptível que ainda há “picaretas” atuando como jornalistas, seja no jornalismo de mercado ou nos jornais de bairro, bem como há pessoas graduadas academicamente e habilitadas em Jornalismo que não agem de forma condizente à sua formação. Prejudicando todos nós. 





Por fim, é principalmente na chamada “grande mídia”, que questões éticas relacionadas aos jornalistas são deixadas de lado por patrões e chefias, porque não atraem a tão desejada e necessária AUDIÊNCIA, não geram acesso e lucros fabulosos, não aumentam pontuação do Ibope. Até quando?

*Com informações do Instituto de Psicologia da USP



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É NATAL, A CELEBRAÇÃO DO CONSUMO!
DANIEL MAZOLA -



e o fetichismo da mercadoria consiste no ocultamento da relação social que passa a ser mediada pelas mercadorias, e não mais entre seus produtores e indivíduos.

Nos dias atuais, todos os valores religiosos, sagrados e dogmáticos do Natal são profanados pela ideologia capitalista, e as artimanhas publicitárias capitaneadas pela sociedade de consumo transformaram a celebração natalina em um evento dissociado de seu objetivo primordial. A prova de amor entre os entes queridos consiste em se dar presentes caros. De acordo com cientistas sociais e pesquisadores “a publicidade recupera todos os valores para melhor desvalorizá-los e difundir sua ideologia consumista. É uma poluição pluridimensional, que não tem outra finalidade se não estimular o consumo dos produtos do sistema industrial, isto é, da matriz de todas as poluições. Nesse sentido, a publicidade é a poluição das poluições”.



A sociedade capitalista é baseada nos signos de consumo, sucesso pessoal e promessas de felicidade mediante a satisfação do gozo. As relações pessoais estão longe de serem calcadas somente na afetividade. Vive-se a era em que o status e os signos das marcas são combustíveis para a aquisição de um pretenso bem-estar existencial. A felicidade interior evadiu-se na sociedade de consumo, poucos são capazes de vivenciá-la plenamente no cotidiano, muitos consideram que o bem-estar efêmero decorrente da fruição dos bens de consumo é a autêntica felicidade, de modo que criam, assim, uma confusão fundamental entre as duas experiências. Conforme a perspicaz análise de Erich Fromm (1900-1980), “a felicidade do homem moderno consiste na emoção de olhar vitrines e comprar tudo o que lhe é possível, à vista ou a prazo”.


A partir do desenvolvimento do regime capitalista, as relações interpessoais passam a ser mediadas pelas coisas, ou seja, quem nada tem nada é; decorre daí todas as distinções sociais provenientes da exaltação das posses materiais. Passamos a projetar nos objetos qualidades fantasmagóricas que interferem imediatamente nas relações sociais, interpondo-se entre os indivíduos, originando-se daí o fenômeno denominado por Karl Marx (1818-1883) como “fetichismo da mercadoria”.


Os objetos adquirem qualidades mágicas que encantam os sentidos dos consumidores, e todas as relações sociais são mediadas por objetos de consumo, que se tornam barreiras entre as subjetividades. Assim, o caráter alienado de um mundo em que as coisas se movem como pessoas, e as pessoas são dominadas pelas coisas que elas próprias criam. A consciência humana projeta para o produto uma espécie de energia oculta que se torna seu objeto de culto sagrado, celebrado nos altares capitalistas das vitrines das lojas.


Consumo: felicidade e angústia


A sociedade de consumo em sua falência ética considera que a morte de um cidadão é menos importante que as vitrines de uma loja atacada pelo clamor popular, e empresários cínicos fazem patéticos rituais fúnebres para os produtos destruídos pela ação revolucionária das multidões, mas sequer se preocupam com as condições de vida dos miseráveis deserdados cotidianamente pelo Estado plutocrático, capitalista. Esse mesmo empresário que condena a luta popular contra a opressão pelo fato de tal revolta prejudicar os seus interesses pecuniários é o mesmo sujeito que oprime o trabalhador impondo-lhe jornadas de trabalho exaustivas em nome do cumprimento de índices de venda exorbitantes, pagando-lhe uma miséria por sua labuta.


Os critérios “morais” da sociedade consumista, herdeira do tecnicismo industrial, consistem na obrigação incondicional do indivíduo se apresentar publicamente como alguém plenamente capacitado a consumir, mesmo que tal ato não resulte na satisfação de uma necessidade básica, imprescindível para o estabelecimento do bem-estar e saúde individual. A lógica consumista faz da disposição de adquirir coisas uma necessidade vital, e o sistema espetacular da propaganda contribui de forma colossal para tal relação fetichista.


O Papai Noel não vem pra todos, apesar da falácia publicitária. Inúmeras crianças são frustradas pelo fato de não obterem os presentes tão desejados. Muitos pais se sentem humilhados e constrangidos por não conseguirem comprar os presentes dos seus filhos. Sendo assim, são consumidores falhos que não cumpriram as metas normativas do capitalismo natalino. 
O amor sagrado sucumbiu diante do poder diabólico das mercadorias encantadas. Feliz Natal!?

*Em 22/12/2013.



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11 FILMES PARA ENTENDER A DITADURA MILITAR NO BRASIL


Onze filmes que fazem um diagnóstico de como o cinema retratou a ditadura militar no Brasil.

Das sessões de tortura aos fantasmas da ditadura, o cinema brasileiro invariavelmente volta aos anos do regime militar para desvendar personagens, fatos e consequências do golpe que destituiu o governo democrático do país e estabeleceu um regime de exceção que durou longos 21 anos. Estreantes e veteranos, muitos cineastas brasileiros encontraram naqueles anos histórias que investigam aspectos diferentes do tema, do impacto na vida do homem comum aos grandes acontecimentos do período.

Embora a produção de filmes sobre o assunto tenha crescido mais recentemente, é possível encontrar obras realizadas durante o próprio regime militar, muitas vezes sob a condição de alegoria. “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, é um dos mais famosos, retratando as disputas políticas num país fictício. Mais corajoso do que Glauber foi seu conterrâneo baiano Olney São Paulo, que registrou protestos de rua e levou para a tela em forma de parábola, o que olhe custou primeiro a liberdade e depois a vida.

Os onze filmes que compõem esta lista, se não são os melhores, fazem um diagnóstico de como o cinema retratou a ditadura brasileira. 

1. MANHÃ CINZENTA (1968), Olney São Paulo – Em plena vigência do AI-5, o cineasta-militante Olney São Paulo dirigiu este filme, que se passa numa fictícia ditadura latino-americana, onde um casal que participa de uma passeata é preso, torturado e interrogado por um robô, antecipando o que aconteceria com o próprio diretor. A ditadura tirou o filme de circulação, mas uma cópia sobreviveu para mostrar a coragem de Olney São Paulo, que morreu depois de várias sessões de tortura, em 1978. 

2. PRA FRENTE, BRASIL (1982), Roberto Farias – Um homem comum volta para casa, mas é confundido com um “subversivo” e submetido a sessões de tortura para confessar seus supostos crimes. Este é um dos primeiros filmes a tratar abertamente da ditadura militar brasileira, sem recorrer a subterfúgios ou aliterações. Reginaldo Faria escreveu o argumento e o irmão, Roberto, assinou o roteiro e a direção do filme, repleto de astros globais, o que ajudou a projetar o trabalho. 

3. NUNCA FOMOS TÃO FELIZES (1984), Murilo Salles – Rodado no último ano do regime militar, a estreia de Murilo Salles na direção mostra o reencontro entre pai e filho, depois de oito anos. Um passou anos na prisão; o outro vivia num colégio interno. Os anos de ausência e confinamento vão ser colocados à prova num apartamento vazio, onde o filho vai tentar descobrir qual a verdadeira identidade de seu pai. Um dos melhores papéis da carreira de Claudio Marzo. 

4. CABRA MARCADO PARA MORRER (1984), Eduardo Coutinho – A história deste filme equivale, de certa forma, à história da própria ditadura militar brasileira. Eduardo Coutinho rodava um documentário sobre a morte de um líder camponês em 1964, quando teve que interromper as filmagens por causa do golpe. Retomou os trabalhos 20 anos depois, pouco antes de cair o regime, mesclando o que já havia registrado com a vida dos personagens duas décadas depois. Obra-prima do documentário mundial. 

5. O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (1997), Bruno Barreto – Embora ficcionalize passagens e personagens, a adaptação de Bruno Barreto para o livro de Fernando Gabeira, que narra o sequestro do embaixador americano no Brasil por grupos de esquerda, tem seus méritos. É uma das primeiras produções de grande porte sobre a época da ditadura, tem um elenco de renome que chamou atenção para o episódio e ganhou destaque internacional, sendo inclusive indicado ao Oscar. 

6. AÇÃO ENTRE AMIGOS (1998), Beto Brant – Beto Brant transforma o reencontro de quatro ex-guerrilheiros, 25 anos após o fim do regime militar, numa reflexão sobre a herança que o golpe de 1964 deixou para os brasileiros. Os quatro amigos, torturados durante a ditadura, descobrem que seu carrasco, o homem que matou a namorada de um deles, ainda está vivo –e decidem partir para um acerto de contas. O lendário pagador de promessas Leonardo Villar faz o torturador. 

7. CABRA CEGA (2005), Toni Venturi – Em seu melhor longa de ficção, Toni Venturi faz um retrato dos militantes que viviam confinados à espera do dia em que voltariam à luta armada. Leonardo Medeiros vive um guerrilheiro ferido, que se esconde no apartamento de um amigo, e que tem na personagem de Débora Duboc seu único elo com o mundo externo. Isolado, começa a enxergar inimigos por todos os lados. Belas interpretações da dupla de protagonistas. 

8. O ANO EM QUE MEUS PAIS SAIRAM DE FÉRIAS (2006), Cao Hamburger – Cao Hamburger, conhecido por seus trabalhos destinados ao público infantil, usa o olhar de uma criança como fio condutor para este delicado drama sobre os efeitos da ditadura dentro das famílias. Estamos no ano do tricampeonato mundial e o protagonista, um menino de doze anos apaixonado por futebol, é deixado pelos pais, militantes de esquerda, na casa do avô. Enquanto espera a volta deles, o garoto começa a perceber o mundo a sua volta. 

9. HOJE (2011), Tata Amaral – Os fantasmas da ditadura protagonizam este filme claustrofóbico de Tata Amaral. Denise Fraga interpreta uma mulher que acaba de comprar um apartamento com o dinheiro de uma indenização judicial. Cíclico, o filme revela aos poucos quem é a protagonista, por que ela recebeu o dinheiro e de onde veio a misteriosa figura que se esconde entre os cômodos daquele apartamento. Denise Fraga surpreende num papel dramático. 

10. TATUAGEM (2013), Hilton Lacerda – A estreia do roteirista Hilton Lacerda na direção é um libelo à liberdade e um manifesto anárquico contra a censura. Protagonizado por um grupo teatral do Recife, o filme contrapõe militares e artistas em plena ditadura militar, mas transforma os últimos nos verdadeiros soldados. Os soldados da mudança. Irandhir Santos, grande, interpreta o líder da trupe. Ele cai de amores pelo recruta vivido pelo estreante Jesuíta Barbosa, que fica encantado pelo modo de vida do grupo. 


11. BATISMO DE SANGUE (2007) – Apesar do incômodo didatismo do roteiro, o longa é eficiente em contar a história dos frades dominicanos que abriram as portas de seu convento para abrigar o grupo da Aliança Libertadora Nacional (ALN), liderado por Carlos Marighella. Gerando desconfiança, os frades logo passaram a ser alvo da polícia, sofrendo torturas físicas e psicológicas que marcaram a política militar. Bastante cru, o trabalho traz boas atuações do elenco principal e faz um retrato impiedoso do sofrimento gerado pela ditadura.




***




SOBRAL PINTO E PRESTES: DUAS VIDAS QUE SE CRUZAM

GERALDO PEREIRA -

Para o companheiro Francisco Soares de Souza, sindicalista e líder frentista, admirador de Sobral Pinto.

Agradeço a Jorge Amado ter conhecido o admirável e saudoso ser humano que foi Heráclito Fontoura Sobral Pinto, de quem me tornei amigo, amizade que durou mais de 4 décadas, décadas de lições aprendidas para não desaprender jamais.

Heráclito Fontoura Sobral Pinto era mineiro de Barbacena, onde nasceu em 05 de novembro de 1893. Estudou na Faculdades de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, em 1917 estava formado. Sua banca de advocacia entra em atividade em 1919.

Faleceu, no Rio de Janeiro, em 30 de novembro de 1991, deixando bem mais pobre a sua Pátria e o seu povo. Com o seu desaparecimento perdeu o Direito a sua grande voz, a liberdade o seu amante amantíssimo, dedicado que lhe foi extremamente fiel.

Sendo o segundo maior advogado que o Direito brasileiro produziu em toda a sua existência (o primeiro foi Ruy), transformou a sua Banca de Advocacia e Saber numa policlínica popular, para todos os doentes, em todas as épocas que necessitassem de liberdade.

Por lá passaram, além de Luís Carlos Prestes, Graciliano Ramos, Adauto Lúcio Cardoso, Juscelino Kubistchek, Carlos Lacerda, Miguel Arraes, Hélio Fernandes, Mauro Borges, Carlos Marighela, Francisco Julião, Gregório Bezerra, Oswaldo Pacheco, Luís Tenório de Lima e uma infinidade de vítimas do arbítrio que se instalou no Brasil, em 1937, com a ditadura de Getúlio Vargas  e em 1964, com o golpe militar contra o governo João Goulart.

Tínhamos a mesma paixão, paixão pelo América do Rio de Janeiro: pertencemos durante anos ao seu Conselho Deliberativo.

Nunca vi o velho Sobral mais alegre do que quando o clube do nosso coração levantou o campeonato carioca de 1960. O vi extremamente triste, indignadíssimo quando o Conselho ao qual pertencíamos aprovou o nome do General Médici, então presidente da República, como presidente de honra do nosso América. Ele esteve ausente dessa reunião. Na reunião seguinte  compareceu. Foi à tribuna, fez um violentíssimo discurso contra o ato e contra o ditador, perguntou: “Quem foi o responsável por esse ato? SE eu estivesse aqui teria impugnado essa proposta e teria votado contra. O América não precisa disso!”

Vivíamos uma ditadura cruel, o próprio Sobral Pinto havia sido preso e jogado brutalmente no camburão, na cidade de Goiânia.

Após o discurso, deixou o plenário, acompanhei-o até a sua residência, na Rua Pereira da Silva, no bairro das Laranjeiras, onde morou por mais de 75 anos. Despediu-se de mim dizendo: “Não piso mais no América”.

Já tentei diversas vezes escrever sobre Sobral Pinto, sem citar Luís Carlos Prestes, coisa absolutamente impossível. Essas duas existências, esses dois grandes homens tiveram suas vidas interligadas. Prestes, marxista, ateu, Sobral Pinto, líder católico, apostólico romano, conservador, anticomunista, ambos nos deram exemplos de dignidade humana diária. Sobral Pinto, aos 95 anos, ainda trabalhava para viver. Prestes, deixo que sobre ele fale o mestre Sobral Pinto: “Por maiores que sejam as suas culpas, há nele alguma coisa de grande e elevado. Se ele tivesse pensado somente em si, como aconteceu com o Góis Monteiro, o Getúlio, o Juarez, e tantos outros, seria estas horas General do Exército brasileiro, e quiçá, Ministro da Guerra. Em 1930, não lhe faltaram oferecimentos, os mais sedutores. A tudo resistiu, porém, para ficar fiel às suas ideias, erradas e funestas, é verdade, mas adotadas e seguidas com rara sinceridade”.

Na ditadura de Getúlio não tinha um advogado com coragem suficiente para defender Luís Carlos Prestes. Sobral Pinto assume a sua defesa, a batalha é travada em favor de Prestes e, também, para salvar a sua filha Anita Leocádia, nascida num campo de concentração da Alemanha nazista, para onde fora enviada Olga Benário Prestes, sua mãe.

Antes, em 03 de junho de 1936, o advogado Heitor Lima ingressou na Suprema Corte, como era chamado o Supremo Tribunal Federal, com um pedido de 'Habeas Corpus', em favor de Olga, a fim de evitar a sua expulsão do Território Nacional. Na petição ele apela para o presidente da Corte, Ministro Edmundo Lins,  que "o presente pedido se processe sem custas"... “Por que a paciente se encontra absolutamente desprovida de recursos. O vestido que traz hoje é o mesmo que usava quando foi presa; e o pouco dinheiro os valores e as roupas que a polícia apreendeu na sua residência não lhe foram restituídas e que faça submeter a paciente a uma pericia médica, no sentido de precisar seu estado de gravidez". Olga estava grávida de sete meses.

O pedido é indeferido. O advogado Heitor Lima vai à replica: “Se a justiça masculina, mesmo quando exercida por uma consciência, do mais fino quilate, como o insigne presidente da Corte Suprema, tolhe a defesa a uma encarcerada sem recursos, não há de a história da Civilização brasileira recolher em seus anais judiciários o registro dessa nódoa: a condenação de uma mulher, sem que a seu favor se elevasse a voz de um homem no Palácio da Lei. O impetrante satisfará a despesa do processo. Rio de Janeiro, 04 de junho de 1936. Heitor Lima, advogado.”

As custas do processo totalizaram 14$800 (quatorze mil e oitocentos reis).
O processo foi julgado e a decisão pela Suprema Corte, em 17 de junho de 1936 foi a seguinte:

Nº 26155 – Vistos, relatados e discutidos estes autos de habeas corpus, impetrado pelo Dr. Heitor Lima, em defesa de Maria Prestes, que ora se encontra recolhida à Casa de Detenção, afim de ser expulsa do território nacional, como perigosa à ordem pública e nociva aos interesses do país.

A Corte Suprema, indeferindo não somente a requisição dos autos, do respectivo processo administrativo, como o comparecimento da Paciente e bem assim a perícia médica afim de constatar o seu estado de gravidez, e atendendo que a mesma Paciente é estrangeira e a sua permanência no País compromete a segurança nacional, conforme se depreende das informações prestadas pelo Exmo. Sr. Ministro da Justiça; atendendo a que em casos tais não há como invocar a garantia constitucional do habeas- corpus, a vista dos dispositivos  artigo 2, do Decreto nº 702, de 21 de março deste ano;

ACCÓRDA, por maioria, não tomar conhecimento do pedido.

Custas pelo impretante.

Corte Suprema, 17 de junho de 1936.
Edmundo Lins, presidente, Bento de Faria Relator.

Uma decisão vergonhosa e mesquinha que cobriu de vergonha todos os membros daquela Corte. Entregar aos carrascos nazistas uma mulher grávida de 7 meses, casada com um brasileiro.  A sessão foi  presidida pelo ministro Edmundo Lins, com a presença de todos os ministros, componentes da mesma, a saber: Hermenegildo de Barros, vice-presidente; Bento de Faria, relator; Eduardo Espínola, Plinio Casado, Carvalho Mourão, Laudo de Camargo, Costa Manso, Octávio Kelly, Ataulpho de Paiva e Carlos Maximiliano. A decisão da Suprema Corte foi a seguinte: "Não conheceram ao pedido contra os votos dos ministros Carlos Maximiliano, Carvalho Mourão e Eduardo Espínola, que conheciam e indeferiam”.

Olga foi metida no navio La Coruña, que partiu do Rio de Janeiro, em 23 de setembro de 1936; chegando a Hamburgo em 18 de outubro. É imediatamente entregue aos seus carrascos, levada para prisão feminina nazista de Barnimstrasse, onde dá à luz a uma menina, em 27 de novembro de 1936, que recebeu o nome de Anita Leocádia. Ficando com a filha, na fase de amamentação até os 14 meses.  Depois a menina é entregue à Dona Leocádia mãe de Prestes, sua avó, que se encontrava na Europa, lutando, clamando pela liberdade do filho.

Graças à solidariedade recebida conseguiu salvar a criança das garras das bestas nazistas.

Em março de 1938 Olga é transferida para o campo de concentração Lichtenburg, sendo um ano após levada para outro campo de concentração, esse só de mulheres, o Ravensbrück, onde como cobaias serviam para experiências médicas. Olga foi assassinada em 1942 no campo de extermínio de Bernburg, onde centenas de milhares de judeus tiveram o mesmo fim.


Geraldo: Dr. Sobral e a expulsão de Olga?

Dr. Sobral: Se eu fosse  advogado de Olga, Olga não teria sido expulsa, não teria sido expulsa!

O advogado escolhido foi o Heitor Lima, era a coisa mais simples desse mundo. O Código Civil Brasileiro, declara no artigo 6º que a personalidade humana, começa com o nascimento, mas, a lei assegura e garante desde a concepção o direito do nascituro, ela estava grávida de 7 meses, grávida de quem? De um brasileiro, ficou grávida onde? No Rio de Janeiro, território Nacional, então aquele feto era brasileiro, sendo brasileiro não podia ser extraditado porque a lei de extradição, de expulsão, não permite que o brasileiro seja expulso ou extraditado. O brasileiro que pratica um crime no estrangeiro vem para o Brasil, a Nação pede ao Brasil para extraditar, o governo não pode extraditar. Compromete a processá-lo aqui, mas não extradita, ele não manda. Uma das partes tinha que ter isso. A Lei não permite a expulsão de brasileiro e esse feto é brasileiro. Era canja isso e o advogado não fez isso.

Geraldo: E o senhor não poderia orientá-lo?

Sobral: Nem eu sabia, só vim a saber depois, porque isso foi em setembro de 36, e eu só fui advogado do Prestes em janeiro de 1937. Eu fui convidado pelo Tragino Ribeiro presidente da Ordem dos Advogados, ele bateu à  porta de 6 advogados, alguns dos quais, supôs ele que fossem comunistas ou esquerdistas, ele me disse eu procurei aqueles que pensei que por suas idéias tinham obrigação de defendê-lo, mas todos eles recusaram. Ele então foi para um católico e o católico recusou em nome do catolicismo, nessa altura, ele louco, o juiz a exigir indicação de um nome. Ele então vai a mim e diz: “Sobral, não é possível que a Ordem não tenha...” eu disse “Não! Você está sendo generoso, porque a lei autoriza você indicar e ninguém pode recusar, e se recusar você pode suspender. O Conselho suspende, está na Lei. Você está sendo generoso. Mas esse católico não sabe o que é a caridade cristã. Ele não conhece o evangelho: “Aquele que é do reino de Deus tem que ser amigo, não só do amigo, não só do amigo, mas do inimigo.”

Fazer bem àquele do qual recebeu o mal está no Evangelho, isso que Santo Agostinho resumiu numa frase lapidar: “Odiar o pecado e amar o pecador”.

Geraldo: Dr. Sobral, após o senhor ser indicado pela Ordem, como foi o seu primeiro encontro com Prestes, na condição de seu advogado?

Sobral: Eu fui a primeira pessoa com a qual ele se entendia após a prisão. Ele tinha sido interrogado pelo juiz do Tribunal de Segurança que tinha o processo dele. Foi apenas interrogado e saiu.

A primeira pessoa com quem ele conseguiu falar francamente fui eu.

Então ele durante uma hora e meia, numa exaltação tremenda, ele atacou o governo, atacou o Tribunal de Segurança, atacou o tratamento brutal que lhe estava sendo aplicado em incomunicabilidade rigorosa, atacou a Ordem dos Advogados, atacou a mim dizendo o que é que eu poderia fazer se o senador Chermont havia requerido um habeas corpus ao Tribunal, com autorização do Senado estava preso e sendo processado. “O que é que o senhor um ‘advogadozinho’ pode fazer?”. E naquela uma hora e meia de um discurso extraordinariamente exaltado, nesse discurso muita coisa era verdade. Muita coisa não era, então, ele me proibiu de apresentar a defesa.

Geraldo: Como se deu a aproximação do senhor com a Dona Leocádia, mãe do Prestes?

Sobral: No dia que eu entrei com a petição ao Tribunal, em defesa do Prestes, eu fui à prisão onde ele se encontrava, para lhe entregar uma cópia, mandei levar. Eu não fui ao quarto dele, porque foi uma coisa desagradável, o que tinha acontecido antes.

Ele levou mais de meia hora e pediu para vir à minha presença, o comandante autorizou. Ele veio com dois guardas, um de cada lado. Diz-me: “Eu queria perguntar ao senhor, se o senhor realmente entrou com essa petição?” Eu respondi: “É evidente que sim. Eu não seria capaz de trazer ao senhor, palavras que não teria apresentado ao Tribunal, sobretudo ao senhor que não tem meios de verificar se entrei. O senhor não tem ninguém em contato, a única pessoa em contato com o senhor sou eu.” Peguntei: “Por que?” Respondeu-me: “A petição está muito bem feita, sobretudo, muito corajosa. Meus parabéns!”

A censura esqueceu de avisar os jornais, que não publicassem nenhuma defesa no Tribunal de Segurança Nacional. Um comunista pediu uma certidão dela e levou para o jornal ‘O Radical’. O jornal publicou, na primeira página. E outro comunista, marinheiro francês, mandou para a dona Leocádia, que se encontrava em Paris. Ela leu a petição e se entusiasmou. Escreveu ao Prestes dizendo: “ tenha confiança no doutor Sobral. Não há motivo para recusar a sua defesa”. Ele mudou de orientação e aceitou a minha defesa.

A correspondência entre ela e Sobral Pinto é constante, em 19 de março de 1937, ele dá ciência ao Ministro da Justiça, José Carlos de Macedo Soares, através de uma carta sua: “Honrando o apelo angustioso que Dona Leocádia Prestes me dirige, do seu penoso exílio, passo às mãos de V.Exa. a carta que ela, aflita e esperançada, escreveu ao senhor Ministro da Justiça do Brasil. Católico e patriota, eu me honro com o desempenho desta missão, de que me vi investido pela veneranda Mãe de Luís Carlos Prestes. Tudo farei, na medida das minhas energias morais e da minha capacidade profissional, para evitar que o Governo bárbaro e odiento de Hitler pratique a monstruosa iniquidade de tirar das mãos de sua mãe uma tenra criança de 10 meses. Se me dirijo agora a V.Exa., na qualidade de advogado ex-officio de Luís Carlos Prestes, é porque não posso alijar da minha convicção a certeza de que cabe ao Governo brasileiro a maior responsabilidade desse crime contra os direitos da maternidade, que ora se prepara, fria e cruelmente no recinto de uma prisão da outrora e gloriosa Germânia. Como admitir, assim, justificativa para o ato do Governo Brasileiro, que entregou, consciente e deliberadamente Olga Benário Prestes à vingança do racismo odiento e perseguidor de Hitler. Cruzar as autoridades brasileiras, os braços ante a iniquidade que ora se projeta levar adiante contra um coração materno, num dos presídios políticos da Alemanha, é procedimento que não se compreende que a consciência cristã profliga”.

Respondendo a outra carta recebida de Dona Leocádia diz o notável jurista, que um delegado de polícia vai falar com Prestes, na Casa de Correção para saber “em que País, e em que data Luís Carlos Prestes teria se casado com Olga Benário Prestes. Das respostas do filho de V.Exa. é que irá depender a situação da menina Anita Leocádia”.

Antes foi a luta para encontrar um Tabelião a fim de lavrar a escritura pública de reconhecimento, por parte de Luís Carlos Prestes, de sua filha Anita Leocádia. Sobral Pinto bateu às portas de quase todos os cartórios e só encontrou o medo e a má vontade. Isto sem falar em alguns membros do Partido Comunista que não se mostravam satisfeitos com a sua atuação no processo. A esse respeito escreve: “Consolo-me, porém, com as declarações do filho de V.Exa. feitas de público, de que ‘estando cercado na Polícia Especial, só de vermes, apareceu-lhe, afinal, um homem’.

Este homem fui eu.” Mais adiante, na sua defesa oral, acrescentou Luís Carlos Prestes: “O senhor Sobral Pinto exerce a advocacia como um sacerdócio”.
O prazo para o reconhecimento da paternidade de Anita Leocádia praticamente está no seu final, Sobral Pinto consegue um Tabelião e envia diretamente à Gestapo uma certidão com a respectiva versão alemã da escritura de reconhecimento da menor Anita Leocádia.

O que pouca gente sabe, o que o Brasil precisa saber é que esse documento pelo qual Sobral Pinto tanto lutou, foi ele que salvou a menina das garras odientas da Gestapo.

Em outra carta datada de 12/05/1937, Sobral Pinto escreve para dona Leocádia: “Exma. Sra. D. Leocádia Prestes. Obtive ontem, finalmente, autorização do Chefe de Polícia, para entregar ao seu filho os objetos que me remeteu para tal fim. Hoje, se Deus quiser, irei até a Polícia Especial para, na presença do Comandante dessa Força, passar às mãos de Luís Carlos Prestes as roupas e objetos de uso que ele estava realmente necessitado. Parece incrível que a supressão das liberdades tenha atingido, no Brasil, a tais extremos que um advogado precise fazer as peregrinações a que tive que me entregar para conseguir dar a um preso político algumas roupas que a sua velha mãe, também exilada lhe mandara de longas terras.”.

Pergunto ao Dr. Sobral: - “O Prestes só se comunicava com a mãe através do senhor? Ele tinha liberdade de ler jornais e livros?”.

O velho mestre, com a memória privilegiada, responde: “Eu estabeleci uma correspondência permanente minha com a dona Leocádia e consegui que o juiz do processo estabelecesse uma correspondência semanal do Prestes com a mãe. Ela, primeiramente, em Paris, depois, com a Segunda Grande Guerra Mundial, em 1939, ela veio para o México, ele semanalmente escrevia à Mãe e recebia uma carta dela. Eu consegui também para ele a assinatura do Jornal do Comércio e do Correio da Manhã, ele recebia diariamente esses dois jornais. Consegui também a autorização para o Prestes receber livros, ele chegou a ter mais de mil volumes na prisão onde se encontrava, na Casa de Correção, na Frei Caneca.”

Geraldo: O senhor esperava absolver o Prestes e os seus companheiros da revolução comunista?

Sobral: Eu não podia de forma nenhuma tentar obter a absolvição por duas razões muito simples: A primeira é que o Prestes e o Berger tinham declarado à Polícia, quando foram pegos, que eram os organizadores da Revolução de 35. De modo que eles assumiram nobremente a responsabilidade por ela.

Em segundo lugar a polícia ao prendê-los e ao prender, também, o Bonfim, que era o secretário do Partido Comunista, a polícia ficou com todo o arquivo dessas personagens. Ela tinha a prova concreta e documental da participação deles de modo que não podia pensar em absolvição.

O que eu pretendia e tentei fazer em relação ao Berger e ao Prestes era obter uma condição de pessoa humana que lhes estava sendo negada pelas autoridades policiais da época, considerava ambos como se fossem uns animais hidrófobos.

Prestes estava em incomunicabilidade rigorosa. Colocado numa prisão sem livros, sem jornal e o Berger num socavão de escada, como se fosse um cão hidrófobo. Então eu tinha a obrigação de tentar para que eles fossem colocados numa prisão condigna, numa prisão a altura da sua situação de pessoas humanas, membros da família humana, isso era o que achava que devia fazer.

Geraldo: Foi dada a situação desumana na acepção da palavra em que se encontravam o Berger que fez o senhor pedir para ele a Lei de Proteção dos Animais?

Luiz Carlos Prestes, Maria Prestes e Sobral Pinto. Arquivo: Google
Sobral: O Berger estava num socavão de escada, a lei de proteção aos animais não permite que se coloque o animal numa situação imprópria para sua natureza.

Alguns utilizavam o exemplo do cavalo. O cavalo precisa de espaço, se colocar o cavalo numa baia sem poder sair, sem poder correr, depois de um certo tempo ele começa a entristecer, sem querer comer, ele acaba morrendo.

Colocar um homem num socavão de escada com acesso para o primeiro andar, pela qual dia e noite desciam e subiam os soldados e com uma grade externa e frontal, era positivamente uma monstruosidade. Era a prática de um ato criminoso até para um animal, quanto mais para um ser humano. Eu levei 6 meses para conseguir tirá-lo desse lugar. Quando eu consegui me entender com ele depois dele já estava preso há mais de um ano nessa situação, ele já estava um pouco perturbado. Eu consegui que um médico psiquiatra fosse examiná-lo. O médico me disse que ele a perturbação que ele tinha, era perturbação da situação é dada a situação que se encontra, se for retirado agora, desse local, ele ainda pode salvar-se, pode readquirir o seu juízo perfeito, mas se ele continuar pode se agravar e ai é irremediável a loucura e foi o que aconteceu, quando eu o tirei ele estava inteiramente perturbado.

Com a anistia concedida por Getúlio Vargas, em 19 de abril de 1945, próximo ao término da Segunda Grande Guerra Mundial, Luís Carlos Prestes, depois de cumprir nove anos de prisão, é anistiado com os demais presos políticos.

Já em liberdade, Prestes dá uma entrevista coletiva à Imprensa, pregando a União Nacional com Getúlio e também a "Constituinte com Getúlio".

Uma semana após, mais precisamente, em 28 de abril, Sobral Pinto escreve a Luís Carlos Prestes: “... o respeito que lhe devo, a amizade que nos une, a magnitude do assunto, e os altos interesses do Brasil não me permitem guardar silêncio em face da sua atitude, corporificada nessa entrevista de ontem. Julgo-me, assim, no dever indeclinável de lhe expor, com franqueza e sinceridade o que eu penso da sua atitude de agora, não só no que diz respeito ao seu futuro, mas, também, no que se refere ao futuro da vossa Pátria.

Quero fixar, de inicio, a posição dramática em que me encontro. Sou seu advogado ex-officio, até ontem, vivemos juntos e solidários oito longos anos de sofrimentos, inquietações e incertezas permanentes, animados sempre, todavia, pela certeza da vitória final contra a prepotência sombria e brutal da ditadura do Sr. Getúlio Vargas, que oprimia, com desrespeito às prerrogativas de homem, a dignidade do próprio cidadão brasileiro. Nada valho, nada sou, modesto obreiro do Direito, minha vida se vem processando em lutas cotidianas, ásperas e bravias, em prol do reinado da Justiça. A nada aspiro, senão lutar pela liberdade, efetiva e real, no seio de nossa Pátria. Eis porque, magoado e triste li sua entrevista. Ora, capitão Luís Carlos Prestes, para que possamos chegar ao Brasil ao entendimento dessa natureza, é indispensável que nós não nos aproximemos do Sr. Getúlio Vargas.”.

Nas eleições de dois de dezembro de 1945, Prestes se elege senador pelo Distrito Federal, antiga capital da República, como se chamava a cidade do Rio de Janeiro.

Eleito para o mandato de cinco anos, como senador, Prestes só cumpriu dezoito meses. Vivíamos o governo do General Eurico Gaspar Dutra, um governo arbitrário na acepção da palavra, para ele não havia Constituição. Ele agia como um subalterno do governo americano, fiel cumpridor de todas as suas ordens: Intervir nas entidades sindicais de esquerda; prender, espancar e processar seus dirigentes; proibir comícios do Partido Comunista, empastelar seus jornais, cassar o registro do Partido Comunista e os mandatos dos seus parlamentares. “Prestes levou meses sem aparecer no senado, mesmo sem ter sido cassado”, me diz Sobral Pinto.

O senador Bernardes Filho avisou ao Dr. Sobral que a política estava esperando Prestes no Senado para prendê-lo, Dr. Sobral de imediato comunicou o Prestes, através do Capitão Rolemberg. Uma certa tarde, Prestes chega ao senado, faz um discurso de alguns minutos e foi embora.

Quis saber por que o Dr. Sobral nunca se candidatou a cargo eletivo, ao que ele respondeu-me: “Eu poderia ter-me feito deputado tranquilamente pelo Rio de Janeiro ou por Minas Gerais. Eu tive a oportunidade de ser senador em condições excepcionalíssimas. Em 1947 fez-se a eleição do 3º senador. Lembre-se que a Constituição de 1946 criou só dois senadores, mas no curso de 46 resolveram fazer o terceiro. Então, nessa ocasião três partidos no Rio de Janeiro reuniram-se e me ofereceram a senatoria, dispensando-me dos seus respectivos programas. Foi anunciado isso nos jornais. Nessa época o Partido Comunista era legal. Prestes era senador aqui pelo Rio de Janeiro. O Prestes mandou me convidar através de um grande amigo dele e meu, o comunista Rolemberg (oficial do Exército que foi expulso do Exército e voltou pela anistia 16 anos depois). Ele vinha toda semana aqui no meu escritório. Ele veio me consultar se na realidade eu era candidato, porque se fosse o Partido Comunista votaria fechado comigo. Logo que eu vi as noticias nos jornais, comuniquei imediatamente aos três partidos que eu não aceitava, e não aceitava por isso: porque eu não confiava nos partidos, eis a razão porque eu nunca fui nem senador nem deputado.”.

Tanto na ditadura de 1937, como na de 1964, Sobral Pinto foi preso. A primeira na Casa de Detenção, quando o tenente Canepa, seu temível diretor, tentou agredi-lo, chamando-o de mentiroso. "Mentiroso é você", respondeu-lhe o corajoso Sobral.

De outra feita, revoltado com a agressão covarde cometida por meia dúzia de policiais, diante do comandante da polícia especial, coronel Euzébio Queiroz, contra Prestes, Sobral Pinto sai em sua defesa.

O coronel Euzébio Queiroz, era um homem forte e violento, partiu para cima do Sobral Pinto, que era franzino, agarrando-o e rodopiando seu corpo, Sobral agarrou-se ao pescoço do coronel, para não ser arremessado ao chão.

Recordei, certo dia, em casa do Prestes, esse episódio covarde e violento, quando ressaltou Prestes a coragem de Sobral Pinto: "Nesse momento, também, sobrou para ele".

Em 18 de dezembro de 1968, Costa e Silva assina o Ato Institucional nº 5.  Sobral Pinto encontrava-se em Goiânia, para onde fora paraninfar a turma da Faculdade de Direito da Universidade de Goiás.

Geraldo, Goiânia é muito quente. Eu estava de chinelo, sem meias, de manga de camisa, bateram à porta, era um emissário de um importante político de Goiás, que colocava à minha disposição, com total segurança, um carro completamente equipado, com um motorista que conhecia minuciosamente toda a região, inclusive com condições de levar-me para o exterior, pois eu seria preso à tardinha, o que seria uma vergonha para o Estado de Goiás.”

Sobral Pinto agradece o zelo, pela sua pessoa, mas não aceita. Declara para o mensageiro: “Devo dizer que dos 70 bacharelandos, até o momento em que a comissão foi ao Rio de Janeiro, comissão constituída de três bacharelandos, para me dizer que tinham me eleito paraninfo da turma, eu não conhecia o nome de nenhum só desses bacharelandos, nem sabia quem eram. Evidentemente, essas pessoas me convidaram pelo meu passado que não é de covardia, nem de medo, então, nessa hora eu vou dar a esses rapazes uma demonstração de medo e covardia? Em hipótese alguma!”.

“Agradeço muito o seu interesse e do seu amigo, mas, eu fico aqui. Eu apenas não acato a ordem de prisão que querem me dar.”

E realmente, mais tarde o previsto aconteceu.  “Um militar bateu à porta e me disse o seguinte: ‘O presidente da República, Marechal Costa e Silva, mandou ao senhor uma ordem por meu intermédio, para o senhor me acompanhar. ’ ‘Ordens ilegais como essa, eu não as obedeço’, respondi. Então, ele me disse: ‘Nós temos que quebrar o senhor’. ‘Então quebre! Pouco me interessa. Eu não vou absolutamente. Com os meus passos não vou. ’ Eles tiveram que me arrastar, e me jogaram no camburão.”

Levaram-no para o quartel do Exército, em Goiânia e depois para Brasília, onde ficou preso durante três dias.

Sobral Pinto protesta, em carta enviada ao presidente Costa e Silva: "... através do referido Ato, V.Exa. instituiu em nossa Pátria a Ditadura Militar. Sou, Senhor presidente uma das vítimas do Ato Institucional n.º 5. A Polícia Federal de Goiás, invocando o nome de V.Exa. deu-me voz de prisão, ordem que não acatei, declarando que nem V.Exa., nem ninguém, nesse País, é dono da minha pessoa e da minha liberdade. Nada fizera para esta perder.

Recusava altivamente acatar ordem tão absurda e tão ilegal. Mal pronunciei essas palavras, quatro homens de compleição gigantesca lançaram-se sobre mim, como vespas sobre a carniça, imobilizando-me os braços e apertando-me o ventre pelas costas. Em seguida, empurraram-me, como autômato, do quarto ao elevador, onde me empurraram. Deste até o carro, que se encontrava à porta do hotel, fizeram idêntica manobra. Colocado no carro de mangas de camisa, como me encontrava no quarto, conduziram-me a um batalhão, que fica nos arredores de Goiânia. Neste permaneci uma hora mais ou menos. Depois de um atrito com o Comandante da Unidade, que tentou desrespeitar-me, sendo levado ao Quartel da Polícia do Exército, em Brasília, onde fiquei três dias, respeitado pela oficialidade, desde o coronel comandante até o mais modesto dos tenentes.”.

Advogado criminalista, professor universitário, Sobral Pinto não cobrava honorários dos políticos, nem dos pobres, que era a sua grande clientela. “Cobrava de quem?” perguntou-se certa vez Mestre Evandro Lins e Silva.

Com uma tipoia no braço, o advogado Sobral Pinto caminha com Geraldo Pereira pelas ruas do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Arquivo: GP
Na década de 40, para adquirir a carne verde (como se chamava a carne de boi, na época), só no câmbio negro. O chefão do câmbio negro, na cidade de São Paulo, estava com a polícia no seu encalço. Ele é aconselhado a procurar um grande advogado para defendê-lo. O indicado era o famoso advogado carioca Sobral Pinto. Segue para o Rio de Janeiro e procura Sobral Pinto, cujo escritório ficava na Rua da Assembleia e tinha como vizinho de sala outro grande advogado: Evandro Lins e Silva que, tomando conhecimento do caso, disse para o Sobral: “Esse fulano tem muito dinheiro, na hora de cobrar os honorários quem acerta sou eu.” Sobral Pinto concordou, mas pediu ao Evandro que não cobrasse muito.

Essa história quem me contou, rindo muito, foi o saudoso Evandro Lins e Silva.

Sempre que visitava o doutor Sobral, conversávamos longamente, sobre os mais diversos assuntos. Lembro que numa dessas vezes, o encontrei muito preocupado: “Dr. Sobral, se precisar de mim, disponha. Estou vendo que o senhor está muito preocupado.”. Era fim de mês. Ele me respondeu: “Tenho que pagar minha secretária, dona Marlene, telefone, luz...” Digo-lhe, estou indo para São Paulo, se o senhor me autorizar, falarei com Caio Graco, filho de Caio Prado, editor da Brasiliense, muito meu amigo, que pode tirar uma nova edição dos seus livros ‘Lições de Liberdade’ e “Porque defendo os comunistas”, eles estão esgotados. Dr. Sobral concorda.

Em São Paulo, falei com Caio que ficou contentíssimo. Ele na hora telefonou para a Editora Comunicação, de Belo Horizonte e foi  informado que havia uma ponta de estoque de 800 exemplares de um título e 700 do outro, o que impossibilitava que a Brasiliense editasse os referidos livros.
Com o apoio de Luís Tenório e Afonso Delelis, meus amigos, Delelis  era assessor para assuntos sindicais do governador Montoro, chego à presença do governador e lembro-lhe do Congresso da Democracia Cristã, realizado no Uruguai, em 1946, cujos representantes do Brasil seriam Sobral Pinto e Alceu Amoroso Lima, as maiores expressões do catolicismo brasileiro. Sobral telefona para o Alceu e diz: “Alceu, tem em São Paulo um jovem de muito futuro, ele vai com você no meu lugar.”

Esse jovem era André Franco Montoro.

Expus as dificuldades em editar o livro. De imediato ele se prontificou a adquirir todos os exemplares para distribuí-los nas escolas do Estado. Sai dali muito satisfeito. À tardinha já estava no escritório do mestre Sobral Pinto. Dou-lhe a notícia. Ele me encara e com uma impostação de voz, até então, desconhecida por mim, diz: “Montoro não pode gastar o dinheiro do Estado, comprando os meus livros. Não aceito. Você não está autorizado a falar mais nesse assunto, se quiser ser meu amigo.” Não disse mais nada.

Certa tarde, em seu escritório, num longo bate papo, dizia-me que o seu sonho era ser Ministro do Supremo. De imediato lhe respondi: “Dr. Sobral, esse sonho não se tornou realidade porque o senhor. não quis. Não é verdade?”.

Recordemos um pouco a história: Juscelino havia ganho a eleição, em 1955, e as forças mais retrogradas do país queriam impedir a sua posse. Sobral Pinto, com o seu saber e acima de tudo, com a sua reconhecida força moral, o que lhe conferia a mais alta respeitabilidade pública da Nação, saiu em defesa do Juscelino. Foi a ‘pá de cal’, no sonho dos golpistas da UDN.

Ao tomar posse, Juscelino convida Sobral Pinto para ser Ministro do Supremo Tribunal Federal. O velho Sobral, com aquela dignidade que era o seu maior patrimônio, não aceita o convite. Fixando-me bem nos olhos, disse: “Iriam dizer que eu defendi a posse dele para ser ministro. Não! Não podia aceitar.”

Geraldo: Dr. Sobral, para ser um bom advogado é suficiente só estudar o Direito?

Ele respondeu-me: “Não. É preciso ter um temperamento próprio para a profissão, pois a profissão requer luta, a profissão requer trabalho, a profissão requer coragem, a profissão requer esperança, a profissão requer um ideal pela aplicação justa e razoável do Direito. Não basta, portanto, conhecer as leis e interpreta-las. São indispensável todas essas qualidades que eu acabei de enumerar. Um grande advogado não se faz sem esses elementos que eu acabo de apontar. Não é só a razão, não é só a inteligência, não é só a cultura que faz um grande advogado: é também o seu temperamento, é também a sua convicção de que a profissão exige muito esforço, muita coragem, e muita disposição para a luta.”

Geraldo: E com essa idade o senhor ainda precisa trabalhar?

Sobral:“Eu preciso trabalhar porque não tenho rendas. Eu trabalho por necessidade. É claro, é evidente que também por gosto. Eu gosto de trabalhar, eu acho que o trabalho completa o homem. Nosso Senhor quando criou o homem mandou que ele trabalhasse. Então, eu acho que o trabalho é elemento fundamental da existência de todo e qualquer homem, mas, além dessa circunstância eu trabalho porque preciso da renda do escritório, pois não tenho outra para manter e à minha família. Eu trabalho, também, por entender que enquanto tiver saúde, essa saúde que Deus me deu, é minha obrigação trabalhar.”

Geraldo:Dr. Sobral, onde é que o senhor encontra tanta vitalidade?

Sobral: “Geraldo, você pergunte isso a Deus. Eu jamais fiz qualquer coisa para manter a vitalidade que consigo até essa idade. Nunca fiz dieta, nunca fiz regime, nunca tive preocupação em ter um horário permanente em cada dia; a minha vida é inimiga de horários. Eu só tenho duas horas certas: é a hora de me deitar e a hora de me levantar. A hora de me deitar raramente é antes da meia noite; e a hora de me levantar é raramente depois das 6 horas da manhã, as únicas coisas que tenho feito com constância. O mais não é absolutamente resultado de esforço ou de preocupação minha, é única e exclusivamente generosidade e bondade de Deus. Aquilo que sou, aquilo que tenho sido, decorre única e exclusivamente da minha fé em Deus, da minha fé em Jesus Cristo e da minha fé na Igreja como depositária das verdades eternas pregadas por Deus.”

Geraldo: O senhor continua indo as missas aos sábados?

Dr. Sobral: Vou todos os sábados e no domingo eu ouço na televisão.

Geraldo: Seus filhos são católicos.

Dr. Sobral: São Católicos, alguns relaxados, mas, são católicos.




***




UMA HOMENAGEM MAIS DO QUE MERECIDA!

GERALDO PEREIRA -

Dois amigos: Wellington Cantal e Geraldo Pereira.
Se a homens que pela sua coragem pessoal, seu profundo amor a sua Pátria e a seu povo, e acima de tudo pela doação do seu saber, da sua inteligência, sempre colocados em prática na defesa dos mais humildes e necessitados – Wellington Cantal é um desses.

Não fui às justas e merecidas homenagens, que em boa hora a Associação dos Advogados Trabalhistas do Estado de São Paulo, a pouco lhe prestou. Chovia torrencialmente na capital paulista, antes do aguaceiro nos falamos por telefone.

Desnecessário dizer quanto m orgulho em ser seu amigo, seu irmão, seu camarada, nesse mundo desprovido desses belos sentimentos humanos, tão constantes na vida do Cantal.

Para o livro que a muito deveria ter sido editado, sobre a tortura no Brasil, corri parte do nosso país, colhendo depoimentos de bravos (e bravas) lutadores que com rara coragem souberam enfrentar o Golpe Militar de 31 de Março de 64, golpe militar que cometeu todas as arbitrariedades possíveis e imagináveis, invadindo lares a qualquer hora, prendendo, espancando,torturando e assassinando suas vitimas, Cantal foi uma delas.

Recorri ao ‘Baú da Resistência’, é assim que chamo o local onde guardo os depoimentos desses admiráveis seres humanos. Confesso aos leitores da TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE que se constituiu, também, numa tortura para esse jornalista, ouvir essas pessoas. Tenho as filmagens com todas, acredito que possamos publicá-las e presenteá-los em breve, que poderão ouvir e ver o depoimento filmado, em vez de apenas ler o texto.

É uma contribuição nossa para que nunca mais sobre os céus da Pátria brasileira, tal infâmia se repita. (GP)

Wellington Cantal – A convicção de um guerreiro!

Wellington Cantal e Cida Cantal são pessoas simpaticíssimas. Ele cearense, da cidade de Caucaia, antiga Sore, ela paulistana.

Ambos são advogados, ambos são idealistas, ambos têm a mesma visão dos problemas da nossa Pátria e plena consciência de que é preciso coragem e determinação para resolvê-los.

Sou amigo e admirador do Cantal e da Cida, conheço pedaços da provação que ambos passaram por serem idealistas, portadores de nobres sentimentos humanos, usando sempre o seu saber, na defesa dos mais humildes e necessitados. Nesse mundo que vivemos desprovidos desses nobres sentimentos, reflexo da atuação da mídia irresponsável e sem compromissos com o social, propagando nas 24 horas do dia a violência, o sexo e a droga; faturando cada vez mais com essas matérias safadas numa eterna lavagem cerebral, no nosso pobre e sofrido povo.

Cantal fazia Direito em Fortaleza, rapaz estudioso não perdia os eventos culturais da cidade, logo não poderia deixar de comparecer à Conferência, que o famoso jurista, Miguel Reali, proferiu sobre A Teoria Tridimensional do Direito, tendo, no decorrer da mesma, feito algumas perguntas ao conferencista.

Após a conferência, na saída, o professor Joaquim Pimenta se aproximou e disse-lhe: “Jovem, você tem futuro, vá para o Rio de Janeiro”. Cantal respondeu-lhe: “Professor sou pobre, não tenho dinheiro, como é que eu faço?” “Vá, me procure”.

Deu-lhe o endereço de sua residência no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Isso foi em 1957. Joaquim Pimenta se encontrava em Fortaleza a fim de proferir uma conferência, comemorando o centenário de Clóvis Bevilácquia.

O professor Joaquim Pimenta, lecionava na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, era catedrático do Direito do Trabalho.

Foi um dos pais da Lei Sindical, datada de 1931, da Lei de 2/3, essa lei defendia o trabalhador brasileiro, obrigando as empresas estrangeiras instaladas no Brasil, a contratar 2/3 deles, e, também da Lei que presenteou o nosso trabalhador, com a sua Carteira Profissional, da Lei de Convenções Coletivas de Trabalho, de 1932, conforme afirma Mestre Arnaldo Sussekind, de quem foi professor, em depoimento, na sua riquíssima biografia, organizada por seis mãos femininas, Ângela Castro Gomes, Eliana da Fonte Peçanha e Regina de Moraes Morel, intitulada ARNALDO SUSSEKIND – Um Construtor do Direito do Trabalho.

A transferência de Cantal, da Faculdade de Fortaleza para a Faculdade do Rio de Janeiro - coisa inimaginável na época – foi obtida rapidamente, com o apoio do professor Joaquim Pimenta.

Filho de pais pobres, a luta de Cantal pela sobrevivência, no Rio de Janeiro, não lhe foi fácil, nada fácil. Vendedor de publicidade, de máquinas de datilografia, enfim, já estava matriculado, na Faculdade Federal, na capital da República, estudando. Uma vitória! Tinha como professores nomes ilustres como o de Joaquim Pimenta, Roberto Lira, Célio Boja, Hélio Gomes e outros. “A Faculdade do Catete era o esteio dos grandes mestres, ela pagava aos professores mais do que as outras, então todos os professores queriam ser professores lá”, afirma Cantal.

Na cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, visitava os sindicatos tentando vender as máquinas de datilografia. “Já estava no 4º ano quando conheci um grupo de advogados que trabalha para os sindicatos, Everaldo, Martins, José Geraldo Martins, José Maria, esses foram os meus primeiros mestres na advocacia trabalhista, eu fazia as audiências, aprendendo o 'beabá', dai passei a estudar mais o Direito do Trabalho, fiz outros cursos.

Forma-se em 1962, reside no Rio, instala seu escritório na Av. Presidente Kennedy, no centro de Caxias. A defesa dos trabalhadores e dos posseiros o empolga, seu escritório é movimentadissimo, são oito sindicatos de trabalhadores que recebem os seus serviços profissionais. Participa ativamente de atividades culturais e políticas, sem falar na defesa dos posseiros, na luta constante contra os grileiros, que forjavam títulos de propriedade nos cartórios, falsificavam documentos e expulsavam as famílias, famílias de posseiros que já estavam na terceira geração de posse daquelas terras, cultivando-as!

“Os grileiros eram militares, ou filhos de militares, eu era conhecido como advogado da CGT – Central Geral dos Trabalhadores. Quando eu entrava para conversar com o juiz, ele achava que eu atuava para subverter a ordem”.

O pai de um capitão que forjou esse título de propriedade, com um monte de jagunço, passou a expulsar os posseiros.

Eu entrei com uma Ação de Manutenção de Posse. Consegui uma liminar e para fazer cumprir essa liminar foi uma batalha tremenda. O Oficial de Justiça não queria ir. O Delegado de Polícia também não. A liminar precisava ser cumprida. Encontramos uma fórmula: Tinha um delegado de polícia, ele era amigo do Secretário da Segurança Pública, esse delegado era um homem sério, chamava-se Hélio Estrela. Daí, eu conseguir sustar a saída dos posseiros que estavam sendo expulsos por militares. O capitão do Exército, filho desse grileiro foi o que me prendeu em Caxias, o delegado Hélio Estrela, depois, com a Ditadura Militar, foi torturadissimo pelos seus colegas.

Cantal estava no Fórum, em Duque de Caxias, onde presidia a OAB da região, quando uma patrulha do Exército, comandada pelo Capitão Ronald Carvalho, filho do grileiro, o prende e o leva para a Vila Militar.  Lá, é interrogado, logo que chegou.

Com a convicção própria de um homem de bem, de um socialista, nega-se sistematicamente a denunciar seus colegas, companheiros e amigos. O capitão chefe do interrogatório manda levá-lo para cela, isso foi na tarde de sua prisão. Na madrugada trazem-no de volta, a frente do grupo está o filho do grileiro, capitão.

Ronald de Carvalho, que o prendeu. Fixando-me nos olhos, tomado de forte emoção e revolta, com a voz embargada, Cantal lembra-se dos sofrimentos que passou nas mãos desta 'besta-fera' fardada de capitão do Exército brasileiro. “Ele é uma figura que eu não posso esquecer. Torturava com muita frieza. Eu negava que era comunista. Essa confissão era o caminho para entregar outras pessoas, era o primeiro passo. Você confessa que é comunista. 'Mas que organização? ' “Quem eram os membros dessa organização?”

Acabado o interrogatório volta para cela. “De madrugada foram-me buscar. Já fui direto para o pau de arara. Isso era comandado pelo capitão Ronald de Carvalho, um sargento e mais 3 ou 4 soldados. Quando era necessária uma tortura mais sofisticada eles traziam uma equipe da Polícia Civil. Esse pessoal era mais sofisticado na tortura. Eles colocavam o sujeito pendurado, com os pés para cima, amarrados numa viga de ferro, tirava a roupa, enfiava um cassetete no seu anus, eu sai de lá com vários problemas: muito depauperado, magro, com problemas na coluna vertebral, com algumas vértebras quebradas, com essa cicatriz na testa, um tímpano estragado, escuto menos, quase nada, tudo isso sob o comando do Capitão Ronald de Carvalho, que eu vim encontrar depois, depois, muito tempo depois, na minha segunda prisão, aqui em São Paulo.

O meu advogado aqui em São Paulo, foi o Iberê Bandeira de Melo, no Rio o Modesto Silveira. O Iberê me disse: “Cantal, tem um juiz auditor, aqui na auditoria militar, ele quer te ver, chamava-se Nélson, foi seu colega na faculdade.”

“Nós chamávamos ele de Nelsinho, na faculdade. Não me opus. Marcamos. Cheguei com Iberê, o Nélson vem com sua beca de juiz, sentou, estendeu a mão, cumprimentei, ele não falou praticamente nada. Eu estava abatido, ele sabia que eu tinha sido torturado aqui no DOI-CODI. Esse encontro foi na auditoria militar, de repente eu olho para os componentes da mesa, e quem estava lá? O capitão Ronald de Carvalho, como auditor militar, um torturador, capitão há oito, quando da minha primeira prisão, virou coronel auditor militar, era tudo escolhido, era esse sujeito que ia me julgar.”

Pergunto ao Cantal qual seria sua reação se encontrasse o capitão Ronald de Carvalho, ele me responde: “Eu fui muito ajudado aqui em São Paulo por Dom Evaristo Arns, ele tinha uma áurea de Santo, ele passou para mim, alguma coisa espiritual, ele disse para eu não guardar muito ódio, nem rancor, nem mesmo pelos meus torturadores, porque são homens que certamente foram maus filhos, maus encaminhados na vida, porque quem vira torturador perdeu todo valor do ser humano. Se eu encontrasse o meu torturador eu perguntaria: Capitão, o senhor lembra-se daqueles episódios, daquelas torturas, valeu a pena para o senhor? O que é que o senhor lucrou? Eu lucrei mais amadurecimento, mais sabedoria diante da vida. E o senhor? Sua família como é que está hoje? Estão bem. Os seus filhos, soube educá-los?”

“A gente não muda nada com ódio e rancor!”

Cantal, após as torturas no pau de arara, porradas, cassetetes no anus, durante horas e horas, você já sai da sala de tortura estragado e volta para a cela, era madrugada, os companheiros de cela, esboçaram alguma reação?

Ele responde-me: “Geraldo, eu estava numa solitária, para sair da solitária a OAB lutou muito, pois eu tinha direito a uma cela especial como portador de curso universitário. A Auditoria mandou que eu fosse transferido para uma cela especial. O que eles fizeram? Eles pegaram uma cela isolada, fecharam toda ela com material escuro, não entrava uma réstia de luz, me puseram isolado e disseram: “Tai, estamos cumprindo as ordens da Auditoria, essa é sua cela especial”.

“Um colchão no chão e um buraco, pelo qual eu recebia comida. Fiquei um ano sem receber visitas, fiquei um ano sem tomar um banho de sol, passei, sem ler nada, sem falar com ninguém, um ano e pouco preso, na Vila Militar, no REI – Regimento Escola de Infantaria. No dia 13 de dezembro de 1968, foi baixado o Ato Institucional número 5. Foi o dia da maior tortura, eles gritavam: “Pronto! Acabou! A lei somos nós! Foi uma tortura terrível Geraldo, tortura de toda natureza, tudo o que não se pode imaginar".

Um dia, depois que fui para outra cela, um soldado deixou cair um pedaço de jornal, menos da metade de uma folha. Eu li e reli aquilo mil vezes, de outra feita um 'cabo', com dois soldados iam me levar comida diariamente, abriam a porta e me entregavam a comida. Esse cabo esperou que os saldados dessem alguns passos e deixou cair um livro. Era as poesias de Ho Chi Min, o libertador do Vietnã. Levei muito tempo para me lembrar, ou saber porque aquele rapaz fez aquilo! Lembrei-me, ele havia sido meu aluno.

“Como não tinham mais motivo para me torturar, me enviaram para o Regimento Caetano de Faria, da Polícia Militar. Um dia mandaram me buscar, eu pensei que ia começar tudo de novo. Aí me fizeram uma acareação com Arueira, esse elemento era do meio sindical, pertencia ao Partido Comunista, depois passou a ser informante deles, ficou conhecido como informante da polícia, ele dizia que eu era do Partido Comunista. Eu neguei na cara dele.”

“Passei seis meses no Regimento Caetano de Faria, só quando foi descoberto por um promotor, o meu advogado Modesto Silveira entrou com um Habeas Corpus e eu fui libertado. Vou para a clandestinidade, eu sabia que eles iam me buscar de novo, o capitão Ronald de Carvalho não se conformava que eu não tivesse falado nada. Isso é uma derrota para o torturador. Isso é uma derrota para o torturador, a maior vingança do torturado é não dar o que o torturador quer!”

“Eu estava fragilizado, não dormia há muito tempo. Os companheiros me mandaram para um clinica, para fazer terapia. O Dr. Saad, médico, membro do Comitê Central do PCB é que me aplicou a sonoterapia, dormi 15 dias”.

A repressão o procura. Alguns companheiros seus já desapareceram nas câmaras da tortura. É preciso tomar todas as precauções. De posse de documentação falsa, Cantal consegue embarcar, no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, seu destino é Paris. Após alguns dias em Paris, segue para Moscou.

“A solidariedade dos companheiros soviéticos foi excepcional. Passei 6 meses no Hospital Central de Moscou. Passei por duas operações”, diz-me Cantal.

Seis meses internado no hospital, duas operações para se recuperar das torturas que lhe foram praticadas, mais de um ano no REI, na Vila Militar, do Rio de Janeiro. Quanto nos entristece saber que as dependências das nossas gloriosas Forças Armadas, Forças Armadas que durante a Segunda Grande Guerra Mundial, comandada pelo saudoso General João Batista Mascarenhas de Moraes, escreveram as suas mais belas páginas, nos campos de batalha da Europa, lutando pela liberdade e combatendo, com rara coragem, o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini. E pensar que os quartéis das Forças Armadas serviam de câmaras de torturas e abrigavam verdadeiros monstros, monstros que prendiam, espancavam e assassinavam covardemente as suas vítimas completamente indefesas. Rubens Paiva, Wladimir Herzog, David Capistrano, Luiz Maranhão, João Massena, são algumas delas. Conheci todas. Quanto isso nos mutila!

Quando deixa o hospital em Moscou, após um período de total recuperação, vai estudar. “Passei cinco anos na União Soviética, fiz doutorado. Eu era um rato de biblioteca, estudava horas, horas e horas. No Brasil se estuda pouco, os que gostam de estudar não têm recursos!”

Cantal encontrou muitos brasileiros em Moscou? Ele responde: “Muitos brasileiros, sul americanos, europeus, eu convivi muito com o pessoal que estava na guerra do Vietnã; companheiros mutilados, sem pernas, pessoal do Laus, pessoal da Guiné, dos Africanos. Do pessoal brasileiro, eu convivi muito, é uma memória saudosa que eu tenho de Gregório Bezerra, um grande líder comunista, tive um convívio muito rico com Gregório, inclusive ajudei-o a datilografar uma parte das suas memórias, quem também trabalhou as memórias do Gregório foi o Ferreira Goulart, ele fazia uma parte eu fazia outra. Convivi com esse pessoal todo. Convivi com o Prestes, a família do Prestes eu fui apanhar no aeroporto. Lá vinha Maria Prestes, com aquela penca de filhos, se eu não me engano eram 7.

“Eu tinha escritório na Senador Feijó, ao lado da Igreja, na Praça da Sé, nosso escritório era no 6º andar, as badaladas dos sinos, as 12 e às 18 horas, não dava 15 metros da minha mesa, eu achava lindo, assisti aqueles sinos badalarem.”

“Eu estava jurado de morte pelo CCC – Comando de Caça aos Comunistas, nós vivíamos numa corda bamba, eu estava no saguão, próximo ao elevador, quando eles invadiram com estrema violência, eu resisti à prisão. Foi o que salvou a minha vida, ter resistido, porque nesse período todo, eles prenderam vários companheiros que desapareceram.”

Meus colegas atravessaram a rua do outro lado estava a OAB, aí requereram Habeas Corpus, e aí legalizaram minha prisão. Quando cheguei no DOI-CODI, o comandante quando viu o meu estado, gritou: “Vocês são uns incompetentes, esse homem era para chegar sem ninguém, saber.” Porque as equipes de 'resgate' agiam de acordo com a pessoa que iriam prender, mas, no meu caso como houve resistência, 7 pessoas do prédio foram para o hospital, sem ter nada a ver com isso, todas quebradas também. Quando eu fui libertado, e voltei ao prédio, uma moça que lá trabalhava me disse: “Eu fui para o hospital, mas eu me vinguei, tá vendo estas unhas aqui, feri a cara de um deles de cima em baixo.”

“Essa reação foi que me salvou a vida, essa reação muitos companheiros passaram a praticá-la. Antes e Marighela e Apolônio Carvalho já haviam resistido.”

Porradas, pau de arara, cadeira do dragão, lembro-me que o líder sindical Antônio Aparecido Flores, meu saudoso amigo, que também como você foi barbaramente torturado, falava-me da tortura com os dois pés em cima de duas latas de óleo, se caísse era espancado por dois torturadores. Você que passou por tantas torturas, também passou por essa?

“Quando eu estava no DOPS, quando houve a Revolução Cravos, em Portugal, eu encontrei de passagem com Flores e o Afonso Deleles e outros dirigentes sindicais que estavam presos. Na minha cela, a cela dos intelectuais tinha alguns professores da USP, presos porque estavam lendo o 'Capital, de Karl Marx”.

“Esse tipo de tortura, foi ensinado pelos torturadores americanos, que vieram em 1972 ou 1974, dar curso em nosso País. Ensinaram alguns métodos a mais, esse, por exemplo, passou a ser muito difundido. Tinha outro: Deixar o cidadão de pé, com os braços erguidos no alto, amarrados numa viga de ferro, isolado do chão, fizeram isso com Neusa, na frente do marido, para variar colocaram ela de ponta cabeça, com os pés amarrados e pendurados numa barra de ferro.”

“Outra tortura, o cidadão fica de pé, com as mãos amarradas, dia e noite, se cair eles batem, batem, batem. Foi o que aconteceu comigo. Houve um momento que eu desmaiei. Levaram-me para o hospital, senão eu teria morrido, porque eu tive uma parada cardíaca”.

Pergunto ao Cantal, quanto tempo ele passou de pé, com as mãos amarradas, erguidas por cima da cabeça? Ele pensa por um certo tempo e responde: “Umas 48 horas seguidas é muito tempo, muito tempo, encapuzado. É uma questão do instinto humano, para não levar pancada. Resistir!

Mais uma pergunta: Como funciona a cabeça da vítima, após receber tanta violência?

“As primeiras horas, você fica muito oscilante entre o desespero e uma tentativa de encontrar o seu ponto de equilíbrio emocional. Para isso você tem que pensar!”

Pensar, refletir e lutar deveria se constituir numa tarefa prioritária da Nação. Não podemos, não queremos que o arbítrio se instale nunca mais sob os céus da nossa Pátria! Que a tortura, os assassinatos cometidos, dentro ou fora da nossas Forças Armadas, nas nossas Forças Auxiliares e nos organismos de segurança civil, nunca mais se repitam.


***
POETAS E POESIAS DE ONTEM E HOJE

GERALDO PEREIRA -

Dinarco Reis foi um protagonista atuante das lutas do nosso povo pela democracia, pela independência e pelo progresso no rumo do socialismo.
Conheci Dinarco Reis há muitos anos. Desde ontem, tento encontrar um livro de sua autoria me presenteado por ele com uma dedicatória fraterna. A letra tremida, escrita com certa dificuldade num intervalo de uma reunião dos homens que pensam o Brasil, aqui em São Paulo na década de oitenta.

Tinha por Dinarco assim como pelos seus companheiros do PCB, David Capistrano, Apolônio de Carvalho e outros que a memória não me ajuda no momento, grande admiração. Eles dedicaram as suas existências com rara coragem na defesa das boas causas, das boas causas não só da sua Pátria, na Espanha também para onde viajaram a fim de defender o governo popular. Estiveram também na França, combateram o nazismo de Hitler, defendendo a Democracia com armas nas mãos, quando os nazistas tomaram Paris, na Segunda Grande Guerra Mundial.

Dinarco era carioca de Vila Isabel, faleceu em 1988, aos 84 anos, no banheiro de sua residência após levar um tombo, sozinho.

No outro livro do Dinarco, “A Luta de Classes no Brasil e o PCB – Volume II”, encontram um belo poema seu, intitulado: “Com a Tua Ausência”, dedicado “À Lygia, por toda uma vida”.

Publicando este pedaço da sensibilidade de Dinarco, resgatamos um pouco a sua memória. Como deixar de presenteá-los aos leitores de POETAS E POESIAS DE ONTEM E HOJE, esse instante em que o grande revolucionário se encontra com a poesia.

Com a Tua Ausência
(Dinarco Reis)

Com a tua ausência como tudo é triste!
Tudo é sombrio, soluçante, mudo...
Em tudo a mórbida apatia existe;
Existe a mágoa torturante em tudo!

Com a tua ausência o sabiá não canta,
Nem voa a abelha no jardim brincando.
As flores gemem de saudades – Lygia!
E a lua passa pelo céu chorando...

Com a tua ausência que aflição, que horror!
Tudo fenece, morre e agoniza.
As brisas choram tua ausência, Flor!
E as flores pedem teu carinho, Brisa!

Tudo definha pela ausência tua.
Tudo soluça desde que partiste.
E a abelha, as flores, a brisa e a Lua.
Dizem: Desde que partiste, como tudo é triste!
À Lygia,
por toda uma vida



***

POETAS E POESIAS DE ONTEM E HOJE

GERALDO PEREIRA -

Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira foi um notável poeta brasileiro, conhecido por integrar o movimento modernista de 1922 com uma poesia que destacava a temática regional de sua terra.
Eu era adolescente, dava os primeiros passos, no salutar hábito da leitura. Corria os sebos do Recife a procura de alguns livros de Jorge Amado, Lima Barreto e Graciliano Ramos. Pechinchava no preço, qualquer desconto servia para pagar a passagem do bonde.

Ascenso Ferreira já estava consagrado como poeta, não só em Pernambuco, no Brasil todo. Figura conhecidíssima na cidade. Alto, corpulento, pesava uns 150 quilos, chapéu de abas enorme, só ele usava um chapéu daquele porte. Era cumprimentado por todas as pessoas, humildes ou não. Ouvi declamar diversas vezes, a sua produção poética: “Eu gostava muito quando ele declamava vou embora pra Catende com vontade de chegar”.

Após fixar-me definitivamente no Rio de Janeiro, sempre que voltava a terrinha, procurava me inteirar da vida cultural da Cidade, estava sempre perguntando pelo poeta. Alguém me informou: “a noitinha ele está sempre no restaurante Lero-lero”, na pracinha. Numa dessas idas vejo o poeta sentado no restaurante, contemplando o tempo, mesa limpa, cadê a cerveja? E o file mignon? Aproximei-me: “Ascenso meu poeta - vou embora para Catende com vontade de chegar”.

Puxei a cadeira, sentei-me. Poeta, podemos tomar uma cerveja antes do jantar, você é meu convidado. Ele se abriu, tomou fôlego impostou o vozeirão:

“A vida é uma promissória, Que tem Deus como avalista.

Venceu. Não há moratória.

O pagamento é a vista”.

Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira e Mário de Andrade na fazenda de Tarsila do Amaral em Santa Teresa do Alto, São Paulo, 1927.
Poema: "Oropa, França e Bahia" (Romance)
Autor: Ascenso Ferreira 

Para os 3 Manuéis:
Manuel Bandeira
Manuel de Souza Barros
Manuel Gomes Maranhão

Num sobradão arruinado, 
Tristonho, mal-assombrado, 

Que dava fundos prá terra. 

( "para ver marujos, 

Ttituliluliu! 

ao desembarcar").


...Morava Manuel Furtado, 

português apatacado, 

com Maria de Alencar!


Maria, era uma cafuza, 
cheia de grandes feitiços. 

Ah! os seus braços roliços! 

Ah! os seus peitos maciços! 

Faziam Manuel babar...


A vida de Manuel, 

que louco alguém o dizia, 

era vigiar das janelas 

toda noite e todo o dia, 

as naus que ao longe passavam, 

de "Oropa, França e Bahia"!


— Me dá uma nau daquelas, 
lhe suplicava Maria. 

— Estás idiota , Maria. 

Essas naus foram vintena 

Que eu herdei da minha tia! 

Por todo o ouro do mundo 

eu jamais a trocaria!


Dou-te tudo que quiseres: 
Dou-te xale de Tonquim! 

Dou-te uma saia bordada! 

Dou-te leques de marfim! 

Queijos da Serra Estrela, 

perfumes de benjoim...


Nada. 
A mulata só queria 

que seu Manuel lhe desse 

uma nauzinha daquelas, 

inda a mais pichititinha, 

prá ela ir ver essas terras 

"De Oropa, França e Bahia"...


— Ó Maria, hoje nós temos 
vinhos da quinta do Aguirre, 

uma queijadas de Sintra, 

só prá tu te distraire 

desse pensamento ruim... 

— Seu Manuel, isso é besteira! 

Eu prefiro macaxeira 

com galinha de oxinxim!


"Ó lua que alumias 
esse mundo de meu Deus, 

alumia a mim também 

que ando fora dos meus..." 

Cantava Seu Manuel 

espantando os males seus.


"Eu sou mulata dengosa, 
linda, faceira, mimosa, 

qual outras brancas não são"... 

Cantava forte Maria, 

pisando fubá de milho, 

lentamente no pilão...


Uma noite de luar, 

que estava mesmo taful, 

mais de 400 naus, 

surgiram vindas do Sul... 

— Ah! Seu Manuel, isso chega... 

Danou-se de escada abaixo, 

se atirou no mar azul.


— "Onde vais mulhé?" 

— Vou me daná no carrosé! 

— Tu não vais, mulhé, 

— mulhé, você não vai lá..."


Maria atirou-se n´água, 
Seu Manuel seguiu atrás... 

— Quero a mais pichititinha! 

— Raios te partam, Maria! 

Essas naus são meus tesouros, 

ganhou-as matando mouros 

o marido da minha tia ! 

Vêm dos confins do mundo... 

De "Oropa, França e Bahia"!


Nadavam de mar em fora... 
(Manuel atrás de Maria!) 

Passou-se uma hora, outra hora, 

e as naus nenhum atingia... 

Faz-se um silêncio nas águas, 

cadê Manuel e Maria?!


De madrugada, na praia, 
dois corpos o mar lambia... 

Seu Manuel era um "Boi Morto", 

Maria, uma "Cotovia"!


E as naus de Manuel Furtado, 
herança de sua tia?

— continuam mar em fora, 

navegando noite e dia... 

Caminham para "Pasárgada", 

para o reino da Poesia! 

Herdou-as Manuel Bandeira, 

que, ante a minha choradeira, 

me deu a menor que havia!


— As eternas naus do Sonho, 

de "Oropa, França e Bahia"...


***

POETAS E POESIAS DE ONTEM E HOJE

GERALDO PEREIRA -

Solano Trindade, nasceu no Recife (PE) em 24 de julho de 1908, foi poeta, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta. No ano de 1934 idealizou o I Congresso Afro-Brasileiro no RecifeFaleceu na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, no dia 19 de fevereiro de 1974.
Companheiro de gostosos papos poéticos e políticos, melhor ainda se fossem regados à cerveja bem gelada, e tira gosto de batatas fritas feita na hora, como ele gostava.

O sabor dos papos eram mais gostosos se tivessem como cenário o "11 da ABI", da ABI que trazíamos no coração. Ai daquele que falasse mal da Casa da Liberdade em nossa presença.

No "11 da ABI", ele costumava chegar antes de mim, e se por um motivo ou por outro não pudesse, ou estivesse muito atrasado, o saudoso Jorge Viana, funcionário exemplar da Casa e "dono do 11", me passava o recado.

Saudade, muitas saudades de Solano Trindade, meu grande amigo, grande poeta, grande copo.

Autêntico Poeta do Povo, morador de Caxias, e passageiro diário de seus trens.

TEM GENTE COM FOME (Solano Trindade)

Trem sujo da Leopoldina

correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome 
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

Há pouco no Recife, na capital do Frevo, no seu Quartel General, no bairro de São José, num boteco simples, meia dúzia de mesas, duas ou três do lado de fora, numa, uma escultura muito bem trabalhada, me chama a atenção.

Em cima de uma mesa, a estátua de corpo inteiro, lá está Solano Trindade, braço para o alto, sua Cidade natal não o esqueceu.

Comovido fiquei, a lembrança e a sensibilidade do Poder Público recifense, interpretando o sentimento popular dos seus habitantes, ergue, num simples boteco, um monumento em homenagem ao seu grande filho.

Saudades também dos memoráveis pileques no "11 da ABI". Quando se andava pelas ruas do Centro da Cidade Maravilhosa, altas horas da noite, absolutamente despreocupado.

Solano, inaugura esta sessão de 'POETAS E POESIAS DE ONTEM E HOJE', que a TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE presenteia aos seus leitores a partir de agora.

Um abraço para todos os internautas.

Boa Leitura!


POEMA AUTOBIOGRÁFICO (Solano Trindade)

“Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs…
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador… 
Ouvi o ritmo das máquinas,
E o borbulhar das caldeiras…
Obedeci ao chamado das sirenes…
Morei num mucambo do “”Bode”",
E hoje moro num barraco na Saúde… 
Não mudei nada…”


CANTO DOS PALMARES (trechos)

“Ainda sou poeta
meu poema
levanta os meus irmãos.
Minhas amadas
se preparam para a luta,
os tambores
não são mais pacíficos
até as palmeiras
têm amor à liberdade”.


***

THEREZINHA ZERBINI – UM ADEUS MUITO SENTIDO

GERALDO PEREIRA -

Estamos mais pobres. Therezinha Zerbini agora é uma saudade. Pouco a pouco, vamos nos despedindo das nossas grandes referências. Como dói essas despedidas!

Prestes, Sobral Pinto, Barbosa Lima Sobrinho, Leonel Brizola, Eusébio Rocha, Osnir Duarte Pereira, Oscar Niemayer, Nelson Werneck Sodré, agora Therezinha!

Therezinha Zerbini e o Professor Geraldo Pereira. Arquivo pessoal.
Josefina me dá a triste notícia, recebida através de um telefonema do nosso estimado Wellington Cantal (outra grande figura humana), na manhã chuvosa do sábado 14/03/15, com um lembrete: “Diga ao Geraldo, que o velório vai até às 14 horas”.

Estou diante do corpo inerte de Therezinha, ela está serena. Vou relembrando a sua luta pela anistia, sua presença cheia de coragem nos movimentos em defesa das boas causas, encorajando a todos com o seu exemplo, sua doação, seu amor à liberdade, sua inabalável convicção de que mais dias, menos dias, o regime de força e do arbítrio, que desgraçadamente tomou conta do País, chegaria ao seu fim.

O regime que durante duas décadas cometeu todos os atos de violência, invadindo residências a qualquer hora do dia e da noite, prendendo, dando surra nas suas vítimas, torturando homens e mulheres de todas as idades, produzindo verdadeiros monstros, treinados e bem treinados, dentro e fora do País, para torturarem de todas as formas, inclusive com choques elétricos nos testículos e nas vaginas, daqueles ou daquelas que tiveram a infelicidade de caírem em suas mãos.

O regime e os monstros por ele fabricados também assassinavam as suas vítimas, conheci pessoalmente muitas delas, patriotas e pais de família exemplares. Como esquecer um Davi Capistrano, um Iran Pereira, um Luís Maranhão, um Vladimir Herzog?

Procuro nos meus artigos e nos meus alfarrábios fotos, gravações, vídeos, a fim de escrever para os nossos leitores uma matéria que lhe permita conhecer episódios da vida dessa brava mulher brasileira, que de nós se despediu, no dia 13/03/15, no hospital Samaritano, na capital paulista, onde há dias estava internada.

Certa vez, entrevistando Therezinha, em sua bela residência, no bairro do Pacaembu, perguntei-lhe a data do seu nascimento, tentei justificar “nunca se pergunta a uma mulher a data do seu nascimento. Mas, você é uma mulher do povo, culta, altamente politizada”, aparteou-me: “E que não é burra. Eu nasci no dia 16 de abril de 1928.” Digo-lhe você está com 81 anos, ela me responde: “81 anos bem vividos. Dei trabalho para muita gente, principalmente para a ditadura. Na quartelada, eles dançaram miudinho comigo. Porque eu me indignei, só não se indigna quem não tem vergonha, eu me indignei tanto, eu nunca tinha feito nada de política. Tem um poeta espanhol que diz: ‘Não há caminho, o caminho se faz ao caminhar’. E no caminhar eu fui aprendendo o pulo do gato, fui aprendendo a incomodar a pisar nos pés deles, eles pisavam tanto nos pés da gente”.

Quero saber de Therezinha qual foi o seu maior orgulho, ela prontamente me responde: “Foi o Movimento Feminino pela Anistia, praticamente ele foi um embrião de toda essa evolução das mulheres. Na verdade, na verdade quem deu chance para a mulher sobreviver, deu espaço foi Getúlio, quando ele deu o título de eleitor para a mulher, a fim de que ela pudesse fazer o concurso público, ela precisava ter o título de eleitor. Então as mulheres adentraram no serviço público, aí foi a sua libertação e ela começa a se sentir gente”.

Peço para Therezinha falar um pouco dela. “Eu nasci na Maternidade Paulista, onde minha mãe vinha do interior dar à Luz. Minha família é de São Manoel do Paraíso. Quando mocinha, meus dezessete anos, fui tuberculosa, eu peguei tuberculose na mocidade.”

Lembro à Therezinha que naquela época a tuberculose era uma doença seríssima, com poucas possibilidades de sobrevivência.

Ela me responde: “Não tinha remédio. Tomei pneumatorax, eu fui cobaia da estreptomicina, uma das primeiras injeções para a cura da tuberculose”.

Como nasceu a política em Terezinha Zerbini?

“Em 1945, eu estava internada no Sanatório Vicentino Aranha, em São José dos Campos, estava havendo um ato público, muitos fogos, muitas bandeiras, a direção do Sanatório permitiu que os doentes fossem para a cidade comemorar”.

Lembro a Therezinha, era a volta dos exilados e presos políticos com os cárceres abertos, após a redemocratização do País, os comícios voltaram às praças públicas, não é verdade?

Ela concorda e diz: “É verdade, eu fui muito sabida e fui junto”. Para mim foi uma surpresa, gente falando, aquele grito parado na garganta, todos soltando o berro. Eu fui achando e dizendo: “É isso mesmo, o povo tem que ir para as ruas, ‘a praça é do povo e o céu é do condor’, como dizia Castro Alves”.

Quando eu estava no Sanatório em São José dos Campos, próximo havia a Cia. Paulista dos Ferroviários, conheci um homem (Therezinha faz esforço para lembrar o seu nome), ele começou a me contar a história do Brasil: Getúlio, as leis trabalhistas, eu fui ouvindo, aprendi tudo muito depressa.


Therezinha, falemos um pouco sobre a ditadura militar. A cassação do seu esposo General Zerbini e da sua prisão, Therezinha chama seu esposo de general. “Quando o general foi cassado, ele ficou seis meses em casa, ele foi cassado em 09 de abril, na primeira lista. Graças a Deus, é como eu digo sempre, para orgulho meu e dos meus filhos, quando eu iniciei a luta pela Anistia, eles diziam que eu era maluca, que eu queria que as pessoas colocassem as cabeças de fora, para ditadura vir e pegar. Eles queriam fazer uma luta pela Anistia, clandestina. Anistia é um Instituto do Direito. Ela tem de ser feita à luz do sol. O mais difícil era convencer as pessoas, que lutar pela Anistia, era tão fácil, como ir aos campos colher uma flor. É um dever. Mas, muita gente morria de medo. Os valentes de hoje, estavam debaixo da cama. O Movimento da Anistia entrou no ABC, através do Benedito Marcilio e de Dom Claudio Hummes, política é um processo e a gente tem que ir construindo com uns tijolinhos”.

Tínhamos chegado de Campos do Jordão e estávamos jantando, o General, eu e minha filha, quando toca a campainha. Como eu atendo cão e gato, pode ser uma hora de necessidade, um precisa ajudar o outro; a Lídia que era uma empregada antiga, diz: “Dona Therezinha, tem aí, um Capitão Guimarães que quer falar com a senhora”. Diga a ele que entre, eu estou jantando, entraram e desceram essas escadas (aponta a escada para mim), como umas feras de metralhadoras nas mãos, o General estava na ponta da mesa, minha filha na outra. Eu os recebi e disse: ‘Capitão, o senhor, por favor, passe para a outra sala, nós estamos acabando de jantar, eu vou mandar passar um cafezinho para servir os senhores. Eu já os atendo. Eles ficaram tão desarmados, que começaram a esconder as metralhadoras. Não sabiam como fazer. Os torturadores, os bandidos, andavam em equipe.

Mais alguns minutos acabamos de jantar. Disse-me o capitão: “Eu vim convidar a dona Terezinha, para ir até a Operação Bandeirantes-OBAN”. O general perguntou ao Capitão: “O que é isso?”, o capitão respondeu: “É um órgão do Exército”. “Ilegal!” Rebateu o general. “Eu não vou discutir com o senhor legalidade”. Disse-lhe, o capitão. O General perguntou ao Capitão: “Onde está o seu cavalheirismo?” Recebeu como resposta: “Não existe cavalheirismo em guerra”. Therezinha, vendo aquele clima, interveio e falou: “Calma, cavalheiros. Capitão, eu terei imenso prazer em aceitar o seu convite”.

“Acompanhei o grupo. Eram quatro, todos de metralhadoras. No furgão estava o Raimundo Pascoal Barbosa, ele era do ‘Partidão’ e estava comigo nessa, porque ele era amigo do Simões. O General estava fazendo filosofia, o Frei Tito dos Dominicanos, também. Um dia o Frei Tito toca a campainha. ‘Sabe o que vim fazer aqui? Dona Therezinha eu preciso de um sítio, nós precisamos fazer um Congresso’. Respondi-lhe, “Eu não tenho sítio, tenho um apartamento em Campos do Jordão”.

Toca novamente a campainha, era o Simões, que me trazia ovos, abóbora, essas coisas do sitio. Ele disse, “Eu tenho o meu e cedo”.

O Tito, muito hábil, disse: “Conversaremos lá fora então.”

 Talvez o leitor não saiba, mas esse sítio ficava em Ibiúna, e foi lá que se realizou o Congresso da Une, onde a Polícia prendeu todos os que lá estavam. A repressão estava atrás dos seus organizadores, daqueles que de uma maneira ou de outra, ajudaram.

“Na primeira vez que fui presa, eles queriam saber quem era o Raimundo, agora encontro ele preso num camburão, cumprimento-o, chamando-o de doutor Barbosa. Quando cheguei presa na OBAN– Operação Bandeirantes, essa fábrica de torturas do Exército, o maior torturador de lá, era filho de um sargento. Era o capitão Albernaz, essa peste tristemente famosa, tipo cafajeste. Dirigiu-se a mim com essas palavras: ‘Hoje a senhora vai falar a verdade, não é?’ Ficou de pé e veio para mim como um tigre. O outro capitão, que estava segurando a minha cadeira, tremeu, esperando um grito mais violento. Eu fiquei de pé, ele veio para cima de mim, aos gritos: ‘A senhora é uma mulher muito arrogante, muito atrevida, não pense que essa panca, de ser mulher de general, isso lhe salva, nós temos métodos científicos para tirar a verdade’”.

Respondi-lhe: “Capitão, eu sei muito bem, quais são os métodos científicos. Quer partir para ignorância. Pode partir e já! Eu gritei na cara dele. Diante da minha reação, eles não esperavam, a equipe dele ficou abestalhada. Eu sou muito ansiosa. Eu confio no meu ódio. Se eu levasse um tapa, uma bofetada, uma porrada bem dada, ai eles teriam que me matar.” Ele ficou branco e gritou: "já para cela, vai para cela...”

Therezinha revive aqueles instantes tristes e dolorosos, qu cobriram de vergonha o Exército de Caxias, de Nelson Verneck Sodré, Andrada Serpa, e de tantos outros patriotas.

Um Capitão do Exército torturando psicologicamente uma mulher sozinha, sem nenhuma defesa, a não ser a sua coragem pessoal, a plena consciência e profunda convicção, de que era preciso reagir, naquele instante de suprema humilhação e em nome do Exército, um Capitão, faltava com o mínimo respeito com uma senhora advogada, esposa de um general.

Ela toma fôlego e continua, noto que há um prenuncio de lágrimas em seus olhos, a voz é cheia de indignação, em grandeza, tem força dramática. Terezinha acabara de representar o próprio drama por ela vivido, na tristemente celebre Operação Bandeirantes- OBAN, a fábrica de tortura e morte, onde monstros, travestidos de seres humanos, eram capazes de tudo, de praticar tudo contra os seus semelhantes, homens ou mulheres, quaisquer que fossem as suas idades. Todas as formas de tortura, desde o pau-de-arara aos choques elétricos nos testículos ou nas vaginas de suas vítimas. Verdadeiros monstros. Pobres diabos!

Therezinha, suas prisões foram demoradas? Terezinha faz os cálculos com a ajuda dos dedos, e me responde: “8 dias na OBAN, depois 18 dias no DOPS. Depois fiquei presa de 18 de fevereiro a 22 de maio, cumpri pena de 6 meses, voltei à prisão para cumprir o restante da pena, o segundo julgamento, fui condenada pelo artigo 38, fiquei de 22 de setembro até a véspera do Natal de 1970. Durante meses Therezinha foi companheira de prisão de Dilma Rousseff.

Therezinha e Dilma Rousseff
A presidente Dilma sentiu profundamente o desaparecimento de Therezinha Zerbini, declarando: “Tive o privilégio de conviver com Therezinha em situações extremas: num cárcere da ditadura, onde nos conhecemos em 1970, e na luta pela Anistia, da qual ela foi pioneira, ao criar, em 1975, o Movimento Feminino Pela Anistia. Therezinha Zerbini simbolizou a coragem da mulher brasileira”.

A última pergunta: Therezinha, você é católica, diga-me quais as grandes figuras de sua Igreja que lutaram contra a repressão? “Sem dúvida alguma, Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns, são homens extraordinários”.




***



BRIGADEIRO RUI MOREIRA LIMA – UM MILITAR CONSCIENTE DOS SEUS DEVERES PARA COM A PÁTRIA!

GERALDO PEREIRA -

Casal Moreira Lima recebeu o jornalista Geraldo Pereira.
Ele nasceu próximo às Cachoeiras do Rio Itaboraí, na cidade de Colinas, no Estado do Maranhão, em 12 de junho de 1919. Nas veias desse velho e exemplar cidadão brasileiro, chamado Rui Barbosa Moreira Lima, correu o sangue que se fez vida, vida que para ele, sempre foi de obrigação e constante vigilância em defesa da pátria, até os 94 anos, quando faleceu em 13 de agosto de 2013, na cidade do Rio de Janeiro, no Hospital da Aeronáutica onde estava internado, há 47 dias, vítima de um Acidente Vascular Cerebral.

Os ensinamentos aprendidos com o seu pai, Dr. Bento Moreira Lima, que era juiz de Direito, na cidade de Caxias, e mais tarde desembargador e presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, moldaram seu caráter. Fui amigo pessoal do major brigadeiro Rui Barbosa Moreira Lima, tinha  por ele e por sua 
esposa Dona Julinha, uma profunda admiração.

Algumas vezes almoçamos juntos em sua residência, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Quantas saudades! Numa dessas gravamos durante quase toda uma manhã e início de tarde  um longo depoimento seu, com o objetivo de  resgatar  para as futuras  gerações episódios, pedaços de uma vida riquíssima de ensinamentos, de coragem,  de heroísmo e profundo amor à Pátria.

Como brasileiro, orgulhoso me senti, quando tive diante dos meus olhos o quadro com as dezenas de medalhas conquistadas pelo Brasil, através dos atos de bravura, do tenente aviador Rui Moreira Lima. Um militar, absolutamente, consciente de sua missão, nos campos de batalha da Europa, durante a Segunda Grande Guerra Mundial. A defesa da liberdade e da democracia, ameaçada pelo nazismo de Adolf Hitler, e do fascismo de Benito Mussolini.

Passado mais de seis décadas, ainda indignado,  cheio de revolta, contra o afundamento dos nossos navios, em águas brasileiras, meu entrevistado, fixando-me nos  olhos, emposta a voz e  com um entusiasmo contagiante   declara: “Fui para guerra como voluntário,  tinha a convicção de que o nazismo era uma miséria  para toda a humanidade. Eu precisava vingar os 32 navios brasileiros que eles afundaram e 998 passageiros que foram sepultados.”

O menino Rui fez o primário, na capital Maranhense. Estava com  seus 14 anos, quando lê num jornal, um artigo violento contra o seu pai. Junto com dois colegas, vai tirar satisfação com o autor do artigo que chamava-se Jorge Caetano de Alencar. Jorge trabalhava com o interventor Vitorino Freire. Com o artigo na mão, vai ao encontro do seu autor e pergunta-lhe: “Foi o senhor que escreveu isso?” “Dei-lhe uma lambada (com um fio), ele me agarrou, me deu uns cascudos, ai eu  comecei a morder a barriga dele, o sangue escorria. O Neiva Moreira, trabalhava no jornal, publicou isso.”

Militar disciplinado, legalista, obediente às instruções recebidas, em  carta enviada pelo pai, cujo conteúdo se tornou 'Vade-mécum', de sua carreira militar. A vitoriosa trajetória do  major brigadeiro Rui Barbosa Moreira Lima foi sempre a serviço da Pátria. A bordo do navio Almirante Jaceguai, no ano de 1934, Getúlio Vargas chegava ao Maranhão. Antes do navio  atracar no porto, chegava a Esquadrilha Aérea – seu cartão de visita – e acordava a cidade, com 3 aviões fazendo acrobacias, levando a população para as ruas. Os aviões eram comandados pelos tenentes da Marinha, Pettl, Kallhl e Menezes.

“Fiquei fascinado com aquele espetáculo e disse ao meu pai 'Eu vou ser militar!' Meu pai respondeu: 'Meu filho não tenho dinheiro para isso.” Em 37 eu fiz exame, não passei. Em 38 fui o 4º colocado entre 3700 candidatos, disputando 200 vagas. Eu sou de uma família de 12 irmãos, meu pai fez questão de formar todos eles. São 2 médicos, 2 engenheiros, 2 aviadores... Em 1939 era cadete, recebe uma carta de seu pai, Dr. Bento Moreira Lima “na época juiz de Direito, da comarca de Caxias, Maranhão, posteriormente, transferido para a comarca de São Luiz, onde terminou sua vida, como desembargador e presidente do Tribunal de Justiça. Teve todas as promoções por antiguidade, nunca teve uma sentença reformada pela instância superior”, com orgulho me diz o major brigadeiro Moreira Lima. A carta do pai lhe serviu de 'Vade-mécum', eis o seu texto:

“Caxias, 31 de março de 1939

Rui

És cadete, amanhã, depois, mais tarde... general. Agora deves dobrar os teus esforços, estudar muito... Obediência aos teus superiores, lealdade aos teus companheiros, dignidade no desempenho do que te for confiado, atitudes justas e nunca arbitrárias. Se um patriota verdadeiro e não te esqueças de que a força somente deve ser empregada ao serviço do Direito. O povo desarmado merece o respeito das forças armadas. Estas não devem esquecer que é este povo que deve inspirá-las nos momentos graves e decisivos. Nos momentos de loucura coletiva deves ser prudente, não atentando contra a vida dos teus concidadãos.

O soldado não pode ser covarde e nem fanfarrão. A honra é para ele um imperativo e nunca deve ser mal compreendida. O soldado não conspira contra as instituições pelas quais jurou fidelidade. Se o fizer, trai os seus companheiros e pode desgraçar a nação. O soldado nunca deve ser um delator, se não quando isso importar em salvação da Pátria. Espionar os companheiros, denunciá-los, visando interesses próprios, é infâmia, e o soldado deve ser digno. Aí estão os meus pontos de vista.

Deus te abençoe."

Quando chegou no Rio de Janeiro, foi morar numa pensão, no Catete. Essa pensão tinha uma porção de noctívagos, era do pai, das irmãs batistas, Linda, Dircinha e Odete, todas cantoras de rádio. Lá moravam os componentes do conjunto 'Quatro Ases e um Coringa' e a dupla 'Joel e Gaúcho'. Só tinha sambistas. No Rio eu morei em diversas pensões, umas 10 ou 15, não dava 'beiço' não, pagava sempre.

Perguntei: “O pai mandava o dinheiro?”, ele responde: “Mandava 200, eu pagava 80 de pensão, 80 de curso, e o resto para ir ao cinema e a praia.”

No Brasil, após o Levante Comunista de 1935, vem o golpe de 1937, após o golpe, a tentativa integralista de derrubar Vargas. No campo internacional, em 39, tem início a Segunda Grande Guerra Mundial. O nazismo alemão, comandado por Adolf Hitler, avança e ameaça a liberdade e a democracia.  Em Realengo, os cadetes, da Escola Militar, assistem, por ordem do seu comandante,  “Coronel Fiúza de Castro, no cinema local, um filme alemão, com a presença do Embaixador alemão e outras autoridades. Estavam presentes, também, o comandante e os seus oficiais. Antes, um deles, o Menezes Cortes, que era um tremendo de um nazista, chama a atenção dos cadetes: ‘O filme alemão não está traduzido, mas mostra a pujança, a força do governo desses ilustres visitantes, a anexação da Áustria, que não foi preciso gastar um cartucho, um só tiro.’ Os traidores da Áustria, se venderam para a Alemanha”, me diz indignado o Brigadeiro Rui.

No filme, os alemães entrando na Áustria, com suas bandeiras suásticas, 10 minutos após aparece o Hitler falando. Os cadetes ensaiaram uma vaia “Uu, uu..., fora! Fora! Ditador! Ditador!”. O Menezes Cortes, interrompeu o filme, acendeu as luzes e disse que o comandante estava absolutamente decepcionado com a atitude dos senhores 'quem dá vaia é moleque'. Eu vou apagar a luz e vou passar o filme novamente. Eu quero ver quem é que vai dar vaia.”

Foi uma vaia federal quando o Hitler começou a falar novamente, uma vaia que acabou com o ambiente. Ai fomos levados para a escola e o Menezes Cortes, pequenino, andando entre nós “Eu quero saber quem foi que começou essa vaia. Porque o cadete de Caxias não pode ser um moleque”.Satisfeito, diz o brigadeiro: “Naquele tempo, graças a Deus, não tinha um 'dedo duro', ninguém falou nada. Só se falou nessa vaia quando Neiva Moreira voltou do exílio e dei-
lhe uma entrevista, como estou fazendo com você Geraldo. Isso é para provar que o Brasil não estava de acordo com o governo do presidente Vargas. O governo era 'pro nazi'. Era porque o generais Goes Monteiro, o  Dutra, esse Fiúza de Castro, o Alcio Souto, toda essa turma era nazista”.

Faço ver ao brigadeiro que  Getúlio era ' prisioneiro' dos militares,  não tinha força para discordar deles. Principalmente, da dupla Eurico Dutra e Goes Monteiro.

“Quando eu digo que o Getúlio foi um ditador, ditador igual a todos os ditadores, toda a ditadura é criminosa, você não tem o direito de falar. Mas, o Getúlio tinha uma visão nacionalista, uma visão de estadista. Foi ele que transformou o Brasil rural num País. Quando ele foi eleito, eu fiz parte do gabinete do ministro Nero Moura.” Brigadeiro, falemos um pouco sobre o Correio Aéreo Nacional, criado pelo saudoso brigadeiro Eduardo Gomes.

“O Correio Aéreo Nacional foi a coisa mais útil e a mais nobre que a FAB fez. O índio não conhecia bicicleta, mas conhecia o avião. Muitas vezes trazíamos o índio de uma tribo para outra. Fiz uma missão levando gerador e aparelhos de raio-X, para fazer radiografias e abreugrafias. O Correio Aéreo fez a integração e foi uma experiência muito grande na guerra, pois os pilotos mais antigos tinham horas e horas de voo. Eu fiz 3 mil horas de voo. Passei parte da minha vida voando no Correio Aéreo Nacional.” O senhor também praticou esportes?

“Quando entrei para escola militar, eu nunca tinha praticado atletismo, eu jogava basquete, um pouco de vólei, futebol muito mal. Na escola o campeão de 100m teve uma distensão. O coordenador  do atletismo perguntou quem era que podia correr 100 m, para completar o quadro. Eu perguntei: ' Para correr 100m? Eu corro 100m.'  Ele disse para mim: 'Eu corri no Tiro de Guerra, eu corri no Flamengo... onde o senhor correu?'

Respondi: 'Atrás de boi e atrás de burro, no Maranhão', ele quis me dar porrada. Terminei fazendo o teste, fui o primeiro e passei disso a campeão da Taça Lage – entre a Escola Naval e a Escola Militar. Ai fui para o Fluminense, terminei medalhado em dois campeonatos sul-americanos, um aqui no Rio e outro em Buenos Aires. Ganhei o campeonato lá, fui campeão carioca da Taça Brasil e recordista sul-americano em Buenos Aires.”

Falemos um pouco da Segunda Grande Guerra Mundial. Em 18 de dezembro de 1943, Getúlio Vargas instituiu, o primeiro grupo de Aviação de Caça. O major Nero Moura foi nomeado seu comandante. Em 01/01/44, o tenente Rui Moreira Lima, embarca para o Panamá, passa 3 meses fazendo curso de Caça com os americanos. Recebe seu diploma de Piloto de Caça. Vai para Nova York, onde chega em 04 de julho, permanecendo até  19 de setembro, quando parte, num comboio de 27 navios, para a Itália, a viagem durou 17 dias.  Desembarcaram em Livorno, em 06 de outubro de 1944 e em novembro inicia as operações militares.

A perda de alguns colegas, que como ele pilotando os seus aviões bombardeavam as posições inimigas, era como em qualquer guerra missão de alto risco. “Em 29 de Abril, quase que eu não volto, o avião em baixo de tiros de canhão foi alvejado.” Me disse o Brigadeiro Moreira Lima. A atuação  dos nossos aviadores, nos campos de batalha da Europa, durante a Segunda Grande Guerra Mundial, em 1938/1945, ajudaram e muito as Forças Aliadas a derrotarem o Nazismo de Hitler e o Fascismo de Mussolini. Deveria se constituir em leitura obrigatória nas nossas escolas, a partir do Ensino Médio, constar do seu currículo escolar, a História da Força Expedicionária Brasileira, sua atuação, seus heróis, seus mortos, suas vitórias. O nosso povo não conhece, o que é lamentável e deveria conhecer:  foram  as mais belas páginas escritas  pelas nossas Forças Armadas. 

Quando regressei da Itália, após a guerra tive 40 dias de férias. Fui com minha esposa Julinha  e a minha filha Sônia, estivemos em Caxias, depois em Codó, na sua Estação um cidadão vem ao meu encontro e pergunta-me bem alto: “Tenente Rui Moreira Lima, está me conhecendo?” Respondi-lhe: “Jorge Caetano de Alencar”.  Ele abriu a camisa e gritou: “Ainda tenho no abdome a dentada desse herói!”


COMANDANDO A BASE AÉREA DE SANTA CRUZ

Brigadeiro, o senhor comandou a Base Aérea de Santa Cruz, até a deposição do presidente João Goulart? “Eu estava na Alemanha, quando recebi o convite para comandar a Base de Santa Cruz, aceitei. Ninguém queria aceitar, porque era uma base toda golpista. Foi um momento em que aqueles jovens foram enganados, com essa coisa da 'Marcha de Deus pela Liberdade'. Recebi dois telefonemas, um do brigadeiro Assis, outro do brigadeiro Ramos, colegas do grupo de Caça. 'Rui você vai ficar desmoralizado.' Eu respondi: 'Olha, eu tenho curso de Estado Maior, Curso Superior de Comando, já fiz estágio em Estado Maior e está na hora de receber um comando de uma grande unidade. Eu vou receber, se não der certo eu passo para Reserva, como fez o Lafaiete. Comandei a Base de julho de 1962 a abril de 1964, eram 3 mil homens, cem moravam na Base, setecentos sargentos, todas as minhas ordens foram cumpridas. Meu subcomandante era o Múcio.”

Vamos abordar sobre o Golpe de 31 de março e o presidente João Goulart.

“Eu sobrevoei a Coluna Mourão Filho. Fui o único que sobrevoou a Coluna. Porque estava tudo fechado, eu fui pelo radar. Eu não estava querendo atirar, nem morrer, nem matar. Se o tempo não estivesse como estava, verdadeira tempestade, no dia 31 de março e 01 de abril, estava tudo fechado, não tinha avião no ar. João Goulart tinha largado a Guanabara, onde ele tinha Vila Militar, o Corpo de Fuzileiros, a Base de Santa Cruz, tinha unidades. Ele sem nada dizer foi para Brasília, sem falar com ninguém. Isso são palavras do ministro Anísio Botelho da Aeronáutica. O ministro chamou todos para conversarem com ele no Galeão. Chorando emocionado nos disse: 'Olha, o presidente não quer derramamento de sangue. Ele não quer lutar, então a ordem que eu tenho para vocês é essa: 'Se vier alguém substituir vocês, aqui na base, passe o comando’.” O senhor entregou o comando numa boa, brigadeiro Rui Moreira Lima, sabendo que na Base Aérea de Santa Cruz já se encontrava o seu substituto?

“Ele se dirigiu a mim, com essa expressão: 'Passe o comando dessa merda agora!' Ouviu como resposta: “ Nesta Base, eu fui tenente, capitão, major, tenente coronel e coronel. Só passo o comando  amanhã as 9 horas!” O coronel Saldanha Pires não gostou, alterou a voz e disse: “Passe o comando dessa merda, agora, eu não aceito ponderações”. O Coronel Moreira Lima, no mesmo tom de voz respondeu: “Só vou passar o comando, amanhã às 9 horas.” Exaltado, o coronel Saldanha Pires gritou: “Moreira Lima, vai para a ‘puta que pariu’!” Responde o Coronel Moreira Lima: “Vá você, seu filho da puta!”

Sou o único oficial das Forças Armadas que passou o comando no dia 1º de abril, com a tropa toda em forma, com Boletim, Ordem do dia, corneta, toque, tudo dentro do Regulamento de Continência da Aeronáutica.

Fui preso, colocado dentro do porão do navio Barroso Pereira, passei 3 dias, tinham muitos ratos e baratas. Um colega meu que estava solto, disse para Julinha, minha esposa, procurar o brigadeiro Nero Moura, que foi meu comandante na guerra. Nero Moura, que era amigo do Castelo Branco, telefonou para ele e disse: 'Você conhece o Rui tanto quanto eu. Eu não quero proteção para o Rui, mas os colegas dele estão todos no Princesa Leopoldina e ele no Barroso Pereira.' Imediatamente o Castelo mandou que eu fosse transferido para o Princesa Leopoldina e eu passei mais 49 dias. O comandante era o coronel João Adil de Oliveira, aquele do inquérito do Galeão.

Interrompi: Esse coronel não era mole, foi o chefe do inquérito da tragédia da rua Toneleiro, como ficou conhecido, quando foi assassinado o major Vaz, não é brigadeiro? “Não era mole, mas um sujeito muito digno, muito correto. Ele disse: 'Os senhores estão presos aqui, inclusive se tiver uma ordem eu cedo o telefone para vocês entrarem em contato com suas famílias. Nessa noite que eu cheguei lá, recebi a visita do brigadeiro Aljamar, ele disse-me: 'Coronel Rui, nada foi apurado no inquérito contra o senhor. O senhor vai ser solto. Fui solto. Em seguida fui preso outra vez. Passei cem dias preso. Eu estive preso 256 dias. Geraldo, eu fui preso pra caramba!” O saudoso criminalista Antônio Evaristo de Moraes Filho, entrou com um pedido de Habeas Corpus, no Superior Tribunal Militar, o relator foi o ministro Murguel de Resende, o relato dele foi uma defesa perfeita. O ministro brigadeiro Seco, disse que quem devia estar preso não era o coronel Rui, e sim o colega dele que fez a Revolução de Aragaça. O general ministro Mourão Filho, afirmou: 'Quem devia estar preso era eu e não esse coronel. Eu que sai do meu quartel para depor um governo constituído. Esse coronel passou o tempo todo defendendo a legalidade, está no voto dele.'

O general Brayner, que era o chefe maior do general Castelo Branco, lá na guerra, depois ele brigou com o Castelo, ele fez por escrito o seu voto, lido em 20 minutos, dizendo que eu era um herói, e que eu tinha defendido a legalidade. O brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo, que assinou a minha cassação, votou com o relator. Foi unanimidade. Todos votaram comigo. Eu fui solto na noite desse mesmo dia. O coronel Rui, encontrava-se no escritório da sua firma, na av. Rio Branco, “eram 13 salas, 24 telefones, 32 funcionários, eu tinha uma distribuidora de valores. Dois elementos pedem, na portaria,  para falar comigo. Mandei subir, pensei que eram clientes.

“O senhor é o coronel Rui Moreira Lima? O coronel comandante da PE do Exército, está convidando o senhor para prestar umas declarações.” “É convite dele? Diga a ele que eu não aceito o convite”. “Mas coronel, o senhor tem que ir, temos que levar o senhor lá.” “Vocês dois só? Nós vamos brigar, nós temos que trocar porradas”.

Eles disseram: “É bom o senhor ir”. Abriram a porta e tinham mais dois sujeitos fortes no corredor  e lá embaixo, no carro, mais quatro, todos armados com metralhadoras.

Chamei os brigadeiros que trabalhavam no meu escritório e disse: “Eu estou preso, esse pessoal é do DOI-CODI, estão me levando para a Polícia do Exército. Isso é um sequestro. Brigadeiro Lafaiete, eu estou sendo sequestrado, se vocês puderem me ajudar, me localizem porque eu acho que vou sumir.”

 Quando eu desci, viu o Pedrinho, meu filho, que estava no carro, dei um empurrão no sargento e disse para o Pedrinho: “Vá para casa, fale para a sua mãe, procurar o Wellington, para ele falar com o Sarmento” (comandante do Primeiro Exército). Seguindo orientação do  esposo, preso em local ignorado, dona Julinha, acompanhada do filho Pedrinho, procura falar com o general Sizeno Sarmento, comandante do Primeiro Exército, foi atendida por um major que ao tomar conhecimento da prisão do coronel Rui Moreira Lima, disse que ia comunicar ao general Sizeno. “Vá para casa, minha senhora, a senhora vai ter o seu esposo de volta.”

Caminhava a  viatura policial, a certa altura, um dos policiais diz: “Coronel esta é uma entrada secreta, o senhor tem que botar o capuz.”Era um saco, eu botei. Desci, encostei nos braços dos dois, eles disseram que era a PE, não era, a PE não tem ladeira. Fiquei impassível, levei uma hora e meia, ouvi uma voz, esse filho da puta morreu.

Eu respondi: “filha da puta é você eu estou vivo, mas posso morrer. Eu sou cardíaco.” Mandaram tirar o capuz, eu vi 6 pessoas, todas encapuzadas, para não serem reconhecidos, mandaram novamente pôr o capuz e esvaziar os bolsos.

Fiquei num quarto de 2 metros por 1, colchão de palha de bananeira, eu dormia no chão. A porta dava para privada. A cadeira quebrada.

Recebi a visita do tenente coronel, subcomandante, disse-me ele: “Coronel, eu venho em nome do comandante e quero dizer ao senhor que esse comando não tem nada com isso. O que é que o senhor precisa?”

“Eu quero que o senhor mande colocar uma lâmpada, me arrume um rádio, eu gosto muito de ouvir futebol, quero que o senhor mande alguém no meu escritório porque eu tenho uns títulos para vencer e preciso pagá-los.” Ele respondeu que não podia fazer nada. Eu, então, lhe disse: “Se o senhor é subcomandante e não pode fazer nada, vá embora daqui. Rua! Fiquei 3 dias incomunicável.”

O coronel Rui Moreira Lima estava preso no RegMec – Regimento Mecanizado. Essa unidade do Exército era comandada pelo Coronel Orlando Ribeiro Sampaio, que havia sido seu subalterno no Conselho Nacional de Segurança e também no curso que fizeram na Alemanha.  As autoridades responsáveis pela arbitrária prisão do cel. Rui Moreira Lima levaram 3 dias para descobrir o local onde ele se encontrava preso. Três dias para cumprir uma ordem do general Sizeno Sarmento, comandante do Primeiro Exército que mandava libertá-lo!

No governo Geisel, a relação dos Estados Unidos com o Brasil, não era tão boa, como as relações com a Alemanha. Procurando melhorá-las o governo Ronald Reagan, enviou, ao Rio de Janeiro, jornalistas americanos, com o objetivo de ouvir, alguns dos nossos aviadores, que participaram da Segunda Grande Guerra Mundial. Rui Moreira Lima, medalhado diversas vezes, pilotando o seu avião, nos campos de batalha da Europa, era a figura principal.

Em Brasília, a embaixada americana, ofereceu um Jantar aos nossos militares, com a presença da alta cúpula das Forças Armadas. O Ministro da Aeronáutica, Délio de Matos, mandou um avião ao Rio de Janeiro, apanhar o seu colega Brigadeiro Rui Moreira Lima. O General Walter Pires, Ministro do Exército, presentou o presidente Figueiredo, logo depois passou o General Coelho Neto, “um torturador”, me diz o brigadeiro Rui, que estava sentado, num pequeno grupo, quando dele se aproximou alguém exclamando: “Oh Rui, como vai você?” Respondi: “Quem é você?” “Sou Sampaio”, me respondeu. “Olha, então, disfarça e sai daqui, eu não quero melar a porra desse jantar!”

Orlando Ribeiro Sampaio era o General de quatro estrelas, comandante de Brasília e que quando  coronel comandava o RegMec – Regimento Mecanizado, onde o brigadeiro Rui esteve preso e passou três dias incomunicável. “Ele foi para Alemanha comigo, a pedido meu ao General Amauri Kruel”.Em maio de 2011, num dos auditórios da ABI, no Rio de Janeiro, superlotado, por ocasião da 49ª Caravana da Anistia, o Governo Brasileiro homenageou, através do Ministério da Justiça o major brigadeiro Rui Barbosa Moreira Lima, ele é o Presidente de Honra da Aliança Democrática dos Militares Nacionalistas – ADNAM. O ministro José Eduardo Cardoso presidiu o ato e entregou ao brigadeiro uma certificado com o seguinte texto:

“Certificado

Certifico que Rui Barbosa Moreira Lima é anistiado político brasileiro nos termos da Lei nº 10.4559, de 13 de novembro de 2002. Por meio desta manifestação política o Estado brasileiro reconhece seus atos de resistência contra o regime autoritário e em prol da liberdade e da democracia em nosso País.

Pela anistia política constrói-se a reparação aos que foram violados em seus direitos fundamentais, bem como a memória e a verdade histórica.
Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

Rio de Janeiro, 30 de abril de 2011
José Eduardo Cardozo
Ministro de Estado da Justiça”



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"NOSSOS FILHOS NÃO IRÃO PARA A COREIA". ENTREVISTA HISTÓRICA COM ELISA BRANCO, LUTADORA HEROICA DO POVO


GERALDO PEREIRA -
Elisa Branco e Geraldo Pereira. Crédito: Josefina Belém.
Esse ultimo desfile de 7 de setembro, me fez lembrar de uma personagem da História do Brasil. Se tivéssemos zelo pelos nossos heróis, certamente Elisa Branco seria nome de cidades, ruas e avenidas. Como o Brasil pensante se orgulha de ter produzido uma mulher idealista com a sua coragem, vivendo todos os problemas da sua pátria diariamente, e lutando com rara coragem para ajudar a resolvê-los. Esta entrevista, Elisa me concedeu em fevereiro de 1991, em sua casa, no bairro da Vila Madalena, na capital paulista.

Seus olhos azuis conservam a mesma vivacidade dos anos 50, quando a conheci. Noto no rosto alguns traços da beleza passada. A cabeleira está da cor de prata, mas, firme como de uma adolescente. O timbre de voz é o mesmo, forte de quem fala a verdade, de quem é intima da oratória. As mãos sempre gesticulando, dão ênfase ao pensamento, ao fechamento da frase.

Com seus 79 anos de idade, 60 dos quais dedicados aos movimentos populares, dedicação que lhe custou muitos sofrimentos e dezenas de prisões, sendo numa delas, condenada a 4 anos de 3 meses.

Detentora do Prêmio Stalin da Paz, recebido no Teatro Bolshoi em Moscou, prêmio esse dado a pouquíssimas personalidades do mundo inteiro, Elisa Branco, se tivéssemos um mínimo de respeito pela memória nacional, sua bravura seria lembrada sempre pelo seu passado, pela sua coragem, pelo muito que lutou para que tivéssemos direito a uma Pátria onde a fome e a miséria para sempre estivesse banidas.

Quando da “Guerra Fria” aí pela década de 50, em verdade a “Guerra Fria” teve início logo após o término da Segunda Grande Guerra Mundial, quando os Estados Unidos, de posse da Bomba Atômica, após ter liquidado com o Japão, jogando duas delas em seu território, tentava trazer a Rússia para um confronto, essa, mais tarde, também de posse da terrível arma, pôde falar alto, e, de certa maneira houve um equilíbrio, o que foi bom para toda a humanidade, frustrando os governantes americanos, fazendo com que a terceira guerra mundial fosse adiada.

A bem da verdade, o autor desta matéria, lembra aos leitores que neste intervalo tivemos a guerra da Coréia, onde as perdas de vidas americanas, somaram 33.729. Tivemos também a guerra do Vietnã, onde derrotados e humilhados, os americanos perderam 45.941 soldados na luta, sendo desaparecidos 21.811 e feridos 300.635. O autor desta matéria, lembra também aos leitores, que nenhum dos irmãos do  Presidente Kennedy ou filhos dos presidentes Harry Truman ou de Lyndon Johnson, perderam a vida, serviram de bucha de canhão.

Na guerra do Golfo Pérsico, também, não se tem notícia de que algum filho do ex-presidente George Bush ou de outra alta autoridade americana, estivesse na linha de frente. Elisa Branco recebeu o Prêmio Stalin da Paz pela sua destacada atuação nas lutas contra a guerra. Numa época em que falar de Paz, se constituía num crime hediondo, tanto que ela ao abrir uma faixa de 5 metros no Vale do Anhangabaú, por ocasião do desfile militar de 7 de setembro de 1950, com os dizeres: OS SOLDADOS NOSSOS FILHOS, NÃO IRÃO PARA A CORÉIA, foi presa e condenada a 4 anos e 3 meses de prisão, tendo cumprido 2 anos, em consequência da eficiente e brilhante defesa feita pelo seu Advogado, Dr. Sinval Palmeira, perante o Supremo Tribunal Federal.

Tive oportunidade de visitá-la no Presídio do Hipódromo, na capital paulista, naquela ocasião. Ouçamos Elisa.

Geraldo: Como foi o início de sua militância política?

Elisa: Tem gente que diz assim: Eu nasci comunista. Não digo isso, mas desde tenra idade que tinha ideia. Eu tinha amizade com uma pessoa de Barretos, onde nasci, que defendia até debaixo d’água a Revolução Russa. Era um homem simples, andava descalço, pescava. Ele era português. Minha família também é de portugueses. Em 1930 namorei o meu marido, ele era comunista. Casamos. Minha casa era a casa das reuniões do partido.

Em Barretos, a luta era na clandestinidade. Já na capital participamos ativamente da luta a fim de enviar os nossos soldados, nossa Força Expedicionária para combater a Alemanha nazista de Hitler e a Itália fascista de Mussolini. Getúlio Vargas namorava o nazismo, porém, o movimento de massa foi muito grande e conseguimos fazer o ditador se dobrar. Lembro-me de uma grande companheira que estava à frente dessa campanha: Jovina Pessoa, esposa do cientista Samuel Pessoa, ambos já falecidos, assim como  Caio Prado Júnior, Monteiro Lobado, Antonio Montesano e outros.

Geraldo: Você teve atuação marcante na Federação das Mulheres do Estado de São Paulo?

Elisa: Fui inclusive sua tesoureira. Houve uma época em que a Branca Fialho foi a presidenta. Grande companheira foi a Alice Tibiriça de Miranda, muito culta. Lembro-me de que numa ocasião ela veio fazer uma conferência aqui, nossa sede era no bairro da Liberdade, o tema era a Paz. A polícia invadiu a sede da Federação e logo de cara prendeu Alice, junto com a mulher de um desembargador da Bahia e suas irmãs. A polícia entrou em ação com uma violência dos diabos, acompanhada do Corpo de Bombeiros, uns meganhas desgraçados, não este Corpo de Bombeiros que temos hoje, e, sim, uns homens terríveis. A mim, me deram com um sabre na perna, eu fiquei mais de três meses me tratando. Presas, fomos banidas e levadas de camburão para São Roque, pois eles queriam dificultar o nosso paradeiro. Alice estava muito preocupada com o meu ferimento na perna e exigiu um médico ou farmacêutico. Fomos libertadas 72 horas após.

Geraldo: Você se lembra de quem a feriu na perna com o sabre?

Elisa: Um tirazinho, baixinho, desgraçado, me agarrou e tentou me bater. Eu era muito mais forte do que ele, e quase liquidei o desgraçado. Foi neste instante que levei um golpe de sabre, tendo como consequência passado três meses de sofrimento.

Geraldo: Quantas vezes você foi presa?

Elisa: Não me lembro. Muitas. Muitas. Minhas filhas também. A mais nova, a Horieta, que era a mais falante, parecida comigo, fazia parte da Juventude Comunista. Havia um tira de nome Pasqualão, lá no Ipiranga, um desgraçado, parecia um monstro, ele era grande, forte, não podia ver a Horieta, prendia-a na hora. Cadê a liberdade? Meu marido, não, porque ele sempre foi muito pacato, ele é português.

Geraldo: E na Federação, como era o trabalho?

Elisa: A Federação era uma organização sem cores partidárias. Mas quem topava os trabalhos eram as mulheres comunistas. As demais não entendiam aquele trabalho avançado que desenvolvíamos. Luta pelo Petróleo, pela Paz, contra a ida dos nossos soldados para a guerra da Coréia, contra a carestia. Era trabalho todos os dias. Passeatas, palestras, debates. Um trabalhão.

Geraldo: Você se lembra de alguma mulher candidata em 45 ou 47 pelo PCB, aqui em São Paulo?

Elisa: Não me lembro se tinha mulher. Mesmo porque o Partido discriminava muito a mulher.

Geraldo: A primeira parlamentar comunista da América Latina, Adalgisa Rodrigues Cavalcante, de Pernambuco, deputada estadual, assim como a tecelã Júlia Santiago, vereadora, ambas cassadas em janeiro de 1948.

Elisa: Adalgisa foi muito minha amiga. A Júlia eu conheci quando estive no Recife, aliás, no Nordeste todo a serviço da Federação. Conheci todo esse pessoal. Gente muito boa. Eu tinha ganho o Prêmio Stalin da Paz e fiquei muito conhecida, e conhecia muita gente.

Geraldo: Como recebeu a condenação de 4 anos e 3 meses de prisão, o que alegaram?

Elisa: 4 anos por estar insuflando os jovens soldados do Exército e 3 meses por ter deixando um “tira” em tiras.

Geraldo: E o tratamento que lhe foi dispensado na Casa de Detenção?


Elisa: Recebia visitas uma vez por semana, só do esposo e filhas. Fiz greve de fome, passei 5 dias sem comer. Queriam me levar para o Presídio do Hipódromo. Eu briguei com 6 homens dentro do Xadrez. Eles me levaram na marra. Eu não queria ir prá lá, sabia que existia muitas doenças empesteadas. “Com os meus pés eu não vou”, eu disse para o Diretor. “Ela tem que ir. Ela já se incompatibilizou com o senhor. O jeito que tem é leva-la para o Presídio do Hipódromo”. Respondi de imediato: “Eu não me incompatibilizei com ninguém. Eu não vim para cá porque quis. Prenderam-me. Ele é o diretor dessa casa e não pode se incompatibilizar com preso nenhum”.

Chegando ao Hipódromo, o diretor, que era um Capitão da Polícia, me disse: “A senhora terá tudo que pedir. Visitas, banho de sol, etc, etc. O partido mandou uma máquina de costura para mim e eu ensinei as demais detentas a costurar. Tinha uma alemã que estava presa há mais de 4 meses. Disse-me que era por minha causa; perguntei se fazia parte de algum núcleo da Federação e ela respondeu-me que passava pela Praça da Sé, parou para assistir a um comício relâmpago que pedia a minha liberdade, e a polícia chegou batendo e prendendo. O fato é que ela já estava há meses aguardando o julgamento.

Geraldo: Você recebeu o Prêmio Stalin da Paz. Esse prêmio consistiu em que?

Elisa: Dei tudo ao Partido. Tirei cem dólares para mim, para pagar algumas dívidas e para pagar a Cruzada do Câncer, da qual eu era cobradora. Uma vez a polícia me prendeu e levou todo o dinheiro e os recibos da Cruzada. Tive que pagar, não é?

Geraldo: Foi orientação do Partido para entregar o dinheiro?

Elisa: Numa reunião do Partido entreguei os 24.900 dólares. Estavam lá o Estócil de Moraes e o Arruda Câmara, encarregados das finanças do PCB. Então eles disseram: “Esse dinheiro é seu”. Respondi: “Não. Não quero. Esse dinheiro é do Partido. Não fui abrir faixa para ganhar dinheiro”. Eu fazia parte da Comissão de Finanças e sabia quanto era duro fazer finanças. “Vocês não querem publicas as obras do Stalin? Publiquem-nas com este dinheiro”.

Pergunto ao Norberto, esposo da Elisa, na época com 86 anos de idade, se ele concordou, respondeu-me: “É claro. Eu também estava na luta.”

Geraldo: Como encarregada de fazer finanças para o Partido, você se lembra de algumas pessoas que contribuíram?

Elisa: Caio Prado Júnior, Mário Schemberg, essa turma toda dava dinheiro de montão. Tinha uns industriais que eu visitava muito, inclusive esse Aguiar. O Amador Aguiar era amigão do Partido.

Geraldo: você não está equivocada com relação ao Amador Aguiar?

Elisa: Não. Não. Não. Eu fui a Osasco, muitas vezes visita-lo.

Geraldo: Em que ano?

Elisa: Agora é que é uma barra. Ele ajudou muito o Partido. Ajudou muito. O Estócil de Moraes foi uma vez comigo. O Amadeu Aguiar sempre nos recebia muito bem. Outro industrial que nos ajudava era o pai do Ermírio de Moraes. O Dr. José Ermírio de Moraes. Ele ficava em Sorocaba. Lá, eu só fui uma vez.

Geraldo: Você era uma espécie de vedete?

Elisa: Eu tinha ganho o Prêmio Stalin da Paz, os jornais da reação falaram muito. Tinha sido encarcerada por dois anos. Realmente, havia uma curiosidade concernente à minha pessoa. Afinal de contas, aquela faixa estendida OS SOLDADOS NOSSOS FILHOS NÃO IRÃO PARA A CORÉIA, teve repercussão internacional, e fez recuar o governo que já estava pronto para mandar os nossos soldados, servirem de bucha para canhão, em defesa do imperialismo americano. Jânio era muito amigão nosso. Sempre nos atendeu bem, inclusive como governador. Como deputado estadual propôs uma moção pedindo a minha liberdade.

Geraldo: Você também foi candidata a deputada e a senadora, não é verdade?

Elisa: Na época era necessário um atestado de ideologia, que era fornecido pelo DOPS. O Tribunal Eleitoral nunca concedeu registro para a minha candidatura.

Geraldo: Suas duas filhas sempre estavam ao seu lado, nos movimentos populares. Como estão?

Elisa: A Horieta está no PMDB e a Florita no Partidão. A Horieta está melhor no PMDB do que a Florita no Partidão.

Geraldo: E o Partidão hoje?

Elisa: Uma tristeza. Salva-se pouca gente.

Geraldo: Batiam-te dentro da prisão?

Elisa: Sou honesta em dizer. Nunca apanhei dentro da cadeia. Mas fora, quase me mataram. Eu também batia neles. Como eu sou alta e forte, eu batia para valer.

Geraldo: Além do DOPS você esteve em outras prisões?

Elisa: Certa madrugada, eu disse para o Norberto: “A polícia está aí, levante-se e vai abrir a porta enquanto eu troco de roupas”. Eu estava de camisola. O Norberto foi. Homem é mais fácil, está de pijama, está decente. Eram militares do Exército. “Nós vimos aqui a fim de levar D. Elisa para prestar declarações no OBAN”. Minha mãe levantou-se e perguntou: “Que barulho é esse?”. Eu disse para eles: “Vocês não deixem a minha mãe, perceber que estão me levando presa, porque vocês terão que mata-la primeiro”. Minha mãe era braba. Terrível. Eu puxei a ela. Meu avô foi morto pelos fazendeiros. Minha avó era revolucionária. Passei 4 dias ouvindo gritos e mais gritos de torturas, meninas novas sendo torturadas. Certa manhã, pela portinhola meu cubículo, alguém diz após chamar-me: “Se apronte D.Elisa, que a senhora vai sair”. Respondi de imediato: “Quem é o senhor que vai me levar? Eu não saio daqui com ninguém. Vocês não vão fazer comigo o que fizeram com os outros: leva para o mato e massacra, às vezes até matam”. Ele admirado diz: ‘D.Elisa, a senhora não está me reconhecendo? Eu sou vizinho da sua filha Horieta e do Fernando, eu sou o Capitão Moesi, a senhora se apronte que a sua filha Horieta está à sua espera.’”

Geraldo: Você era uma mulher bonita. Aliava a coragem à beleza. O pessoal também dava muito em cima de você?

Elisa: Cortejam-me muito. Tinham muito respeito dentro do Partido. Só uma vez, um cara que mexeu comigo, deve ter se arrependido muito. Eu ia arrebentá-lo de pancada. Ele dizia: “Que é isso companheira?”.

Elisa com Jorge Amado na URSS.
Enquanto Elisa providência um cafezinho, Norberto me passa às mãos um álbum fotográfico, presenteado pela Associação das Mulheres do Estado de Pernambuco, onde leio a seguinte dedicatória: “À Grande Partidária da Paz, Eliza Branco.” Seguem-se muitas assinaturas, dentre as quais as de Adalgisa Cavalcante e Júlia Santiago, deputada e vereadora, eleitas pelo PCB.

Vou passando as páginas desse álbum. Cada foto tem uma história. numa, Elisa está sendo homenageada em Bucareste pelas mulheres comunistas da Hungria. Noutra, em Moscou, após receber o Prêmio Stalin da Paz. Com saudade, me diz Elisa: “Esta estatueta é a famosa bailarina soviética Gálina Ulanova, ela me presenteou pessoalmente. Gálina é uma pessoa simpaticíssima e muito querida na sua terra”.

“Esta aqui foi tirada em Estocolmo, por ocasião do Congresso Internacional de Mulheres. Da delegação Brasileira, chefiada pela Arcelina Morchel, estava também a Jovina Pessoa, a Branca Fialho, a Eunice Catunda, a saudosa Matilde, ex-mulher de Jorge Amado. O congresso foi uma coisa espetacular, pois tinha delegações de mais de 150 países.

Demoro-me bastante contemplando duas fotos de Elisa, datadas de março de 1953, na residência de Jorge Amado. “Sempre que ia ao Rio, me hospedava lá” me diz Elisa.

“É possível me emprestas estas duas fotos?”. Concorda. Pede-me muito cuidado. “A polícia levou tudo, sobrou este álbum porque não estava em casa.” Foto com Prestes. “Perdemos o maior líder político brasileiro de todos os tempos. Não pude ir ao seu enterro, estava com pneumonia. Senti muito. Chorei muito, muito mesmo”.

Num prospecto, da Comissão Piratininga de Auxílio aos Presos Políticos, uma foto sua, com os seguintes dizeres: “Elisa Batista Branco, mãe exemplar, foi arrancada de entre os seus entes queridos e condenada a 4 anos de 3 meses, por ter em praça pública, protestado contra o envio de nossa juventude para o matadouro da Coréia. Ajudá-la e libertá-la é um dever de honra de todo o povo amante da paz e da humanidade pacífica”.

Me fita atentamente e diz: “Vou à luta. A situação do Brasil piorou, e muito. Esse governo é uma piada, posso ficar de braços cruzados, posso?” Com olhos indagativos, exige de mim uma resposta. “É claro que não, Elisa. É preciso, no entanto, ter cuidado com a saúde.” Responde-me de imediato: “Vou morrer lutando”.




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MEMÓRIAS LITERÁRIAS8.9.15  
GERALDO PEREIRA -
Barbosa Lima Sobrinho , Miguel Arraes, Ariano Suassuna e Geraldo Pereira nas saborosas tardes de tertúlias literárias. Arquivo pessoal.
Marques Rebelo foi o grande retratista da vida carioca, trilhando, sem dúvida alguma, o mesmo caminho daqueles a quem ele sucedeu: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto. Dele me aproximei no final da década de 40, uma paixão nos unia – o América – o conheci na sede do Clube, no bairro da Tijuca, na rua Campos Sales, 118,  título do livro em que ele retrata a história do nosso Clube.

De quando em quando, almoçava com o autor de ‘Marafa’- seu primeiro grande livro - surgido em 1935, recebendo logo dois prêmios e sendo saudado pela crítica.  Conversávamos sobre todos os assuntos, inclusive literários, naturalmente. Num desses ‘papos’ perguntei-lhe: Por que a Academia Brasileira de Letras, da qual ele era membro, não abria as suas portas para dois grandes intelectuais de prestigio, como Gilberto Freyre e Vinícius de Moraes? Respondeu-me rapidamente, com uma só palavra: “Nunca!”.

Fiquei perplexo com a resposta, não me deixando prosseguir com essa perplexidade, ele continuou incisivo, após o ‘nunca’, “Geraldo, você jamais verá na Academia um Gilberto Freyre. Quem é que quer conviver com um homem, com o qual tem que se medir as palavras para falar-lhe? Vinícius, com aquele copo de whisky, não casa com a Academia.

Já vai para mais de meio século, Gilberto e Vinícius estão do outro lado do mundo, e não entraram na ‘Casa de Machado de Assis’.

Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, de saudosa memória, era um intelectual na acepção da palavra, engajado na defesa das boas causas, intelectual participante, presidente da Academia Brasileira de Letras, e da ABI - Associação Brasileira de Imprensa, também, foi decano de ambas. Era um homem simples. Ex-governador de Pernambuco, deputado em diversas legislaturas, era um homem educado, finíssimo, dava expediente diariamente na ‘ABI’, eu tinha pelo ex-governador da minha terra, uma profunda admiração, eu não, o Brasil inteiro, admiração que ele não pediu, conquistou-a, através de uma vida cheia de dignidade e coragem. Barbosa Lima Sobrinho, voz sempre altiva, voz que não se calou, diante do arbítrio militar de 64.

Época houve em que a carona no seu automóvel, quase todos os fins de tarde, me fez mais próximo de mestre Barbosa Lima, no seu gabinete da ‘ABI’, para as tertúlias literárias, que sempre estavam na ordem do dia e no final delas.

Assim como Luís Carlos Prestes e Heráclito Fontoura Sobral Pinto, mestre Barbosa Lima, possuía uma memória privilegiadíssima. Nas tertúlias literárias, o ponto alto era quando ele retirava do seu ‘baú’ fatos e episódios inesquecíveis, da História do Brasil, muitos vividos por ele próprio. Chamava-me a atenção, o seu bom humor, tinha umas ‘tiradas’ que me faziam rir, eu ria e notava que ele ficava satisfeito e prosseguia: “Geraldo, você conhece o poeta Jorge de Lima”, respondi-lhe de imediato: “É claro! ‘Essa Nega Fulô’, o imortalizou, ele é médico tem escritório aqui na Cinelândia”.

Mestre Barbosa me conta um episódio sobre Jorge de Lima. Ele foi vereador e presidente da Câmara de vereadores. Numa sessão tumultuada, com os vereadores exaltados, trocando ‘sopapos’ ele na Presidência, sentado e escrevia de cabeça baixa. Como as coisas continuavam com ameaças, agora de revólver, um vereador apontando a arma para o outro, um dos presentes foi correndo até a presidência da mesa e disse-lhe: “Presidente, o senhor não está vendo, pode sair tiros e mortes?” E o Jorge: “Aonde?”.

O poeta, presidente, estava com as vistas voltadas para o poema que estava sendo feito naquele instante, não podia perder a inspiração.

Quando do funeral do grande saudoso Alceu Amoroso Lima, ocorrido em agosto de 1983, o escritor e notável memorialista Pedro Nava, em pleno Cemitério de São João Batista, ergueu sua voz e disse: “Quem deve substituir Alceu, na Academia é Sobral Pinto, que não deve ser eleito e sim aclamado!”.

A Academia estava totalmente acovardada, escritores e jornalistas, sendo presos, surrados e torturados, e a Academia surda e muda. Não dava uma palavra, parecia que não estava acontecendo nada.

Procurei Sobral Pinto e disse-lhe: “Dr. Sobral, o Brasil precisa do senhor na Academia, o senhor vai fazer a Academia acordar, desse sono covarde, vai denunciar esses atos de arbítrio, pelo qual o senhor também passou”.

Toda tarde o presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, aguardava o seu motorista, sentado num banco, no jardim da ‘Casa de Machado de Assis’. De quando em quando eu passava por lá e batia um ‘papinho’ gostoso com ele. Digo isso ao Dr. Sobral e peço a sua autorização, para falar sobre o seu ingresso na Academia, com o presidente Austregésilo, Dr. Sobral me respondeu que não era escritor, não tinha obras literárias, mas ressaltou que Academia Francesa tinha a figura do ‘Expoente’ de sua Classe. “Mas, eu não sou expoente de minha classe, não sou expoente de coisa nenhuma”.

Despedi-me e disse: “Tá, depois falaremos!”. Dali vinte minutos (a banca de advocacia do Dr. Sobral ficava alguns quarteirões da Academia), estou diante do presidente Austregésilo, que como sempre, estava no mesmo lugar aguardando o seu motorista.  Orgulhoso e contente leio a matéria da Folha, sobre os funerais do Dr. Alceu, dou ênfase, às declarações do Pedro Nava, “Quem deve substituir Alceu, na Academia, é Sobral Pinto, que não deve ser eleito e sim aclamado”.

Falo-lhe da honra da Academia ter em seu seio, um homem como Sobral Pinto, com a sua cultura e a sua coragem. Ele ouviu, sem me prestar, mas prestando muita atenção, disse-me: “Você diz ao Dr. Sobral, se ele quiser entrar para Academia, terá que visitar os acadêmicos e pedir votos, como todos fazem”.

Retruquei: “Presidente Austregésilo, o senhor sabe, o Dr. Sobral não é homem de pedir nada a ninguém, é um homem de altíssima respeitabilidade, sua entrada para Academia, dignifica a ‘Casa de Machado de Assis’”.

Numa dessas tardes, de tertúlia com o mestre Barbosa Lima Sobrinho, lembro esse episódio, ele dá continuidade ao assunto e me diz que Gilberto Freyre queria entrar para Academia, mas fazia questão de ser aclamado. Seria uma grande aquisição à Casa. O que não era possível, e passou a me explicar porquê: “Monteiro Lobato, era o escritor de maior prestígio no Brasil e a Academia o convidou para ser seu membro, ele foi eleito por aclamação. A imprensa deu destaque e a posse dele foi marcada. Seria um grande acontecimento”, me diz o Dr. Barbosa. “Um dia antes da posse, ele passou um telegrama renunciando. Conta-se que o seu amigo o jornalista Júlio Mesquita Filho, teria aconselhado a renunciar, dizendo-lhe: ‘Você vai encontrar Getúlio Vargas, na Academia, o homem que te prendeu?’ Tanto Monteiro Lobato, como Júlio Mesquita Filho, foram presos na ditadura de Getúlio, o jornalista foi, inclusive,  exilado. Por esse motivo a Academia  não mais permitiu  a eleição por aclamação".



***


GETÚLIO VARGAS. UMA REVISÃO NECESSÁRIA

GERALDO PEREIRA –

Na data de hoje, há sessenta e um anos, o saudoso presidente Getúlio Vargas foi levado ao suicídio pelas forças mais reacionárias, que, a serviço do imperialismo americano dispondo de uma imprensa escrita, falada e televisada, ontem como hoje, na acepção da palavra, numa campanha caluniosa até então nunca vista.


Quando atingimos uma certa idade, ela nos faz rever os acontecimentos, pessoais ou não, tornamo-nos proprietários de uma percepção mais ampla, de um poder de análise mais apurado. Sentimos que é verdadeira a sabedoria popular quando afirma que o tempo é o remédio inexorável para todos os males.

Levei grande parte da minha vida, bem mais de meio século, espinafrando Getúlio Vargas, quando não havia motivo, eu criava um pretexto. Escrevi artigos e mais artigos sempre mostrando a face criminosa da sua ditadura, tendo à sua frente o então Capitão Filinto Müller, chefe de polícia do DF, ex-integrante da Coluna Prestes, da qual foi expulso por roubo e covardia.

Na calada da noite a polícia de Filinto Müller retira da casa de detenção Olga Benário Prestes, mulher de Luiz Carlos Prestes: Olga estava grávida de 7 meses, foi metida no porão de um navio de carga, sendo entregue de presente à Alemanha Nazista de Hitler, internada num campo de concentração onde deu a luz a uma menina, sendo depois assassinada na câmara de gás da prisão. Hoje, a filha do produto do amor de Prestes e Olga, Anita Leocádia Prestes, é professora catedrática de História na Universidade do Rio de Janeiro. Esse crime da ditadura Vargas eu não poderia jamais perdoá-lo. Todas as vezes que o nome do ditador era citado, eu citava o assassinato de Olga e espinafrava Getúlio, que, como Presidente poderia ter impedido o embarque de Olga.

Chefe de Polícia da Ditadura, o capitão Filinto Müller tinha sido, como já escrevi, expulso da Coluna Prestes por motivo de roubo e covardia, era nazista, gozava de prestígio com Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra e com Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, mandava mais do que o seu superior o Ministro da Justiça. Com um deles tinha discutido violentamente e há muito não cumpria suas ordens, não sei se com Agamenon Magalhães ou se com Macedo Soares. A coisa foi feia. O Ministro deu-lhe ordem de prisão. O grave incidente chegou ao conhecimento do presidente Getúlio Vargas, que ficou num dilema: sustentar a autoridade do seu Ministro, demitindo Filinto Müller, ou apaziguar o caso para não ferir outros interesses? Getúlio decidiu demitir Filinto Müller e meses após demitiu o Ministro.

Certa tarde um saudoso e respeitável colega, vendo-me fazer uma violenta intervenção verbal, na sede da ABI, sobre o assassinato de Olga, chamou-me a um canto e disse-me: “Você é um jornalista sério, como tal não pode falar sem conhecimento, procure ler o processo de Olga, ele está nos arquivos do Supremo Tribunal Federal em Brasília”. Minhas verdades sobre Getúlio começaram a ser questionadas. Meses após, um outro amigo, o companheiro David Capistrano Filho, na época prefeito de Santos, num dia 24 de agosto, ao me ver, veio ao meu encontro e disse: “Geraldo Pereira (era assim que ele me chamava), li seu artigo de hoje sobre Getúlio, você precisa refazer seu pensamento sobre ele”. Numa palestra que proferi em Belo Horizonte, no Encontro Nacional dos Trabalhadores Hoteleiros, meu fraterno companheiro Francisco Calasans Lacerda, com argumentos irrespondíveis aparteou-me diversas vezes, mostrando quanto foi valiosa a Ditadura de Getúlio para os trabalhadores.

O Grande Oscar Niemeyer, companheiro querido, sempre que o assunto era Getúlio, falava com simpatia sobre o seu governo, realçando o trabalho de Gustavo Capanema à frente do Ministério de Educação e Cultura. Certa tarde, após um gostoso almoço em casa de mestre Barbosa Lima Sobrinho, no bairro de Botafogo, na cidade Maravilhosa, ele com os seus 102 anos de idade e de dignidade, fixou-me, e, com os olhos cansados pela vigilância em defesa da nossa Pátria, declarou-me: “Sabe, Geraldo, cada dia que se passa eu acordo mais Getulista. Getúlio Vargas foi o único presidente que realmente defendeu o Brasil e olhou para o trabalhador”.

Outra grande figura que me fez mudar o pensamento sobre Getúlio, foi Celso Furtado, o filho mais ilustre que a Paraíba produziu, ele, uma década mais velho do que eu, depois de me ouvir por mais de 20 minutos, deu a sentença definitiva: “Geraldo, nossa geração foi educada para odiar Getúlio”.

Carlos Lessa outro mestre da Economia, ex-presidente do BNDES, ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, me falava da importância de Getúlio no desenvolvimento nacional.

Heitor Manoel Pereira, meu saudoso companheiro do Partido Comunista, da década de 40, entrevistado por mim, na sede da AEPET – Associação dos Engenheiros da Petrobras, que ele presidia com raro brilho e dedicação, foi incisivo com relação aos sentimentos patrióticos e nacionalistas de Getúlio.

Nas muitas vezes que estive com o saudoso Cavalheiro da Esperança, Luiz Carlos Prestes, nunca o vi com ódio rancoroso de Getúlio, dizia-me sempre que Getúlio foi o melhor quadro da burguesia. Sem dúvida alguma, Filinto Müller foi o grande responsável pelas violências, torturas e mortes durante a ditadura de Getúlio, ditadura em que Getúlio com extrema habilidade, conseguiu permanecer como presidente, Presidente Ditador.

Uma análise daquela época me permite dizer que o Presidente da República, Getúlio Vargas, sob certos aspectos, era prisioneiro das Forças Armadas, principalmente do Exército, do seu Ministro da Guerra General Eurico Gaspar Dutra e do chefe de Exército General Góis Monteiro, ambos simpatizantes de Hitler, eram anticomunistas declarados.

Com o término da Segunda Grande Guerra Mundial, ocorrido em abril de 1945, o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini foram militarmente derrotados. Da Itália, vitoriosos regressam os pracinhas (militares que retornaram da guerra). Getúlio Vargas, em 19 de abril de 45, assina o Ato anistiando todos os presos e exilados políticos. Os comícios retornam às praças públicas, depois de 8 anos sem liberdade. No momento em que o governo Vargas, vai ao encontro da democracia e da liberdade, afrontando a Nação os generais Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra e Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, juntos com o brigadeiro Eduardo Gomes, líder militar da Aeronáutica, em 29 de outubro de 1945, dá um golpe militar em Getúlio Vargas, depondo-o da Presidência da República. Aquele golpe preparado contra Getúlio em 1937 foi transferido para 1945. Getúlio admirava muito Luiz Carlos Prestes, e foi por ele convidado para chefiar a Revolução da Aliança Liberal, que o levou ao poder, em 1930.

Governava o Rio Grande do Sul, quando a seu convite recebe Prestes, em setembro de 1929, no Palácio Piratini. Prestes estava exilado na Argentina. O encontro durou duas horas. Getúlio, depois de ouvir Prestes atentamente discorrer sobre os problemas do País, declarou: “O Senhor tem a eloquência da convicção”. Foi acertado o envio de mil contos de réis, para a compra de armas. No final do encontro, ao se despedir de Prestes, com o braço no seu ombro, Getúlio disse-lhe: “Fique tranquilo, você não vai se decepcionar comigo”.

Na Argentina, Prestes recebe oitocentos mil pesos uruguaios, cerca de oitocentos contos de réis. “Fiquei num drama: O que fazer com o dinheiro? É o problema do pequeno burguês: devolvo, não devolvo? Comprar a mim, ele não me compra. Acabei depositando o dinheiro num banco. Foi usado em 1935, para a compra de armas”, nos diz Prestes, no livro Prestes – Lutas e autocríticas. Em 1935, Prestes usou esse dinheiro na compra de armamentos para derrubar o governo de Getúlio, com a Revolução da A.N.L. – Aliança Nacional Libertadora.

Em 1937, foi a vez dos integralistas, de Plínio Salgado, tentarem um golpe contra Getúlio, tomando de assalto o Palácio Guanabara. O presidente e os seus familiares dormiam quando o tiroteio começou. Recorro a um personagem que foi testemunha e vítima do “assalto”, a filha de Getúlio Vargas, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, no seu livro ‘Getúlio Vargas, meu pai’: “Papai, pelo menos senta, não fica por aí, servindo de alvo e logo em frente a janela”. Alzira telefona: Filinto Müller atendeu logo e declarou que “assim que fora informado do ataque havia mandado uma tropa de choque, da Polícia Especial, já devia ter chegado...”. “Falei com o Chefe de Polícia novamente, confirmou o prévio envio de tropas e espantou-se que não houvesse chegado ao seu destino”. “Falei com o General Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, que me disse nada poder fazer, porque também estava cercado em seu apartamento”. “Falei com o Sr. Francisco Campos, ministro da Justiça, que transmitia, através do telefone, palavras de solidariedade admirativa e passiva”. “Entrei no gabinete de Papai que continuava às escuras e onde se haviam concentrado as pessoas que estavam desarmadas. Hesitava ainda, escolhendo as palavras, quando a metralhadora recomeçou, uma bala solitária entrou zunindo dentro do gabinete, em direção à cadeira em que Papai costumava sentar para escrever e estraçalhou a encadernação de vários livros, na estante que ficava por trás dele. No dia seguinte, a perícia verificou que havia sido atirada do alto de uma árvore, perto da janela”.

Não se tem notícia de um ditador que tenha olhado mais para os trabalhadores do que Getúlio. Deu-lhe: 1931 – A Lei da Sindicalização – um sindicato por categoria; 1932 – Jornada de 8 horas; Carteira de Trabalho; 1933/36 – Os institutos de aposentadoria; 1939 – Cria a Justiça do Trabalho; 1940 – Salário Mínimo; 1943 – Cria a CLT;

No seu governo a Nação ganhou: Companhia Vale do Rio Doce – privatizada no governo do apátrida Fernando Henrique Cardoso; Companhia Siderúrgica Nacional – privatizada; Petrobras – 40% das suas ações foram vendidas na Bolsa de Valores dos Estados Unidos, no governo do apátrida Fernando Henrique Cardoso; BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Estive no Supremo Tribunal Federal pesquisando todo o processo de expulsão de Olga Benário Prestes, tirei cópia do mesmo. Foi a Suprema Corte, como era chamado o Supremo Tribunal Federal, que autorizou, por unanimidade, a entrega de Olga, grávida de 7 meses aos nazistas. O presidente da Suprema corte era o ministro Ataúlfo de Paiva.



***

MANOEL BANDEIRA. – UMA SAUDADE CONSTANTE!

GERALDO PEREIRA -

1958 - Um registro dos muitos papos entre o Poeta Manoel Bandeira e o jornalista Geraldo Pereira. Fonte: Arquivo Pessoal.
Com o intuito de economizar saúde (necessidade inadiável), pouco sai de casa nesse frio inverno paulista. Aproveitei parte do tempo e debrucei-me sobre as obras completas de Manuel Bandeira, editadas em 1958, pela Aguilar. São dois volumes em papel bíblia, de quando em quando, também consultava Manuel Bandeira - Andorinha Andorinha, seleção de textos coordenados por Carlos Drummond de Andrade, editado por José Olímpio Editora, e lançado, no dia 19 de abril de 1966, em homenagem aos oitenta anos do poeta. Trata-se de um livro carinhosamente organizado por Carlos Drummond - onde o editor declara “a propósito ocorre-nos referir aqui uma confissão que há dois anos nos fazia M.B.: "Não quero morrer sem um dia publicar um livro sobre o Carlos”. Esse Carlos, que em sua Ode, no cinquentenário de Bandeira, chamou-o “O poeta melhor do que nós todos, o poeta mais forte”.

Certo dia eu disse ao Bandeira que o seu poema 'Irene no Céu' sempre que o lia dava um gostoso passeio no passado, ao encontro dos personagens que me fizeram feliz e que hoje são apenas lembranças do passado.

Quando cheguei ao mundo Bia e sua irmã Maria Pequena já estavam morando na casa grande da minha vó, parece que tinham perdido os pais, gente humilde, ela apegou-se muito a mim, dava-me banho, mudava minha roupa, me alimentava, ensinou-me a rezar. Mais tarde, preparava-me o lanche e me levava à escola. Talvez por isso, minha mãe fez dela minha madrinha. Como foi bom ser o seu afilhado! Eu tinha tanto respeito por Bia como por minha mãe. Antes de dormir pedia benção a ambas e beijava suas mãos.

Um dia falei de Bia para Bandeira “eu acho que Irene é muito parecida com Bia”. Ergui a voz e declamei o seu poema ‘Irene no Céu’:

Irene preta
Irene Boa
Irene sempre de bom humor
Imagino Irene entrando no Céu:
- Licença meu branco!
E São Pedro Bonachão:
Entra Irene. Você não precisa pedir licença.

Quem era Irene, personagem do poema de Bandeira? Dou a palavra ao poeta: “Irene era uma preta, que arrumava a minha casa do Curvelo. Passava o ano juntando dinheiro, para vestir-se de baiana de carnaval, nas vésperas da qual, aliás, empenhava umas joiazinhas que possuía. Se já não é viva deve estar mesmo no céu”.

Sempre tive uma imensa simpatia pela produção literária de Manuel Bandeira, e, por ele pessoalmente.

Menino, na Rua da União, no bairro da Boa Vista, no Recife, a casa onde nasceu Bandeira, exercia sobre mim, um fascínio muito grande. Acredito que li centenas de vezes a placa com dizeres alusivos ao poeta.

A exposição de suas obras, acompanhada de muitas fotos, bem como da opinião da crítica, no Recife há sete décadas, também, muito contribui para que essa admiração se ampliasse cada vez mais.

Numa época em que a intelectualidade brasileira se dividia entre a esquerda e a direita, não era fácil para um jovem comunista, recitar Bandeira e ter sempre consigo os seus livros.

A esquerda tinha um time de alta respeitabilidade, onde pontificavam, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Dalcídio Jurandir, Caio Prado Júnior, Álvaro Moreira, Afonso Schmidt. A direita também contava um excelente plantel, Manoel Bandeira, Alceu Amoroso Lima, Augusto Frederico Schmidt, Gustavo Corção, Jorge de Lima, José Lins do Rego, eram dois grupos de respeito.

O sectarismo, a disciplina partidária, não permitia que a nossa sensibilidade poética fizesse ‘propaganda de um inimigo declarado’.

Mais tarde no Rio de Janeiro, conheci o poeta pessoalmente. Magro, usava um aparelho contra a surdez. Trajava-se meio desengonçado, roupas compradas possivelmente nas lojas de crediários. Olhos pequenos, que diminuíam ainda mais diante das fortes lentes.

Sempre o vi andando às pressas pelas movimentadas ruas da Esplanada do Castelo, no centro do Rio de Janeiro. Caminhava o poeta, acredito eu, em busca de uma condução que o levasse à Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil – onde ele pontificava como titular da cadeira de Literatura.

Certo dia encarei. A pressa foi derrotada fragorosamente por um longo bate-papo, com um convite para visitá-lo em seu apartamento da Avenida Beira-Mar, pertinho do aeroporto Santos Dumont, no centro da cidade.

Da primeira vez, o procurei, eram quase 10 horas da manhã. Toco a campainha, vendo o litro de leite junto à porta, disse comigo: “O poeta não está.” Nessa época, a poesia se fazia presente em tudo. O leiteiro deixava o leite, o padeiro deixava o pão, na porta dos seus clientes, o que nos permitia, uma ou outra vez, quando das noitadas, mais por anarquia, nos fartarmos às custas alheias. Bandeira não tinha passado bem à noite, disse-me. Abaixou-se para apanhar o leite, me antecipo. Pergunto-lhe se quer comprar algum remédio: “Estou às suas ordens”. Agradece, e pede-me para passar depois.

Quantas vezes passei, quantos papos batemos, sinceramente não sei. Foram muitos.

Certa manhã, o visito. Estava de partida para o Recife. Dou-lhe conhecimento: “Estou indo para a ‘terrinha’, você quer alguma coisa Bandeira?” Ele agradece e diz que não. Despedimo-nos. Fecha a porta, de imediato, abre-a e me chama. Fixando-me bem nos olhos pergunta: “Geraldo você conhece o Arraes?” Arraes era o prefeito do Recife. Bandeira me informa que o Arraes havia vetado a Lei aprovada pela Câmara Municipal, que autorizava a colocação do seu busto, numa praça no centro da cidade. Senti que Bandeira estava magoado. “Fale com ele”, repetiu. Não falei nada com Arraes, nem sei se teria acesso. No avião a frase do poeta tomava conta do meu subconsciente: “Fale com ele”.

Chego ao Recife. Preciso de alguém que tenha acesso ao prefeito. À tardinha, casualmente, na Praça Joaquim Nabuco, na capital pernambucana, encontro o líder comunista David Capistrano, dirigente máximo do PC em Pernambuco, homem de prestigio e alta respeitabilidade.

Prefeito do Recife só se elegia com apoio comunista. Arraes teve apoio, se elegeu com 70% dos votos dos recifenses.

Eu tinha uma profunda admiração por David, sua biografia me empolgava. Sua coragem e seu amor à Pátria serviam de exemplo.

Falei com David: “Preciso de sua ajuda. Bandeira não é um inimigo do partido, Bandeira é um poeta. É pernambucano, é meu amigo!” David pediu-me para aguardá-lo, naquele mesmo local (uma casa de eletrodomésticos de um simpatizante do partido), no outro dia, na mesma hora”.

Pontualmente, David chega e me diz rindo,  que Arraes vetou a Lei, alegando que o poeta Manoel Bandeira, há mais de 30 anos, não vinha ao Recife.

Getúlio Vargas era o presidente da República, havia assinado o Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, por cujo acordo, teríamos que acompanhá-los nas suas guerras imperialistas, como a da Coreia, por exemplo. Eles estavam exigindo a nossa presença. E os comunistas estavam nas Praças Públicas liderando a campanha contra o envio dos nossos soldados, a fim de não servir de ‘bucha para canhão’.

Elisa Branco, uma líder comunista, ganhadora do ‘Prêmio Stalin da Paz’, foi presa e condenada a quatro anos e seis meses de prisão, tendo cumprido mais de três, visitei-a no Presídio do Hipódromo na capital paulista. Seu crime: abriu uma faixa no Viaduto do Chá, no desfile Militar de Sete de Setembro, com os dizeres “Os soldados, nossos filhos, não irão para Coreia!” Grande e saudosa Elisa Branco, as homenagens desse seu companheiro de lutas. Com esse gesto heroico e corajoso, Elisa salvou muitas vidas dos nossos jovens. É bom lembrar que essa guerra teve início em 25 de junho de 1950 e terminou em 27 de julho de 1953. Morreram três milhões de coreanos e 40 mil americanos.

Havia chegado ao Brasil, encontrava-se ancorado na Baia da Guanabara um porta-aviões americano. Manuel Bandeira fez um poema, saudando a moçada americana. Poeticamente afirmava: “Entre, vá mandando, a casa é sua.” Caímos de pau em cima do poeta.

Há pouco, no Recife, faço um passeio cultural pela cidade, em frente ao Rio Capibaribe, contemplando-o, encontro com Manuel Bandeira. Cabelos bem penteados, sentado, pernas cruzadas, seu olhar está fixo, olhos pequenos que diminuíam ainda mais diante do Capibaribe, Capibaribe que ele cantou tantas vezes e de tantas saudades. A escultura, eu não sei se é de Abelardo da Hora, falecido há pouco, meu companheiro sempre presente nas lutas em defesa das boas causas. O genial escultor pernambucano, cuja arte e prestígio ultrapassaram as nossas fronteiras.

Ontem eu sonhei com o poeta Manuel Bandeira. Estava vestido de branco, e sorria muito para mim. Amanheci alegre e com muita saudade dele.


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SAUDADE DE JORGE AMADO!

GERALDO PEREIRA* -


De Jorge Amado são muitas as lembranças. Debito essas lembranças aos filmes, armazenados no meu subconsciente, filmes revistos com saudades, nesse frio e insuportável inverno paulista, que obriga-me a permanecer em casa a fim de evitar uma forte gripe, irmã gêmea da pneumonia. Na encosta da vida, onde me encontro, não posso correr o risco de deixar Laura, com seus quase nove anos, sem uma orientação segura, para conviver nesse mesquinho mundo capitalista, tão pequeno, tão desumano, produtor, fabricante e vendedor de todas as misérias!

Conheci a obra de Jorge bem antes de tê-lo conhecido pessoalmente, graças ao meu vizinho, que era sapateiro de profissão, na cidade de Recife, no bairro da Torre. Vivíamos a Segunda Grande Guerra Mundial. Em águas brasileiras, os submarinos alemães estavam afundando os nossos navios de passageiros. A revolta na capital pernambucana foi grande. Casas comerciais de alemães e japoneses sentiram o peso dessa revolta. Algumas residências também foram 'visitadas'. Participei desse sentimento de indignação patriótica do nosso povo, em 1942.

Acompanhava as notícias da guerra através do 'Diário de Pernambuco'. Todas as noites, eu lia o mais antigo órgão de imprensa da América Latina, graças ao vizinho sapateiro. Uma noite, ele chamou-me e disse-me: “Tá vendo esse livro, está em espanhol, vamos tentar ler juntos? Você não diga a ninguém, senão poderemos ser presos.” Era 'A Vida de Luís Carlos Prestes', editado na Argentina, pela Editoria Claridad, em 1942. Eu tinha os meus quinze anos, foi um curso de história política e literária, a poesia de Jorge contaminou-me. Apaixonei-me pelos personagens: Luís Carlos Prestes e seu advogado Sobral Pinto. Como sofri com a entrega de Olga, esposa de Prestes, para os nazistas, como odiei o carrasco Filinto Müller.

Mais tarde, em passeata, exigimos que o ditador Getúlio Vargas declarasse guerra aos nazistas. Hoje, sabemos que não foi fácil ao ditador vencer a dupla de generais Eurico Dutra, ministro da Guerra, e Goes Monteiro, Chefe do Estado Maior, ambos grandes admiradores da Alemanha nazista. Sob o comando do general João Batista Mascarenhas de Moraes, nossos batalhões expedicionários foram para os campos de batalha da Europa e lá escreveram as mais belas páginas das nossas Forças Armadas. Derrotados militarmente os nazistas alemães, os fascistas italianos e o exército japonês, regressaram os nossos soldados, o povo brasileiro orgulhoso recebeu os nossos heróis.

Em 19 de abril de 1945, Getúlio Vargas tinha assinado um decreto concedendo anistia. Luís Carlos Prestes e todos os demais presos políticos são libertados. Retornam os exilados: Otávio Mangabeira, Octávio Brandão, Armando Sales de Oliveira, o jornalista Júlio Mesquita e muitos e muitos outros. Os comícios voltam às praças públicas, a prática da democracia é contagiante. Em sentido contrário a essa prática, em 29 de outubro, os generais Eurico Dutra e Goes Monteiro, em companhia do brigadeiro Eduardo Gomes, dão um golpe e depõem Getúlio.

Em setembro, Prestes se encontra com os trabalhadores do Recife, na sede do Sindicato dos Tecelões, na Rua da Concórdia. Emocionado, vejo o 'Cavalheiro da Esperança', aperto sua mão. No meio daquela multidão, eu era dos poucos que estava a par dos seus sofrimentos, seus nove anos de prisão e da seriedade do seu idealismo. No outro dia, no Parque Treze de Maio, o comício foi inesquecível, nunca tinha visto, em minha vida, tanta gente reunida, até então. Seu discurso foi o de um homem sofrido, mas esperançoso, de amor à Pá- tria e ao seu povo. Apresentou soluções práticas para os problemas do Brasil, principalmente a Reforma Agrária, sem a qual não liquidaríamos com o problema da fome do nosso povo. Gostei. Prestes me ganhou. Entrei para o seu partido.

Em 2 de dezembro de 1945, houve as eleições, o general Eurico Gaspar Dutra é eleito presidente da República. O partido Comunista elege um senador e 14 deputados. Após a eleição, Jorge Amado, já deputado, eleito por São Paulo, chega ao Recife, onde desenvolve intensa atividade. Com Leonardo Moreira Leal, Jurandir Bezerra, sobrinho de Gregório, filho de José Lourenço Bezerra, assassinado pela polícia pernambucana, em 1937, e outros jovens comunistas, fundamos o Centro Literário Castro Alves. Era só agitação política e politização da classe estudantil. Contando com o apoio de Gregório, também eleito deputado federal, convidei Jorge para falar no Centro Castro Alves. Foi uma tarde memorável. Leonardo fez a apresenta- ção de Jorge, falou do significado da sua Obra, principalmente, da biografia de Luís Carlos Prestes, agradeceu a Jorge pela mesma, em nome da juventude estudantil comunista. Jorge nos disse da satisfação daquele encontro, que estava nas mãos da juventude a obrigação de lutar por um Brasil sem fome, sem miséria, tão constante na vida do povo brasileiro. Falou da sua profunda admiração pelo poeta, pela obra e, acima de tudo, pela vida de Castro Alves, pela coragem com que defendeu os escravos, escondendo-os, inclusive em sua casa, onde vivia a plenitude de seu amor, com a sua amante, a atriz portuguesa Eugênia Câmara.

Um ano mais tarde, no Rio de Janeiro, na Tribuna da Câmara dos Deputados, vejo Jorge denunciar o governo do general Dutra, que estava fechando o Sindicato dos Estivadores e a União Geral dos Sindicatos dos Trabalhadores de Santos. Estava liquidando com a liberdade de imprensa, apreendendo as edições diárias da Tribuna Popular, órgão do Partido Comunista. Jorge se manifesta veementemente contra o Decreto Lei 9070, do governo Dutra, proibindo o direito de greve, e protesta indignado contra a presença de agentes da Delegacia de Ordem Política e Social, nas assembleias sindicais, ergue a sua voz contra a dissolução a tiros do comí- cio do PCB, no Largo da Carioca, feita pela polícia, com dezenas de feridos, e a morte de Zélia, militante comunista.

Todas as manhãs, a bancada comunista, composta de 14 deputados e um senador – Luís Carlos Prestes, se reunia para tratar da pauta dos trabalhos legislativos. Pernambuco elegeu 3 deputados: Gregório Bezerra, Alcedo de Morais Coutinho (suplente de Luís Carlos Prestes), e Agostinho Dias de Oliveira; a Bahia elegeu Carlos Mariguela, o Distrito Federal, como se chamava a cidade do Rio de Janeiro, capital da República, mandou para a Câmara João Amazonas, Maurício Grabóis e Joaquim Batista Neto. O Estado do Rio de Janeiro fez 2 deputados: Alcides Sabença e Claudino José da Silva, o único deputado negro da Constituinte de 46. São Paulo elegeu Jorge Amado, Osvaldo Pacheco, José Maria Crispim e Milton Caires de Brito, esse substituindo o líder ferroviário Mario Scott. O Rio Grande do Sul elegeu Abílio Fernandes.

Durante os trabalhos para a elaboração da Carta Constitucional de 1946, os projetos e as indicações da bancada comunista, comumente, eram recusados, iam para a lata do lixo. Diante dessa atitude, tipicamente reacionária, da maioria dos deputados, Jorge Amado, certa manhã, na reunião da bancada, deu ciência a Prestes e aos demais deputados que à tarde iria apresentar uma emenda, mas não queria a assinatura de nenhum parlamentar comunista, para não correr o risco de ver a emenda recusada, de imedito. Era uma emenda ao Projeto da Liberdade de Culto. Jorge contou com o apoio de Gilberto Freyre, deputado pernambucano, consagrado autor de Casa Grande e Senzala, nome de grande prestígio, na Assembleia Nacional Constituinte. Gilberto Freyre assinou a Emenda, congratulou-se com Jorge, apenas lamentou não ter sido o autor da mesma, afirmou: “Por que não pensei nisso?”. Foi essa emenda que garantiu a Liberdade de Culto em nosso País. Esse empenho de Jorge Amado foi no sentido de libertar das violências que ele presenciou na capital baiana, ainda adolescente. Que os leitores ouçam o próprio Jorge:

“Menino de 14 anos, comecei a trabalhar em Jornal, a frequentar os terreiros, as feiras, os mercados, o cais dos saveiros, logo me alistei soldado na luta travada pelos Candomblés, contra a discriminação religiosa, a perseguição aos Orixás, à violência desencadeada contra os pais e mães de santo, iaôs, ekedes, ogãs, babalaôs, obas. Não vou me demorar, no que me foi dado ver, os lugares sagrados invadidos e destruídos, ialorixás e babalorixás presos, espancados, humilhados, nunca esqueci de Pai Procópio, as costas em sangue, resultado da surra de chicote no 'xadrez'. Tais misérias e grandeza do povo da Bahia são as matérias-primas dos meus romances, que os leia quem quiser saber como as coisas se passaram.”

Como a emenda aprovada, a lei assegurou o direito de crença para todos os credos. Pai Procópio estava livre para bater os atabaques, nos terreiros de Candomblés, da cidade de Salvador, sem correr o risco de ser novamente surrado no 'xadrez' policial. Aquele menino baiano de 14 anos, sensível, vinte anos mais tarde, feito deputado federal, por São Paulo, não esqueceu seus irmãos da Bahia, não esqueceu Pai Procópio. É bem verdade que a lei ensejou, também, o aparecimento de oportunistas e sabidões, que vivem do comércio da fé, donos de suntuosos supermercados desse gênero.

Em 1947, no auge da Guerra Fria, Truman, o presidente americano, exige do presidente Dutra a cassação do registro do Partido Comunista. O Tribunal Eleitoral, num ato vergonhoso, que o cobriu de vergonha, cassou o registro. Meses após é a vez da Câmara dos Deputados capitular covardemente e cassa o mandato dos parlamentares. Sem imunidades, alguns são presos, espancados e processados, outros vão para a clandestinidade, como o senador Luís Carlos Prestes, só retornando à legalidade dez anos após, com o governo de Juscelino. Jorge Amado parte para o exílio, inicialmente Paris, onde desenvolve intensa atividade política, sendo, inclusive, expulso do país junto com o poeta Pablo Neruda e o pintor Carlos Sclier. Passou cinco anos na Europa, viaja pelo mundo e o mundo tomou conhecimento de sua obra. Ganha o prê- mio Stalin da Paz, já é considerado um nome de primeira grandeza na literatura mundial, com as suas obras traduzidas para dezenas de idiomas, torna-se uns dos escritores mais lidos e premiados no mundo, vivendo exclusivamente dos seus direitos autorais.

Em 1956, Jorge regressa ao Brasil. A ABDE - Associação Brasileira de Escritores, presidida pelo escritor Abguar Bastos, organiza um jantar em sua homenagem. Esperaram Jorge e Zélia, que vinham de ônibus do Rio de Janeiro, umas 150 pessoas, o terminal era na Av. Ipiranga, um pouco antes da Av. São João. À noite, no Clube Homs, na Av. Paulista, o jantar foi um sucesso, Jorge estava emocionado com o reencontro tão festivo, abraça velhos amigos e companheiros que há anos não via.


No início da década de 60, Gabriela – Cravo e Canela era o maior sucesso editorial, de todos os tempos, no Brasil. Irineu Garcia, de saudosa memória, produtor de disco, marca Festa, lança os LPs com as poesias de Bandeira, Drummond, Ascenço Ferreira, Pablo Neruda, mais uma antologia de diversos poetas nossos, na voz do maior e melhor declamador poético da língua portuguesa, o português João Vilaret. Logo, os acalantos de Gabriela, na voz de Jorge, acompanhado ao violão por Dorival Caimmy, estavam em pauta.

Acompanhei de perto a produção desse LP. Ganhei um exemplar com extensa dedicatória de Jorge, autografada também por Caimmy e Irineu Garcia. Uma pessoa irresponsável pediu-me emprestado o LP e não mais me devolveu. Uma pena! Viajei boa parte do País, levando comigo as vozes de Bandeira, Drummond, Neruda, Ascenço, Jorge. Corríamos as faculdades de Filosofia e Letras, entrevistávamos o secretário de Cultura de cada Estado, num trabalho eficiente de divulgação.

Chego em Salvador. Certa manhã, quase tarde, encontro Jorge na Baixa do Sapateiro. Camisa esportiva, por fora da calça, fumando, sandália Conga, em companhia de seu amigo, “argentino de nascimento, mas baiano de coração”, o pintor Caribé. Era hora do almoço. Fomos almoçar numa pensão simples – muito simples. Quatro ou cinco mesas, todas estavam ocupadas por gente humilde, operários, trabalhadores braçais. Num canto, fritando peixes e fazendo os pratos, a fim de que o filho servisse aos fregueses, uma 'preta velha', de idade avançada, doutora na arte de cozinhar, é cumprimentada por Jorge. Sou apresentado a ela. Jorge bate um papo com todos, ao mesmo tempo. Ali é o seu mundo, sua gente, ali estão os seus personagens. A pensão ficava bem no coração da 'Cidade Alta', próxima aos puteiros, espalhados pelos velhos e misteriosos sobrados que Jorge conhecia como a palma da mão e que estão presentes em suas obras. Nesse LP, na voz do Jorge, com violão de Caimmy, ele gravou também um “Canto de Amor à Bahia”. Um texto longo de pura poesia, ele fecha o texto com um pedido:

“Essa é minha cidade e em todas as muitas cidades que andei, eu a revi num detalhe de beleza. Nenhuma assim, tão densa e oleosa. Nenhuma assim, para viver. Nela quero morrer, quando chegar o dia. Para sentir a brisa que vem do mar, ouvir à noite os atabaques e as canções dos marinheiros. A cidade da Bahia, plantada sobre a montanha, penetrada de mar”.

Em 1956, as revelações do Relatório Kruchev, no 20º Congresso PCUS, e a invasão da Hungria pela União Soviética, fizeram Jorge Amado se afastar do Partido Comunista.

Os problemas cardíacos deixam qualquer ser humano inseguro, aliada à perda da visão, essa insegurança é quase total, é um duplo golpe, triste e profundo, quase irresistível, principalmente quando esse ser humano é um escritor, um privilegiado criador e contador de estórias – Jorge Amado. Os últimos anos vividos por Jorge fizeramno calado, deprimido, pouco a pouco, ele foi deixando de lado o seu trabalho, assim como o convívio com os amigos. Em abril de 1997, após a implantação de um marcapasso, diante do problema da visão que se agravava, ele declarou que doravante passaria a ditar as suas obras.

Um ano antes, Jorge viajara para França, onde é homenageado no Salão do Livro de Paris. Recebe o título de Doutor Honoris Causa, na famosa Sorbone. Homem de sensibilidade, apegado aos amigos, Jorge foi pouco a pouco morrendo com a morte deles: Pierre Verger, o etnólogo e fotógrafo francês; o pintor Caribé, e ,antes, a morte trágica de Dias Gomes, esses adeuses abalaram profundamente o Amado Filho da Bahia.

Em 1945, passou a viver com Zélia, em 1978, casaram-se, produtos desse amor, nasceram Paloma e João Jorge. Certo dia, ele declarou que “Zélia foi a maior sorte que tive na vida”, e fez uma declaração pública de amor a ela:
“A vida me deu mais do que pedi e mereci. Não me falta nada. Tenho Zélia e isto me basta.”

Na França, foi condecorado pelo presidente François Mitterrand, recebendo dele a Legião de Honra e palavras sobre a sua obra de escritor. São Passados 25 anos de sua expulsão da França, junto com Zélia. A comenda que acaba de receber vale como uma reparação.

Ele era baiano, nasceu numa fazenda de cacau, de propriedade de seu pai, em Ferradas, distrito do município de Itabuna. Escritor premiadíssimo, tanto em seu país, como no estrangeiro, Jorge Amado é autor de 34 livros, o mais vendido foi Capitães de Areia, escrito em 1937, 20 milhões de exemplares só no Brasil, esse livro também é bem vendido na França, tendo, inclusive, sido adotado nas escolas francesas.

A obra de Jorge Amado é publicada em 52 países, traduzida em 48 idiomas e dialetos, muitos deles foram adaptados para o cinema, teatro, televisão, rádio, estórias em quadrinhos. Jorge foi eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras, em 6 de abril de 1961. Tomou posse em 17 de junho, na Cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar, Jorge substituiu seu conterrâneo Otávio Mangabeira e, mais tarde, seria substituído pela escritora Zélia Gattai Amado, sua esposa.

Um dia, em resposta a um repórter, que perguntou-lhe se tinha medo da morte, declarou: “Não sinto medo da morte, porque não acredito em céu e nem em inferno. Mas a ideia de morrer não me causa nenhuma simpatia. Por mais velho que se fique, o tempo de vida que temos é muito curto, definitivamente, a morte é uma criatura muito desagradável.”

*Geraldo Pereira é jornalista especializado em história política e sindical do Brasil, atuando por mais de 60 anos nos principais veículos de comunicação do país, e membro do Conselho Fiscal e da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da ABI - Associação Brasileira de Imprensa. O texto acima foi reproduzido do Informativo SINTHORESP (junho/julho 2012).