POLÍTICA

MÍDIA COMERCIAL NÃO SE CONFORMA COM VERDADES DITAS EM SÃO BERNARDO

MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND -


É bem visível a inconformidade da mídia comercial com o que disse Luis Inácio Lula da Silva no discurso feito no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo. Vários canais de televisão acabaram tendo de transmitir o que o mais recente preso político brasileiro falava. Foi demais para as Organizações Globo e demais espaços midiáticos que em essência defendem os mesmos valores que sempre defenderam, como em agosto de 1954, em abril de 1964, e mais recentemente a partir de maio de 2016 com as suas verdades que o tempo comprovou que não passaram de mentiras para enganar a opinião pública.

Essa é a realidade, que por mais que queiram esconder os grupos midiáticos de linha antinacional, não podem mais fazê-lo diante da própria história. No dia seguinte a prisão de Lula, os veículos impressos saíram à frente com seus colunistas de sempre, alguns deles chegando a repetir a baboseira segundo a qual regulação da mídia é censura. Não é, muito ao contrário, porque se já tivesse sido feita, provavelmente o mundo midiático não estaria sob o controle de poucas famílias defensoras de projetos que visam manter a dominação e os lucros dos poderosos. Ou será que alguém em sã consciência tem dúvidas a esse respeito diante dos últimos acontecimentos?

Alem da pregação coordenada de que regulação da mídia é censura, tanto os canais de televisão, sobretudo a Globo e a Band insistem hoje na tese, por exemplo, de que “pichação é vandalismo”. Na época da ditadura empresarial militar que durou 21 anos, os dominadores a força do governo insistiam na tese, repetida sem pestanejar pela mídia comercial, segundo a qual “pichação é subversão”. E os que eram pegos pichando com os protestos eram presos, torturados e alguns até assassinados. Nos dias atuais, os apoiadores do golpe de 2016 trocaram “subversão” por “vandalismo” e seguem na pregação visando, como sempre, enganar os incautos.

Hoje pressionam no sentido de as autoridades descobrirem com rapidez quem pichou as paredes na Cinelândia após os atos de protestos contra a decretação da prisão de Lula. Mas não cobram a mesma rapidez para a descoberta dos autores dos tiros contra a caravana de Lula no Paraná e até mesmo em relação ao assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Na verdade, a mídia comercial tenta de todas as formas esconder, é que a história mostra que o povo reage a sua maneira. Em 1954 depois do suicídio do Presidente Getúlio Vargas, ocasionado por uma campanha sórdida, levada em parceria pelos golpistas de então e a mídia comercial, veículos que distribuíam órgãos de imprensa como O Globo e a Tribuna d Imprensa (na época de linha golpista) foram queimados, da mesma forma que os demais apoiadores das mentiras contra o Presidente que defendia um projeto nacional, que Roberto Marinho, então de braços dados com o partido político UDN, capitaneado pelo golpista mor Carlos Lacerda, queriam a todo custo tomar o poder e só conseguiram dez anos depois, com a mesma mídia comercial de sempre, que hoje repete a história de apoio a projetos antinacionais, que na prática transformam o Brasil em uma republiqueta, onde vale tudo contra quem se posiciona contra o retrocesso.

Em suma, não adianta acionar a mídia comercial e até a Justiça, como acontece hoje, pois a história fala muito mais alto. E quem a conhece minimamente não tem dúvidas sobre os protagonistas atuais, que querem de todas as formas aprofundar o projeto colocado em prática a partir da ascensão do lesa pátria Michel Temer e seus associados da chamada base aliada. E tremem pelas bases com os resultados das pesquisas eleitorais que indicam repúdio dos consultados aos políticos apoiadores do atual projeto que vem sendo colocado em prática pelos ocupantes do governo comandado por Michel Temer.

No mais, agora mais do que nunca, todo cuidado é pouco, porque os que querem aprofundar o golpe de 2016 são capazes de qualquer coisa, até mesmo fazer com que militares em seus pronunciamentos pressionem os poderes, mesmo que os tempos atuais sejam distintos daqueles que desencadearam o golpe de abril de 1964.

Mário Augusto Jakobskind, é Professor, Jornalista, Escritor, vice-presidente na Chapa Villa-Lobos, arbitrariamente impedida de concorrer à direção da ABI (2016/2019) e Coordenador de História do IDEA, Programa de TV transmitido pela Unitevê - Canal Universitário de Niterói.


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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 13

REDAÇÃO -
Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.

O 'Don Corleone' que fez do Bangu um time de craques, e o levou à Libertadores.

Castor de Andrade conquistou muita riqueza e poder em função de seus contatos oficiais, prestação de pequenos favores, e pagamento de propinas em larga escala.

Mas não era tudo. A fidelidade de Castor ao sistema em que estava imbricado seria seriamente testada por ocasião das eleição estaduais de 1982. No Rio de Janeiro, o pleito era forte: de um lado, Leonel Brizola, do PDT, inimigo declarado do regime militar, o candidato mais odiado pela Rede Globo, pelos demais jornais, assim como por todo o establishment formado desde 1964; de outro, Moreira Franco, sociólogo, candidato do PDS, partido de sustentação da ditadura.

Moreira Franco recebeu toda a ajuda que poderia: Figueiredo cumpriu uma maratona de comícios e atos oficiais, pedindo votos para seu candidato. Ao mesmo tempo, trabalhava para prejudicar de todas as formas a campanha do dileto opositor.

Nesse momento, Castor de Andrade e demais bicheiros surgiram como um aliados dos mais importantes.

Em um comício em Volta Redonda, Anísio convocou Joãozinho Trinta e trezentos membros da Beija-Flor para a dificílima tarefa de tornar a imagem do general carrancudo mais tragável. Moradores de Complexo da Maré compuseram o samba “Rei da democracia”, cujos versos eram: “Samba, meu povo / Hoje é dia de alegria / Viva Figueiredo / O rei da democracia.”

O cenário se repetiu em Nova Iguaçu. Mas parecia estar sendo improdutivo, pois pesquisas encomendadas pelo PDS apontavam larga vantagem a Leonel Brizola. E, dentre os bairros com maior vantagem para Brizola estavam Bangu e arredores. Castor, que até então agia às claras e de maneira discreta, sacou a carteira e convocou a tropa.

Montou comitês em Bangu, transformou o seu Cassino Bangu em ponto de concentração de cabos eleitorais de Moreira Franco, espalhou galhardetes, cartazes, organizou showmícios etc. Distribuía brindes e bugigangas, esforço que manteve até a votação.

Contabilizados os votos, Castor constatou o inevitável: Brizola contava amplo apoio da sociedade. Parecia impossível mudar a preferência do eleitorado.

Bom, como sabemos Castor era contraventor e criminoso. Portanto não se importava com o cometimento de atos ilegais. Se ele não obteve sucesso antes dos votos; tentaria agir depois, na contagem das urnas.

O modo como atuaria? Junto aos servidores e juízes da Justiça Eleitoral.

Em um dos pontos de apuração, em Senador Camará, onde se apuravam 168 mil votos, Castor era o responsável por fornecer mesas, instalou equipamentos de ventilação, frutas, água mineral e outros pequenos agrados. Em outro local de apuração, era visto constantemente com seus capangas, armados, apresentando-se como fiscais do PDS.

Um dos candidatos a deputado pelo PDT denunciou: “Castor coordena as parcialidades favoráveis ao PDS”.

Em outra oportunidade, um juiz eleitoral chegou ao extremo de expulsar uma repórter do local: “Quem manda aqui sou eu. Se pegar alguém nos banheiros, eu prendo. Retire à força essa repórter daqui!” A entrada de repórteres e cinegrafistas ó seria permitida após a intervenção de outro magistrado, que explicou: “Quando chegamos aqui, não tínhamos mesas, ventiladores, iluminação suficiente. Acordei todo mundo e o Castor de Andrade, como presidente do Atlético Clube Bangu, nos ajudou nessa infraestrutura. Se ele e fiscal ou delegado de algum partido, não sei, mas tem nos ajudado, sim”.

Difícil crer na lisura do pleito, quando os próprios magistrados agem de modo tão grato a quem os tirou da penúria, não?

Mas todo o esforço se revelaria improdutivo. Brizola recebeu 34,17% dos votos válidos, contra os 30,6% de Moreira Franco. Em Bangu, Brizola recebeu o dobro dos votos de Moreira Franco.

Castor entendeu o recado vindo das urnas e começou a buscar se afastar do regime que chegava ao fim. Nas sua declarações seguintes, passou a defender mudanças e criticar o “radicalismo” dos que apoiavam a situação.

Quanto à sua antiga amizade com Figueiredo, disse: “Não, não sou amigo do João. Só não fui ao casamento (de seu filho, Johnny) porque quis evitar qualquer constrangimento. Só por isso. Eu já disse: tenho uma admiração por ele, mas acho que a administração do Planalto precisa ser renovada para que se aproveitem os acertos e se abandonem os erros. Vamos seguir acertando daqui pra frente”, contemporizou um diplomático Castor.

Em 1984, Castor geria seus investimentos pensando nos desafios de 1985. E o fez muito bem. Naquele ano seu time, o Bangu Atlético Clube seria vice-campeão carioca. No Carnaval, sua Mocidade conquistou o título em 1985, com o festejante “Ziriguidum 2001, carnaval nas estrelas.”

Na política, não poupava elogios à política de Brizola em relação ao jogo do bicho. Castor investia jogando.

Em março de 1990, na casa de sua amante, Osman Pereira Leite foi morto com quatro tiros. Morria o policial, bicheiro, ex-presidente da Mocidade e, até poucos anos antes, braço direito do mais poderoso dos contraventores.

A parceria da dupla Castor e Osman se extinguiu no início dos anos 1980. O motivo foi uma acusação de que Osman estava fraudando o sorteio dos números da Paratodos, espécie de loteria dos bicheiros. Após ser alertado, Castor expulsou Osman do jogo do bicho e da Mocidade.

Osman, então se aliou a Marquinho, filho de Raul Capitão, e iniciaram, resolutos, uma guerra particular contra os antigos aliados. Esse episódio provocou o aumento dos índices de violência no Rio, nos estertores do regime que terminava.

Mas a dupla de intemeratos também lançava olhares ambiciosos em direção a outros estados. Na cidade de São Paulo, aliaram-se a Walter Spinelli Oliveira, o Marechal. Imediatamente entraram em conflito com todos os outros bicheiros locais.

Os novos inimigos logo se anunciaram. O carro de Marquinho foi metralhado no bairro da Lapa, em São Paulo, no momento em que ele não estava, milagrosamente, dentro do veículo. Dos outros quatro ocupantes, um morreu e outro ficou gravemente ferido. Marquinho sabia que o alvo era ele e suspeitava fortemente de que o mandante estava no Rio. Em setembro, revelou-se o nome do mandante: Castor de Andrade. Mas o alvo era, na verdade, Osman.

Marquinho vinha expandindo seus negócios: tomou bancas em Monte Claro, Três Corações e Patos de Minas, em Minas Gerais. Foi também acusado do seqüestro e homicídio do bicheiro Oziel Silva e sua esposa, em 1986. Este não queria vender suas bancas àquele.

Osman chegou a ser preso em Minas, pela polícia local, após estourarem uma “fortaleza” do bicho e prenderam 10 contraventores lá reunidos. A operação ocorreu em 1987, até quando Osman conciliava seu trabalho na 37ª DP com a contravenção, à sombra de Marquinho.

Osman saiu da presidência da Mocidade em 1979, por não ser permitida a reeleição. Ele acabara de ser campeão. Após sua saída, Arlindo Rodrigues também deixou a escola e foi contratado por Luizinho Drumond, bicheiro patrono da Imperatriz Leopoldinense. Foi contratado Fernando Pinto para seu lugar. Iniciou seu período na escola com o enredo “Tropicália Maravilha”.

Logo após ocorreu o imbróglio entre Osman e Castor.

Osman foi levado para a Unidos de Padre Miguel, vizinha da Mocidade. Mas não conseguiu recursos para fazer um bom desfile, pois a cúpula do bicho o isolara.

Osman tramou com Marquinho. Este, assumiu-se como patrono da União da Ilha. Osman ficou com a presidência e a representação da Escola na Liesa. Cobiçando um campeonato nos desfiles, levou Arlindo Rodrigues para sua nova agremiação.

Seu melhor ano foi em 1986, em quinto – deixando a Mocidade em sétimo.

Em 1988, Marquinho foi assassinado com seis tiros, na frente do seu prédio, no Leblon.

Com isso, Osman recebeu de Raul Capitão as bancas do filho. Na época do seu assassinato, Osman geria bancas na Ilha, Petrópolis e Correas. Sua carreira na polícia estava suspensa, pois respondia a inquérito interno por atuar na contravenção. Apesar do desentendimento com Castor, o velório de Osman ocorreu na quadra da Mocidade. (Continua!)



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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 12

REDAÇÃO -

Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.


O primeiro desfile de Escolas de Samba no Sambódromo da Avenida Marquês de Sapucaí assistiu a uma Mocidade Independente rendendo homenagens a contrabandistas e muambeiros, como sói ser seu patrono, Castor de Andrade. Ele não temia processos, investigações ou prisões. Acusado de contrabando, respondeu na avenida, com muito samba: “Mamãe eu quero Manaus / Muamba, Zona Franca e carnaval”, entoava o público.

Vestidos de pirata, passistas eram liderados pela modelo Monique Evans, rainha de bateria pela primeira vez. Era 5 de março de 1984 e o enredo “Mamãe, eu quero Manaus”, de autoria de Fernando Pinto contava a história do contrabando em Terra Brasilis, desde D. João VI.

Castor saiu na avenida, mas seus três camarotes com capacidade para 100 convivas, abrigava artistas, jogadores de futebol, autoridades civis e militares. Nos anos seguintes Castor ainda ostentaria um camarote exclusivo para oficiais das Forças Armadas. Consumia-se champagne, uísque e canapés em profusão.

Eram tempos de redemocratização, o uniforme verde-oliva se despedia do Planalto. De perseguido nos anos 1960, passou a protegido do regime. Desvencilhar-se-iam, porém sem mágoas. Deixou isso claro em uma entrevista à revista Playboy. Quando perguntado qual nota daria ao governo Costa e Silva, durante o qual foi preso, Castor respondeu: “Nota 10!”

O delegado Cláudio Guerra revelou qual a profundidade do relacionamento de Castor com o regime militar: “Fui apresentado a Castor de Andrade, que era o chefe dos bicheiros, o mais importante de todos. A relação entre Castor e as Forças Armadas era tão próxima que ele tinha até uma credencial do Cenimar. Ele gostava de usá-la para dizer que era agente, oficial da reserva. Ele era atrevido.” Nada mal para quem foi preso pelo mesmo Cenimar, anos antes...

O desfile de 1984 testemunhou outras cenas intrigantes. José Caruzzo Escafura, mais conhecido como Piruinha, era outro bicheiro dono de camarote na Sapucaí. Lá, podia-se avistar um efusivo Johnny Figueiredo, filho do presidente da República na época, o general João Figueiredo.

Interessante notar que o sogro de Johnny, Ozório Paes Lopes da Costa, havia sido sócio de Castor numa metalúrgica, que levava o nome do sócio bicheiro.

Aliás, essa Metalúrgica Castor renderia um episódio escandaloso, que marcaria o apagar das luzes do regime ditatorial. Fornecedora de produtos metálicos para o Exército, a metalúrgica estava quebrada, quando uma operação ocorrida nos bastidores do SNI obrigou o Grupo Coroa-Brastel a assumi-la.

O nível de amizade entre Castor e o presidente Figueiredo pode ser exemplificado com o convite de casamento expedido para o bicheiro e sua família, para o casamento de Johnny com Rosana, filha do sócio Ozório. O bicheiro não comparecer à cerimônia por temer prejudicar a imagem pública do amigo.

Quando a Metalúrgica se encaminhava a passos largos em direção à falência, Ozório escreveu a Delfim Netto, então da Secretaria de Planejamento, pedindo ajuda financeira, proveniente do Banco do Brasil, ou BNDES, ou Caixa Econômica. Justificava seu pedido pelo fato de políticas recessivas adotadas pelo governo terem desequilibrado as contas da empresa.

Fundi-la a um grupo econômico mais forte parecia ser uma solução mais viável, pois evitaria especulações acerca de tráfico de influência na imprensa.

Escolheram o empresário Assis Paim Cunha, controlador do grupo Coroa-Brastel. Empresário bilionário, seu sucesso se devia às Lojas Brastel. Foi obrigado a comprar o abacaxi, mas impôs a condição de ter acesso facilitado a empréstimos de bancos públicos.

O império de Paim veio abaixo quando foi obrigado a assumir outro abacaxi, a corretora Laureano, em iminente intervenção do Banco Central. Em junho de 1983, o grupo Coroa-Brastel foi liquidado pelo BACEN, deixando atrás de si 34 mil investidores lesados.

Paim alegou ter sido ludibriado por Álvaro Armando Leal, que prometera ao empresário que seria recompensado pelo governo caso assumisse o pepino. Leal confirmou tudo ao Senado. Paim foi condenado a 8 anos e 3 meses de prisão, que cumpriria em regime semiaberto. Perdeu tudo. Morreu em 2008. (Continua!)



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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 10


REDAÇÃO -

Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.


Em novembro de 1984, a disputa pelo samba que seria apresentado no carnaval seguinte pela Unidos de Vila Isabel foi quente, bem mais quente do que costumava ser todos os anos.

Além dos sambas em disputa, dois grupos se digladiavam pelo poder. De um lado, o bicheiro Waldemir Garcia, o Miro, presidente de honra da Escola, e seu filho, Waldemir Paes Garcia, o Maninho; do outro, Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, presidente da Escola e nosso velho conhecido. Todos devidamente escoltados por seus seguranças, apenas esperando uma ordem para dar início derramamento de sangue.

Quando Guimarães abocanhou a tão almejada presidência da Escola do bairro de Noel, em 1983, esta já tinha seu patrono-bicheiro: Miro e família. Desde sempre – Miro foi presidente de 1966 a 1968.

Inicialmente, Guimarães buscou uma convivência pacífica com Miro, evitando o conflito. Procurou se tornar uma pessoa reconhecida pela comunidade, subiu o Morro dos Macacos, tentou parecer simpático aos membros da bateria, aproximou-se dos sambistas.

Observando os feitos dos “capi” Castor e Anísio, da Mocidade e da Beija-Flor, respectivamente, Guimarães sabia que uma vitória no carnaval seria fator fulcral para seu sucesso dentro da Escola. A Vila nunca havia vencido um carnaval.

Guimarães investiu. Para o desfile de 1985, trouxe o carnavalesco Max Lopes, campeão no ano anterior pela Mangueira. Max exibira o enredo “Yes, nós temos Braguinha”, naquele que foi o primeiro desfile no recém-inaugurado Sambódromo.

Foi justamente nos preparativos para o carnaval de 1985 que o clima entre ambas as facções ficou tóxico, dentro da azul e branco. O motivo foi o samba-enredo.

Tradicionalmente, quem escolhia o samba era Miro, monocraticamente. Nesse ano, decidiu-se pelo samba de Pedrinho da Flor. Guimarães, por sua vez, trouxe o compositor David Corrêa, autor do vibrante “Skindô, Skindô”, do Salgueiro de 1984, assim como do belíssimo “Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite”, da Portela de 1982. Guimarães queria um samba de David na Sapucaí.

A briga prometia... A certa altura, Maninho reuniu seus capangas, avisou que seu pai não seria desrespeitado e deixou Guimarães saber. Percebendo uma tragédia se aproximando, Elizabeth Nunes, diretora do Salgueiro, interferiu e demoveu Miro de levar adiante uma guerra contra Guimarães. Convenceu Miro a recuar, deixar a velha Vila que tanto amava e assumir como padrinho do Salgueiro. A contragosto e muito contrariado, aceitou.

David Corrêa viu seu samba ser escolhido. A Escola que cantou “Puro amor na clausura / A prisão sem tortura” em 1980, agora era apadrinhada por um sádico, ex-torturador e homicida com longa ficha-corrida.

A Escola do “bairro com nome de princesa” ficou em terceiro lugar, trazendo o enredo “Parece que foi ontem”. NO ano seguinte, amargou um 11º lugar, com “De alegria cantei, de alegria pulei, de três em três pelo mundo rodei”. Em 1987, Martinho, Ovídio Bessa e Azo compuseram “Raízes”, samba audacioso, não fazia uso de rimas, mas a Escola só conseguiu uma 5ª colocação. Durante sua passagem pela presidência, a Escola não atingiu a primeira colocação.

O destino não deixaria de pregar uma peça em Guimarães. Para na seguinte, a Unidos de Vila Isabel elegeu novo presidente; ou melhor, uma nova presidente: Licia Maria Maciel Caniné, a Ruça, a então senhora de Martinho da Vila. Ex-militante do PCB, essa mulher levaria a escola a ser campeã pela primeira vez, sem apoio de bicheiros, sem quadra e contando apenas com sua comunidade fiel e apaixonada. O samba de Luiz Carlos da Vila, Rodolpho de Souza e Jonas embalou corações verdadeiramente apaixonados.

A “comunista” desferiu um golpe certeiro contra o torturador.

Ruça conhecia bem quem a precedia na presidência da agremiação. Ao cruzar com Guimarães em ensaios, na quadra, Ruça não deixava de cumprimentá-lo, “Olá, doutor Pablo”, seu codinome no tempo de DOI.

A aproximação entre Guimarães e o Morro dos Macacos renderia infortúnios os mais diversos. Ainda na segunda metade da década de 1980, um informe confidencial do SNI apontava o envolvimento do Capitão com o contrabando de armas e drogas destinado a traficantes do Morro dos Macacos. O título do documento: “Contrabando de armas – Ailton Guimarães Jorge”.

Deixando a presidência da Vila Isabel em 1987, assumiu a presidência da LIESA.

No mesmo Informe, é citado o nome de Laíla, na época diretor de harmonia da Unidos de Vila Isabel, como proprietário do imóvel onde as armas ficavam guardadas. Laíla fora levado para a Vila por Guimarães, saindo do Salgueiro (Continua!)


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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 9


REDAÇÃO -

Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.

Anísio e Capitão Guimarães presos em 15/05/1993 - Arquivo Google.
Desde que a guerra pelo domínio do jogo do bicho se iniciara, no Espírito Santo, muitas vítimas tombaram em meio violência que se instalou no estado. Uma dessas vítimas era chamada Agneis da Silva Araújo, de 20 anos. Trabalhava na boate Le Chat Noir, um prostíbulo localizado na Praia do Canto, onde atendia seus clientes por Geovana.

Nunca mais foi vista após prestar depoimento na sede da Polícia Federal em Vitória. Lá, após perguntada, forneceu o que os agentes buscavam: “O Capitão Guimarães comanda o grupo de extermínio que atua aqui, no Espírito Santo.”

Agnes, ou Geovana, teve conhecimento dos meandros do submundo da contravenção após namorar o investigador Romualdo Eustáquio Luís Faria, o Japonês, que, hipnotizado pelos lábios da morena, revelou seu papel na quadrilha de Guimarães, e muito mais.

A jovem se recordou de algumas passagens, ao lado do namorado, especialmente das conversas sobre crimes, violência, gravações de homicídios, quando os membros da quadrilha se deliciavam assistindo suas vítimas morrerem.

Basicamente, Guimarães reproduzia em terras capixabas a sua estratégia bem sucedida em Niterói. Associou-se ao bicheiro local, José Carlos Gratz, e ao delegado miliciano Cláudio Guerra. Unificaram o controle de todas as bancas do jogo do bicho. Pouco tempo depois, todos os talões da jogatina traziam uma imagem de um periquito vestido de uniforme verde-oliva, o logotipo do Capitão.

Outra vítima da matança capixaba foi Jonathas Bulamarques, proprietário de um cassino clandestino. Após se recusar a vender seu negócio para a quadrilha do Capitão, ficou gravemente ferido quando seu carro explodiu, ao voltar à casa: teve a perna esquerda amputada, assim como os dedos da mão esquerda e ficou praticamente cego. Antes que pudesse se vingar, três homens armados invadiram sua casa e o fuzilaram.

O único condenado por esse crime foi o delegado Cláudio Guerra, a 42 anos, dos quais cumpriu 10, até ser libertado.

Capitão Guimarães e José Carlos Gratz se tornaram, em 1986, os comandantes da contravenção no Espírito Santo, domínio este garantido por uma enorme rede de autoridades devidamente cooptadas à base de muita propina: políticos, juízes, advogados, empresários e policiais.

Gratz foi eleito deputado estadual em 1996 e depois lideraria a Assembléia Legislativa estadual.

As atividades da quadrilha logo se ramificaram em casos de violência, lavagem de dinheiro, extorsão, envolvimento de políticos aliciados com o narcotráfico. O crime organizado logo impulsionaria o estado ao posto de “terra sem lei”.

A primeira reação oficial somente ocorreu em 1989, com a Operação Marselha. Esta se iniciou após denúncia de troca de carros roubados por cocaína, nas fronteiras do Brasil com Bolívia e Colômbia. De plano, apreenderam-se mais de 30 carros roubados.

Dentre os indiciados, figurava o nome do delegado Cláudio Guerra, ao lado de outros 30. As acusações foram: furto, roubo, receptação de carros roubados, favorecimento a contraventores, estelionatários e traficantes (como José Carlos dos Reis Encina, o icônico Escadinha), cárcere privado e mandante de múltiplos homicídios.

O lutador-torturador-fora-da-lei Marco Antônio Povoleri, padrinho de um dos filhos de Guerra, foi preso anos antes ao ser flagrado com um carregamento de 5 carros roubados, que seriam entregues à quadrilha de José Carlos de Carvalho, o Carlinhos Gordo – responsável por 80% dos roubos de carro no Rio.

Povoleri cumpriria 4 anos e meio em regime fechado. Suspeitava-se de que tais veículos seriam convertidos em cocaína, a ser distribuída no Brasil.

Embora acusados e por vezes relacionados a uma série de crimes, os bicheiros perdiam mesmo o brio quando enfrentavam suspeitas de envolvimento com tráfico de drogas. Sabiam que este crime poderia pôr em risco todo o resto, incluindo a imagem pública, mais seriamente que qualquer outro.

O dia 12 de outubro de 1989 começou com a prisão de Guerra, na casa de Capitão, em Itaipu, Niterói. Poucas horas depois, Capitão, que estava em uma churrascaria, também seria preso por uma equipe da PF, que adentrou o estabelecimento ainda no meio da refeição. Ao lado de Capitão, dois policiais civis e Povoleri. Todos saíram de lá presos, em decorrência do depoimento da falecida Agnes – ou Geovana.

Era o final glorioso da Operação Marselha. Mas um Capitão exibindo um sorriso aliviado, ainda no camburão da PF, levantava uma certa desconfiança em quem assistia à cena. (Continua!)


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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 8


REDAÇÃO -

Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.


No início dos anos 1980, um crime atraiu a atenção de todos. O corpo do jornalista Alexandre Von Baumgarten foi achado boiando no mar, no Recreio dos Bandeirantes, em estado adiantado de decomposição.

Dono da revista O Cruzeiro desde 1979, havia saído da Praça XV, centro do Rio, com sua esposa, para pescar de barco. Não retornaram mais.

Entretanto, um fato fez com que o destino desse crime fosse diferente dos demais. Ele deixou uma carta: “Nesta data (28 de janeiro de 1981), é certo que a minha extinção física já tenha sido decidida pelo SNI. A minha única dúvida é se essa decisão foi tomada em nível do ministro-chefe do SNI, general Octavio Aguiar de Medeiros, ou se ficou no nível do chefe da agência central, general Newton Cruz.”

Foi apenas o primeiro parágrafo de uma longa exposição de nomes e acusações, redigido Von Baumgarten quase dois anos antes que seus temos se materializassem, finalmente. Providenciou 10 cópias do mesmo, tendo uma delas chegado à imprensa, no caso, à revista Veja.

Como ocorria comumente naquele período, apesar das evidências de homicídio – três marcas de tiro. Dois na cabeça e um no abdômen -, foi enterrado como afogado. Após a publicação, as autoridades foram obrigadas a investigar o caso.

Baumgarten era já há tempos informante do SNI. Com o apoio do governo, adquiriu a revista O Cruzeiro, onde cerrava fileiras ao lado dos militares. Por meio de seus contatos, conseguia cartas destinadas a empresários, de forma a conseguir contratos de publicidade. Quando constatou que a jogada não estava rendendo os dividendos pretendidos, pediu ajuda financeira ao governo. Nunca conseguiu.

Um dos acusados na missiva de Baumgarten foi o coronel Ari de Aguiar Freire, o Careca. Integrante da “turma da caneta” do SNI, grupo de especialistas que rejeitavam os métodos brutais tradicionais, chegou a ser investigado após o caso do Rio Centro, mas foi inocentado.

O jornalista continuou, acusando Careca de contrabando, de receber propina de Climério Veloso, dono da Casas da Banha, dentre outros crimes.

Aguiar foi “punido”. Deixou as trincheiras do SNI e foi nomeado assessor da delegação brasileira junto à OIT – Organização Internacional do Trabalho, em Genebra. Nunca foi visto em reuniões de trabalho na Organização.

Baumgarten citou mais um nome, o do coronel Ari Pereira de Carvalho, abrigado na Embaixada Brasileira na Argentina. Capitão Guimarães também foi implicado nas investigações. Declarou aos jornalistas que “Acho que envolveram o meu nome porque sou muito conhecido por dar apoio às artes populares.” Sobre sua relação com o jogo do bicho: “Minha relação com o jogo do bicho é apenas de estudioso.”

Ari de Aguiar conciliava suas férias forçadas na Suíça com o comando da Irmandade Santa Cruz dos Militares, espécie de associação que reunia ex-integrantes da repressão. Dezenas de ex-agentes lá participavam, como Perdigão. As reuniões costumavam ocorrer no restaurante Angu do Gomes, na Praça Mauá, entre membros da Scuderie Le Cocq, prostitutas, bicheiros etc. Era lá que se decidiam os assassinatos, políticos ou não, atentados a bomba para incriminar “comunistas” etc.

Ainda em 1981, outro crime chocou a cidade. Com nove tiros, o ex-policial e ex-paraquedista do Exército Mariel Maryscotte de Mattos, o Ringo de Copacabana, caiu derrotado. Chegava ao fim uma vida de pontuada por crimes, ambição e audácia. Mariel servira no DOI da rua Barão de Mesquita em 1972, ao lado de Guimarães. Sua fama era de “justiceiro da Zona Sul”.

Ocorreu em meio a uma guerra travada nas rua do Rio. De um lado, os que apoiavam a entrada de Mariel no mundo da contravenção; de outro, os que discordavam, como Capitão Guimarães. O motivo da discórdia era a acusação de que Mariel matara o bicheiro José Batista da Costa, o China da Saúde.

Quando assassinado, Mariel estava em conflito com seus sócios Marcos Aurélio Corrêa de Mello, filho do bicheiro Raul Capitão, e Wilson Chuchu, filho do bicheiro Manuel Nunes Areas, o Manola.

Mariel cobiçava ser como seu ídolo, Capitão Guimarães.

Se Guimarães foi acusado e extorsão a contrabandistas quando militar, Mariel não agiu de modo muito diverso: foi apontado como chefe de uma quadrilha de falsificação de cheques de viagem e como executor do assassinato de Odair Andrade Lima, ladrão de carros achado crivado de balas e com um cartaz do Esquadrão da Morte acima da cabeça. Foi condenado a trinta anos na cadeia.

Foi preso no complexo Frei Caneca, depois transferido para a Ilha Grande. Lá, circulava livremente, até que conseguiu escapar da ilha. Suspeitou-se que usara um “iate de contrabandistas” para empreender a fuga, inicialmente. Mas pouco após chegaram-se aos nomes: Capitão Guimarães, Luiz Fernandes Brito, capitão do Exército, e major Wilson Crespo de Oliveira, da PM.

Meses depois, Mariel foi recapturado em Marília, São Paulo. Preso, saiu sob liberdade provisória. Passou a estudar jornalismo, prometeu deixar o passado sangrento para trás, mudar de vida. Mas a verdade é que, mesmo preso recebia propina de bicheiros, as “taxas” de proteção.

Guimarães passou-se por amigo e aliado de Mariel até as vésperas de sua morte. Guimarães sabotou uma compra de pontos de bicho que Mariel pretendia em Niterói. Mariel, inconformado, travou discussão com um capanga de Guimarães. O caso evoluiu para o homicídio de um dos coletores de Guimarães, em Piratininga.

Soube-se que, dias antes do assassinato de Mariel, Guimarães se reuniu com seus seguranças. O grande suspeito pela morte foi o detetive Francisco Queiroz Ribeiro, o Chiquinho, gerente de China da Saúde. Chiquinho seria assassinado no início de 1983. Mas foi apenas um capítulo de uma longa matança, que vitimou Wilson Chuchu e Marquinho.

Segundo o delegado Cláudio Guerra: “A sua execução (Mariel) foi uma queima de arquivo determinada por Perdigão. Não participei dessa operação, mas sei como ocorreu. Ao que parece houve uma votação igual à que selou o destino do delegado Fleury. Os executores de Mariel eram policiais civis e militares das Forças Armadas. A exemplo de Fleury, Maryscotte serviu muito ao SNI de Perdigão, e acabou tendo o mesmo destino do delegado.” Suspeitava-se de que Mariel também estivesse atuando no tráfico de drogas.

Eliminados todos os concorrente, tendo o caminho limpo diante de si, Guimarães procurou novos ares: em breve, seus domínios incluiriam o Espírito Santo. (Continua!)


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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 7

REDAÇÃO -

Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.

Apresentação dos jurados do desfile das escolas de samba em 2005.


A chegada de Capitão Guimarães ao mundo da contravenção (e do crime, a segunda em decorrência da primeira), trouxe ares de Estado-Maior à cúpula dos “corleone-do-bicho”. Adotaram-se procedimentos técnicas empresariais, investiu-se em informática, adotaram-se normas de hierarquia. As reuniões agora contavam com atas (em lugar do fio-do-bigode).

A divisão formal de territórios foi comentada pelo próprio Guimarães: “Antes, você podia dormir com 50 pontos e acordar sem nenhum. Reuni os banqueiros daqui e loteamos Niterói.” Fez o mesmo com o Rio de Janeiro e sua Região Metropolitana. Qualquer território, agora, tinha um dono, com direitos reconhecidos pelos demais.

O coronel Paulo Malhães declarou à Comissão Estadual da Verdade a estratégia de negócios utilizada por Guimarães para sua ascensão: “saiu matando”. Era o novo capo de Niterói.

Em 1981, Guimarães desligou-se definitivamente do Exército, época em que a repressão dava seus últimos suspiros. De 1981 a 1985, com a redemocratização, apenas 4 perseguidos políticos desapareceram; um claro contraste com os 434 contabilizados nos anos anteriores.

As técnicas utilizadas pela repressão também mudaram, privilegiando-se técnicas de espionagem e inteligência, em lugar do sadismo e da tortura, adotados até então. Entravam em cena os jacarés (aparelho de interceptação telefônica), a criptografia, o uso de pessoal infiltrado e a conversão de criminosos em espiões, a serviço do SNI.

Com apenas um mês afastado dos quartéis, Guimarães foi captado pelos radares do antigo empregador. Foi flagrado até entregando propina a policiais.

No mês de abril seguinte, ocorreu o famoso caso do Rio Centro. Durante um show em homenagem ao Dia do Trabalhador, uma explosão de uma bomba dentro de um carro, no estacionamento do Rio Centro vitimaria seus dois ocupantes: um sargento e um capitão do Exército. As investigações constataram que, após descobrirem que a bilheteria do show seria usada para financiar grupos de esquerda, agentes do SNI e do COI planejaram um atentado contra 20 mil jovens presentes no evento.

Mas um acidente de percurso levaria à explosão dos dois executores. Um morreu, o outro saiu gravemente ferido. O Exército só admitiu os fatos acima em 1999.

Decorridas mais algumas apurações, chegou-se ao nome do autor intelectual da tragédia. Freddie Perdião Pereira era violento, era mau, era sádico, era conspirador. Foi o responsável por converter as instalações voltadas à tortura em centros de conspiração da contravenção.

Desde os anos 1970, Perdição recebia propinas do bicho em troca de proteção. Após a constatação de seu envolvimento na explosão no Rio Centro, Perdição caiu em desgraça no Exército. Daí, com a ajuda do amigo, tornou-se soldado da milícia de Guimarães.

Guimarães já tinha amealhado um bom patrimônio. Um informe do SNI atribuía-lhe a propriedade de dois automóveis Miura, um Puma e de uma Brasília. Morava na Rua Domingos Ferreira, em Copacabana. Tinha um escritório na rua Mariz e Barros, em Niterói – sede de suas movimentações no jogo do bicho.

Perdição era um sujeito reservado, discreto, evitava ser fotografado. Passou 12 anos nos porões da ditadura, usando e abusando da violência que lhe era característica. Usava o codinome Doutor Roberto. Segundo Inês Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte: “Doutor Roberto, um dos mais brutais torturadores, arrastou-me pelo chão, segurando pelos cabelos. Depois, tentou me estrangular e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e deram-me pancadas na cabeça. Colocavam-me completamente nua, de madrugada, no cimento molhado, quando a temperatura estava baixíssima. Petrópolis é intensamente fria na época que estive lá.”

Perdigão também foi o responsável pelos dois tiros cabeça, desferidos contra o casal de estudantes Catarina Helena e João Antônio Abi-Eçab, da ALN (Ação Libertadora Nacional), em 1968.

Ressentido com o tratamento que vinha recebendo da corporação após o desmantelamento dos aparelhos da subversão, Perdigão iniciou uma série de explosões pelas ruas, visando a jogar a culpa sobre os “comunistas”. Essas ações tiveram um fim após a tragédia no Rio Centro. O general Newton Cruz, chefe do SNI, desembarcou no Rio e deu ordens para que cessassem as explosões imediatamente.

Diante dos seguidos “banhos de água fria”, Perdiga aceitou o convite do colega Guimarães e se filiou às trincheiras do bicho. Tinha 45 anos, mancava em decorrência de um tiro na perna, exibia uma Medalha do Pacificador, também em decorrência do episódio no qual foi baleado por guerrilheiros.

Perdigão foi afastado do SNI durante o governo Sarney, em 1987. Nesse ano, Guimarães assumia a presidência da LIESA – Liga Independente das Escolas de Samba. Criada para ocupar o lugar da antiga Associação das Escolas de Samba, a LIESA visava à apropriação dos desfiles de Escolas de Samba pela cúpula do bicho: Anísio, Castor, Luizinho Drummond e Guimarães. Os desfiles, diante do manancial de dinheiro investido pelos bicheiros, tornaram-se um espetáculo caro e, pari passu, gerador de receitas. E o melhor: negócio ideal para a lavagem de dinheiro sujo.

Após a LIESA, a influência do poder público sobre os desfiles foi alijado, a Riotur foi excluída do negócio dos desfiles, e a gestão dos recursos gerados pelos desfiles foi privatizado pelos bicheiros. As pequenas Escolas, que não contavam com um patrono contraventor, perderam quaisquer chances de concorrerem com as grandes.

Os capi, visionários apesar de tudo, investiram em empresas fabricantes de fantasias e alegorias, explorando um nicho lucrativo que eles mesmos criaram. Em geral, eram negócio gerenciados por parentes e amigos.

Perdigão assumiu a chefia de uma empresa de segurança, que prestava às empresas de ônibus dos bicheiros, na Baixada Fluminense.

Perdigão foi autorizado pelo “superior” a abrir uma mesa de jogos de bilhar em Cabo Frio. Nessa época ele já era responsável por chefia toda a escolta dos capi da cúpula do bicho. Em seu nome, tinha um minimercado, uma empresa de importação e exportação e uma concessionária de veículos. Diz-se também que foi sócio no negócio de importação de xampus Pantene.

Algum tempo depois, Perdigão se desentenderia com Guimarães, após este ficar ao lado de Anísio Abraão, por desavenças financeiras.

Perdigão morreria aos 60 anos, em 1996, de aneurisma cerebral. Guimarães não compareceu ao enterro. (Continua!)



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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 6

REDAÇÃO -
Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.


A Escola de Samba Mocidade Independente de Padre de Miguel é famosa pela sua bateria, de notável beleza rítmica. Desde os anos 1960 essa bateria revoluciona o modo de se tocar samba-enredo. Comandada por José Pereira da Silva, o Mestre André, a indefectível “paradinha” ousava e abusava da criatividade. Sebastião Esteves, o Tião Miquimba, foi quem inventou a marcação do surdo de terceira.

A história da Mocidade começa no futebol, com time Independente Futebol Clube. Em 1955, nasceu a Escola de Samba, reunindo os sambistas moradores da Vila Vintém. Não tinha um dono: pertencia aos sambistas.

Em 1970, alcançou um inédito quarto lugar, com o enredo “Meu pé de laranja lima”, baseado no best-seller de José Mauro de Vasconcelos. Em 1971, com o enredo “Rapsódia da saudade”, a escola ficou na penúltima posição. Deveria ter sido rebaixada, com a Unidos de Padre Miguel, última colocada. Mas uma alteração no regulamento, de última hora, evitou a queda de ambas.

Castor era o notório dono das bancas de jogo do bicho nos bairros de Bangu e adjacências, portanto vizinhas da Escola. Seria inevitável a aproximação.

Instalou-se na Escola, definitivamente, desde 1973, quando a agremiação terminou em sétimo lugar. Inicialmente, evitou os holofotes da presidência: indicou o policial Osman Pereira Leite para o cargo. Castor seria o presidente de honra.

Castor investiu. Contratou o carnavalesco Arlindo Rodrigues, campeão pelo Salgueiro nos anos 1960. Para a bateria, providenciou o retorno do glorioso Mestre André, que se afastara em 1972 e 1973.

Em 1974, apresentando como enredo “A festa do divino”, a Escola terminou na quinta colocação; Em 1975, com “O mundo fantástico de uirapuru”, ficou em terceiro; em 1976 apresentou “Mãe menininha do Gantois” e terminou em sexto; em 1978, trouxe “Brasiliana” e terminou no quarto lugar; em 1979, ostentando o enredo “O descobrimento do Brasil”, por fim, a Escola de Padre Miguel conquistou o primeiro lugar do carnaval carioca.

Todos os enredos acima foram assinados pelo ilustre Arlindo Rodrigues.

Mas a escalada acima não fácil. Em 1974, a Escola sofreu um incêndio na Vila Hípica, seu ateliê. Perderam-se nas chamas “300 (fantasias se) baianas, 150 fantasias de carregadores de alegorias, centenas de vestimentas de 12 alas – cada qual com 35 a sessenta figurantes -, além de Cr$ 40 mil em lamê, oito máquinas de costura e vários metros de fazenda em geral”, conforme noticiado pelo Jornal do Brasil.

A mesma publicação descreveu também as providências tomadas pelo novo patrono: “o presidente de honra da Mocidade, advogado Castor de Andrade, conseguiu a liberação do campo de futebol do Bangu Atlético Clube para que ali se desenvolvam, em ritmo acelerado, os trabalhos finais, e para onde, ainda hoje, será transportado todo o material necessário. Guardas de segurança serão contratados para que se evitem novos transtornos.”

Osman cria em incêndio criminoso. A razão alegada por ele era o fato de os concorrentes terem conhecimento do aumento brutal do orçamento disponível para os desfiles: foi dos Cr$ 100 mil para mais de meio milhão. E ainda confessou: “Se eu pego o responsável por isso, mato-o sem nenhum remorso.”

Por mais inacreditável que possa parecer, apenas em razão de uma inesperada nota 4 em fantasia (justamente a fantasia...) a Escola saiu da disputa pela vitória. O Salgueiro ficou com a vitória. Salgueiro era a Escola do diretor Luiz Fernando do Carmo, o Laíla, de Joãozinho Trinta e do bicheiro Osmar Valença. O enredo campeão foi “O Rei de França na ilha da assombração”.

Apesar dos esforços de Castor, envidados em nome da Escola e no sentido de limpar seu próprio nome, a policia continuava insistindo em tirar-lhe a paz. Em 1977, uma comissão da Secretaria de Segurança apurava as atividades do bicho, como o assassinato de China Cabeça Branca, prendeu Anísio. A lista de suspeitos a serem interrogados incluía o nome de “Osman Pereira Leite, presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel e afilhado de Castor de Andrade, em Bangu”, conforme redação da própria comissão.

Essa movimentação ocorreu poucos dias antes do início dos desfiles. Devido aos transtornos causados, o delegado Newton Costa declarou: “Não temos nada contra o samba, mas a verdade é que quase todas as escolas estão entregues aos contraventores, e temos de ouvi-los. Por isso acabamos criando problemas como esses.”

Na noite do desfile, Osman foi informado de que seria preso logo após a apresentação de sua escola. A acusação era sua ligação com Castor.

Dias após, Osman não foi preso, mas o desfile da Mocidade foi um desastre. Osman acusava a polícia de persegui-lo e a Riotur, de sabotar a Escola, ao lado de concorrentes. A solução que ele encontrou? “Vou botar o Castor de Andrade como presidente da escola e eu ficarei como vice-presidente. Ele cuidará de toda a parte administrativa e financeira. Eu, ao contrário do que vem acontecendo, estarei liberado para me preocupar apenas com a organização do carnaval.”

A comissão queria os depoimentos de Osman e de Castor. Este era acusado pelo assassinato do bicheiro Vicente Paula da Silva, seu funcionário. Fora seqüestrado e assassinado em abril d 1973 e seu corpo foi achado cheio de perfurações a bala, na rodovia Rio-Magé, além da mão esquerda cortada. O motivo do crime? Vicente chamou Castor de ladrão em público. Os suspeitos da execução do crime foram dois policiais: Sebastião José da Silva, o Tião Tripa, e Osman.

De qualquer maneira, assim como todos os demais, esse crime nunca foi solucionado.

E Osman seguia presidindo a Mocidade por mais de uma década.

A vitória em 1979 trouxe uma apresentação inesquecível: baianas fantasiadas de branco e preto carregavam caravelas sobre a cabeça, esculturas de elefantes representando as Índias deixavam o público embevecido. Arlindo Rodrigues se superara. O samba “O descobrimento do Brasil” fora composto por Toco e Djalma Cril. Tão belo quanto ufanista, o que soava um tanto “governista”, mas em nada obscureceu o espetáculo proporcionado pela agremiação. Segue um trecho:

“Convocando o povo / Para entoar um poema de amor / Brasil, Brasil, avante, meu Brasil / Vem participar do festival / Que a Mocidade Independente / Apresenta neste Carnaval.”

Como um El Cid, Castor conquistava novas terras para seu império.

O poderoso-bicheiro também maquinava como incrementar as receitas que obtinha com as apostas. Parecia-lhe pouco o que faturava com suas banquinhas nas esquinas de Bangu. Iniciou uma estratégia de “desenvolvimento de mercado”. A oportunidade surgiu com a conexão com a máfia italiana, cuja aproximação remonta à década de 1960, quando Castor conheceu Antonino Salamone, capo da máfia italiana que, fugindo da polícia italiana, chegou ao Rio.

Castor empregou o novo amigo na sua Tecelagem Bangu. Mas isso era só disfarce: Antonino estava em São Paulo.

Na década de 1970, Castor usou suas conexões com autoridades do regime militar e conseguiu algo que pareceria impossível a qualquer ser humano normal: o governo brasileiro emitiu cidadania brasileira ao foragido Antonino, concessão oriunda da lavra do Ministro da Justiça Armando Falcão, ainda no governo Geisel.

Segundo o juiz Walter Maierovitch: “Ele jamais poderia ter obtido a cidadania porque cumpria pena quando fugiu para o Brasil. Havia um mandado de prisão internacional. Os seus processos já tinham transitado em julgado.”

Evidentemente profundamente grato pela ajuda descomunal que recebera, Antonino soube retribuir. Ele foi o principal elo de Castor para, nos anos 1980, fazer desembarcar no Brasil uma enxurrada de máquinas caça-niqueis.(Continua!)



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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 5

REDAÇÃO -

Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.


O bicheiro Castor de Andrade tinha um baú de histórias cômicas, verdadeiras caricaturas, típicas de um gângster tupiniquim.

Em novembro de 1966, Castor se encontrava à beira do gramado do Maracanã, acompanhando aflito o desenrolar de uma partida decisiva, em que seu time, o Bangu, enfrentava seu arquirrival, o América. Aos 27 minutos do segundo tempo, o Bangu vencia por 2 x 1 quando, após um entrada por trás de Cabrita, do Bangu, em Edu, do América, o juiz marcou o pênalti que poderia empatar a partida.

Castor explodiu! Correu, transtornado, em direção ao juiz, revólver em punho e uma mão na cintura. Foi contido pelos demais jogadores e depois retirado de campo pelo major responsável pela segurança no estádio. Sua arma foi recolhida, mas pôde continuar assistindo à partida da beira do gramado.

O Bangu converteu em gol e empatou. Tudo igual: 2 x 2.

Mas o inesperado ocorreu, conforme descreveu O Globo: “Mas aos 42 minutos, possivelmente na marcação mais infeliz de toda sua carreira de bom juiz que foi nos certames juvenis, Idovan marcou um pênalti de Luciano em Paulo Borges, em um lance limpo, em que o zagueiro americano não teve a mínima má intenção.”

Placar final, após a conversão: Bangu 3 x América 2. E o Bangu se tornou o campeão carioca de 1966, após derrotar o Flamengo, na final.

Castor de Andrade, na época vice-presidente do Bangu, puxou o coro: “Um, dois, três, se não corre é de seis...”.

No ano seguinte, Castor se notabilizaria por invadir um estúdio de TV e apontar uma arma contra o jornalista João Saldanha (futuro técnico da Seleção brasileira), que havia suscitado a possibilidade de o goleiro Manga, do Botafogo, ter sido subornado por Castor para deixar o Bangu vencer – com o detalhe de que o Botafogo havia vencido a partida.

Mas Castor teria sua forra. No jantar da vitória, no clube Mourisco, Saldanha correu armado em direção ao goleiro Manga, ainda por conta das suspeitas de suborno. Castor diria, sem esconder um certo sorrido no canto da boca: “Depois dizem que sou eu o marginal do futebol...”.

São apenas algumas das histórias que pontuam a biografia desse ícone da bandidagem carioca. Frequentou delegacias, presídios, estádios, dividiu mesas de jantar no Itamaraty, representou a CBF no exterior, e muito mais.

Nascido em 1926, Castor estudou no Colégio São Bento, freqüentado pela elite da cidade, e no Colégio Pedro II, tradicional escola fundada por nosso segundo Imperador. Formou-se em Direito na Faculdade Nacional, atual UFRJ.

Seu pai era proprietário de algumas bancas de jogo do bicho em Bangu. Quando se afastou da contravenção, seu filho herdou a atividade. Castor tinha cerca de vinte anos e, mesmo formado, nunca abraçou a advocacia.

Castor iniciou sua carreira a todo-vapor. Em 1968, um corpo foi achado, perfurado de balas, em Itaguaí. Era de Denilson Claudio Brás, conhecido como Zé Pequeno. Era sobrinho de Natal da Portela. Denilson esteve preso por 10 anos, pelo assassinato de três empregados de Castor, visando a tomar-lhes os pontos de bicho. Natal acusou Castor pelo homicídio do sobrinho.

Castor, como era de seu feitio, negou o envolvimento em depoimento na Delegacia de Homicídios de Niterói. Ao ser perguntado se se dedicava ao jogo do bicho, disse que “teve em sua família contraventores”, mas que isso não significava que vivesse da contravenção. Disse ao delegado que aquela era sua primeira vez dentro de uma delegacia. Acrescentou que conhecia Natal da Portela, a quem o apresentaram na condição de diretor de futebol do Madureira.

Após o AI-5, iniciou-se uma caçada aos bicheiros. Entre 1968 e 1969, banqueiro do bicho foram presos, acusados de enriquecimento ilícito. Foram eles: Castor de Andrade, Natal, Newton Camelo, Elídio Gomes de Oliveira, José Caruzzo Escafura, o Piruinha, e Mário Stanile. Primeiro foram para o DOPS. Após, foram para Ilha Grande, na Penitenciária Cândido Mendes. Sua permanência na Ilha foi um episódio surreal – ou seria, se não estivéssemos no Brasil...

Advogado, Castor tinha direito a cela especial. Como o presídio não contava com esse tipo de acomodação, Castor foi abrigado em uma casa mobiliada, com oito quartos, empregados e quintal, fora do presídio. Os demais bicheiros ficaram nas celas regulares de 2 x 4 metros quadrados.

Em suas palavras: “Estava confinado na Ilha, mas me deram uma casa enorme, de oito quartos, que reformei toda. Contratei quatro empregados, além de um mordomo, e promovia apresentações de escolas de samba, tinha salão de jogos, telefone, cinema, ficou tão bacana que passou a ser chamada de ‘Casa de Visitas’. Quando tinha uma visita importante na Ilha, como não havia lugar para hospedá-lo, o diretor levava-o para a minha casa”, contou ao Pasquim.

Em parceria com Carlos Imperial, compôs a música “A ilha”.

Em 10 de abril, 4 meses após ser preso, seu Habeas Corpus foi concedido pelos desembargadores, por unanimidade.

Voltou ao Rio no helicóptero do estado. Quando pousou, foi preso novamente, no aeroporto de Manguinhos. Agora eram agentes do Cenimar, sob acusação de contrabando.  Castor foi preso na Ilha das Flores, na Baía da Guanabara. Ficou em cela isolada.

Castor foi, então, vizinho de cela de um preso político, de quem não sabia o nome, mas que conseguiu fazer passar para a cela do bicheiro um bilhete: “Meu prezado amigo Castor de Andrade, nesse dia memorável, em que inauguramos a telecomunicação via tomada entre Subversópolis e Corruptópolis, quero parabenizá-lo.” Castor traria consigo esse bilhete por muito e muitos anos.

Foi solto em 1969.

Castor continuaria sob vigilância do governo, mas menos por suas atividades de bicheiro e mais por seus novos empreendimentos, ligados ao contrabando. Essa atividade incomodava por prejudicar a indústria nacional, foco dos investimentos que procuravam desenvolver o país.

O governo sabia que Castor havia montado um negócio pesqueiro em Porto Seguro, Bahia. A Marinha não engolia a versão de sincero interesse nos lucros dos pescados. Foi o monitoramento de seus movimentos nesse novo nicho que o levaram à prisão na Ilha das Flores.

Foram identificados movimentos contrabandistas de Castor em Itaguaí, no Rio, e em Ponta Negra, Maricá, em parceria com uma empresa, Imperial Volks, DNA de uma ilha, onde a muamba era desembarcada. Até mesmo redes de eletroeletrônicos faziam parte do esquema contrabandista, que se estendia de Itaguaí a Paraty, ao longo de diversos pontos do litoral fluminense.

Outro relatório, aponta que Castor era “receptador de contrabando”. O movimento se iniciava com uma firma, Navegação e Comércio Motonave S.A., cujos navios eram abastecidos no Uruguai, quando se direcionavam à Argentina, para serem carregados de trigo. O comércio internacional e dependia de autorização do Banco do Brasil e da Marinha Mercante. Essa investigação suscitou suspeitas de que Castor tivesse a conivência de altas autoridades no governo.

Desde 1975, as autoridades na Bahia também estavam ao par das atividades de Castor no estado. Em vistoria no local da empresa pesqueira de Castor, foi flagrada a presença de Daniel Guedes, vulgo Pinguim (foi assassinado dentro de um Galpão, em Oswaldo Cruz). Sabia-se que a costa baiana era propícia para a desova de caixas de mercadorias contrabandeadas, que seriam recolhidas pelos barcos da empresa.

Já em 1977, suspeitava-se de atividades de Castor, não mais no contrabando, mas no tráfico de entorpecentes, usando-se das mesmas instalações. Conforme matéria d’O Estado de S. Paulo: “Porto Seguro, entrada leste do entorpecente.” Porém agora o movimento eram de muito maior envergadura. Navios sairiam do Oriente Médio com morfina, cocaína; eram desembarcados no frigorífico de Porto Seguro e postos na barriga de peixes; eram enviados ao Rio em caminhões-frigorífico; o viciado escolhia o “peixe” que queria. Essa estratégia contaria até com a conivência de empregados da Petrobras, dona dos navios, além dos órgãos de fiscalização.

Castor também recrutou seu corpo de seguranças particulares a partir das fileiras da repressão oficial, quando do seu desmonte. Por exemplos, o delegado Mauro Magalhães e o detetive Fernando Gargaglione.

Esses dói nomes surgiram em uma planilha encontrada no imóvel de Castor, em Bangu, no âmbito da chamada Operação Mãos Limpas Tupiniquim, primeira referência àquela italiana. Além dos dois policias, surgiam nomes de autoridades como Nilo Batista, então governador, advogados, jornalistas, membros da cúpula da segurança no estado, etc. Todos recebiam propina do bicheiro.

Essa Operação coordenada pelo MPRJ e seu nome derivava da Operação homônima, na Itália, que tinha como alvo a influência da máfia local sobre negócios lícitos, ilícitos e mesmo a política local. Sem dúvidas algo bastante semelhante com o que ocorria aqui.

O Procurador responsável foi Paulo Biscaia e a juíza, Denise Frossard.

Nilo explicou que seu nome estava nas planilhas por ter intermediado uma doação do bicheiro à Abia, Associação de apoio a pessoas com Aids, coordenada por Betinho (sociólogo Herbert de Souza). Betinho admitiu ter recebido 40 mil dólares para a sua associação beneficente dessa maneira.

Quanto aos agente supra, Magalhães laborou nas interrogatórios de presos políticos confinados no Estádio Caio Martins, em Niterói. Foi transferido para uma delegacia em Petrópolis. Em depoimento, admitiu ter conhecimento de torturas e da existência da Casa da Morte. Negou relação com o jogo do bicho, acusou o MP de perseguição, por seu nome figurar nas planilhas do Castor.

Magalhães também foi o delegado da Polinter, quando da prisão dos bicheiros, já em conseqüências da Operação. Nesse período, Castor foi acusado de pagar por diversas reformas na carceragem. Em retribuição, os bicheiros tinham diversas regalias, como uso de celulares. Magalhães negou ter dado essa autorização.

Quanto a Gargaglione, este admitiu sua atuação na repressão, em entrevista. Quando perguntado se ele se dedicara a realizar interrogatórios ou a dirigir sessões de tortura, respondeu: “Olha, filho, bateu-se muito nesse Rio. Bateu-se com vontade. Alguns interrogavam, mas tinha um grupo que já chegava botando o cara no pau de arara. Vi muita gente roxa de porrada. Fizeram muita barbaridade.”

As funções delegadas aos seus agentes por Castor eram: garantir uma rede de proteção aos seus territórios; ser informado antecipadamente sobre eventuais operações; eliminar desafetos e inimigos.

Quanto à caçada aos bicheiros, empreendida pelo regime militar a partir do AI-5, em 1968, sobreviveu por menos de 10 anos.

As investigações sobre jogos de azar, exploração da prostituição e tráfico de drogas ficavam a cargo de uma espécie de Tribunal de exceção, chamada CGI – Comissão Geral de Investigação. Desde janeiro de 1969, essa Comissão teve seu papel ampliado. Podia investigar servidores públicos ou particulares e era presidida pelo Ministro da Justiça.

Até 1974, a CGI tinha em seu poder mais de 2 mil processos que investigavam bicheiros. A grande maioria era arquivada, pois dependiam de orientação do Ministro, que nunca a emitia.

Em 1976, a atuação da CGI contra bicheiros foi definitivamente enterrada. Geisel orientou o Ministro da Justiça Armando Falcão no sentido de que o combate ao jogo do bicho era atribuição dos Estados. Todos os processos em curso foram estavam extintos.

Interessante observar o senso crítico e a sinceridade das análises escritas nos relatórios da época: “... não interessa atingir os miseráveis, aqueles que vendem o jogo, mas sim os banqueiros, os donos das chamadas ‘fortalezas’. Esses são resguardados e protegidos.”

Como os demais contraventores, Castor também cultivava o sonho de se tornar uma figura mais bem vista, aceita socialmente, sem despertar repúdio ou vergonha nas classes altas pelo simples fato de estarem no mesmo ambiente. A tática também foi a mesma: tornar-se patrono de uma Escola de Samba. O sucesso dos desfiles, atraindo turistas e a atenção de todo o mundo apontava o caminho que deveriam trilhar. (Continua!)


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DO BICHO À MÁFIA - PARTE 4

REDAÇÃO -

Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.

Quando Luiz Cláudio de Azeredo Vianna era delegado em Petrópolis, Joel Ferreira Crespo era seu auxiliar. Portanto estava ciente da Casa da Morte e de todos os outros aparelhos repressivos em pleno funcionamento, na década de 1970.

Na década seguinte, Guimarães e Anísio como “capi” do bicho, Crespo e Malhães como responsáveis pelo aparelho repressivo da contravenção, trabalhariam de maneira bastante harmoniosa.

Crespo se relacionava com a família de Anísio desde os anos 1960. A amizade sobreviveu às décadas. Seu filho, o policial Paulo Sérgio Crespo, o Paulinho, teria papel de destaque nas “Organizações Anísio” na década de 1980.

Mas papai e filhinho Crepos não tinham contrato de exclusividade com Anísio. Após o assassinato de Marco Aurélio Corrêa de Mello, o Marquinho, filho do bicheiro Raul Côrrea de Mello, o Raul Capitão, Crespo pai e Crespo filho foram solicitados a matar o bicheiro suspeito Jaider Soares. Segundo os jornais, o entrevero foi suscitado por causa de disputas por pontos de jogo em Petrópolis. Jaider é patrono da escola de samba Grande Rio e filho do Poderoso Chefão do bicho em Caxias, Antônio Soares.

Marquinho havia herdado os pontos do pai, Raul, e se lançou a uma estratégia de expansão desenfreada, à base do tiro e da violência. Seguiu essa lógica no Triângulo Mineiro e em São Paulo. No Rio, no entanto, essa lógica entrou em choque com os “capi”. E estes ficaram do lado de Antônio e Jaider.

O homicídio de Marquinho segue não solucionado.

O nome de Paulo Crespo figuraria ainda como suspeito em outros crimes. Foi investigado no âmbito do caso Misaque-Jatobá. Em 1986, surgiu como suspeito do seqüestro de Jorge Elias Geraldo, ex-chefe de segurança do TCE-RJ e bicheiro. Ambos os crimes não foram solucionados.

Paulinho caiu em desgraça com Anísio, após ter sido flagrado em grampos telefônicos em conversas nas quais reclamava tratamento que o capo vinha lhe dispensando. Ganhou uma indenização, em troca das bancas que administrava e morreu em 2013, administrando um boteco em Nilópolis.

Embora todo-poderoso, Anísio não controlava a todos. Órgãos de inteligência o monitoravam e procuravam desenrolar o novelo de crimes e contravenções em que estava enredado. De fato, os primeiros informes contendo o nome de Anísio datam do final da década de 1960. Relatório do Ministério do Exército, de 1975, cujo assunto era “jogo do bicho e tráfico de drogas”, afirmava: “Esta agência (DGIE) foi informada que o cidadão Anísio Sessim (primo do prefeito de Nilópolis), residente à avenida Gal. Mena Barreto, nº 551, em Nilópolis, é banqueiro de jogo do bicho, com várias bancas em atividade no município, e que o elemento acima citado é traficante de tóxicos, fazendo o transporte do mesmo em sacolas de supermercados.”

O relatório supracitado cita incorretamente o sobrenome de Anísio, com o de seu primo Simão. A partir do documento seguinte esse erro seria corrigido.

Tornou-se claro como a luz do sol para o Governo que qualquer eventual caçada a Anísio esbarraria em obstáculos criados pelos próprios policiais locais. Isso também foi objeto de arapongagem oficial, em relatório que leva seu nome: “qualquer policial que contrarie as ações do Sr. Anízio, os seus parentes, remove-o (sic sic) para outro lugar do estado.” Explicava-se assim, ao menos parcialmente, a omissão policial e a proteção de que gozava. E assim prossegue o documento oficial: “O Sr. Anizio tem uma residência (mansão) na praia de Piratininga, onde se recolhe quando se acha perseguido.” O documento termina citando um enorme Centro Espírita, localizado na residência de Nilópolis, para melhor informar sobre as dimensões da propriedade do bicheiro.

Para dar um exemplo do atrevimento do bicheiro, o documento cita que Anísio esteve preso na PE (Polícia do Exército) “e diz para todos que foi hóspede do Exército, pois tinha regalias, tudo o que queria, inclusive televisão.”

Continuando com o relatório, este cita o território controlado por Anísio: Nova Iguaçu, Nilópolis, Belford Roxo, Mesquita e Paracambi. Afirma também que Anísio financiou as campanhas do prefeito de Nilópolis Simão Sessim e do deputado Jorge David.

Outros relatórios chegam a apontar São João de Meriti e Anchieta como territórios sob o controle de Anísio.

As suspeitas quanto à prática de tráfico de drogas não tinham provas mais concretas. Mas foram elaborados organogramas nos quais se traçavam as diversas atividades sob a batuta de Anísio, contendo também os nomes dos responsáveis pelos diversos ramos de atividade. Figuravam nas caixinhas abaixo do chefão: “Michel Abdala”, “corridas de cavalos”; “Nelson Abraão David”, “bicho” e “escola de samba Beija-Flor”; “Jezuino”, “bicho e tóxico” e “traficante de cocaína”.

Este último, suspeita-se, trata-se de Jesuíno Abraão Jorge, o Capitão Jesuíno, primo de Anísio, também diretor da Beija-Flor.

Com a entrada de bicheiros, os desfiles das escolas de samba tomaram proporções empresariais. Esse fenômeno foi responsável pelo enfraquecimento dos reais criadores do carnaval, os bambas do samba.

Se, antes, os sambistas passavam o ínclito livro de ouro de comerciante a comerciante, pedindo uma contribuição para fazer frente às despesas para o fabrico das fantasias, agora os bicheiros eram patronos e patrocinadores. Alguns desses bicheiros já eram relacionados há décadas com as escolas que patrocinavam, como Natal, bicheiro cujo pai era dono da casa em cujo quintal foi fundado o Bloco Carnavalesco Conjunto Oswaldo Cruz, que daria origem à Portela. Foi em 1926, e o dono da casa era o seu Napoleão.

Aqueles tempo românticos eram, de fato, bastante violentos. Mas os anos de chumbo seguintes excederam quaisquer previsões. As guerras sangrentas lutadas nas ruas e esquinas por conta de pontos de jogo do bicho deram surgimentos aos barões, que se apropriaram das escolas de que eram patronos, ainda que nada tivessem com a história do samba e com o feito fantástico dos bambas, criadores das escolas e dos sambas-enredo.

A própria Beija-Flor foi fundada, inicialmente, como um bloco, em 1948, por pessoas muito pobre, negras, moradores do recém-emancipado município de Nilópolis. Tornou-se escola em 1954. Nessa época, Anísio era torcedor de outro bloco, o Centenário, do qual foi presidente. Também freqüentava a Mangueira e para ela torcia. Só se aproximou da Beija-Flor anos depois.

Quando seu irmão, Nelson se tornou presidente da escola, a Beija-Flor adotou enredos de exaltação ao governo e ufanistas. Alguns sambas chegavam ao ponto de citar elogiosamente programas do governo militar, como o tema de 1975 “O grande decênio”, que homenageava aos 10 anos do golpe militar de 1964, e que perseguiria a escola, como um pesadelo de que não se esquece jamais. Valeu-lhe o apelido de “Unidos da Arena”.

Subir em 1973 para o Grupo A, com o tema “Educação para o desenvolvimento”. Ficou em segundo lugar e deu o recado sobre seu posicionamento no espectro político.

O compositor responsável pelos “coros ufanistas” foi o jornalista Manoel Antônio Barroso, quem o Jornal do Brasil apresentava como “assessor do Supremo Tribunal” e “que abandonou a linha afro-brasileira em favor de se cantar as realizações do governo federal na avenida”. O jornal Opinião o descrevia como chefe do gabinete civil do STF.

Barroso escrevia, mas não era carnavalesco. Em 1974, as carnavalescas eram Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, formadas na Escola de Belas Artes da UFRJ.

Muitas escolas usavam a frase dita por Médici: “Ninguém segura esse país.”

A Mangueira, em 1971, exaltava o Correio Aéreo Nacional com o tema “Modernos Bandeirantes”.

Evidentemente há uma linha divisória, um tanto tênue, entre sambas nacionalistas e sambas pró-governo. Os primeiros reverenciavam o Mobral, a Transamazônica, a integração nacional; os segundos, a miscigenação de raças, a grandiosidade do território. Em 1972, a Imperatriz Leopoldinense trouxe o clássico “Martim Cererê”. Inspirado num poema ardorosamente nacionalista, a escola não deixou de soar governista – “Gigante pra frente a evoluir / Milhões de gigantes a construir ...”.

A verdade é que o regime limitar, a exemplo do que fizera Getúlio em relação ao samba, interessava-se pelo poder de difusão representado pelas escolas de samba. Amaury Jório, presidente das escolas de samba do estado, foi a Brasília buscar auxílio financeiro para os desfiles. Segundo o Jornal do Brasil de 1970, foi “aconselhado pelo Planalto a se empenhar para que os temas e as alegorias carnavalescas busquem um sentido mais construtivo e voltado para a atualidade do país.”

Desde 1970, sambas, fantasias e alegorias eram submetidos à Censura. Agentes do Dops acompanhavam os ensaios.

A maneira de protestar encontrada pelos sambistas era usar outro tema: Liberdade. Em 1969, primeiro carnaval pós-AI-5, o Império Serrano foi obrigado a mudar um verso de “Herpois da liberdade”. Falava da Inconfidência Mineira e da Abolição. Mudaram “É a revolução / em sua legítima razão” para “É a evolução / em sua legítima razão”.

Em 1972, foi a vez de Martinho da Vila deixar seu recado. No samba “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”, que falava da expulsão dos holandeses de Pernambuco, ele deixava sua ode à liberdade.

Em 1974, outro samba de Martinho, agora chamado “Aruanã-Açu”, falava sobre os índios Carajás. A composição foi cortada da disputa pela escolha do samba-enredo por pressão dos censores e a Escola foi obrigada a escolher outro enredo para o carnaval. O samba escolhido foi, por fim, uma composição de Paulinho da Viola exaltando a Transamazônica.

Por fim, em 1980, após a Lei da Anistia, mestre Martinho, herdeiro de Noel por honra e mérito, pode se sentir à vontade para compor o clássico “Sonho de um sonho”, inspiração divina advinda de um poema de Carlos Drummond de Andrade.

Pela primeira vez, teve-se a audácia de pôr a palavra “tortura” em uma letra de samba para o carnaval.

Em 1975, logo após o carnaval, começaram a circular rumores sobre a saída do carnavalesco bicampeão Joãozinho Trinta, do Salgueiro. Reclamava da estrutura, ou falta dela. Laíla, diretor de carnaval, também anunciava que deixaria a escola.

Embora o destino alentado pela dupla fosse a Unidos de Vila Isabel, Nelson e Anísio os contrataram para a Beija-Flor. Levaram também o figurinista Viriato Ferreira.

Para o carnaval de 1976, Anísio queria definir o enredo. E era um enredo especial, ao menos para o “AL Cappone do bicho”: Natal da Portela. O mais popular dos bicheiros, velha guarda da contravenção, banqueiro dos tempos românticos, havia morrido em abril de 1975, deixando seus fãs, como Anísio, desolados.

Joãozinho topou, mas adicionou o elemento lúdico, o sonho popular com a vitória em uma aposta, de forma a confirmar um palpite. Além disso, por que não contar a história do jogo, desde o barão de Drummond? Nascia assim “Sonhar com o rei dá leão”, samba composto por Neguinho da Beija-Flor.

Joãozinho Trinta tornava-se sinônimo de carnaval no Rio de Janeiro. Em 1974 e em 1976, fora campeão pelo Salgueiro: “O rei da França na ilha da assombração” e “O segredo das minas do rei Salomão”.

A Beija-Flor tornou-se uma Escola tão cool que atraía personalidades como os dois filhos do general-presidente João Batista Figueiredo: o Paulinho e o Johnny Figueiredo. Agora torciam e desfilavam pela Escola da moda.

Quando visitou o Brasil em 1978, príncipe Charles assistiu a uma apresentação da icônica Escola, em uma apresentação dada pelo prefeito do Rio, Marcos Tamoyo, no Palácio da Cidade.

Porém, em 1979, a Beija-Flor não repetiu o feito. Deu Mocidade em primeiro lugar. E o seu patrono, o folclórico e icônico bicheiro Castor de Andrade, entraria com tudo nos anos 1980, dominando a contravenção e o carnaval carioca. (Continua!)

***

DO BICHO À MÁFIA - PARTE 3

REDAÇÃO -

Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.

O ano de 1976 foi histórico na quadra da Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis. A escola tinha como patrono o bicheiro Anísio, que sonhava ser campeão do carnaval carioca. Até então pequena e conhecida pelos seus sambas ufanistas, que claramente homenageava o regime militar vigente, Anísio investiu no seu sonho. Contratou o carnavalesco Joãozinho Trinta e lançou na avenida o samba “Sonhar com rei dá leão” – clara referência ao jogo do bicho.

Até aquele ano os carnavais eram dominados pelas assim chamadas “quatro grandes” – Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro. Anísio deixou o local de apuração dos votos, no Teatro João Caetano, ainda na metade, após se descontrolar emocionalmente por uma nota baixa. Porém ele estava destinado a comemorar naquele dia: a Beija Flor venceu o carnaval de 1976, pela primeira vez. Anísio era o novo rei do carnaval.

Nascido Aniz Abraão David, o Anísio era um completo joão-ninguém até meados da década de 1960. Já em meados de 1970, ele e sua família eram os “God Father” do município de Nilópolis. Sua escalada em direção à cúpula do crime e da contravenção recebeu um fôlego extra quando passou a apoiar os militares e sua ditadura. Anísio contribuiu de diversas formas, seja informando sobre perseguidos e cassados, seja com a cooptação de agentes e policiais. Vamos começar do início...

Em 1964, o capitão José Ribamar Zamith, comandante da Vila Militar do Rio de Janeiro, recebeu ordens expressas e límpidas do presidente marechal Costa e Silva: “Eu quero a Baixada de cócoras!”

Os alvos identificados eram: infiltração comunista, representada por cabos e sargentos que quebraram a estrutura hierárquica e disciplinar nos anos de Jango; poder político local de forte cariz trabalhista, de herança varguista; corrupção e tráfico de drogas.

Esse ambiente bélico forneceu as bases para a ascensão de duas famílias: Sessim e Abraão David. A origem dessas duas famílias está na chegada de dois casais de libaneses ao Rio de Janeiro, na década de 1920: Abraão e Julia David; Sessim David e Regina Simão.

Estabeleceram-se na Baixada como pequenos comerciantes. Anísio nasceu em 1937, irmão de mais nove filhos do casal Abraão e Julia.

A primeira geração foi a responsável pelo mergulho de cabeça na política local. O médico ginecologista e obstreta Jorge Sessim David elegeu-se deputado pela UDN, em 1962. Jorge e Anísio eram primos. Outro dos irmãos, o professor Simão Sessim, também UDN, foi prefeito de Nilópolis e deputado federal por nove mandatos em sequência.

Jorge David foi apoiador de primeira hora do golpe. Delatou muitas pessoas, especialmente desafetos políticos. Era um grande informante do SNI. Sede da repressão co foco na Baixada, a Vila Militar franqueava suas dependências a Jorge. O AI-2 abriu alas para a evolução das famílias David e Abraão na passarela de Nilópolis.

O sociólogo José Cláudio Souza Alves exemplifica como a ingerência do regime militar trazia instabilidade política à Baixada Fluminense. De 1963 e 1969 Nova Iguaçu teve oito prefeitos: dois interventores, dois presidentes de Câmara, dois prefeitos eleitos e dois vices.

Em fevereiro de 1970, em depoimento na Câmara municipal, denunciou o prefeito de Nilópolis João Cardoso, adversário político da família, embora ambos fossem da Arena. A denuncia era acerca de cargos ocupados sem que o titular, de fato, trabalhasse. Após expurgos diversos, Simão Sessim assumiria como procurador-geral do município. Em 1972, finalmente foi eleito prefeito. Miguel Abraão era o presidente da Câmara.

Jorge David informava enquanto os “turcos” reinavam.

Em meio a essa turbulência, Anísio, jovem que parou de estudar ainda no primário, ao lado dos irmãos Nelson e David, usaram suas conexões com policiais e agentes do regime para se apossarem das bancas de jogo do bicho na região. Sem concorrentes, claro.

Anísio já tinha algumas bancas, que herdara de Seu Ângelo, a quem auxiliara. Mas o mercado era pulverizado. Diversos banqueiros do bicho atuavam em diversos bairros, não havendo um chefão que dominasse os demais.

Com o AI-5, o bicho passaria a ser alvo da repressão. Natalino José do Nascimento, o Natal, e Castor de Andrade, dois nomes que se destacavam, foram presos. Anísio aproveitou o momento de dificuldades temporárias porque passavam bicheiros como seu Ângelo e estendeu seus domínios a toda a região.

Anísio imprimiu então o novo perfil dos donos do bicho: proteção política e policial e alianças com poderes estadual e nacional, de forma a manter seus negócios a salvo, embora ilegais. Ele não chegou ao nível da impunidade – ou inimputabilidade prática -, foi preso algumas vezes, mas nunca ficava muito tempo atrás das grades.

Nelson, irmão de Anísio, fazia um certo contorcionismo com as palavras para defender as atividades criminosas do irmão: “Aniz não emprega marginais; seus empregados são pessoas aposentadas, humildes, aleijados, gente que precisa fazer alguma coisa para sobreviver dignamente. Acho que o Governo deveria legalizar o jogo do bicho, pois só assim evitaria o envolvimento de alguns policiais com a contravenção.”

Como veremos, o próprio SNI emitiu um relatório pelo qual aconselhava o Governo a regulamentar o jogo do bicho, e uma das preocupações centrais eram as pessoas empregadas nessa atividade.

O assassinato do bicheiro e presidente do Salgueiro Euclides Pannar, mais conhecido como China Cabeça Branca, em dezembro de 1975, levou o delegado Newton Costa, que coordenava os trabalhos de uma comissão especial da Secretaria de Segurança Pública do Estado do RJ, a iniciar uma investigação ampla com foco nos bicheiros: Anísio foi investigado e preso, na Academia de Polícia, ao lado de Carlos Teixeira Martins, o Carlinhos Maracanã, presidente da Portela; de Castor de Andrade, patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel; Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas; e de Luiz Pacheco Drumond, o Luizinho, presidente da Imperatriz Leopoldinense; dentre outros.

O assassinato de China Cabeça Branca foi provocado por uma entrevista à imprensa em que denunciava fraude no sorteio dos jogos. Chegou a elaborar um relatório para o Ministério da Fazenda, em que pedia a regulamentação do jogo do bicho. Entendia que isso resolveria todos os problemas relacionados a essa atividade.

China foi morto no bairro do Maracanã, Rio de Janeiro, na esquina da Avenida Maracanã com a rua Professor Eurico Rabelo, após uma série de tiros à queima-roupa desferidos contra seu carro.

Torna-se fácil perceber quem são os únicos que repudiam veementemente a regulamentação do jogo do bicho: os grandes bicheiros.

Anísio mofou na cadeia por longuíssimas... 24 horas! Após as quais, estava tudo o mais esquecido e enterrado. A vitória da Beija-Flora no carnaval de 1977 ocorreu 10 dias depois, a segunda da sequência iniciada em 1976. O tema campeão foi: “Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana”. O carnavalesco responsável, novamente, foi o mítico Joãozinho Trinta.

Anísio e Nelson desfilaram liderando uma carreata, do centro do Rio ao centro de Nilópolis, numa réplica de um Bugatti. Ouviam-se por toda parte gritos de “Bi-Jaflor”.

A par de toda a festa e alegria, o império de Anísio se apoiava nos clássicos pilares da violência, homicídio e perseguição a desafetos políticos. Essas tarefas eram exercidas por policiais e militares, em geral atuantes durante os anos de repressão à subversão, agora empregados na contravenção.

Um desses membros da “guarda pretoriana” de Anísio era um policial civil, Luiz Cláudio de Azeredo Vianna. Nas ruas de Nilópolis, era mais comumente conhecido como Doutor Luizinho. Já na macabra Casa da Morte, centro de tortura de presos políticos localizada em Petrópolis e da qual apenas um preso saiu com vida, era chamado de Laurindo.

O nome da sobrevivente da Casa da Morte é Inês Etienne Romeu, militante da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Ela identificou o nome de 16 torturadores atuantes no local em relatório entregue à OAB, em 1979.

“Laurindo” também atuou num caso famoso, de perseguição e tortura ao ex-pracinha Roberto Emílio Manes. Após uma caçada renhida, por estradas de terra na região de Nova Iguaçu, Manes, a mulher e oito filhos conseguiram escapar do país em direção ao Uruguai. Porém dois filhos e a noiva de um deles foram presos e enviados à masmorra.

Sérgio Manes e Maria Célia foram levados ao DOI, na rua Barão de Mesquita, e torturados. Maria Célia disse ter escondido que estava grávida, mas os torturadores descobriram após uma sessão de choques, quando o feto pulou na barriga, como se quisesse escapar pelo umbigo da mãe. Seu filho nasceu surdo.

“Laurindo”, ou Dr. Luizinho, ou delegado Luiz passou por diversos setores, até ocupar um cargo no Dops – Setor Sul. Após o período de guerra franca contra grupos da esquerda armada, de 1968 a 1974, Luizinho retornou à rotina de delegacias. Com tempo e prestígio, dedicou-se à ascensão do amigo bicheiro que o adotara em seu clã. Sua esposa, Amélia Abdala, era considerada membro da família de chefiada por Anísio.

Em 1978, os serviços de inteligência militar, cujo principal órgão era o SNI, sabia dessa ligação e a expôs em relatório interno no ano de 1978. Esse ano também viu a consagração da tricampeã Beija-Flor de Nilópolis. O tema “Criação do mundo na tradição nagô”, do mago do carnaval Joãozinho Trinta, trouxe novidades excêntricas como um tapete de plumas a recobrir a Marquês de Sapucaí. O samba foi cantado a plenos pulmões pelo púbico. O final do desfile ocorreu sob gritos de “É campeã”, vindos da arquibancada.

Com o tricampeonato, a Escola fora absorvida pelo império de seu patrono, tornando-se ambos quase uma única identidade.

A Beija-Flor do mestre Joãozinho Trinta revolucionou a forma de fazer um desfile, criando regras que agora eram necessariamente seguidas pelas demais: alegorias gigantescas, enredos fascinantes. Os desfiles eram agora acompanhados festivamente por artistas e políticos. Era tudo o que os bicheiros desejavam: ao lapidar suas imagens de gângsteres com a imagem lúdica do samba, pretendiam se tornar pessoas aceitas pela sociedade, passando assim a ser dignos de ocupar espaços até então vetados àqueles tipos reconhecidamente criminosos.

O caminho mais óbvio e imediato que deveriam abrir era a política. O controle da administração municipal não era suficiente, e as eleições que se seguiram ao tricampeonato viram uma enxurrada de dinheiro desaguando dos bolsos dos bicheiros. Investiram pesado na campanha de Simão Sessim (Arena), candidato a deputado federal; e Jorge David, a deputado estadual, também Arena. Não faltaram recursos para amigos também na oposição, como o delegado Péricles Gonçalves, do MDB chaguista, candidato a deputado federal.

Péricles era famoso por algumas declarações, como ter sido o responsável por limpar a Baixada, ou o inaceitável conselho para que seus homens atirasse “no relógio”, isto é, no coração do perseguido.

Foram todos eleitos.

Doutor Luizinho buscou ocupar espaço em diversas frentes: filiou-se e foi líder da loja maçônica União Iguassú; tornou-se proprietário de um haras, em Nova Iguaçu. Este haras foi suspeito de estar relacionado ao famoso caso do assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten.

Seu filho, cujo apelido era Zabura, era gerente de bicho de Anísio, na Baixada.

Após sua morte, o prefeito de Nilópolis Farid Abraão David – irmão de Anísio – batizou uma praça local com seu nome.

Após ser retirado de seu retiro, em um sítio de Nova Iguaçu, o coronel Paulo Malhães, conhecido como Pablo nos porões da repressão, prestou um dos depoimentos mais bombásticos na Comissão Nacional da Verdade, no Rio de Janeiro.

Seu envolvimento na repressão era óbvio e de amplo conhecimento. Não o era, no entanto, sua ligação com Anísio. Ao ser perguntado, respondeu apenas que o bicheiro era seu amigo. Não contou, porém, como cuidou de empregar todas as técnicas macabras dos porões a serviço do amigo contraventor.

“Pablo”, ou coronel Malhães participou na caçada a Manes. Lá, conheceu “Dr. Luizinho”, o delegado Luiz. Aquele convidara o novo amigo para os principais “porões” da ditadura. Com o desmantelamento do aparelho repressivo, o favor foi retribuído, e “Laurindo” acolheu “Pablo” no porão da contravenção.

O oficial reclamava bastante do Exército, especialmente no período após ter isso para a reserva, em 1985. Trocou a indiferença do Palácio Duque de Caxias por um assento na “diretoria” da máfia do bicho.

Após Malhães, o nível de violência empregada pela quadrilha de Anísio aumentou exponencialmente. A já violenta Baixada ocupada por grupos de extermínio testemunhava agora Malhães percorrendo ruas de terra, a cavalo, armado, caçando ladrões, pequenos traficantes, e quem mais entrasse em seu radar. Vestia a fantasia do justiceiro, era apontado como chefe de milícia.

Reconhecida sua “eficiência”, Anísio apontou Malhães para que fosse o responsável pela segurança privada das empresas de ônibus de Nilópolis, como a Nossa Senhora Aparecida. Para tal empreitada, Malhães convocou mais um amigo dos tempos dos porões: o oficial paraquedista Antônio Waneir Pinheiro Lima, caseiro da Casa da Morte, torturador e conhecido naqueles tempos como “Camarão”.

Esse também foi um dos torturadores identificado por Inês, na Casa da Morte. Ele a violentou na ocasião.

Braço direito de Malhães na empresa de segurança, Camarão entrou em desentendimento com o amigo após pedir dinheiro emprestado a Anísio, diretamente, sem antes comunicar Malhães. Camarão pretendia adquirir um posto de gasolina em Seropédica, Rio de Janeiro. A lógica hierárquica das Forças Armadas ainda impregnava a personalidade dos neófitos do bicho.

Anísio e Malhães tornaram-se muito amigos, a ponto deste último ter vestido a famosa fantasia de gari, especialmente confeccionada para a diretoria da Beija-Flor no Carnaval de 1989, cujo tema do desfile foi o histórico “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, mais uma obra surrealista da lavra de Joãozinho Trinta.

Aquele desfile foi marcado pelas polêmicas, envolvendo até o Poder Judiciário – obviamente não no sentido de processar os bicheiros. Joãozinho trabalhou o tema do lixo sendo transformado em luxo; elaborou uma escultura de Cristo vestido de mendigo (que terminaria desfilando coberto com um saco preto, após a Justiça proibi-la, a pedido da Igreja Católica, o que, aliás, tenha proporcionado uma cena ainda mais forte). A campeã naquele ano foi a Imperatriz Leopoldinense – do bicheiro Luizinho -, legando à Beija-Flor a segunda colocação.

Mahães não foi um soldado-torturador obscuro nas fileiras de sociopatas a serviço do regime ditatorial. Recebeu sinceros elogios do general Milton Tavares, logo após o desaparecimento do deputado Rubens Paiva; liderou ações na guerrilha do Araguaia e foi um dos fundadores da Casa da Morte, em Petrópolis.

No DOI da rua Barão de Mesquita, tornou-se personagem folclórico após levar uma jibóia e cinco filhotes de jacarés para ajudar nas sessões de tortura a presos políticos. Uma das missões a ele delegadas, nesse caso delegada pessoalmente pelo Ministro do Exército Orlando Geisel, foi providenciar o desaparecimento definitivo do corpo de Rubens Paiva, à época enterrado nas areias da praia do Recreio dos Bandeirantes. Foi em 1973 e o corpo foi lançado no mar, segundo alegou inicialmente.

No estado do Paraná, liderou a Operação Medianeira, que exterminou um grupo de militantes argentinos e brasileiros, da VPR, numa embiscada. Por essa ação, foi agraciado com a Medalha do Pacificador.

Em março de 2014, em entrevista até então anônima, Malhães contou o motivo de os militares preferirem usar o desaparecimento de presos políticos ao simples homicídio: “O desaparecimento é mais importante do que a morte porque causa incerteza no inimigo. Quando um companheiro morre, o guerrilheiro lamenta, mas acaba esquecendo. Não é como o desaparecimento, que gera uma expectativa eterna.”

Após mais de 20 horas de depoimentos sigilosos concedidos à CEV – Comissão Estadual da Verdade -, Malhães confessou que os corpos das pessoas assassinadas dentro da Casa da Morte eram jogados em um rio perto de Itaipava. Afirmou também que o mesmo fora feito com Rubens Paiva.

Malhães de nada se arrependia e alegava que por nada deveria ser responsabilizado, haja vista estar apenas cumprindo ordens expressas de seus superiores. Dizia que o uso de eletrochoques, preferidos em relação à porrada no pau de arara, foi uma evolução, em razão de choques não deixarem marcas e hematomas posteriores. Explicou também porque abria a barriga das pessoas que matava, antes de atirá-los ao mar: “É um estudo de anatomia. Todo mundo que mergulha na água, fica na água, qunado morre tende a subir. Incha e enche de gás. Então, de qualquer maneira, você tem que abrir a barriga, quer queira, quer não. É o primeiro princípio. Depois, o resto, é mais fácil. Vai inteiro. Eu gosto de decapitar, mas é bandido aqui (na Baixada).”

Seguindo em sua lógica brutal, afirmou também que arcadas dentárias e dedos eram retirados dos corpos antes de serem embrulhados em sacos pretos e atirados na água. Visava a dificultar a identificação. Não havia exame de DNA naquele tempo.

Em 25 de abril de 2014, um mês após seu último depoimento à CNV, Paulo Malhães foi assassinado em seu sítio, em Nova Iguaçu.

Embora aficionado colecionador de desafetos e inimigos, após as investigações, a hipótese de crime político foi descartada.

O barracão da Beija-Flor tinha um chefe: Torres. Quem conhecia sua história evitava fazer comentários. Subtenente da reserva do Exército, Ariedisse Barbosa Torres também foi apontado como participante no assassinato do deputado Rubens Paiva, desaparecido em 1971. Foi formalmente denunciado pelo Ministério Público Militar, em 1987.

Torres também estava envolvido num outro caso: Misaque-Jatobá. Trata-se do seqüestro e desaparecimento do pintor de paredes Misaque José Marques e do publicitário Luiz Carlos Jatobá. Suspeita-se de que os homicídios foram ordenados por Anísio, crendo terem eles roubado jóias da casa do bicheiro, em Piratininga, Niterói.

Torres e Anísio eram amigos de infância.

Torres, por sua vez, levou o capitão Ronald José Motta Baptista Leão, o inconfundível Doutor Léo, como era chamado nos porões da repressão, para as trincheiras de Nilópolis. Após ter sua carreira militar congelada por acusações de roubo de dinheiro de um aparelho subversivo estourado, Doutor Léo virou queridinho de Anísio.

Antes disso, doutor Léo tentou extorquir os próprios militares, após descobrir o paradeiro do corpo de Rubens Paiva, na época ainda enterrado clandestinamente na praia do Recreio. Nos anos 1980, tentou vender essa mesma informação para o Jornal do Brasil. Em 2013, finalmente, contou a verdade publicamente num livro. Declarou que Rubens entrou no DOI pela porta dos fundos e foi recebido por dois capitães: Freddie Perdigão e Rubens Sampaio. Meses após, morreria no Hospital Central do Exército. (Continua!)


***




Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.

A máquina da repressão militar tomou corpo a partir de 1970, quando ocorreram as primeiras missões dos DOIs – Departamentos de Operações de Informações. Mas a masmorra continuava sendo a Vila Militar, agora sob o comando do major Ênio de Albuquerque Lacerda. A primeira vítima dói Severino Viana Colou, presidente da Associação de Cabos e Sargentos da PM do estado da Guanabara e integrante do Comando de Libertação Nacional – Colina. O Exército alegou que ele se enforcou na prisão, usando as próprias calças, embora a foto do óbito revele um homem com os pés apoiados no chão.

Embora, vez ou outra, a repressão enfrentasse pessoas com preparo militar, em geral, eram jovens despreparados e que lutavam apenas pelo desejo de lutar contra o que rejeitavam. Um deles, Eremias Delizoicov, estudante paulista de 18 anos, em 1969, foi encarregado do enfrentamento às tropas que procuravam destruir o aparelho do qual fazia parte, a Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, no subúrbio do Rio de Janeiro. Em meio ao confronto, Eremias conseguiu acertar dois tiros, um deles na perna de Guimarães. O contraventor mancaria pelo resto da vida. Eremias teve o corpo perfurado por 33 tiros.

Ao fim do tiroteio cerrado, e aos 29 anos apenas, Guimarães recebeu uma medalha e o respeito que o tornaria imune à descoberta de sua atuação no submundo do contrabando. Essa foi a razão de não ter sido imediatamente expulso do Exército.

No dia 21 de novembro do mesmo ano, Guimarães e sua tropa foi acionado para o estouro de outro aparelho da subversão. Agora o alvo era a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares – VAR-Palmares -, na rua Aquidabã, no bairro Lins de Vasconcelos, RJ.

Estavam presentes no tal aparelho, Chael Charles Schneider, ao lado de um casal. Tentaram resistir, mas foram derrotados. Chael fazia parte da diretoria da VAR-Palmares, usando o codinome Joaquim, ao lado de Dilma Rousseff.

Presos, os três – Chael e o casal de amigos – começaram a apanhar. Chael morreria 24 horas depois, à base de murros e pontapés. Levado ao Hospital Central do Exército, o general responsável pelo estabelecimento se recusou a recebê-lo como se vivo estivesse, pedido feito pelos militares que o mataram. O laudo confirmou as múltiplas lesões por ele sofridas. Seu pênis estava dilacerado.

Mas isso não impediu o Exército de declarar que Chael morrera de ataque cardíaco.

Liberado dos cuidados médicos, Guimarães recobrou sua rotina de missões e noites dormidas em delegacias. Segundo amigos, não interrogava ninguém com capuz na cabeça. Fazia-o de cara limpa.

Uma das pessoas que Guimarães interrogara foi a psicóloga Cecília Coimbra, em agosto de 1970, no quartel da Polícia do Exército (PE), localizado na rua Barão de Mesquita, Tijuca, RJ. O objeto da investigação era o seqüestro do Embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben. Cecília foi acusada de ligação com o Movimento Revolucionário Oito de Outubro, MR-8. Não chegou a ser agredida fisicamente, apenas verbalmente. A psicóloga se lembra do quadro que ornava a parede atrás de Guimarães: uma caveira e duas tíbias (ossos) cruzados, além de duas letras brancas “EM”, sobre um fundo negro. EM seria Esquadrão da Morte.

Guimarães foi aluno no CEP. Os interrogatórios eram a parte prática do curso de tortura que realizara. Esse curso formaria a mão-de-obra macabra que exterminou todos os grupos da subversão, entre 1968 e 1974.

Em agosto de 1970, Guimarães iniciou a segunda parte do curso, na categoria B. Mudou-se também para Copacabana.

Os cursos das categorias B e C, começaram em 1966, e visavam ao combate às ações da esquerda armada. Ensinavam-se técnicas de interrogatório, a disfarçar-se, a penetrar em residências sem deixar vestígios e a pensar como o inimigo etc.

A técnica vigente até então, que se usava de aberta violência física no pau-de-arara, passou a coexistir com outros métodos de tortura, por meio do terror psicológico. Também aprenderam a montar cárceres clandestinos, onde poderiam torturar e matar tranquilamente, sem as poucas restrições dos quartéis.

Casou-se em 1971 e se mudou para a rua Domingos Ferreira, também em Copacabana. Tornou-se instrutor dos cursos do CEP e teve um filho, Ailton Guimarães Jorge Júnior.

Ao mesmo tempo, Guimarães passou a se cercar de policiais afamados por suas atividades junto ao crime organizado. De fato, equilibravam-se entre o combate e a adesão ao crime.

Esses policiais perfaziam os malfadados “homens de ouro” da Polícia Civil. Montados pelo ex-secretário de segurança no governo Negrão de Lima, estado da Guanabara, em 1969, diante de uma escalada do crime. Os 11 “homens de ouro” tinham carta branca para agir, matar. Seu fundador foi também quem criou a sanguinária Scuderie Le Cocq, criada para vingar a morte do delegado Milton Le Cocq, assassinado pelo bandido Cara de Cavalo.

O Brasil era àquela época uma economia fechada. Nesse ambiente, uma atividade bastante lucrativa é o contrabando. Contrabandeava-se de tudo: uísque, calça Lee, perfumes etc. Esse mercado era explorado basicamente por bicheiros e policiais.

Um dos maiores contrabandistas do estado era também amigo de Guimarães, chamava-se Euclides Nascimento, atendia mais frequentemente pelo apelido de Garotinho, e era um dos “homens de ouro” da Polícia Civil. Já era proprietário de uma fazenda de gados – eram ferrados com a marca da caveira, cruzada por duas tíbias – e uma lancha no Iate Clube de Ramos.

Pretendendo ampliar suas atividades no contrabando, Garotinho abriu as portas ao amigo Guimarães.  Em pouco tempo já eram diversos os militares e policiais presos em flagrante, contrabandeando mercadorias. O que antes faziam por obrigação advinda da profissão, agora o faziam por dinheiro.

A primeira missão do grupo foi a invasão de um sítio em Campo Grande, no Rio. As mercadorias seqüestradas pertenciam a três policiais militares – um major e dois capitães. As caixas de uísque House of Lords, perfumes Artmatic e milhares de calças e jaquetas Lee. Parte foi entregue a um comerciante que pagou 15 mil dólares por cada caixa. O restante, foi devolvido, em troca de mais informações sobre mais contrabandistas para extorquir.

Mas algo saiu do seu controle. Guimarães foi denunciado e preso. Sua reputação foi reduzida a pó e teve de deixar o DOI, sendo transferido para um trabalho burocrático: auxiliar de almoxarife, em São Cristóvão.

Nessa época, nasceu sua filha, Danielle Brasiliense Guimarães Jorge.

Abusando da impunidade e do corporativismo, algum tempo depois Guimarães foi preso novamente, dessa feita após pedir ajuda de uma viatura de polícia para afastar outros dois policiais que flagraram o bando em ação.

Agora a denúncia apareceu nos radares do SNI – Serviço Nacional de Inteligência – e da Polícia Federal. A investigação desmontou toda a quadrilha – Guimarães, um major, oito militares da PE e um do DOI, além de um civil. Foi preso e abriu-se um IPM contra Guimarães.

Os atos dos presos ensejaram ira na cúpula das Forças Armadas. Presos, receberam do veneno que se acostumaram a ministrar: violência extrema, até darem todos os nomes. Usou-se a geladeira, prisão-frigorífico e o frio intenso como técnica de tortura. Estavam presos no DOI.

Euclides Nascimento, o Garotinho, sofre arritmia cardíaca. Dois contrabandistas sofreram de pneumonia. Manuel Português, civil membro da quadrilha perdeu quase todos os dentes por socos.

Aberto o processo contra si na Auditoria Militar, Guimarães teve de deixar os quartéis. Foi agregado em julho de 1976. O afastamento forçado duraria até 1981. Durante esse intervalo, Guimarães chafurdou ainda mais no submundo do crime e da contravenção.

Antes de deixar a vida militar, Guimarães ajudou na fuga do presídio Candido Mendes, em Ilha Grande, de Mariel Maryscotte de Mattos, a bordo de uma lancha. Mariel também era m “homem de ouro” da Polícia Civil, que debandara para o crime organizado. Eram amigos desde os tempos de operações polícia-militares.

Guimarães também teve seu momento “breaking bad”. Sua filha teve escorbuto, na época chamada também de “doença do marinheiro”. Caracterizava-se por deficiência de vitamina C.

Foi então que Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas, gângster do bicho, ofereceu-se para pagar o tratamento. A filha morreu, mas a gratidão sobreviveu.

As torturas sofridas nos porões pelos contrabandistas, resultariam num destino bastante diverso daquele das vítimas comuns. A Justiça Militar anulou todas as provas do IPM e absolveu os réus. Nem sempre o pau que bate em Chico bate em Francisco...

O corporativismo ficou patente ao não se individualizarem as condutas, de modo a punir os responsáveis por perpetrar as torturas. Mas aí já seria exigir demais...

Guimarães foi reintegrado, mas o Exército já o considerava persona non grata. O coronel Ari de Aguiar Freire foi encarregado de dar o recado: não o queremos mais.

O citado coronel Aguiar, membro do SNI e envolvido na morte do jornalista Alexandre Von Baumgarten e ao esândalo Capemi, julgava que Guimarães seria um excelente informante, caso ganhasse as ruas.

Deixou o Exército, oficialmente, em 13 de maio de 1980. Mas não ficaria somente nisso. Guimarães levou também contingentes militares para suas novas atividades. Abriria caminho no peito e na marra em direção ao controle do jogo do bicho e das atividades a ele periféricas. Ao levar o que aprendera até então para o mundo da contravenção, lançaria as bases de um novo patamar no crime organizado.

A aparência, contudo, seguia o lugar-comum dos bicheiros: relógio Cartier de ouro, blazer sobre uma camisa de botão aberta, cordão de ouro bem grosso, topete de artista de cinema dos anos 1950 e uma pistola 9mm a tiracolo.

Sua fama: valente e matador. (Continua!)



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Extraído do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio.

Em 1892, no Rio de Janeiro, nascia o assim chamado “jogo do bicho”. Uma espécie de jogo de azar, foi criado por barão de Drummond, no bairro de Vila Isabel, no antigo Jardim Zoológico. Visava, dizem, a financiar a construção e manutenção do parque, haja vista os cofres públicos vazios, incapazes de fazer frente a tais gastos.

No seu primeiro sorteio, 25 bichos foram selecionados, dando avestruz na cabeça. Alguém poderia alcançar a ironia de uma contravenção penal se iniciar metaforicamente com uma ave conhecida por esconder sua cabeça num buraco, mas os responsáveis pela jogatina eram um tanto atrevidos.

Nas sua primeiras décadas, o jogo do bicho trazia consigo um ar romântico, cuja imagem mais conhecida era a do “apontador”, sentado numa banquinha, numa esquina de um bairro do subúrbio. No entanto, cresceu. A infinidade de banqueiros do bicho foi sendo eliminada por seus concorrentes mais violentos. Após uma série de assassinatos, muitos deles brutais, um punhado de bandidos protegidos por um aparelho policial inteiramente corrompido, somando-se a eles militares a serviço da repressão, consolidou-se na chefia da jogatina.

Um século após sua concepção, o jogo do bicho chegou a seu apogeu. Já no formato de uma organização criminosa, dentre as mais bem organizadas, foi alvo da Operação da Polícia Federal Furacão, em 2007. Flagrou-se um Ministro do STJ, Paulo Medica, sendo subornado por um banqueiro “do bicho”, pela quantia de 1 milhão de reais. Foi afastado.

No seu estertor, os bicheiros recolhiam as apostas em caixotes de frutas. Um século depois, a associação com a máfia italiana trouxe ao país as infames máquinas caça-níqueis.

Se antes a proteção contra o poder público ocorria corrompendo policias e delegados, agora buscavam proteção no STJ.

Se um dia a disputa ocorreu por banquinhas num esquina, agora a organização trabalhava com divisão clara de territórios, controlava o fluxo de caixa de cada uma das atividades criminosas agregadas ao jogo do bicho, além de controlar diversas atividades legais, por onde ocorre a lavagem de dinheiro.

O ponto de virada ocorreu nos anos 1960 e 1970, no turbilhão inaugurado pelo Golpe de 1964, e em meio ao conflito que se seguiu, repressão contra grupos armados.

Para lutar contra os “comunistas”, ou “terroristas”, o regime militar criou uma terrível máquina de tortura, com autoridade irrestrita para perpetrar as técnicas mais insanas visando a arrancar de presos políticos informações que considerassem relevantes. Essa máquina foi responsável pelos episódios mais sangrentos e vergonhosos da nossa história recente.

Os membros dessa máquina homicida eram agentes secretos. Usavam cabelos comprido, não freqüentavam quartéis, não vestiam fardas. Recebiam verbas sem que tivessem que prestar contas, seus nomes não apareciam na folha de pagamento, trabalhavam em instalações clandestinas e, mais importante, tinham amplo acesso a dados privados e autoridade para decidir quando a vida de dada pessoa chegava ao fim.

Chegando ao fim o detestável regime, tais agentes, sofrendo de “crise de abstinência” por não mais poder matar à vontade, e sobretudo sentindo-se traídos e abandonados, ou bem retornavam aos quartéis, às sua rotinas bocejantes, ou procuravam outra atividade lucrativa e sangrenta, como aquela que deixavam para trás, a contragosto.

Foi então que surgiu o jogo do bicho para acudi-los. Os “capi do bicho” emergiram como um porto seguro, oferecendo uma miríade de oportunidades de enriquecimento fácil a quem aceitasse compartilhar os conhecimentos “dos porões” com seus novos empregadores.

Essa parceria “bicheiros-ditadura” criou a face mais conhecida do crime organizado no Rio de Janeiro, e no Brasil. Ao trazerem normas de hierarquia e disciplina, a máfia do bicho se organizou, cresceu e se diversificou. Às atividades clássicas da contravenção, os novos integrantes trouxeram conhecimentos de logística, administração financeira, divisão de tarefas e espionagem. A máfia do bicho se tornou uma facção criminosa à parte, com características próprias e inconfundíveis.

Os anos pós-ditadura, já em ambiente democrático, mostraram também uma capacidade de adaptação e de total desprendimento ideológico de seus “cabeças”. Os velhos-parceiros da ditadura nadaram de braçada ao lado dos governantes civis. A entrada no mundo das Escolas de Samba, objetivando criar uma imagem social mais tragável e simpática, evoluiu a ponto de privatizarem uma das maiores riquezas culturais e imateriais do país, quando fundaram a LIESA.

Apenas na década de 1990 uma força-tarefa judiciária e do Ministério Público foi capaz de pôr obstáculos no caminho de nossos gângsteres.

Um dos mais famosos “capi do bicho” atendia por Capitão Guimarães (foto). Popularmente mais associado à Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, onde foi presidente por vários anos, sua história de crimes e contravenções se inicia muitas décadas antes, quando ainda se alinhava nas fileiras do Exército.

Para entender sua história, deve-se ter em mente que uma das atividades criminosas mais utilizadas por bicheiros, a que eles se dedicavam com quase a mesma presteza que dedicavam ao jogo do bicho, era o contrabando de mercadorias.

Já em 1971, banqueiros do bicho no Rio de Janeiro passaram a sofrer ataques indefensáveis de uma quadrilha especializada em extorquir dinheiro de contrabandistas. Essa quadrilha seqüestrava as mercadorias contrabandeadas, entravam em contato com o destinatário, em geral bicheiro, e exigiam uma quantia como resgate. Esse golpe era chamado de “golpe do arrepio” . Uma das maiores vítimas desse golpe era o Tio Patinhas (Ângelo Maria Longa), conhecidíssimo bicheiro que atuava em Niterói, território fluminense. O chefe da quadrilha era Guimarães, oficial do Exército.

A quadrilha de Guimarães era tão eficiente nas suas atividades que Tio Patinhas, em vez de enfrentá-lo, ofereceu-lhe diversas bancas pertencentes a Guto, apontador com quem trabalhava. Embora comandasse um grupo de extermínio composto por policiais cariocas, Tio Patinhas ficou impressionado com o jovem e ambicioso oficial.

Guimarães deveria apenas eliminar Guto e pagar uma quantia a Tio Patinhas. Proposta bastante tentadora para quem via suas possibilidades de ascensão na carreira militar a cada dia mais distantes.

Aos 38 anos, Ailton Guimarães Jorge sabia que a associação da sua imagem com um grupo que extorquia criminosos congelara sua ascensão na carreira. Mesmo absorvido após investigações internas, sua imagem enterrara suas pretensões.

Proposta aceita, pouco depois Guto estava morto. Guimarães nunca admitiria esse feito. Guimarães, egresso da AMAN e aspirante ao generalato alguns anos antes, transformou a patente em alcunha e se lançou ao crime, em tempo integral agora.

Ainda na Academia das Agulhas Negras, Guimarães aprendeu a repudiar os militares que se alinhavam à legalidade, ao lado do presidente João Goulart, ao chamá-los de melancias: verdes por fora, vermelhos por dentro.

Da turma freqüentada por Guimarães, saíram futuros generais, como Enzo Martins Peri, comandante nos governos Lula  e Dilma, Sérgio Ernesto Alves Conforto, encarregado de refazer, de maneira mais decente, o IPM relativo ao Caso Riocentro, Roberto Jugurtha Câmara Senna, comandante em invasões e ocupações de morros no Rio de Janeiro, em 1994.

Guimarães, por sua vez, desligou-se do Exército em 1981, após 19 anos de mediocridade e muita violência. Mas levou a sua nova “tropa” de sanguinários uma estrutura interna que lembrava aquela única que conhecera. De fato, que conhecera muitos anos antes, desde que ingressara no Colégio Militar do Rio de Janeiro, em 1953, aos 12 anos. Por sua pele, de tonalidade tendendo ao escuro, foi chamado ao longo de todo o curso de Negro Guimarães. Nunca deu ouvidos a isso. Estudou na classe de Geraldo Castro Filho, o Castrinho.

A retórica anticomunista, insana e exaustivamente repetida nas salas da AMAN, era inflamada pelos eventos de fundo político que assolavam o país e as Forças Armadas. Como a operação contra uma rebelião liderada por 600 cabos, sargentos e suboficiais, em Brasília, revoltados contra uma decisão do STF, que impedia um sargento de assumir o cargo como deputado estadual.

O Golpe de 31 de março de 1964 foi ouvido como um alívio, a Guimarães. Em razão de sua dedicação ao golpe, e pelo enfrentamento contra militares anti-golpistas, Guimarães escalou fileiras na frente anti-subversão.

Seu primeiro golpe foi desferido na sede da 1ª Companhia Independente da Polícia do Exército, na Vila Militar do Rio. Esta região representava a maior concentração militar da América Latina. Do seu íntimo surgiram as sementes das ações que aterrorizariam o país nos anos seguintes em manchariam a imagem do país por muitos outros.

Logo após a “Revolução Redentora” – como era chamado o golpe, nas fileiras do exército -, a missão dos militares da Vila era “limpar” a Baixada Fluminense. OS alvos eram: trabalhismo getulista e pequenos traficantes de drogas. As armas eram já conhecidas de longa data nas delegacias da região: violência desinibida e pau de arara. Os militares apenas garantiram que o modelo seria aplicado a presos políticos, a exemplo do que já ocorria com os alvos de costume, pretos e pobres. Desde então, a demarcação entre militares e policiais se tornou pouco perceptível, sendo ambos vistos com a mesma freqüência das delegacias. Inquéritos policiais sumários pululavam e vitimavam os líderes trabalhistas de então.

Mas o ambiente ficaria ainda mais insalubre. Uma série de acidentes ferroviários deixou os generais do I Exército – Rio de Janeiro - de orelhas em pé. Em 1965, um trem descarrilou em Nova Iguaçu e atingiu um outro. O saldo foi de 20 mortos e mais de 50 feridos. Não demorou para que o regime culpasse grupos de “comunistas” pelo incidente – mesmo sendo de amplo conhecimento o péssimos estado do sistema ferroviário local.

As primeiras investigações revelaram que 2 funcionários de estações ferroviárias da Baixada eram ligados ao PORT – Partido Operário Revolucionário Trotskista. Essa descoberta e a dedução “lógica” de que tais grupos eram os responsáveis pelos desastres, inaugurou um período terrível de prisões arbitrárias, interrogatórios brutalmente violentos e outros episódios que levariam a Vila Militar a ser reconhecida como incubadora das torturas oficiais de presos políticos no Brasil.

Diante dos progressos que o Regime fazia na luta contra grupos subversivos, a Justiça Militar passou a vomitar uma quantidade inimaginável de mandados de prisão. Agora, todos os psicopatas poderiam se divertir à vontade. Ah! O AI-5 ainda não era sequer cogitado nesse período.

Se, por um lado, o Exército engrossava o discurso, por outro, a subversão tentava reagir na mesma moeda. No dia 12 de julho de 1966, um ataque a bomba no Aeroporto de Guararapes, em Recife, mudaria a sorte do governo. A ato procurou vitimar o presidente marechal Costa e Silva. Mas este escapou milagrosamente, após alterar seus planos de pouso, de Recife para Maceió.

Diante da ameaça, até então incogitada, as Forças Armadas adotaram medidas mais sérias. Foi instituído um curso de Informações no CEP – Centro de Estudos de Pessoal, no forte do Leme, tendo como público-alvo sargentos e oficiais, e específico para enfrentar organizações de esquerda armada.

Guimarães passou então, a exemplo de toda sua geração de militares, a freqüentar delegacias, atuava em IPM`s, prendia e se tornava amigos de delegados e policiais diversos.

No ambiente da Baixada Fluminense, as oportunidades de ganhos financeiros para policiais e militares se multiplicavam. Desde 1962, quando uma onda de saques vitimou mais de 2 mil estabelecimentos locais, comerciantes e forças policiais passaram a viver de maneira mais umbilical. Essa propina deu origem a diversos grupos de extermínio. Inimputáveis – haja vista serem policiais – e agora bastante populares entre a população local, esses grupos puseram a Baixada Fluminense no topo do ranking mundial de violência, nos anos 1970.

Testemunho dado por Valdimir Palmeira, preso em 1968 após participar da Passeata dos Cem Mil, ficou detido por três dias na solitária, o primeiro deles sem roupa. Era interrogado a qualquer momento, enquanto um soldado ficava com o fuzil engatilhado às suas costas. Guimarães era um dos interrogadores. A detenção foi de cerca de dois meses. Valdimir não foi torturado, mas não dormia várias noites por ouvir gritos vindos das outras celas. Diversos corpos foram achados boiando no Rio Guandu.

Dentre os torturadores, o mais famosos era um ex-campeão de luta livre, o cabo Marco Antônio Povoleri, um Hércules de músculos que era temido até pelos colegas de farda.

Vladimir conseguiu seu habeas corpus, impetrado pelo advogado Marcelo Allencar.

Mas poucos poderiam supor o que estava por vir. Em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva assinaria o infame Ato Institucional nº 5. Diversos grupos armados atuavam no país, a subversão ganhava batalhas, mas o governo reagiu.

Esse dia inaugurou um novo e lamentável capítulo, como se verá. (Continua!)


* Fonte: livro “Os porões da contravenção”

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ILUSKA LOPES -
Se você já perdeu tempo tentando discutir política com reacionários e coxinhas, deve ter percebido que existem tipos diferentes desses indivíduos, cada um com um estilo particular de “argumentação”. Nesse texto bem humorado tentarei desvendar os sete tipos de reacionário, o que há de errado com eles e como devemos agir com essas mulas.

“Quem são os reaças? Onde vivem? De que se alimentam?” (Sérgio Chapelin, sobre reacionários no longevo e apodrecido Globo Repórter). Começaremos pelos pseudo-inteligentes e depois seguiremos em direção aos de comunicação mais difícil e rustica.

Reacionários Educados - Esses são os mais raros. Eventualmente você esbarra em um em público ou num fórum on-line. Podem ser os mais difíceis de lidar. Eles aprenderam tudo o que há pra se aprender sobre suas posições (de uma perspectiva reacionária). Educaram-se sobre todas as razões que justificam seus posicionamentos como corretos, mas não estão interessados em nada que contradiga suas crenças.

O problema: Qualquer um com internet e cinco minutos livres consegue encontrar algo que descredite completamente sua versão dos “fatos”. Mesmo quando rebatidos, continuam a voltar aos argumentos iniciais, tentam mudar o assunto para algo onde se sintam mais confortáveis ou começam a expressar opiniões sem mérito factual.

Debatendo: Mantenha-os no assunto. Não deixe que ignorem seus contrapontos e mudem o assunto para você. São mestres nisso, mas se você conseguir mantê-los no assunto, começarão a expressar opiniões para as quais você poderá dizer “você tem fatos ou estatísticas que sustentem essa opinião?”.

Reacionários “Globais” - Estes estão entre os mais raivosos. Assistem aos jornais da Globo ou outras mídias de massa burguesas, leem a Veja e acreditam que isso os faz especialistas em política (do mesmo modo que acreditam que assistir ao jogo os faz técnicos e assistir à missa os faz santos). O único conhecimento político que apresentam é uma papagaiada sem base. Quando você os contrapõe, te chamam de “esquerdopata”, “comuna”, “socialista”, etc. Eles acham que todo revolucionário é um socialista que quer tirar seu dinheiro e entregar para pessoas que não merecem.

O problema: Eles não têm ideia do que estão falando. Geralmente estão repetindo coisas ditas pelo Arnaldo Jabor ou, com mais azar, pelo Olavo de Carvalho. Eles acreditam que movimentos anticapitalistas querem roubar sua liberdade (toda a liberdade que o dinheiro possa comprar), mas não compreendem o conceito de capitalismo, nem reconhecem como esses movimentos foram cruciais para que ele tivesse os direitos que têm hoje. Eles acham que o PT é comunista, e se você discorda dizem que você é um leitor da Carta Capital. Dizem que você é uma ovelha, mas esperam que você aceite cegamente tudo o que dizem, sem questionar.

Debatendo: Mantenha-se pedindo fatos e comprovações para as afirmações que fazem até que se desesperem e te chamem dos nomes já citados. Peça-os para enumerar quais os direitos que os movimentos anti-capitalistas já o roubaram (talvez eles digam que perderam o “direito de proibir a união homossexual” ou coisa do tipo, mantenha-se cobrando fatos). Eles tendem a ser violentos, então se estiver cara-a-cara, fique de olho em suas mãos.

Reacionários Cristãos - Estes reacionários são hipócritas. Eles fazem tudo em nome de Jesus, enquanto simultaneamente agem da maneira mais anticristã humanamente possível. Defendem armamento da população, são pró-militares, contrários à igualdade de direitos entre os sexos e à emancipação feminina e, principalmente, ignoram todos os trechos da bíblia que demonstram que Jesus era um personagem revolucionário (e libertário). As partes que mais esquecem são as de “amar o próximo como a si”, “não julgar” e a em que joga filhos contra pais e pais contra filhos. Porque o patriarcado não pode ser agredido, não é mesmo? Eles também acreditam que países em guerra estão assim por falta de Deus no coração, mesmo que quase a totalidade desses países seja de religião abraâmica e siga essencialmente o mesmo deus (com mais rigor!)… E eles odeiam os gays, claro.

O Problema: Eles fazem coisas horríveis em nome do Senhor. Eles acham que aqueles que discordam estão condenados ao inferno, porque são pessoas más. Eles acreditam que somos uma nação cristã, mesmo com uma influência inegável de cultos indígenas e afro-brasileiros em nossa cultura. E eles dizem defender a liberdade religiosa, mas condenam tudo o que não é cristão como “demoníaco”. Ah, eles também negam a evolução…

Debatendo: Insista na mensagem de “amor” cristão. Jesus os orientou a amar incondicionalmente e não julgar. Pergunte como eles acreditam que Cristo agiria no mundo de hoje frente à desigualdade social, e o que ele pensaria do dízimo que se paga às igrejas caça-níqueis. De qualquer forma, eles responderão com citações aleatórias e mostrarão que esse debate em específico é uma perda de tempo.

Reacionários “Contra a Corrupção” - Aqui estão os coleguinhas que vão aos protestos de branco, com a cara pintada de verde e amarelo, cantando o Hino Nacional ou a clássica do Geraldo Vandré. Eles querem um movimento bonito, higiênico, pacífico e, principalmente, passivo. Querem ir às ruas pra protestar por seus direitos, mas não conhecem seus direitos e menos ainda seus deveres. Acham que a polícia tem que sentar a borracha nos “vândalos” do Black Bloc, que eles nem sabem o que é. Dizem que a culpa do tráfico é do usuário, gostam de filmes como Tropa de Elite (alguns até citam Capitão Nascimento). O mais importante: defendem o fim da corrupção. Que corrupção? Não sabem. Mas quando dá preguiça de “vem pra rua”, eles ficam de “luto”.

O Problema: Esses indivíduos defendem pautas vazias. Aliás, eles querem enfiar essas pautas em qualquer lugar onde estejam, dizendo que as pessoas precisam ter foco (nas pautas vazias). São a pior praga dentro da Anonymous. Reproduzem-se como coelhos. Vão tentar levar qualquer debate para o eixo PT/PSDB, vão criminalizar movimentos sociais populares, mas vão defender reforma tributária (ignorando a transferência do poder do estado para o setor privado) e a reforma política (mesmo sem especificar o que é isso, significando, na prática, nada).

Debatendo: Peça que ele defina os conceitos que apresenta. Pergunte a que corrupção se refere, que reforma pretende. A melhor arma contra estes é a história. Tudo aquilo que eles almejam, na prática, até hoje foi conquistado com as práticas que eles condenam. Quando ironizarem o assistencialismo, traga estudos acadêmicos sobre seus resultados e deixe claro que esse é um pilar do capitalismo, para que ele mesmo não desabe em crise. Quando ele disser que o usuário financia o tráfico, pergunte se ele concorda que quem usa gasolina não é igualmente culpado pela guerra por petróleo no Oriente Médio.

Reacionários Xenófobos - Nessa categoria, incluem-se os que pensam que São Paulo é a locomotiva do Brasil, que defendem que o Sul se separe para formar um país de melhor IDH, que chamam tudo o que vive nas regiões Norte e Nordeste de “baiano” e os culpam pela crise urbana no Sudeste e, claro, as patricinhas e os mauricinhos que vão a aeroportos vaiar médicos cubanos. Esse tipo é complicado, porque é do tipo que tem medo de perder o pouquinho que tem pra “esses pobres”.

O Problema: Eles vão defender a superioridade de suas categorias. São meritocratas quando lhes convém, acham que um diploma te faz uma pessoa mais íntegra, mas colam em provas e compram carteiras de motorista. Eles acreditam que o êxodo rural encheu a cidade de gente “vagabunda”, mas dependem do serviço desses “vagabundos” até pra fazer um almoço. Quando você os contrariar, vão tentar te associar ao crime organizado ou ao terrorismo. E também vão dizer que “se usa chinelo não é índio”.

Debatendo: Desse grau pra baixo vai ficar difícil debater, já avisamos. Felizmente, as estatísticas atuam contra esses reacionários, assim como a política internacional, mas essas são esferas que eles não compreendem. E como eles também nunca “sentiram na pele” os problemas sociais, você vai ter que usar metáforas. Só não faça ironias com “Playstation” e “iPhone”, porque isso os deixa fora de controle.

Reacionários Racistas e Sexistas - Esses vêm quase por último por uma razão. Sabemos que racismo e sexismo não são exclusividade de reacionários. Sofremos muito com isso mesmo dentro dos grupos que se afirmam revolucionários. Mas essa junção funesta gera um dos piores tipos: o fascistóide. Eles não odeiam a Dilma pelas contradições de seu governo, mas essencialmente porque ela é mulher. Eles acreditam que liberdade de expressão é poder praticar ódio e discriminação sem sofrer consequências. Eles acreditam numa diferença “natural” fantasiosa entre homens e mulheres, entre brancos e negros, e entre heterossexuais e homossexuais que está muito distante da realidade científica. E por conta disso eles são máquinas de agressão e opressão, ainda que alguns de modo inconsciente.

O Problema: Eles são preconceituosos e discriminadores, mas quando você apontar isso, alegarão perseguição. Eles vão dizer que o dia da consciência negra e as cotas nas universidades é que são racistas, porque desprezam a história e a cultura do país, se pautando num silogismo pobre. Eles não sabem diferenciar a violência do opressor e a resistência do oprimido. Acima de tudo, eles não conseguem compreender porque as pessoas os chamam de machistas, racistas ou homofóbicos quando eles abriram um discurso com “eu tenho vários amigos gays, mas…” ou “eu respeito muito minha mulher e minhas filhas, mas…”. Pra finalizar, eles não entendem que democracia é o governo do povo. Todo o povo, e não só a maioria do povo.

Debatendo: Não se debate com fascistóides. Se os expurga. Você teria mais trabalho tentando convencer algum desses xucros sem educação do que são direitos humanos do que se tentasse convencer uma macieira a dar laranjas.

Reacionários Mal Educados - Esses reacionários são reacionários porque eles acham descolado. Eles têm amigos economistas, ou assistiram a uma meia dúzia de vídeos do Olavinho ou do Dâniel Fraga, então eles pensam que sabem do que estão falando. Eles têm uma gramática horrível, ignoram pontuações e têm uma tendência a escrever tudo em caixa alta (caps lock) e com vários pontos de exclamação, ASSIM!!! ACORDA BRASIL!!! ESSE É O PAÍS QUE VAI SEDIAR A COPA!!!???!!!. Irritante, não? Eles também esperam que você acredite em tudo o que eles dizem, só porque estão dizendo. E também citam vídeos de opinião quando você pede fontes que comprovem o que eles dizem.

O Problema: É difícil categorizar problemas num debate de ogros que não sabem se comunicar. Eles mal compreendem qual é seu posicionamento político, só repetem o que ouviram de um amigo ou viram num vídeo. Eventualmente, publicarão essas correntes mentirosas, com casos de um “famoso professor” que nunca existiu, ou do “grande economista” que nunca disse aquilo. Eles são 100% cegos aos fatos e só dão atenção ao que reforça suas crenças irracionais.

Debatendo: Não há lógica ou fatos que os vá convencer de nada. Você pode ser doutor na área, eles vão inventar uma desculpa do tipo “seu professor de história mentiu pra você” ou “esquerda e direita é coisa do passado”. No lugar de discutir com eles, tente explicar álgebra ao seu animal de estimação. Há mais chances de sucesso.

Esperamos que esse informativo lhes seja útil, ou ao menos que tenha servido como um desabafo coletivo. Lembrem-se disso antes de entrar em debates incansáveis nas redes sociais, pois nem sempre vale a pena. E saiba que esses grupos de reacionários reproduzem entre si e evoluem, como pokémons, então você poderá encontrar híbridos ou formas muito extremas de qualquer um deles.

Este texto foi inspirado e baseado no artigo “The 7 Types Of Republicans and How To Debate With Them”, de Matthew Desmond, na AddictingInfo. http://www.addictinginfo.org/2013/08/01/the-seven-types-of-republicans-and-how-to-debate-them/


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DENÚNCIA: “DESMATRÍCULA” DE ESTUDANTES TERIA SIDO REALIZADA PARA REBAIXAR ESCOLAS E VERBAS “NA MARRA”

ROGER MCNAUGHT -

Recentemente nos deparamos com uma manobra que deixou muitos educadores, pais, mães e estudantes de cabelos em pé: o cancelamento da matrícula de dezenas de milhares de estudantes da rede estadual do Rio de Janeiro. Muito pouco foi esclarecido, educadores sob assédio moral forte e medo de retaliações apenas falavam em bastidores sem dar detalhes.

Agora, após contínuos ataques do (des)governo do estado do Rio de Janeiro, educadores rompem o silêncio sobre o que está ocorrendo nos bastidores da educação pública e o que nos foi relatado é chocante. Diante dos ataques, direções eleitas após as ocupações estudantis encontram-se de mãos atadas, muitos sem as mínimas condições de autonomia de trabalho, dignidade e infraestrutura.

Apenas em uma das unidades, cerca de quatrocentos alunos tiveram suas matrículas canceladas sem aviso prévio segundo educadores, o que fere o estatuto da criança e do adolescente, causando revolta em todos da comunidade escolar. Com o fechamento de turmas devido ao cancelamento das matrículas desses estudantes, professores são realocados e a verdadeira “manobra” fica visível: O cancelamento foi realizado às vésperas do censo escolar, que classifica as escolas para o envio de verbas no ano seguinte.   Com menos alunos, escolas são reduzidas de acordo com o censo e recebem ainda menos verbas.

Como se não bastasse essa manobra para reduzir verbas, há indícios fortes de trabalho análogo à escravidão entre funcionários terceirizados e forte assédio moral entre concursados, o que levou educadores a aceitarem falar desde que suas identidades fossem mantidas em sigilo.  O que nos assusta é o nível de medo imposto pela atual administração pública em servidores concursados, pois quando um trabalhador tem medo de exercer seus direitos, significa que estão lidando com criminosos vingativos – comportamento inaceitável para gestores públicos.

Além das denúncias locais da unidade à qual pertence o educador entrevistado, outras se encontram na mesma situação. Além dos cancelamentos de matrícula, a falta de infraestrutura levou professores de outra unidade a formularem uma “carta-denúncia” denunciando a situação de risco à qual o estado vem expondo estudantes menores de 18 anos.

Enquanto há total falta de estrutura nas unidades de ensino, deve-se ressaltar o fato de que a sede da Secretaria Estadual de Educação-SEEDUC encontra-se fortemente blindada, com arame farpado, portões reforçados, e forte contingente policial para evitar o acesso de manifestantes – para isso há dinheiro.


Confira mais detalhes desse absurdo, tudo documentado. Estudantes exigem respostas e vagas nas escola já!

1- Totalização da SEEDUC.

2- Carta pública do Colégio Souza Aguiar.

3- Planilha N.1 da Escola Amaro Cavalcanti.

4- Planilha N.2 da Escola Amaro Cavalcanti.

Diante dessas graves contradições esperamos respostas... Com a palavra a secretaria de educação do estado e o governador do Rio de Janeiro.


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REFORMA TRABALHISTA: ESTATUTO DA PERMISSIVIDADE


ADERSON BUSSINGER -


O Brasil, ex-colonia portuguesa, (e até hoje colonia de outros senhores...), possui uma notória proliferação de leis, decretos, portarias, resoluções, normas das mais variadas origens e formas, isto desde as longínquas  edições manuelinas, do Reino português, que nos regularam por muito tempo aqui, e depois parece que gostamos desta pujança, ou febre, de produção de leis.

No mundo do trabalho assalariado, não tivemos tantas assim, pois a escravidão dominou quase 3/4 de nossa história e, com ela, as normas que tratavam, portanto, dos escravos, que assalariados não eram, e, como é sabido, nem gente propriamente eram estes seres, ao teor da legislação vigente que os reconhecia como coisas, ou muito perto disto.

O grande estatuto legal do trabalho em nosso pais  foi  a CLT de 1943, não porque tenha criado de uma hora para outra todos os direitos que contém, mas principalmente porque  consolidou  uma gama de direitos conquistados por heroicas lutas  operárias pretéritas, consideradas " casos de polícia" pela República Velha, assim como é verdade que Getúlio Vargas e seu grupo político acrescentou outras tantas, de maneira a se antecipar a lutas que certamente viriam. O fato importante, contudo, é que consolidou um novo estatuto legal para o trabalho assalariado, tendo como base  regras que tanto viabilizavam a exploração de mão de obra, a exemplo do que se fazia nos países industrializados, bem como assegurava direitos a esta mão de obra, considerada enquanto a "parte fraca" hipossuficiente da relação laboral e que, dentro desta visão protetiva e ao mesmo tempo incentivadora do progresso empresarial, deveria ser dotada e revestida de proteção legal, a fim de que não precisasse (ou mesmo imaginasse) fazer justiça pelas "próprias mãos", enquanto classe organizada, como naquela quadra da história, já havia tentado através de vários movimentos pelo mundo afora, inclusive tendo feito uma revolução na distante Russia dos Czares derrotados.

Fiz esta  brevíssima introdução para destacar  que  na sequencia de nossa intensa e opulenta produção legislativa, temos no Brasil, neste exato momento, a tentativa de imposição aos trabalhadores e trabalhadoras um novo estatuto do trabalho nesta colonia, ou semi-colonia, que busca e pretende abandonar  definitivamente o modelo de proteção do empregado, (já debilitado á par dos  recentes  de FHC, Lula e Dilma) e adotar, doravante, um sistema de permissividade, daí o título deste texto, pois entendo como um regime  de  liberdade patronal permissiva, em que o Estado permite ao empresário fazer tudo, ou quase tudo o que desejar, muito mais ainda do que sempre o fez impunemente, ainda que  muitas vezes  alvo de elevadas multas. Mas não faz mal, pois quanto a isto, também pretendem a fixação legal de uma anistia para tais multas...

A denominada "reforma trabalhista" conduzida pelo governo Temer e seus aliados, que em verdade não possui nada de reforma, (mas sim uma contra-reforma, porque retrocede em normas que beneficiam os trabalhadores), se trata  mais do que mudanças pontuais neste ou naquele tema, sendo uma ofensiva legislativa de  desmonte, aniquilação e destruição mesmo do já precário sistema legal de proteção trabalhista, cuja CLT e os direitos sociais fixados pela Constituição de 1988  constituem a maior expressão. Seria assim um novo estatuto que pretende-se consolidar no Brasil, conforme adiante explicarei neste texto. As propostas  mais  emblemáticas são  a  que defende o "negociado sobre o legislado", também em tramitação no Congresso Nacional, (como também sendo objeto de julgamento pelo STF), e, outra, a famosa terceirização, cuja fama definitivamente não é, bem como jamais foi boa, pois associada aos piores níveis de utilização anti-civilizatória de mão de obra.

De fato, a Justiça do Trabalho, infelizmente, já vinha flexibilizando bastante as relações laborais, minimizando direitos adquiridos, desconsiderando a ultratividade das regras de acordos coletivos e convenções, convalidando alguns acordos que subtraiam direitos, mas agora se trata de uma mudança na estrutura legal, como  um todo, sendo como afirmado acima, um dos projetos de lei mais expressivos é exatamente este que trata da terceirização, sendo este originário no governo FHC o pior de todos, conforme acaba de ser aprovado pela Câmara dos Deputados. Uma mudança de paradigma, que certamente, se levado a efeito, poderá  influir negativamente sobre toda a visão até então vigente, inclusive no judiciário (onde já existem muitos retrocessos), no que diz respeito ao conceito de proteção aos direitos trabalhistas no Brasil.

Isto é assim porque o  PL  n.  4302, ao permitir que as empresas possam contratar mão de obra para qualquer atividade, e não apenas para a atividade-meio, viabiliza, de uma só vez, a possibilidade de na mesma atividade profissional existirem salários inferiores, "legalmente" terceirizados, sem observar-se as normas coletivas  que  se encontram vigentes naquele ramo de atividade econômica subcontratado, negligenciando-se o principio constitucional da isonomia, bem como outras garantias, enfim, ataca-se fundamentalmente o aspecto mais importante do trabalho assalariado: a remuneração. Mas não é só! Todas as demais conquistas sociais  que  os sindicatos conseguiram negociar, através da luta, em relação a diversas categorias profissionais, como adicionais,  horário de trabalho, itens de saúde e segurança, tudo isto deixa de ser incorporado ao patamar de contratação que doravante  poderá ser praticado quando vigente o aprovado PL, pois  não há qualquer obrigação legal do empregador se reportar ás normas aplicadas ás categorias  em relação as quais pretende terceirizar, até porque, na prática, o objetivo  sempre foi  contratar por condições  de pagamento inferiores, ou popularmente "mais barato". Imaginem todo o histórico de lutas que deu origem aos acordos coletivos e convenções dos petroleiros, aeroviários, aeronautas, mineiros, metalúrgicos, bancários, portuários, comerciários, médicos, enfim, um conjunto de avanços normativos,  obtidos através de árduas greves, tudo isto a ser desconsiderado pelo simples ato de subcontratação permissiva, conforme aprovado neste PL da terceirização. O objetivo é claro: reduzir custos.

Evidente que todos sabem ser a terceirização uma necessidade do mercado, assim como os escravocratas possuíam diversos métodos, legais e ilegais, para fomentarem, incentivarem o mercado de escravos e, com isto, abastecerem suas fazendas. E é exatamente isto que consiste o conjunto de contra-reformas de Temer, um fomento direcionado aos empresários, na forma de uma legislação permissiva, porquanto são medidas com o objetivo explícito de barateamento da mão de obra brasileira, e, para tanto, é necessário afastar a vigência, os princípios protetivos do Direito do Trabalho, contidos especialmente na CLT e  reforçados com a constituição de 1988. Além disto, aprovou-se também, no bojo do PL da terceirização, a ampliação do contrato de temporário para 6 meses, com prorrogação de mais 90 dias, ou seja, aumentou-se para 9 meses o período em que o trabalhador possui um vínculo precário, sem perspectiva de futuro, apenas temporário, como regula o seu conceito,  ante uma crise social que é avassaladora e promete ficar por muito e muito  tempo.

A terceirização, conforme aprovada, é um sinal de retrocesso, dizendo que é contra-mão para a dignidade humana e livre acesso para quem deseja explorar o ser humano trabalhador, através de terceiras, quartas, quintas, sextas... Muitas lutas que o movimento sindical vinha promovendo, com  o objetivo de reduzir a jornada de trabalho, sofrerão também um grande revés, caso se concretize esta alteração legislativa. Por exemplo, a luta pelas 6 horas, que constitui uma típica campanha  de  categoria profissional de processamento de dados (TI), devido as suas condições específicas de trabalho, com certeza enfrentará maiores dificuldades, revés com a aprovação deste PL, pois  para efeito  das novas terceirizações, quando estiver realmente vigente, apenas será exigido que se observe o patamar minimo (ainda) constante na CLT e jornada  de 44 horas semanais  prevista na C. F. da República. Nada mais. É possível facilmente imaginar como serão as negociações de categorias organizadas, quando levarmos em conta que estaremos sob a "espada" da nova lei de terceirização que, simplesmente, pode tornar mais lucrativo para os empresários, em cada caso, (e greves) extinguir setores inteiros de produção e serviços,  para em seu lugar contratar empresas terceirizadas, "PJs" com mão de obra, inclusive, de excelente qualidade, sendo que não mais contando com a proteção que gozava em outras empresas e abrangidas outrora por outras normas coletivas.  De fato, isto já vem acontecendo bastante, motivo pelo qual é objetivo dos empresários consolidar tais  práticas perniciosas.

Outro aspecto que sofrerá também as maléficas consequências deste PL é a organização sindical, que o projeto também visa indiretamente dilacerar, pois na medida e considerando que o conceito de categoria profissional é fragilizado, bem como não há obrigação legal de que as empresas terceirizadas se reportem aos sindicatos já organizados  naquela atividade, não é difícil concluir que juntamente com a terceirização virão "novos sindicatos", estes ardilosamente fomentados pelas próprias empresas terceirizadas, ou pelos tomadores de serviço, de modo que se possa arrecadar contribuições  destes  já  super-explorados terceirizados e o que é pior, simular "acordos" fraudulentos, rebaixamentos de salários, ainda mais, buscando assim neutralizar e aniquilar a organização sindical antes prevalecente. São os sindicatos "pelegos",  "amarelos" que  já existem e, com a terceirização aprovada, se multiplicarão no Brasil, a fim de  buscarem controlar e  também infelizmente  locupletar-se dos parcos salários destes terceirizados.

É importante também destacar que as questões de saúde e segurança no trabalho se tornarão mais  difíceis  ainda de enfrentar, seja pelos sindicatos, seja pela CIPA, pois o ambiente de trabalho será  perpassado por diversas contratações, cada uma orientada por uma direção de RH, com muita rotatividade, de modo que será mais fácil burlar as normas de proteção ao trabalho insalubre e perigoso. Na mesma esteira de dificuldades está a cobrança de verbas indenizatórias, pois, pelo projeto aprovado, o empregado credor de indenizações, salários  não pagos, terá primeiramente que acionar judicialmente a empresa terceirizada, para somente depois pleitear perante a empresa contratante, o que atualmente já demanda muito tempo e, com a permissividade prevista nesta nova lei,  reduzem-se  mais ainda as chances de, quando logrado exito na ação trabalhista,  haja  algum bem para executar neste "novelo"  e emaranhado de contratações, subcontratações de terceiras, quartas, quintas, sextas empresas terceirizadas, de modo a sempre proteger os empregadores contratantes  e  fragilizar o trabalhador.

Encerro esta breve análise do PL aprovado, dizendo que a classe trabalhadora, seus  sindicatos, OLT(S), CIPA(s), comissões de trabalhadores das mais variadas espécies,  possuem, doravante, um desfio ainda maior, fazendo uso de um outro direito constitucional, previsto no art. 9 da Constituição ainda vigente, denominado de  greve, que deve ser geral, neste caso,  no sentido de tanto evitar que esta lei  venha a  materializar-se, com a sanção definitiva  da Presidência,  assim como organizar desde já  uma  forte e obstinada resistência, em defesa  de suas clausulas sociais e remuneratórias conquistadas nas  empresas  que  mais lutaram nestes últimos anos, bem como  pela manutenção da organização sindical  por locais de trabalho, de modo a, pela base das empresas, tentar impedir as desastrosas e destruidoras consequências desta contra-reforma do Governo  Temer e dos empresários. O PL 4302, que foi proposto ainda no Governo FHC (e que infelizmente o governo Lula fez muito pouco para impedir que chegasse até aonde chegou...), constitui o estatuto da  super-exploração do empregado, o estatuto do rebaixamento de salários, acidentes e doenças profissionais que, sabidamente, ocorrem majoritariamente em empresas terceirizadas. É o estatuto da permissividade trabalhista. É isto que pretendem com este estatuto consolidar cada vez mais nesta colonia de nome República Federativa do Brasil !!

* Aderson Bussinger. Advogado Sindical, Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais/UFF, colaborador do site TRIBUNA DA IMPRENSA Sindical. Conselheiro da OAB-RJ (2016/2018), Diretor do Centro de Documentação e Pesquisa da OAB-RJ, membro Efetivo da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ. Membro Efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros-IAB.



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Centro Alceu Amoroso Lima, Universidade Cândido Mendes: Professor Geraldo Pereira, a Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fattorelli e o jornalista Daniel Mazola.
Acompanhado do meu simpático amigo e colega Daniel Mazola, dinâmico Diretor do TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE, tive a imensa satisfação de conhecer uma brasileira que superou todas as minhas expectativas, pelo profundo conhecimento dos problemas nacionais e internacionais, mas acima de tudo pelo amor que há anos vem dedicando o seu profundo conhecimento em defesa das grandes causas.

Em ato no Centro Alceu Amoroso Lima, situado no 42º andar da Universidade Candido Mendes, presidida pelo seu reitor, o eminente Professor Candido Mendes, viveu o Rio de Janeiro, uma noite patriótica na qual a doutora Maria Lúcia Fattorelli, a maior autoridade brasileira sobre a nossa dívida pública, e Coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, fez uma longa e detalhada exposição, sobre: “O Sistema da Dívida na Grécia e no Brasil”.

Na apresentação da doutora Fattorelli, o escritor e Diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião, Luiz Alberto Gómez de Souza, daquela Universidade, fez a apresentação da ilustre conferencista: “A professora é graduada em Administração e Ciências Contábeis, sua experiência profissional é extraordinária, é Auditora Fiscal da Receita Federal, Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, Membro da Comissão da Dívida Pública do Equador (nomeada pelo Presidente Rafael Correa), Assessora Técnica da CPI da Dívida Pública na Câmara dos Deputados do Equador, membro do Comitê da Verdade Sobre a Dívida Pública (instituída pelo Parlamento Grego), são inúmeras palestras proferidas em diversas entidades respeitadas, esteve nos parlamentos da Bélgica, Argentina, França, Colômbia, Grécia, Brasil, Venezuela, Angola, Peru, Noruega, etc, organiza e ministra cursos sobre a Dívida Pública em diversos estados brasileiros. Ela desoculta uma série de problemas que vêm a nós quase como dogmas religiosos, e na verdade são imposições de tecnocratas e dos círculos de Poder”.

Argentina e Equador

Para um melhor entendimento da crise grega, Fattorelli a comparou à que foi vivenciada pela Argentina em 2000: “depois de cumprir todas as privatizações que o FMI queria, o fundo deu as costas ao país e deixou espaço aberto para os bancos privados oferecerem o acordo. Eles colocaram juros equivalentes ao crescimento do PIB e como consequência, hoje a dívida argentina já é um problema novamente e não significou nenhum benefício aquilo [o receituário do FMI]. Além disso, o país também não fez a auditoria”.

Em 2008, o presidente equatoriano, Rafael Correa, anunciou que não pagaria parte da dívida externa do país, após a realização de uma auditoria, da qual Fattorelli participou. A diferença do pequeno país sul-americano para a Grécia, Argentina ou mesmo o Brasil é explicada por ela: “Correa conseguiu enfrentar o sistema porque chegou ao poder sem financiamento privado, não chegou lá atrelado aos interesses dos financiadores. Se olharmos no site do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] do Brasil, quem financiou as campanha presidenciais e legislativas foram os bancos privados e as grandes corporações”, aponta.

Ela conta também que o processo completo no Equador durou um ano e quatro meses. Além disso, o relatório foi submetido a um crivo jurídico nacional e internacional para garantir sua legitimidade.

Outro ponto é que o Equador, que diminuiu em 70% o valor devido aos credores, tinha, segundo Fattorelli, dinheiro para recomprar a dívida: "Fez a proposta e honrou".

Outro dado que chamou nossa atenção, foi a afirmação com números e menção a Constituição de 88, que a Previdência Social do Brasil, tem em caixa cerca de R$ 52 bilhões, mas os cálculos são manipulados pelo governo e pela mídia hegemônica, escutamos todos os dias que o INSS está quebrado.

"NÃO SE TRATA DE CALOTE. NÓS ESTAMOS FALANDO DE AUDITORIA. CALOTE É O QUE ESTÁ ACONTECENDO HOJE, EM TERMOS DE DIREITOS SOCIAIS...", disse Fattorelli.


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RODRIGO JANOT TOMA POSSE PARA O SEGUNDO MANDATO A CARGO DA PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA

Por REDAÇÃO -
Daniel Mazola, o PGR Rodrigo Janot, Doutora Junia Ladeira Monteiro de Barros e Protógenes Queiroz.
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi empossado ontem (17) pela presidente Dilma Rousseff, durante cerimônia de recondução ao cargo realizada no Palácio do Planalto. Janot foi escolhido para ficar mais dois anos à frente do Ministério Público da União, no biênio 2015/2017. A cerimônia foi acompanhada pelos representantes da TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE, o Editor Daniel Mazola e o deputado federal e membro do conselho editorial, Protógenes Queiroz.

Diversas autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estiveram presentes, entre elas, os ministros, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo, e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski.

Em seu discurso, Janot destacou a luta pela independência do Ministério Público e defendeu o diálogo com todos os setores da sociedade. “A sociedade está amadurecida para compreender que, num Estado de Direito, as instituições devem funcionar de forma harmônica, observando um Ministério Público forte, estruturado e autônomo”, disse.

presidente Dilma Rousseff destacou a importância de se preservar a autonomia do Ministério Público. “O MP livre de pressões é pressuposto da democracia e da preservação das instituições”, disse. “Queremos que o Estado de Direito seja não apenas um mero princípio formal entalhado na nossa Constituição, mas uma realidade viva, permanente e expressa em todas as decisões".

Dilma ressaltou o trabalho de combate à corrupção desenvolvido pelas instituições brasileiras. “Pela primeira vez assistimos a recuperação pelo Estado de vultosos recursos desviados por agentes públicos ou privados responsáveis por atos de corrupção. Nunca se combateu a corrupção tão severamente”, disse.


Ao final do pronunciamento, a presidente chamou atenção para a função da Procuradoria-Geral da República como sendo a defensora da estabilidade das instituições democráticas, citando uma frase do ex-presidente do Uruguai, José Mujica.

“Nestes tempos em que por vezes a luta política provoca calor, quando devia emitir luz, torna-se ainda mais relevante o papel da Procuradoria-Geral da República como defensora do primado da lei, da justiça e da estabilidade das instituições democráticas. Uma missão complexa, a qual, estou certa, está mais do que à altura do dr. Janot e de sua competente equipe. Sobre essa missão valho-me de recente manifestação do meu grande amigo José Mujica, ex-presidente uruguaio, que disse: esta democracia não é perfeita, porque nós não somos perfeitos, mas temos que defendê-la, para melhorá-la, para sepultá-la”.

Após a cerimonia nossa equipe conversou com diversas autoridades da República, inclusive o procurador-geral, que foi muito afável e reafirmou sua missão a frente desta importante instituição republicana e o papel da imprensa livre como difusor da realidade social.

Protógenes Queiroz e o Procurador-Geral de Justiça do Estado de São Paulo,  Márcio Fernando Elias Rosa


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'TODO PETRÓLEO TEM QUE SER NOSSO' E HOMENAGEM AO ESTADISTA NA ABI. DOSSIÊ, A GLOBO VERSUS O POVO BRASILEIRO

ILUSKA LOPES -

No dia do suicídio de Getúlio Vargas, às 18h30 da última segunda-feira (24), a  Associação Brasileira de Imprensa-ABI foi palco do 'Ato em Defesa do Petróleo 100% Nacional e em Homenagem ao Presidente Vargas'. E pela manhã, às 11h foi realizada missa na Igreja do Carmo. Estiveram presentes os membros do Comitê da Campanha ‘Todo Petróleo Tem que Ser Nosso’, lideranças sindicais, representantes de entidades, militantes políticos, petroleiros, jornalistas, ativistas sociais e membros do 'Movimento ABI Autêntica’.
Márcia Veras, presidente da Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro (FAMERJ); Geraldo Pereira, professor, jornalista, conselheiro da ABI; Orpheu Santos Salles, Editor da Revista Justiça e Cidadania, diretor Administrativo da ABI; Francisco Soriano, coordenador do Sindipetro-RJ, membro da Ação Libertadora Nacional – ALN; Edison Munhoz, secretário de Comunicação da CUT-RJ; André de Paula, coordenador da Frente Internacionalista dos Sem-Teto.
As falas dos presentes para o Ato na ABI foram inflamadas e nacionalistas, todas em defesa da maior empresa do Brasil e uma das maiores do mundo. As principais reivindicações foram pela retomada das empreitadas nos Estaleiros e fábricas de sondas, a volta das obras das refinarias que iriam garantir a autossuficiência do Brasil no refino do petróleo. A retomada no Comperj do projeto mais lucrativo da indústria do petróleo que é o braço petroquímico, da não entrega das nossas bacias petrolíferas e do Pré-sal, e da Petrobras 100% Estatal. Do contrário só veremos o desemprego crescer, mais e mais...

Emanuel Cancella, coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ) e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP). 
Editor da Revista Justiça e Cidadania e diretor Administrativo da ABI, Orpheu Santos Salles, lembrou do empenho e dedicação do presidente Getúlio Vargas em defesa da criação da estatal, e como homens públicos como Getúlio [o maior estadista do Brasil] fazem falta hoje, no vale tudo que se transformou a vida política brasileira. O nonagenário e decano da ABI foi secretário do presidente Vargas entre os anos de 1943 e 1954. Ele lembrou e respondeu perguntas sobre os anos em que conviveu com ele, inclusive no exílio.
No alto a esquerda, José Carlos de Assis, presidente do Instituto de Estudos Estratégicos para Integração da América Latina. Mais uma vez a ABI foi palco da luta em defesa da Petrobras. Abaixo os jornalistas: Daniel Mazola, Geraldo Pereira, Arlérico Jácome, Orpheu Santos Salles, Roberto Monteiro Pinho, Ralph Lichotti e Wilson de Carvalho.
Também falou com entusiasmo, o pesquisador e profundo conhecedor do gaúcho de São Borja, Getúlio Dornelles Vargas, o professor e jornalista, Geraldo Pereira. "Getúlio Vargas, sob certos aspectos, era prisioneiro das Forças Armadas, principalmente do Exército, do seu Ministro da Guerra General Eurico Gaspar Dutra e do chefe de Exército General Góis Monteiro, ambos simpatizantes de Hitler, eram anticomunistas declarados". E lembrou: "Não se tem notícia de um presidente do Brasil que tenha olhado mais para os trabalhadores do que Getúlio, como ditador ou não. Deu-lhe a Lei da Sindicalização, a Jornada de 8 horas, a Carteira de Trabalho, os Institutos de aposentadoria, criou a Justiça do Trabalho, o Salário Mínimo e a CLT. No seu governo a Nação conquistou a PETROBRÁS, a Companhia Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional, e o  BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social".

Após a missa, o professor Geraldo Pereira nos deu uma saborosa aula sobre o homem que fundou a Petrobras, "Vargas foi um dos maiores estrategistas que já houve na política em todos os tempos".
São eventos como esse da última segunda-feira, com a presença de bravos e antigos lutadores, que faz ter esperanças, acreditar que nada é impossível de mudar. Seguiremos inspirados em BARBOSA LIMA SOBRINHO, unidos nessa nova edição da velha luta em defesa do petróleo brasileiro. 
Todo Petróleo Tem que Ser Nosso!

Juntem-se a nós. Reunião do Comitê Operativo da Campanha ‘Todo Petróleo Tem que Ser Nosso’

Quinta-feira, 27 de agosto, às 15h
Local: subsede do Sindipetro-RJ, na Av. Presidente Vargas, 502, 7º andar, centro do Rio de Janeiro.

Pauta:
Organização da participação da campanha Todo Petróleo Tem que Ser Nosso em protesto contra um encontro chamado pelo senador José Serra que debaterá o pré-sal.

DOSSIÊ REDE GLOBO. A GLOBO VERSUS O POVO BRASILEIRO


As constantes e crescentes críticas à Rede Globo renderam mais um vídeo, agora um curta feito por midiativistas que sitam e referem-se ao extenso histórico de controvérsias nas relações desta rede de televisão brasileira com a sociedade do país. A que emissora possui uma capacidade sem paralelo de influenciar a cultura e a opinião pública.

Uma das principais polêmicas da estação televisiva e das Organizações Globo está ligada ao apoio dado à ditadura militar e a censura dos movimentos pró-democracia nos noticiários do canal.

A própria Globo reconheceu em editorial lido no Jornal Nacional, 49 anos depois e pressionada pelas manifestações de junho de 2013, que o apoio ao golpe militar-civil-empresarial de 1964 e ao regime subsequente foi um "erro".



As imagens do vídeo são do Coletivo Mídia Independente Coletiva, Coletivo Mariachi, 202 filmes e do Arquivo Leonel Brizola. Roteiro e direção: MIC e Mariachi. Edição: MIC_RJ.


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PERSONALIDADES DEMOCRÁTICAS ASSINAM MANIFESTO EM DEFESA DOS PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS NO RIO DE JANEIRO
(Divulgue e envie a sua assinatura cebraspo@gmail.com)

Nos próximos dias, o processo contra os 23 ativistas políticos do Rio de Janeiro entra na sua fase final na 1ª Instância, que resultará nas sentenças a serem proferidas pelo Juiz da 27ª Vara Criminal, Flávio Itabaiana.

Vale lembrar que o inquérito policial que deu origem à identificação e prisão dos 23 réus foi feito para averiguar filiações partidárias, com evidente cunho de perseguição política. A predileção dos órgãos de persecução criminal pelos grupos de “esquerda” fica ainda mais clara, quando a denúncia tenta qualificar os coletivos e organizações como sendo parte de uma suposta “quadrilha” que abrange um vasto horizonte que vai de ativistas sem definição política até “comunistas” a “anarquistas”. Não há qualquer descrição no inquérito de que os membros das organizações criminalizadas atuassem de forma estável ou permanente. Não existe estabilidade na pulverização, assim como não existem vínculos de permanência entre pessoas “que podem sequer se conhecer”.

Por significativa coincidência, todos os “alvos” desta investigação, os réus inclusive, integram um campo político de esquerda - abrangendo o numeroso grupo de pessoas que utilizou os protestos iniciados em junho de 2013 para questionar o status quo, seja relacionando as mazelas sociais brasileiras às opções político-econômicas do governo ou apenas criticando as bases do sistema capitalista.

Frise-se, aliás, que a questão da violência nas manifestações é clarissimamente uma resposta à extremada violência com que foram reprimidas pela Polícia Militar. A brutal repressão aos professores durante os protestos iniciados em junho de 2013 é uma amostra bastante significativa da forma como age aquela corporação e que, infelizmente, se repete até o momento com a mesma violência de norte a sul do país.

Os grupos existiam, “originariamente”, como organizações políticas legítimas e autônomas, tendo se tornado “quadrilha” no exato instante em que a criminalização se tornou a única estratégia de contenção das manifestações. A lógica da acusação não tem lastro em fatos concretos, mas na necessidade política e eleitoral de impedir a expansão dos atos de protesto.

Ocorre que protestar não só não é um crime, como é um direito fundamental. Além disso, não se pode prender alguém por algo que ainda será cometido, ainda mais sem individualizar as condutas e sem a devida fundamentação, visto que o inquérito de 6 mil páginas baseia-se em falsos testemunhos, escutas ilegais, posts de redes sociais e matérias tendenciosas da mídia corporativa, principalmente como Globo e Veja que, notoriamente, criminalizam os movimentos sociais. Analisando o processo, é inegável que a falta de provas concretas seja o aspecto mais grave e assustador, evidenciando o caráter político de toda esta perseguição.

Nota-se, também, uma enorme arbitrariedade no andamento do inquérito e do processo criminal, que tramitou em segredo de justiça, inclusive para os advogados dos acusados e para o próprio desembargador relator que, na época, avaliou e concedeu o pedido de Habeas Corpus dos 23 acusados.

Porém, no dia 3 de dezembro de 2014, o Juiz da primeira instância, suspendeu o Habeas Corpus, e novamente decretou a prisão de 3 ativistas, Igor Mendes (preso em Bangu), Elisa Quadros e Karlayne de Moraes (em situação de clandestinidade), decretando suas prisões preventivas, simplesmente por terem participado de uma única atividade cultural no dia 15 de outubro de 2014.

O Recurso de HC impetrado obteve parecer favorável da Subprocuradora-Geral da República, Dra. Aurea Lustosa Pierre, que considera decreto de prisão desproporcional, “estando fundamentado em idealizações de caráter autoritário e violando a prerrogativa jurídica da liberdade, prevista no artigo 5º da Constituição da República”.

Estamos na cidade dos mega-eventos e, passada a Copa do Mundo, sediaremos os Jogos Olímpicos de 2016, que serão “protegidos” por uma verdadeira operação de guerra e repressão do Estado. Portanto, faz-se necessário que toda a sociedade civil: advogados, defensores, artistas, intelectuais, educadores, estudantes, trabalhadores em geral, realizem uma grande campanha pela imediata libertação de todos os presos políticos e pelo fim de todos os processos que estão em curso na justiça contra manifestantes e ativistas.

Vamos todos unir esforços e iniciativas para garantir a diversidade de pensamento e a defesa da liberdade de expressão e livre manifestação! 

ASSINAM:

ANTÔNIO MODESTO DA SILVEIRA – Advogado, destacado defensor dos presos políticos durante o regime militar.

MARCELO CERQUEIRA – Advogado, jornalista, defensor de presos políticos, professor titular aposentado da UERJ e da UFF, Doutor pela Faculdade Nacional de Direito da UFRJ.

JORGE LUIZ SOUTO MAIOR – Juiz membro da AJD (Associação de Juízes pela Democracia) e professor da Faculdade de Direito da USP.

MIGUEL LANZELOTTI BALDEZ – Assessor jurídico de movimentos populares no Rio de Janeiro.

JOÃO LUIZ DUBOC PINAUD – Jurista, Juiz, ex-presidente do IAB (Instituto dos Advogados Brasileiros), presidente da Casa da América Latina, membro da AAJ (Associação Americana de Juristas) e professor titular aposentado da Faculdade de Direito da UFF.

MARCELO CHALREO – Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) dos do Rio de Janeiro.

JOÃO TANCREDO – Advogado, presidente e fundador do Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH). Ex presid. da CDH OAB RJ.

VICTÓRIA GRABOIS – Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais – RJ.

CECÍLIA COIMBRA – Psicóloga, historiadora, fundadora do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ e professora adjunta aposentada da UFF.

JOÃO RICARDO W. DORNELES – Professor do Núcleo de Direitos Humanos da PUC-RJ e membro da Comissão Estadual da Memória e da Verdade.

FERNANDO FRAGOSO – Advogado e ex-presidente do IAB- Instituto dos Advogados Brasileiros- RJ.

TAIGUARA L. SOARES E SOUZA – Advogado, professor do IBMEC, membro do Mecanismo Est. de Prevenção e Combate à Tortura do RJ.

MARGARIDA PRADO DE MENDONÇA – Advogada, membro da Comissão de Direitos Humanos (OAB/RJ), Conselho Estadual de Defesa da Criança e Adolescente (CEDCA-RJ) e professora doutora da Universidade Cândido Mendes (UCAM).

HUMBERTO JANSEN - Advogado trabalhista e defensor de presos políticos durante o regime militar.

ENNIO CANDOTTI - Físico, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e ex presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Atual diretor do Museu da Amazônia.

EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO – Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em Antropologia Social.

DANIEL MAZOLA – Editor do Tribuna da Imprensa Online, conselheiro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e ex-presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos (CDLIDH-ABI)

ADRIANO PILATTI – Coordenador do Instituto de Direito da PUC-Rio e sócio-fundador da Associação Brasileira dos Constitucionalistas Democratas (ABCD).

PAULA MÁIRAN – Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.

ANDRÉ BARROS – Advogado e secretário-geral da CDH (OAB-RJ).

LUIZ RODOLFO V. DE CASTRO – Membro da CDH (OAB-RJ) e ativista político.

JÚLIO MOREIRA – Advogado, professor da PUC-Goiânia, da Universidade Latino Americana, membro da Abrapo e presidente da Associação Internacional dos Advogados do Povo (IAPL, sigla em inglês).

FELIPE NICOLAU – Advogado e presidente da Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo).

CRISTIANE VILANOVA - Advogada e membro da CDH-OAB

PRISCILA PEDROSA PRISCO – Advogada, membro da CDH-OAB e mestranda da UFF.

HÉSIO DE ALBUQUERQUE CORDEIRO – Ex-reitor da UERJ, ex-presidente do INAMPS/MPAS, doutor em Medicina pela USP, coordenador do Mestrado Profissional da Universidade Estácio de Sá e coordenador de saúde da Fundação Cesgranrio.

PAULO ROBERTO CHAVES PAVÃO – Professor adjunto da UFRJ, chefe da psiquiatria e coordenador da UDA de psiquiatria do HUPE – UERJ.

MARIA INÊS SOUZA BRAVO – Professora da UERJ e coordenadora do Grupo de Estudos Gestão Democrática na Saúde e Serviço Social.

HERMANO DE CASTRO – Professor e diretor da ENSP – Fiocruz.

MARIA DE FATIMA SILIANSKY DE ANDREAZZI – Médica e professora da UFRJ.Ex diretora da ADUFERJ.

KATIA DA MATTA PINHEIRO – Historiadora, professora universitária e membro da diretoria da Casa da América Latina.

LUCIANO DA SILVA ALONSO – Professor da Universidade Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e membro do Núcleo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão em Medicina Veterinária.

CARLOS WALTER PORTO GONÇALVES – Professor do programa de pós-graduação da UFF

JOANA D’ARC FERNANDES FERRAZ – Professora do programa de pós-graduação  em Administração da UFF e coordenadora do Curso de Especialização em Administração Pública (CEAP).

ALEXANDRE PINTO MENDES – Professor do Departamento de Ciências Jurídicas da UFRRJ.

CAMILA DANIEL – Professora UFRRJ e Membro do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM).

GRACIELA BONASSA GARCIA – Professora no Departamento de História e Economia da UFRRJ

JOÃO TELHADO PEREIRA – Professor do Departamento de Medicina e Cirurgia Veterinárias da UFRRJ

WANISE CABRAL DA SILVA – Professora da UFF e Doutora em Direito.

LÉRIDA POVOLERI – Economista e da professora Faculdade de Economia da UFF.

MARIA HELENA RODRIGUES NAVAS ZAMORA – Professora do programa de graduação e pós-graduação de psicologia da PUC-RJ.

GUSTAVO SEFERIAN SCHEFFER MACHADO – Advogado de São Paulo.

TARSO DE MELO – Advogado e mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo (USP).

LUIS CARLOS MORO – Advogado trabalhista de São Paulo.

JOSÉ RICARDO PRIETO – Diretor geral do jornal A Nova Democracia.

FAUSTO ARRUDA – Professor e presidente do conselho editorial do jornal A Nova Democracia.

MAURÍCIO CAMPOS DOS SANTOS – Engenheiro e fundador da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência – RJ.

ELIETE FERRER – Professora e militante de direitos humanos, RJ.

DEIZE CARVALHO – Membro das Mães Vítimas de Violência.

MÔNICA LIMA – Professora da rede estadual e pesquisadora do HUPE-UERJ.

ANDRÉ MENDES – Advogado e professor da Faculdade Nacional de Direito (UFRJ).

ARÃO DA PROVIDÊNCIA GUAJAJARA – Indígena e advogado em defesa da causa dos povos originários.

CARLOS WALTER PORTO GONÇALVES – Professor do programa de pós-graduação em geografia da UFF.

JOSÉ ANTONIO MARTINS SIMÕES – Professor da UFRJ e ex-presidente da ADUFRJ.

LUIS MAURO SAMPAIO MAGALHÃES – Professor do programa de pós-graduação em Ciências Ambientais e Florestais da UFRRJ e vice-diretor do Instituto de Florestas.

MÔNICA SIMONE PEREIRA OLIVAR – Pesquisadora da ENSP/Fiocruz e membro do Conselho Regional de Serviço Social.

JOSÉ AUGUSTO PINA – Pesquisador da ENSP/Fiocruz.

REGINA HELENA SIMÕES BARBOSA – Professora e pesquisadora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva, Departamento de Medicina Preventiva e Faculdade de Medicina da UFRJ.

MARÍSIA MARGARIDA SANTIAGO BUITONI – Professora do Departamento de Geografia Humana da UERJ.

LIA DE MATTOS ROCHA – Professora do Departamento de Sociologia da UERJ e membro da direção da ASDUERJ.

GUILHERME LUCIO ABELHA MOTA – Professor do Departamento de Informática e Ciência da Computação da UERJ, ex-presidente da ASDUERJ e atual 1º secretário do Andes-SN, regional Rio de Janeiro.

EDUARDO SEVERIANO PONCE MARANHÃO – Pesquisador da Fiocruz e professor da ENSP.

JANETE LUIZA LEITE – Professora da Faculdade de Serviço Social da UFRJ.

GEANDRO PINHEIRO - Pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz.

ANDRÉ VIANNA DANTAS – Professor da Escola de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz.

CÁTIA CORRÊA GUIMARÃES – Jornalista da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz

ELÍDIO MARQUES – Professor de Direitos Humanos e Relações Internacionais do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da UFRJ.

JOSÉ SALES PIMENTA – Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo).

ZÉ MARIA GALHASSI DE OLIVEIRA – Ex-preso político do regime militar e vice-presidente do Cebraspo.

HÉLIO DA SILVA – Ex-preso político do regime militar e membro do Cebraspo.

GERSON LIMA – Dirigente da Liga Operária.

DANIEL BIRAL – Advogado – Coletivo Advogados Ativistas (SP).

LARISSA AZEVEDO – Advogada e ativista do Coletivo Tempo de Resistência (RJ).

BRENA ALMEIDA – Advogada e ativista da Associação Brasileira de Advogados do Povo - Abrapo (RJ).

TABATAH ALVES FLORES – Advogada e ativista da Associação Brasileira de Advogados do Povo - Abrapo (RJ).

VIVIANE N. GONÇALVES – Advogada e ativista da Associação Brasileira de Advogados do Povo - Abrapo (RJ).


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FALSA CLÍNICA MANTIDA ILEGALMENTE PELA IGREJA "ASSEMBLEIA DE DEUS DE TODOS OS SANTOS" PRECISA DE INTERDIÇÃO URGENTE

DANIEL MAZOLA -

É inacreditável que esse tipo de realidade continue ocorrendo no Brasil. Após diversas denúncias e pedidos de defensores dos Direitos Humanos, e de parentes de internos do "Centro de Recuperação Célio Teixeira Jorge", que na verdade é uma FALSA CLÍNICA para viciados em drogas mantida ilegalmente pela igreja "Assembleia de Deus de Todos os Santos", volto a denunciar que no Município de Nova Iguaçu, Distrito de Austin, na Rua Antônio Soares, números 78 e 81, localidade conhecida como "Três Fontes", funciona o lugar mais imundo e precário que pode existir na região da Baixada Fluminense.

Aqui funciona o "Centro de Recuperação Célio Teixeira Jorge".
O local não tem a menor condição de higiene e segurança para os internos, eles são colocados ali por famílias de baixa renda apenas porque é "gratuito". Não existe nenhuma assistência de médico ou de psiquiatra, e os pastores que controlam o lugar dizem para os internos que "não existe doença mental, não existe dependência química, é o diabo que faz as pessoas se drogarem".



O único "tratamento" que eles dispensam às pessoas é rezar e ler a Bíblia, e participar diariamente dos cultos religiosos, celebrados no número 78 (onde dormem os internos homens) e quando a pessoa sai de lá, está sob "lavagem cerebral", não curada, mas "convertida" à igreja, que tem uma doutrina tão rígida e medieval que ensina que até mesmo acessar a internet é "pecado".



Os LGBT's são submetidos a uma pregação religiosa mais intensa, para deixarem de ser homossexuais, pois a "doutrina" da igreja também diz que é o "diabo" quem faz as pessoas terem atração pelo mesmo sexo.





Trata-se de uma verdadeira fábrica de loucos; todas as pessoas que são "tratadas" ali terminam enlouquecendo, largam os estudos e as suas vidas para ficarem trabalhando o tempo todo para a igreja.





Segundo fontes seguras, as ilegalidades são inumeráveis; apenas a título de exemplo, os internos (homens e mulheres) têm que trabalhar para manter a casa, inclusive as mulheres cozinham para uma cantina que vende comida na vizinhança e o dinheiro fica para os pastores.





Quem chega ali fica incomunicável pelos primeiros 15 (quinze) dias, para se esquecer até da própria família, e qualquer "indisciplina" é punida com privação de comida e de sono, (a pessoa pode ficar até um mês sendo obrigada a só comer angu).





Os responsáveis pelo lugar são o Pastor Célio Teixeira Jorge, presidente da SEMADETS, e o Pastor Carlos Henrique, "braço-direito" do Pr. Célio, que "humildemente" deu o seu próprio nome ao "centro". No lugar, fica o dia inteiro o Pastor Joelson Rosa, com a sua esposa Marina Sardinha Rosa, os quais mantêm a vigilância sobre as pessoas que ficam "internadas".





A rigor, é difícil até mesmo falar em "internação", porque não fazem nem mesmo fichas ou prontuários das pessoas que vão para lá; a situação, na verdade, é um confinamento, sem que haja qualquer comunicação ao Ministério Público ou à Secretaria de Saúde quanto a essas "internações", que atingem até mesmo menores de idade.





Encontrei, na página de internet da Assembleia de Deus de Todos os Santos, um "boletim informativo", datado de 14 de janeiro de 2014, onde o próprio pastor Célio Teixeira Jorge admite a fuga de internos do centro, recomendando que só internassem os que com segurança aceitassem ficar: "A despesa da SEMADETS está muito alta e já ocorreu caso da SEMADETS ir buscar determinada pessoa e ela já tinha fugido por não querer ir, causando despesas, por isso é necessário, antes de levar, fazer uma triagem e ao chegar lá, será feita uma nova triagem pelo Centro de Recuperação"; que zeloso "pastor de almas" este, pois sabendo que há pessoas que fogem dele antes mesmo de serem levadas para o "Centro", enche-se de cuidados para não ter "despesa" com dinheiro e combustível à toa! Essa, certamente, é a grande preocupação desse "homem de Deus": não gastar dinheiro e combustível, e somente levar para o "centro" pessoas que possam depois ser "convertidas" e dar retorno para ele.





O "Centro", em si, é vinculado ao CNPJ de um obscuro "Instituto SustentHabilidade", que mantém um site de internet no endereço http://www.ctjcentroderecuperacao.com.br/ (hoje fora do ar, mas minha fonte "salvou" em pdf todos os conteúdos disponíveis) onde apregoa ter uma ampla rede de atendimento, inclusive com assistência de profissionais de saúde, mas é tudo mentira.





As instalações do lugar são apenas duas casas comuns, em área favelizada, sem que nenhum médico ou psicólogo frequente o local (aparentemente, o pastor Célio Teixeira Jorge teria um psicólogo que assinaria documentos da instituição para enganar às autoridades, mas tal psicólogo nunca foi visto no lugar).





Também há um perfil de Facebook do "Centro" (https://pt-br.facebook.com/pages/CTJ-Centro-de-Recupera%C3%A7%C3%A3o/290347411125760), onde uma das primeiras postagens elogia o comportamento dos traficantes que expulsam candomblecistas das favelas. Os responsáveis por esse "Centro" são monstros que fingem "recuperar" viciados, mas elogiam a violência do tráfico, desde que cometida contra umbandistas e candomblecistas!





Aquilo vive de doações, mas é extremamente precário, sendo apenas duas casas, uma para os homens e outra para as mulheres, que ficam amontoados por até 6 meses. A higiene é nenhuma, a água é de poço, os internos contraem doenças de pele como sarna, isso foi visto em algumas internas; as mulheres internas têm que cozinhar para si, para os homens, e para uma "cantina" localizada em uma rua próxima que vende comida nos dias em que há festas na localidade.





Isso é o que podemos chamar de uma grande exploração em cima do vício e do desespero de pessoas simples!





Aliado ao caráter clandestino de um lugar que não tem mínimas condições sanitárias de funcionar sequer como clínica veterinária, quanto mais, como "centro de recuperação" de viciados em drogas. O lugar pode facilmente ser fechado, com base nos artigos 283 e 284 do Código Penal, que tratam de charlatanismo e curandeirismo, aliado a que exercem ilegalmente atos privativos de psicólogos. Com a palavra as autoridades competentes.


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Debate “Direitos Humanos: Ontem e Hoje” celebra os 66 anos da Declaração Universal



Por IGOR WALTZ - Via ABI - 



O advogado André Barros, o jornalista Orpheu dos Santos Salles, a comissária da ONU Margarida Pressburger, o jornalista e editor Daniel Mazola e o ativista Rumba Gabriel (Crédito: Iluska Lopes).
No dia 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) proclamava a Declaração Universal dos Direitos Humanos como um passo importante para a reconstrução do mundo após a barbárie da 2ª Guerra Mundial. Passados 66 anos, o Brasil e o mundo ainda vivem o desafio de fazer valer um ideal comum a ser atingido por todas as nações e povos. A necessidade de avançar na promoção dos direitos humanos e no combate a violações foi a tônica do evento “Direitos Humanos: Ontem e Hoje”, realizado na última terça-feira, dia 10, na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio.



O debate, mediado pelo presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI, Daniel Mazola, contou com a participação da advogada Margarida Pressburger, Comissária de Direitos Humanos da ONU; do ativista Rumba Gabriel, coordenador do Movimento Popular de Favelas e membro do conselho Estadual de Direitos Humanos; do advogado André Barros, membro da Comissão de Direitos Humanos OAB/RJ, e do jornalista Orpheu dos Santos Salles, diretor administrativo da ABI.






Para Margarida Pressburger, foram poucos os avanços ao longo das quase sete décadas de promulgação da Declaração Universal. Ela acredita que o progresso no combate à violência de gênero, à homofobia, ao racismo e à perseguição aos cultos de matriz africana tem sido barrado, no Brasil, pelo fortalecimento da bancada conservadora e religiosa no Legislativo.



“Espero que um dia, alguém se sente nessa mesa e diga que de 1948 até aquela data muita coisa mudou. Direitos foram garantidos, a dignidade humana fortalecida e os 30 artigos da Declaração Universal sendo cumpridos. Infelizmente, hoje ainda não podemos dizer isso”, declarou.



Margarida comemorou ainda a entrega, em Brasília, do relatório final da Comissão Nacional da Verdade à Presidente Dilma Rousseff. A advogada criticou a Lei de Anistia e defendeu que os agentes de Estado que cometeram crimes durante Ditadura sejam penalizados.



“A Anistia não foi um acordo, mas uma imposição para que os nossos companheiros fossem soltos ou voltassem ao País. Essa lei joga no lixo a Carta de Direitos Humanos da ONU, pois a tortura é reconhecida internacionalmente como um crime imprescritível e de lesa-humanidade. Esperamos que esse relatório resulte na denúncia, julgamento e punição dos torturadores”, afirmou.



André Barros, que também é advogado da Marcha da Maconha, aponta que os direitos humanos são institucionalmente violados no Brasil. Ele conta que a maioria dos condenados por tráfico de drogas é de jovens pobres, detidos com pequenas quantidades de droga, e sem direito a advogados durante a fase policial do processo.



“O sistema penal brasileiro hoje é uma fábrica de marginalização. Jovens de 18, 19 anos são condenados a penas de seis anos em regime fechado e encerram suas possibilidades de ser alguém na vida”, afirma.






Na opinião de Rumba Gabriel, apenas um projeto de educação inovador seria eficaz de combate à pobreza e a criminalidade. “As favelas da região metropolitana do Rio de Janeiro continuam invisíveis, guetos onde o Estado só atua por meio da repressão. O saneamento continua longe do básico, a coleta ainda engatinha, o esgoto a céu aberto ainda é uma realidade e o tratamento é zero. Até quando seremos tratados como animais?” 

* Com a colaboração de Daniel Mazola.

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ABI RECEBE EVENTO EM DEFESA DE COMUNIDADE BICENTENÁRIA

Via ABI - 
Encontro debateu a situação dos moradores do Horto, comunidade da Zona Sul do Rio
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) sediou nesta sexta-feira, 22 de julho, um ato público com a presença de políticos e lideranças sociais em defesa dos moradores do bairro do Horto, na Zona Sul do Rio, atualmente ameaçados de desapropriação de suas casas. O evento “Ato em Defesa do Horto contra as remoções e o Terrorismo Midiático” protestou contra a cobertura midiática, que aponta que a área estaria sendo ameaçada de favelização.

De acordo com o movimento “SOS Moradores do Horto”, a remoção segue a lógica da especulação imobiliária que vem tomando maiores proporções por conta dos grandes eventos esportivos. Os moradores são acusados de invadir uma área pertencente ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, apesar dos registros históricos remeterem o início da ocupação da área ao século XVII.

“A lógica das remoções não pode prevalecer sobre a dignidade humana. A cidade não pode se tornar um grande balcão de negócios e, em função disso, temos um compromisso com a sociedade civil organizada na defesa da comunidade do Horto”, disse o mediador do evento, jornalista Daniel Mazola, conselheiro da entidade e secretário da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI.

Emília Maria de Souza, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Horto (Amahor), defendeu que a luta pela regularização fundiária deve reunir todas as comunidades ameaçadas de remoção na cidade do Rio de Janeiro. “Esse evento é o primeiro após a Copa do Mundo, e eu não apenas um retorno da luta da comunidade do Horto, como a luta de todos os companheiros que como nós estão sofrendo e passando pela ameaça constante da remoção”, afirmou.

“Estamos na defesa de trabalhadores de baixa renda que estão sendo excluídos de áreas consideradas nobres pelos interesses da especulação imobiliária. Nossa luta tem mais de 100 anos e estamos na expectativa que o Governo Federal decida pela não remoção da nossa comunidade. Houve uma sinalização da Presidente Dilma Rousseff em benefício dos moradores, nossa luta agora é fazer com que efetivamente essa decisão seja aplicada”, completou a líder dos moradores do Horto.

A Célia Ravera, coordenadora de “Terras Públicas” do Patrimônio da União, acredita que o problema central é da reforma fundiária urbana. “Esta terra é da União e a terra pública deve ser primordialmente destinada à moradia. Eles não querem essa área para construir prédios, eles querem expandir o Jardim para valorizar os imóveis já existentes na região”, defendeu.
Ravera acredita que a força dos moradores está na sua capacidade de mobilização. “Eles têm uma grande resistência, nenhum morador sai, porque tem a absoluta esperança que essa situação de grande injustiça seja revertida”.

Para a historiadora Laura Olivieri, do Museu do Horto, a comunidade na região é minimamente bicentenária. Apesar de a presença humana naquele local remonta aos primeiros séculos da colonização, a comunidade do Horto é reconhecida formalmente, ao que se sabe, desde 1875 pelas autoridades da cidade do Rio de Janeiro. Os documentos oficiais comprovam ainda as relações de parentesco entre os moradores catalogados no século XIX e os moradores atuais.

“Ali era um lugar de difícil acesso, terra de ninguém. Os moradores que foram para lá justamente por conta das remoções no século XIX, ajudaram a erguer o Jardim Botânico com sua força de trabalho. Mas quando a elite começa a se mudar para lá, depois da abertura do túnel, o Jardim passa a ser ‘instrumentalizado’. Só em 1995, ele se torna um instituto de pesquisa e começa o golpe muito bem orquestrado, apoiado pelos meios de comunicação, de que a área do Horto é de propriedade do Jardim Botânico”, explica a pesquisadora.

Marcelo Edmundo, representante do Comitê Popular Rio da Copa e Olimpíadas, acredita que a discussão envolve ainda o problema do racismo. “É clara, além da violação, a presença de famílias negras de baixa renda em uma área que se valorizou, mas que historicamente pertence a elas, é um grande incômodo às elites”, disse.
Ficou acertado que haverá um evento ampliado tratando das remoções como um todo nas comunidades da cidade do Rio de Janeiro, será novamente uma iniciativa da ABI, através do conselheiro Daniel Mazola. Divulgaremos em breve.

POR QUE ALGUMAS PESSOAS TÊM SAUDADE DOS TEMPOS DOS MILITARES?

Um vídeo de 1975 mostra como era feito o elogio da ditadura militar com a voz de Cid Moreira. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=YGiQXNf02eQ