ROBERTO MONTEIRO PINHO



Bolsonaro está em Washington
para dialogar com Trump

O presidente Jair Bolsonaro chegou no domingo (17) a Washington para a primeira visita oficial de seu governo. O objetivo do Palácio do Planalto é selar a aproximação com os Estados Unidos, iniciada antes mesmo da posse do brasileiro, especialmente com o presidente Donald Trumo, com líderes conservadores e com empresários americanos. Na reunião com Trump, Brasil e EUA pretendem sacramentar um alinhamento de valores e de políticas entre o americano e Bolsonaro - chamado de "Trump Tropical" pela imprensa internacional.

Apesar da proximidade ideológica e dos elogios trocados pelo Twitter, especialmente na posse do brasileiro, em janeiro, o alinhamento pode não ser automático. Em outubro, o presidente dos EUA criticou a forma com que as empresas americanas são tratadas no Brasil.
Dificuldades e Maduro

"É uma beleza, eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas das empresas, elas dizem que o Brasil está entre os países mais difíceis do mundo (para fazer negócios)", disse Trump. Após o agravamento da crise na Venezuela, porém, os EUA encontraram no Brasil um aliado e a Casa Branca conta com o apoio brasileiro para endurecer contra o regime de Nicolás Maduro.
China
Os assessores de Trump também sabem que, a despeito da retórica crítica à China adotada por Bolsonaro na campanha eleitoral, o país é o principal parceiro comercial do Brasil e o time econômico tenta achar o equilíbrio em meio à guerra comercial dos americanos com os chineses.Os governos brasileiro e americano querem mostrar com o encontro, contudo, que há uma convergência inédita não só entre Trump e Bolsonaro, mas entre os dois países.
Os Estados Unidos reconhecem que o momento é propício a uma aproximação com Brasil, em razão de afinidades ideológicas sobre a Venezuela, à perspectiva liberal no campo econômico e ao entusiasmo de parte do governo Bolsonaro com Trump. A expectativa dos americanos é de que o Brasil continue do mesmo lado dos EUA na pressão a Maduro e, no longo prazo, ajude a diminuir a influência da China na região.

Os dois temas esbarram, no entanto, em diferentes alas do governo. Os militares já sinalizaram que há um limite no discurso sobre a Venezuela, quando o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o Brasil não apoia qualquer ação militar, enquanto os americanos enfatizam que "todas as opções estão sobre a mesa".

Terça “D” e a Base de Alcântara
Na terça-feira, Bolsonaro e a comitiva brasileira serão recebidos na Casa Branca. O presidente brasileiro terá um encontro privado com Trump no Salão Oval e os dois farão uma declaração conjunta à imprensa no Rose Garden. O comunicado deve mencionar a crise na Venezuela e como Brasil e EUA pretendem atuar unidos pela democracia na América Latina, fazendo uma crítica especial ao "socialismo" de Maduro. Trump e Bolsonaro também anunciarão medidas concretas, como o acordo de salvaguardas tecnológicas, que permite o uso comercial da base de Alcântara, no Maranhão, e falarão das perspectivas de futuro da relação bilateral. Neste último eixo se concentra o compromisso de caminhar rumo a um eventual tratado de livre-comércio.

A negociação, no entanto, é considerada difícil em razão de as duas economias serem concorrentes e por esbarrar no Mercosul. Por isso, o governo brasileiro aposta que o caminho é focar em acordos setoriais de facilitação de comércio e convergência regulatória.
De acordo com as informações da agência Estado, Peter Hakim, presidente do centro de estudos Inter-American Dialogue, em Washington, aponta que há duas questões relevantes para os EUA no encontro. A primeira é a situação na Venezuela. A segunda, a diminuição da influência da China na região. "O que os EUA querem é ter o Brasil a seu lado, como aliado", afirma. "Brasil e EUA têm sido bons amigos, não costumam ter animosidades. Mas não são bons parceiros. E países não têm amigos, eles têm interesses", afirma Hakim.
Governadores fecham apoio ao projeto da reforma da Previdência
Após uma reunião realizada no sábado (16) em Belo Horizonte (MG), 6 governadores das regiões Sudeste e Sul anunciaram apoio ao projeto de reforma da Previdência do governo de Jair Bolsonaro. Participaram do encontro Romeu Zema (Novo-MG), João Doria (PSDB-SP), Wilson Witzel (PSC-RJ), Renato Casagrande (PSB-ES), Carlos Moisés (PSL-SC) e Eduardo Leite (PSDB-RS).
O anúncio veio pouco depois de 8 governadores e 1 vice-governador da região Nordeste divulgarem carta em que declaram oposição a aspectos relevantes da reforma –além da flexibilização da posse e do porte de armas, defendida por Bolsonaro, e da emenda constitucional proposta pelo ministro Paulo Guedes (Economia) que desvinculação de gastos do Orçamento com educação e saúde.
Consórcio...
Ao final da reunião, foi anunciada a criação do Cosud (Consórcio do Sul e Sudeste), 1 consórcio para integrar a ação dos Estados em áreas estratégicas. O grupo deve reunir-se novamente em abril.
Os governadores nordestinos já haviam divulgado iniciativa semelhante. Na carta em que criticam trechos do projeto de Previdência, falam na criação do Consórcio Nordeste, integrado por todos os governos da região.

Otimismo na Classe C

Uma década depois da criação do termo "nova classe média", essa parcela da população no Brasil voltou a crescer de 2017 para 2018 - passando de 50% a 51% da população, uma adição de mais de 2 milhões de pessoas - após uma queda brusca nos dois anos anteriores.
Embora ainda não tenham recuperado tudo o que perderam durante o período em que a economia recuou 8%, as famílias da classe C estão otimistas com o que está por vir e pretendem voltar a comprar bens de maior valor agregado, como eletrodomésticos e materiais de construção, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva.
Cautela e “custo beneficio”

Mas a busca por essas metas não será a qualquer preço: o consumo-ostentação dos tempos de bonança foi substituído pela exigência de um claro custo-benefício. Essa nova relação com o consumo é "caminho sem volta", segundo Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, especializado em estudar os hábitos da classe C.

Com o aumento ainda tímido - de 0,9% - da renda desse contingente no ano passado, para convencer os 106 milhões de membros da classe média a gastar o dinheiro que têm em mãos - montante estimado em R$ 1,57 trilhão para 2019 -, as empresas terão de suar. "As marcas vão precisar saber muito mais sobre os hábitos desses consumidores para convencê-los a abrir a carteira", diz Meirelles. "O consumo agora não vai estar mais ligado ao acesso a qualquer custo, à ostentação, mas sim à performance e à relevância de cada produto."