20.12.15

A MORTE DA MEMÓRIA NACIONAL

CARLOS CHAGAS -


Não raro registramos a morte da memória nacional. Um desastre quando, por motivos variados, o povo, as elites, os governantes, as escolas, os meios de comunicação e outros componentes da sociedade simplesmente esquecem ou ignoram nosso próprio passado. A dez dias do final de dezembro não há mais esperança de que 1945 venha hoje a ser lembrado e comemorado como o ano da vitória, quando 25 mil brasileiros retornaram dos campos de batalha da Europa. Mais de 600 não voltaram, sendo seus despojos, tempos depois, sido transladados ao Brasil para as necessárias homenagens.

A cada ano diminui o número de soldados que em todo Sete de Setembro abrem os desfiles pelas ruas de nossas principais cidades. De milhares passaram a centenas, com garbo redobrado pelo peso dos anos e de suas medalhas. Em breve serão nenhum, ainda que todos os que partiram mereçam o eterno reconhecimento de quantos seguiremos mais tarde.

Lamenta-se, porém, que nossos soldados tenham sido esquecidos mal pisando outra vez o território nacional. Fizeram-lhes mil promessas, quase todas descumpridas. Enquanto ainda se vê cada vez menos heróis desfilando, os poucos remanescentes instalados em viaturas militares, uma dor profunda corta o peito de quantos os reverenciam. A Pátria não os reconhece nem homenageia, fora bissextas exceções.

Tome-se aquele que pode ser considerado o patrono esquecido de todos os combatentes, o sargento Max Wolf Filho. Gaúcho engajado no regimento de São João Del Rey, chefiou 32 patrulhas, a mais perigosa das ações militares, quando um punhado de soldados desgarra-se do seu corpo de tropa e avança pelo território inimigo, pretendendo informar-se de suas posições, intenções e efetivo. Nem a metade de cada patrulha retornou, não se contando o grande número de feridos e inutilizados para sempre.

Bastaria uma flor que fosse, depositada sobre a lápide do sargento Wolf, morto na derradeira operação antes da rendição dos adversários, mas nem isso aconteceu, setenta anos depois.

A multidão lotava a Avenida Rio Branco, naquele outubro de 1945, quando desembarcou o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira. Lembro-me, aos sete anos de idade, posto nos ombros de meu pai, de dois episódios alojados no fundo da memória. A tropa desfilava a centímetros da calçada, quando primeiro um popular, depois centenas, gritaram “Perácio!”, dirigindo-se a um soldado específico que descobriram enquanto marchava. Era o grande craque do Flamengo, que dois anos antes trocara a bola pelo fuzil. Não abanou as mãos nem saiu da formação, mas seu semblante mostrava ter valido à pena o sacrifício. Do outro lado da avenida, de repente, uma moça rompeu o cordão de isolamento que já não isolava mais ninguém, deu alguns passos até o meio uma das sólidas fileiras de soldados e agarrou-se a um pracinha. Sem parar de marchar, ele a abraçou com firmeza. Era sua noiva.

Milhares terão sido essas demonstrações de carinho por todas as ruas por onde a tropa desfilava. O frio, a neve, o sangue e as granadas tinham ficado para trás. Só que com o passar dos anos, para trás também ficou a memória nacional.