1.12.15

ENFIM ALGO SE MOVE

Por ALBERTO DINES - Via Observatório da Imprensa -


Entre o jocoso e o sério, entre o cômico e o dramático, o clima estava insuportável: tenso, retesado. Em suspenso, incapaz de prever o desfecho, a plateia mal respirava. Nos bastidores, a paralisia ganhava dimensões de anarquia — sem script nem diretor, o espetáculo era empurrado pelos pressentimentos e a dinâmica do desespero. De repente, com a brusca irrupção em cena de apenas um ator cônscio do seu papel e impregnado pela compulsão de buscar a verdade e resgatar o que sobrou da honra do pai, apertaram-se os laços. Corda esticada, a tragédia consumou-se.

Sabia-se que o senador Delcídio Amaral, boa pinta e boa praça, também estaria na lista dos atingidos pelo jorro dos dutos da Petrobrás – quem não estava ? – sabia-se que Nestor Cerveró, diretor da área internacional, estava seriamente implicado na teia de escândalos da petroleira – não era o único, outros colegas estavam em idênticas condições redigindo as respectivas confissões. Ele talvez pior do que os demais.

Menos conhecidas eram a habilidade, generosidade e fidelidade do Midas progressista, o banqueiro André Esteves. Absolutamente desconhecido era o advogado Edson Ribeiro contratado para defender Nestor Cerveró e o funcionário Diogo Ferreira, chefe-de-gabinete do senador Delcídio.

Uma única vez, na véspera do Carnaval, apareceu no noticiário o nome de Bernardo Cerveró ao persuadir os fabricantes de máscaras a não reproduzir o rosto do pai e evitar a galhofa em torno do defeito no rosto.

Em espetacular exibição dos seus talentos para surpreender e produzir reviravoltas, juntos ou associados, o destino, os fados, a fortuna, os idos romanos e o imortal engenho de William Shakespeare, providenciaram uma reunião do grupo no dia 4 de novembro em confortável hotel em Brasília e premiaram o único que ali estava para cumprir um papel decente, piedoso. Equipado com dois celulares (um para ser ostensivamente desligado como acontece em reuniões deste tipo), com total domínio de gestos, atitude e voz, Bernardo Cerveró prontificou-se a ouvir a proposta de recompensa que lhe faria Delcídio Amaral pela retirada do seu nome (e de outros) no texto da delação.

O teor da proposta tornou-se mais conhecido do que a escalação da seleção que joga uma final da Copa do Mundo. Envergonhada com o que ouviu nas rádios e telejornais da manhã da última quarta-feira, a Senhora Dona República, permitiu-se gestos extremos – prender um senador com mandato em flagrante delito (obstrução de investigações) e calar o corporativismo dos senadores que em votação aberta concordaram com a ordem de prisão emitida pelo STF.

O mundo veio abaixo, literalmente. E o que ainda ficou de pé, ruirá com grande velocidade. O aedes brasiliensis (para os menos versados no idioma do Lácio, o “coisa ruim brasileiro”, Eduardo Cunha), está com os dias contados. E não só ele. A pasmaceira que tanto serve aos delinquentes será naturalmente superada pela simbiose das forças postas em movimento.

Algo se move. O fim deste 2015 tem condições de ser menos tóxico e trágico se as bruxas com suas maquinações conseguirem encerrar o miserável ciclo sem vencidos nem vencedores. Equalizados e fatigados, só assim será possível programar a nova temporada com repertório mais edificante e o dramatis personae menos canastrão.

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A edição do “Jornal das 10” da GloboNews, na última quinta-feira, exibiu em alta definição as contradições & incompreensões entre os profissionais que buscam qualificar o conteúdo e os executivos que apostam todas as fichas em picos de audiência.

Enquanto a editora Renata Loprete e o seu time de comentaristas políticos tentava antecipar-se aos jornais do dia seguinte, alguma chefia – talvez a financeira – insistia em interromper seu trabalho para exibir as sensacionais e palpitantes tomadas do helicóptero mostrando… o tranquilíssimo comboio de viaturas da PF conduzindo o banqueiro André Esteves para o rotineiro exame no IML antes de hospedar-se no presídio Ary Franco.

Para que tanta pirotecnia? Naquele momento o cidadão-assinante só queria digerir as informações que recebera durante o dia. Aquele faz de conta de filme americano de ação foi rigorosamente provinciano e subdesenvolvido.