7.1.16

MORREU MINHA TIA MACONHEIRA

ANDRÉ BARROS -

As lembranças maroladas do sobrinho de uma tia maconheira em tempos de ditadura militar, polícia de costumes, bocas de fumo e muito, muito mais. Em mais um texto semanal, o advogado e ativista André Barros presta sua homenagem a Norma Barros, que faleceu na manhã desta terça-feira. Sua história também tem muito a nos ensinar.


Preciso prestar homenagem a uma pessoa muito importante na minha vida e que fez a minha cabeça: Norma Barros, irmã do meu saudoso pai, Fernando Barros, que morreu na manhã de ontem. Seu irmão foi cassado no primeiro ato institucional (AI-1), além de outros dois da ditadura militar, e casou-se com Ana Lúcia, minha mãe, irmã da guerrilheira Vera Silvia, que sequestrou o embaixador americano Charles Elbrick em 1969 no Rio de Janeiro.

Tenho imenso orgulho dessas tias, muito importantes na minha formação, duas legítimas representantes do espírito dos anos 60 e 70 e aquele imenso desejo de “mudar o mundo”. Tia Verinha optou pela guerrilha e arriscou sua vida na luta contra o capitalismo. Norma, que nunca cheguei a chamar de tia, tinha um ano a mais que a tia Verinha, e seguiu o caminho da rebeldia, da contracultura, contra os padrões do “sistema”, contra a caretice e os comportamentos estabelecidos, enfim, “desbundou”, como diziam os guerrilheiros. Foi fumar maconha, atitude muito perigosa à época, desafiando o sistema e a polícia de costumes.

Lembro apenas dela ter convivido com um cara, que ficava horas meditando na mesma posição de frente para o mar. Mas namorou muito e com figuras conhecidas, artistas e jogadores de futebol, frequentadores do Pier de Ipanema. A Norma era uma pessoa alegre, muito bonita, inteligente e cheia de atitude. Não tenho a lembrança dela triste, mas sim, poucas vezes, brava.

Norma sempre chegava em minha casa com um embrulho de maconha, à época, eram camarões soltos que vinham do polígono da maconha, entre Pernambuco e Bahia. Pedia uma capa de um disco de vinil (LP, long play), espalhava a erva em cima e deixava as sementes escorrerem. Dizia que as sementes davam dor de cabeça e estouravam quando fumadas. Eu ficava olhando minha tia fumando o baseado que ela fazia. Meu pai era “careta” e Marco, seu irmão mais velho, muito mais! Mas quando Marco, médico gaúcho, vinha de São Sebastião do Caí/RS, ele pedia pra Norma fazer aquele “cigarrinho” e os três irmãos fumavam maconha felizes da vida.

Eu e Norma compartilhamos muitas aventuras. Já mais velho, gostava de subir os morros do Leme. Jogava bola com os moradores em famosos campeonatos de praia e tinha muitos amigos no Chapéu Mangueira e no Babilônia. Quando batia a “larica”, adorava comer bolo de banana com guaraná Tobi, que à época só era vendido nos morros em garrafas de cerveja. Só se vendia maconha nos morros, tanto que esses pontos eram chamados de “bocas de fumo” e também de “vapor”.

Quando o cartel da cocaína começou a entrar no Rio de Janeiro, a maconha começou a desaparecer da cidade e o preto foi sendo substituído pelo branco. Quando diziam que tinha maconha em determinado lugar, todos corriam para lá. Certa vez, Norma reclamou comigo dizendo que não encontrava mais maconha em lugar nenhum. Falei pra ela que tinha maconha no morro da Babilônia. Norma então me pediu para levá-la à boca de fumo. Disse que, se ficasse sabendo, meu pai iria querer nos matar. Mas ela disse que a responsabilidade era dela e me intimou. Como era irmã do meu pai, resolvi arriscar. Chegando na boca de fumo, Norma pediu 20 trouxas ou “dolas”, como na época eram chamadas as “mutucas”. Olhei assustado, pensando onde ela iria esconder aquilo tudo. Norma as distribuiu entre o sutiã e a calcinha e descemos o morro em seu fusquinha, que ela adorava acelerar. Deu tudo certo e Norma saiu feliz da vida.

Vá em paz minha tia querida, te amo!