29.2.16

O SÁBIO QUE SABIA RIR

Por MINO CARTA - Via CartaCapital -

Estive com Umberto Eco uma única vez, no remoto ano de 1968. Jantamos em São Paulo na casa de um amigo, jovens contemporâneos, ele tinha 36 anos e eu 34.

Logo percebi o enciclopédico sem jactâncias, dado ao senso de humor, pronto para passar de um assunto a outro com a leveza recomendada por Italo Calvino. Um cavalheiro maciço que sabia rir, a dispor de uma caixa de ressonância adequada à gargalhada.

Era então mestre de semiótica de fama mundial, mas a sua grande popularidade na Itália, inusitada para um acadêmico, devia-se a um ensaio intitulado “A Fenomenologia de Mike Bongiorno”, um estudo sobre as razões do sucesso do apresentador de um programa de tevê que todas as noites, por longos, intermináveis anos, reuniu diante do vídeo a península praticamente em peso.

Um quiz, como se diz, de perguntas e respostas, chamado Lascia o Raddoppia, deixa ou dobra, muito parecido com o sucedâneo brasileiro O Céu É o Limite.

Entre o fim dos anos 50 e boa parte dos 60, com uma tevê ainda em branco e preto, Bongiorno ganhou a celebridade que não se extinguiria até a sua morte.

Eco decidira analisar as razões deste retumbante sucesso, para sentenciar em definitivo: Mike Bongiorno é o mais perfeito intérprete da mediocridade. Nem todos entenderam, a maioria, é provável, desaprovou, e não faltou quem lamentasse que um intelectual de valor voltasse sua atenção para um herói televisivo.

Eco, entretanto, antecipava-se na análise do próprio instrumento, das suas injunções e dos seus inescapáveis compromissos com aquilo que definimos como cultura de massa. Naquele jantar recordo ter evocado o assunto.

Eco admitiu que Bongiorno pudesse ser um cidadão arguto, culto e inteligente, reconhecia-lhe, porém, uma qualidade à luz dos refletores, representar de forma impagável quanto se espera da televisão. Pois é, a mediocridade.

Faz pouco tempo, Eco partiu para outra reflexão a respeito de mais um caminho da chamada modernidade, a internet, nos seus diversos alcances. Para constatar a decadência de um mundo onde todos se habilitam a dar seu palpite.

Ou seja, se bem entendi, a produzir o clangor desvairado a significar a própria vida, segundo uma personagem shakespeariana, nutrido de som e fúria para representar o nada. Os tempos idos, e devorados pelo pretenso progresso, reservavam a palavra a alguns, tidos como sábios, embora nem todos o fossem. Reduzia-se, de todo modo, a chance de propalar sandices.

Quanto a Eco, sua sabedoria está acima de qualquer suspeita. Ele foi sábio em todas as suas manifestações. Na qualidade de acadêmico, de escritor, de historiador, de ensaísta do comportamento, de colunista de publicações sempre orientadas à esquerda.

Um herdeiro da tradição filosófica italiana, de Tomás de Aquino, de Maquiavel, de Gianbattista Vico, até Croce e Gramsci, este com o papel de se aproveitar daquele para uma mudança de 180 graus, como se deu com Marx em relação a Hegel, pela rota da filosofia da história traçada por Vico.

Sem descurar da contribuição decisiva dos pensadores poetas, como Dante, Petrarca, Ariosto, Foscolo, Leopardi, Quasimodo, Montale.

Prodigiosa a versatilidade de Eco, mas ele foi antes de mais nada um desses humanistas que dos fatos extraem a essência profunda e abrangente, inalcançável pela percepção comum. Em um mundo sempre mais desigual, desorientado, inseguro, a saída de cena de Umberto Eco condensa a névoa em torno da nossa rota.