25.5.16

A PROVÁVEL SAGA DE TEMER, O USURPADOR DA PRESIDÊNCIA

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Não é uma especulação descabida que Temer venha a ser despejado do poder num prazo relativamente curto. Isso poderá acontecer não apenas por causa das resistências em muitos setores populares a seu governo mas por causa sobretudo da evolução da crise real em que estamos metidos. Presidentes impopulares existem em todo lugar e, mediante múltiplos expedientes de manipulação da opinião pública, podem ir levando o barco. Entretanto, em situação de crises de grandes proporções, nenhum governante se aguenta, sobretudo se tiver o carimbo de usurpador.

Diante do desemprego crescente e da brutal contração da economia, ambos a serem agravados por uma nova rodada de ajuste fiscal prometida por Meirelles, teremos mais gente na rua por causa do desespero com as condições de vida do que com os descaminhos da política. Contra uma crise real não há remédio fácil. Vimos isso, em pequena escala, com o ajuste Levy, fato que a própria Dilma admitiu ter sido um dos grandes erros de seu governo. Insistir em ajuste fiscal com a economia em depressão é algo à altura de somente ignorantes em economia como o ministro da Fazenda.

O presidente do BC também faz coro a essa estupidez. A diferença é que ele é mais sincero. Disse com todas as letras que para baixar a inflação tem que aumentar o desemprego. Lembro que o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, quando assumiu o cargo disse algo semelhante: para reverter a crise na Europa, disse ele, era necessário destruir o estado de bem estar social. (Marina deveria tomar nota disso antes de sair repetindo por aí, tal como um papagaio, que devemos ter banco central independente.) O fato é que estamos regredindo na história em questões sociais, não apenas aqui como na Europa.

Por minhas estimativas chegaremos ao fim do ano com taxa de desemprego beirando os 15% e contração da economia, se insistirem no ajuste, em 5% (o FMI já estima em 3,8%, e ele em geral calcula por baixo). No ano que vem poderemos chegar ao padrão espanhol e grego de desemprego, algo como um quarto da população ativa. Isso porque com os cortes prometidos nos investimentos públicos o quadro em 2017 poderá ser ainda pior que este ano: uma contração, de novo, da ordem de 5%. É algo inédito no mundo para países de nossas dimensões. E um convite claro a convulsões sociais das que derrubam presidentes!

Só um idiota pode imaginar que Temer tem competência para lidar com uma crise dessa envergadura. Ele dividiu seu ministério em satrapias e entregou a economia e as Relações Exteriores a neoliberais extremados. Neoliberais são muito bons para destruir, não para construir. Diante do desastre social iminente, só sabem pregar cortes no investimento público para, dizem eles, restaurar a confiança dos investidores privados. É uma solene idiotice. Não existe investimento privado de ponta, sobretudo em infraestrutura, sem prévio investimento público. Há 80 anos Keynes ensinou isso!

Diante desse quadro econômico não tenho nenhuma dúvida de que Temer vai cair. Tenho dúvida, sim, se vai cair em alguns meses ou se vão segurá-lo até o início de 2017. Se cair dentro de semanas ou meses deste ano, e desconsiderando a hipótese de Dilma voltar, terá de haver eleições diretas para presidente e vice-presidente da República. É um risco que os golpistas provavelmente não quererão correr. Assim o mais provável é que levem Temer na maca até o início do ano que vem e o forcem a renunciar a fim de que sejam convocadas eleições indiretas.

Nessa hipótese bastante provável, os tucanos vão querer o poder presidencial. Aliás, Fernando Henrique já avisou que seu partido vai retirar o apoio a Temer se ele fizer algo errado. Entretanto, qual dos tucanos vai ser consagrado na eleição indireta? Certamente as elites dominantes não tem confiança em Aécio, Serra ou Alkmin. O salvador da Pátria, convocado para por ordem na casa em nome da união nacional – tese do último programa do PSDB – provavelmente será nem mais nem menos que o príncipe dos sociólogos, um patriarca sempre disponível, Fernando Henrique Cardoso.

*Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ.