23.5.16

CHEGOU-SE AO ESCRACHO TOTAL

Por PAULO METRI -


Certo órgão do governo dispunha de um presidente e um vice-presidente. Os dirigentes que assumiram o órgão já estavam na administração há algum tempo, quando o presidente achou por bem oferecer uma confraternização na sua casa contando com a administração do órgão, autoridades, políticos e amigos pessoais. Em determinado instante, na espaçosa sala de visitas, em um canto, estavam o anfitrião, seu vice, alguns poucos amigos e o filhinho do presidente de 12 anos.

O garoto adorava ficar prestando atenção à conversa de gente grande. Muito avançado para sua idade, ele acompanhava toda a conversa. Ficava quietinho, próximo ao pai, mas, às vezes, dizia algo sobre o tema em pauta, o que em geral causava espanto e grandes risadas.

Em certo momento, um dos convidados quis saber o que o vice fazia no órgão em questão, porque, em muitos órgãos, o vice tem estatutariamente tarefas sob a sua responsabilidade. Rapidamente, por saber responder a uma pergunta tão fácil, pois já ouvira seu pai dar esta resposta para sua mãe, o Junior saiu do silêncio e, com toda a sua inocência, repetiu textualmente a explicação do pai:

- O vice fica tramando, o tempo todo, para derrubar o meu pai.

Hoje, não se faz vices como antigamente. Tomem-se dois grandes exemplos de vice, José Sarney e Itamar Franco. O comportamento do primeiro foi louvável, com mil pedidos de desculpa aos meus amigos maranhenses, pois chegou a aceitar um completo Ministério formado pelo falecido Presidente. Sarney aceitou também as ponderações do poderoso Ulysses, para viabilizar a nossa nascente democracia. Creio que, durante um período inicial do seu mandato, Sarney deve ter pedido perdão a familiares e amigos porque, se o vissem tomar medidas não identificadas com o seu tradicional posicionamento, seria para o crescimento político dos brasileiros, que não podiam ter saudade da ditadura. Itamar nunca proferiu sentenças acusatórias ao seu antecessor, mesmo quando este já havia sido retirado do cargo. Aliás, eles sabiam que não tinham participado de nenhuma eleição, como cabeças de chapa e, por isso, não tinham a representatividade conquistada pelos seus titulares. Ambos comportaram-se dignamente.

O que mais me choca, hoje, é a desfaçatez dos atuais atores. Não há constrangimento algum na briga por órgãos públicos com grandes orçamentos, deixando claro para o mais inocente dos brasileiros sobre as verdadeiras intenções. Por exemplo, imaginem quanto pode ser desviado da sociedade em um programa de privatizações, sem contar o impacto positivo da atividade do Estado que é subtraído. É claro que eles têm a mídia venal, que irá distorcer tudo e apresentar a pilhagem como benéfica para a sociedade. Mas, de tanto sofrer, esta está conseguindo não mais ser enganada facilmente e, convenhamos, com tantos cidadãos com “fichas sujas” fica difícil esconder a operação de corso em andamento.

Por outro lado, fico pensando quem será que dá as cartas de corso aos atuais corsários? Ou seja, quem segura, do outro lado, os fios que acabam nos atuais atores, as marionetes da cena brasileira? Eles não devem se programar e gerir sozinhos. Creio que, da peça, só vemos os atores que estão em uma parte do palco. Outros estão em área do palco não visível.

*Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia.