1.6.16

O ESTUPRO “COLETIVO” QUE INCRIMINA O BRASIL NAS OLIMPÍADAS

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


O estupro coletivo de uma menor na Zona Oeste do Rio não existiu. O que provavelmente existiu não foi um estupro físico, mas moral e legal. Pela lei, acariciar uma menor, com ou sem consentimento, é considerado um crime de estupro. Foi isso o que aconteceu e foi registrado em vídeo. E não é por outra razão que o primeiro delegado do caso, talvez por não apreciar muito os holofotes da Globo e de outras televisões, colocou em dúvida a ocorrência de um estupro coletivo, o que foi desmentido também pelo exame pericial oficial.

O que espanta nessa história não é apenas a vulnerabilidade de uma menina de 16 anos no morro, mas a vulnerabilidade de nosso sistema de mídia, capaz de transformar suspeita em fato consumado, e exportar isso para o mundo inteiro, às vésperas das Olimpíadas, como se fosse um costume normal no Brasil estupros coletivos. A suposta “notícia” repercutiu no mundo inteiro, e no Brasil nossas televisões, jornais e revistas aproveitaram o incidente para explorar no limite as emoções de uma população totalmente vulnerável à manipulação.

Vou dizer com todas as letras, sem nenhum medo de errar, com base em minha experiência jornalística: não houve estupro coletivo, houve provavelmente abuso sexual semi-consentido praticado pelo namorado da vítima. Isso é bárbaro? Pela lei, sim, mas apenas pela lei. No Brasil, se a tevê fosse dedicar cinco por cento de seu tempo a situações similares, sem a motivação da exploração bombástica, não haveria tempo para mais nada. Dentro e fora de comunidades garotas de 14 anos estão fazendo sexo normalmente todos os dias, sob estímulo da mídia e totalmente fora do controle e sob a indiferença dos pais.

Como, infelizmente, não há mais jornalismo investigativo no país, a história verdadeira desse crime só pode ser contada pela garota. Ela, contudo, se esvai de contá-la sob a alegação de que dormiu na casa do namorado e acordou com vários homens em volta. Certamente não foi ela quem contou o número de agressores; não devia ter condições para isso. A delegada que puseram na história, substituindo o primeiro, e no suposto de que seria mais eficiente na apuração dos fatos, nada tem dito a não ser afirmações categóricas, sem prova. O fato é que um estupro por 33 homens teria levado a menina à morte!

Por que eu, um economista político, decidi tratar desse assunto? Por que estou enojado com a manipulação da imprensa brasileira em todas as fronteiras, da política e da economia aos fatos do cotidiano. É uma infelicidade para o país ter uma imprensa sórdida como essa. O caso da menina “estuprada” é uma exploração de emoções em nome de valores que a própria imprensa ignora ou da qual passa por cima. Diante disso, todo cidadão deveria protestar, com a receita certa: cancelar assinaturas de revistas e jornais escandalosos, e mudar o canal de televisão.

*Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ.