17.11.16

MACONHA NA BOCA E COCAÍNA NA FARMÁCIA

ANDRÉ BARROS -


Agora que avança o processo de legalização do tráfico de maconha nos Estados Unidos, o país que comandou a criminalização de ópio, bebida alcoólica, cocaína e maconha no mundo, devemos começar a pensar como será essa legalização no Brasil.

No Rio de Janeiro, até os idos anos de 1980, só se vendia maconha nos morros, tanto que o nome “boca de fumo” ou “vapor” eram correntes em razão da fumaça da maconha. A partir de então, entrou o cartel da cocaína e, junto com ele, pesados armamentos. Temos de começar a pensar como iremos tirar crianças, adolescentes e jovens do tráfico armado de drogas.

Os morros, onde vivem negros e pobres, não estão em guerra. Numa comunidade com milhares de pessoas, algumas centenas de jovens, negros e pobres são soldados do tráfico armado. Adolescentes portando semi-automáticas e até automáticas, munidos de granadas e rádios transmissores, para desespero de suas famílias, andam pelas ruelas como se fossem “poderosos chefões”. Nenhuma mãe ou pai deseja que seu filho entre para o tráfico armado, tanto que ficam desesperados quando isso acontece. Uma minoria escolhe essa vida curta, onde poucos passam dos 24 anos de idade. Entre milhões de pessoas, alguns milhares de jovens são soldados armados desse milionário comércio ilegal. Temos de começar a pensar como tirá-los dessa luta armada.

Os morros não estão em guerra. Mas para vender armas e munições, é preciso convencer a todos de que existe uma guerra, pois é a guerra que faz esse bilionários mercado de venda de armas e munições. As drogas ilícitas servem de moeda de troca para a corrupção do sistema penal, onde a compra e venda de armamento está incluída. A polícia militar, uma polícia militarizada, compõe essa farsa. Sobem os morros sem conhecer o local, sem qualquer investigação, de modo que policiais, na maioria das vezes, jovens, negros e pobres são colocados na frente dessa farsa, atirando para qualquer lugar e em qualquer horário,matando e morrendo. Um mercado de brancos bilionários, que coloca negros e pobres contra negros e pobres.

A redução da terrível desigualdade social e forte investimento em educação são fundamentais para tirar nossas crianças e adolescentes do tráfico armado. A legalização da boca de fumo deve começar a ser debatida. Foram os negros que resistiram nas bocas de fumos por décadas e séculos. Os brancos de classe média só vão começar a consumir a maconha nos anos sessenta. Portanto, agora que estamos vendo que se trata de um mercado milionário, como vêm demonstrando os Estados norte-americanos com a legalização, não é justo que os morros não possam usufruir da legalização. Não estamos falando de um pequeno comércio, mas de um mercado bilionário de maconha, uma realidade histórica e estabilizada.

Vender maconha nos morros em bocas de fumo legalizadas e cocaína nas farmácias poderia ser o início do debate para tirar as armas da nossa juventude negra e pobre. A cocaína é um estimulante e poderia ser, inicialmente, vendida nas farmácias com receita médica. Poderia ser feito um pacto entre a Justiça e os condenados por tráfico para vender maconha nos morros, sem a venda de cocaína.

Vamos começar a debater a legalização das bocas de fumo, a venda de cocaína nas farmácias, a unificação das polícias, o fim da polícia militar, a redução da desigualdade social e forte investimento na educação como pontos de partida para tirar jovens, negros e pobres dessa luta armada, onde morrem policiais e soldados do tráfico nessa farsa chamada guerra às drogas.