14.11.16

ZUMBI EVANGÉLICO

WILSON DE CARVALHO -


A expressão usada por Arnaldo Jabour, ao se referir ao prefeito eleito Marcelo Crivella, anteontem, em um de seus comentários diários na rádio CBN, provou mais uma vez até que ponto chega o preconceito, principalmente religioso, que continua marcando a hipocrisia da humanidade. Ou seja, em qualquer parte do mundo. Odioso. No próprio esporte, inclusive, o que é mais lamentável. Mesmo com severas punições. E me perdoem se exagerei nesta mensagem, a começar pelo enorme texto, um pouco de cabotinismo, talvez, mas sem intenção. Por favor, leiam até o final, mesmo desagradando.

Na própria campanha a governador, Crivella foi massacrado por adversários que falavam de uma ameaça de o Estado do Rio, desta vez, o Rio, serem governados pelo bispo Edir Macedo. Cheguei a rebater, comentando que se era assim, então o Rio teria uma administração excelente, tomando por base o crescimento cada vez maior da Igreja Universal em todo o mundo. Mais uma catedral está sendo construída m Curitiba e, em breve, em Brasília. Isto também se chama administração, claro, alicerçada pela maior arma da humanidade, desde que bem usada, a fé em Deus.

Faço questão de enfatizar que a minha intenção não é a de fazer a defesa do prefeito eleito Marcelo Crivella e do bispo Edir Macedo. E eles nem precisam. Apenas mostrar até onde vai o preconceito, no caso, religioso, o mesmo que me prejudica até hoje, mas que só agora, decidi revelar.

Simplesmente por que pago o preço de ter sido editor e autor do projeto da Folha Universal, embora, hoje, diferente no conteúdo e design. Me orgulho de ter recebido o jornal pouco tempo depois de sua fundação, no formato tabloide, cinco mil exemplares, pb (preto e branco), impresso na Tribuna de Imprensa e transformando-o em standard, dois cadernos, a cores, com um conteúdo valorizado até por noções de inglês, espanhol e gramática, além de páginas de esportes, ciência, medicina, ecologia e política. Tinha também uma página infantil com desenhos e questões para exercitar as crianças. Era o jornal que sonhava fazer, quase completo. Para competir com os seculares. Eu mesmo o deixava nos bancos dos vagões do Metrô, no ponto final na estação Engenho da Rainha, próxima à antiga sede da FU. Em Botafogo, onde eu morava e era o outro ponto final da Linha 2, também com parada de quase meia hora, tinha tempo para recolher os que sobravam. Poucos. Afinal, mesmo que não gostassem da igreja ou do bispo, as pessoas levassem o jornal. Havia conteúdo geral. Eu também mandava a FU para as redações sem imaginar que iria pagar pelo preconceito.

Até hoje, muita gente não perdoa por eu ter trabalhado para o “ladrão Bispo Macedo”. E mais grave, conforme ouvi de companheiros, “por ter ajudado a construir o grande sucesso do jornal nos anos de maior turbulência da igreja”. Outros colegas de profissão não preconceituosos ainda comentam sobre a minha “burrice”: “você deveria ter fingido uma conversão para também enriquecer”. Outros, tão logo souberam do meu ingresso na Folha Universal, ironizavam com frases tipo “agora, sim, vais ficar rico”.

Mas é importante dizer que o preconceito não deixou de acontecer na própria Folha Universal por parte de uns poucos que não aceitavam como chefe um “incrédulo”, o que nunca fui, “ou que não era da igreja”. Talvez porque eu era muito exigente, pedia que economizassem até um simples clips e cobrisse os computadores sempre que acabassem o trabalho. Entre outras atribuições, influência do meu pai, comerciante e ex-empresário de transportadora, bem sucedido. De nada adiantava eu chegar cedo e não ter hora para sair. Às vezes, trabalhando sozinho em feriados e domingos, para deixar tudo em dia. No início, até formar a equipe, eu funcionava como editor, chefe de reportagem e da fotografia, tomava conta até do setor de carros de reportagem. Para os preconceituosos, também não adiantava eu passar know-how, incentivando, vibrando, fazendo apologia, obrigações do verdadeiro jornalista. Eu falava que a FU teria de ser o maior jornal do país, não abria mão. Nada disso foi suficiente para impedir o preconceito dentro da própria redação. Uma minoria chegou a orar para a minha saída. E conseguiram. Na volta, porém, não me vinguei de ninguém. Apenas “reorganizei e casa”. As alegações variavam, entre elas a de que eu era arrogante, até palavrões dizia, logo eu que sequer gosto de termos chulos. Na verdade, puro preconceito. Na volta, porém, perdoei a todos. Apenas desagradei a alguns na “reorganização da casa”.

Uma matéria que eu mesmo pautei em um tabloide de minha propriedade e na revista da Federação de Futebol do Estado do Rio, sob minha edição, provocou o convite para a Folha Universal. O objetivo era saber o porquê de só a IURD, e não o futebol, conseguia levar 200 mil pessoas ao então maior estádio do mundo, o Maracanã. Mas não foi fácil aceitar o principal argumento de quem trabalhava comigo: “que é isso, cara, fazer matéria com a igreja desse ladrão? Vai pegar mal”. Sem preconceito, fiz a matéria e voltei para a redação com mil e uma entrevistas, retranca e manchete prontas: “Só a Igreja Universal enche o Maracanã. Seriam 200 mil bobos ?” . Aceitei o convite, mas só seis meses depois, pois tive que largar os meus compromissos e até a possibilidade de voltar ao Dia, onde também fui colunista e repórter especial com séries de reportagens e matérias polêmicas que me valeram muitos prêmios. Entre alguns cargos de chefia.

Muitos não me perdoam até hoje, por ter colocado em prática na Universal todo o meu know-how, experiência internacional (cinco Copas do Mundo) e sem passagem apenas pelo Globo. Não, eu não poderia ter contribuído para o jornal da IURD. E por que estou contando tudo isso? Porque tem a ver com o preconceito do qual também fui vítima. E pelo mesmo motivo do novo prefeito do Rio. Imaginem se eu ainda fosse o editor da FU, de onde, aliás, saí quase seis anos depois por decisão de um ex-bispo da igreja, sob a alegação de eu ser teimoso. O teimoso que, entre outras providências, fez valer a sigla IURD. Aliás, cheguei a criar uma frase que poucos se lembram: “o mundo está mudando, caiu o muro de Berlim, desfez-se a União Soviética, surgiu a Igreja Universal”. E o bispo Edir Macedo, que não me via como um teimoso e sim um profissional, me recolocou sete meses depois da primeira demissão. Posteriormente, mandou me chamar depois da segunda demissão, porém, fui barrado por esse mesmo ex-bispo, hoje, afastado da igreja. Cheguei a lançar “O Evangélico”, um jornal standard, a cores, dois cadernos, tiragem modesta, cobrindo todas as denominações. E logo esse mesmo ex-bispo declarou que se tratava de uma afronta à Folha Universal. Era uma cópia, alegava. Mandei então um recado: jornal é a cara do editor. Infelizmente, fui apenas até a terceira edição do Evangélico, pois não tinha capital de giro.

Não demorou muito para o preconceito me prejudicar. Mais uma vez. Um diretor de um grande jornal, com quem trabalhei no Jornal dos Sports e O Dia, me fez o convite, infelizmente cancelado dias depois: “Wilson, o seu nome está numa listra negra. Você trabalhou para o Macedo e ainda contestou matérias do meu próprio jornal em defesa da igreja”. Entrou em cena o preconceito, ideia preconcebida, suspeita, intolerância, aversão a outras raças, credos, religiões, etc.etc., conforme informam os dicionários. Pois bem, esqueceu-se o profissional, me desculpem o cabotinismo, com louvável bagagem. Até hoje, alguns companheiros, preconceituosamente, não aceitam a minha passagem pela Folha Universal, até porque assumi com 50 mil exemplares e saí com mais de um milhão, dois cadernos a cores, etc.etc. Há um ano, na ABI(Associação Brasileira de Imprensa), onde sou conselheiro, fui contestado e até ironizado durante o “Seminário sobre o Futuro da Mídia Impressa”. Mais uma vez, entrou o preconceito quando tentei valorizar a Folha Universal como jornal impresso e vitorioso, ao contrário dos que ainda restam, falidos e de tiragens ridículas não reveladas.

É isso: o preconceito que não julga as pessoas pelo que elas são, a capacidade profissional, o que podem realmente fazer. Exemplo do prefeito eleito, humano, mais de dez anos como senador, sem envolvimento com a corrupção, sem citação no Lava Jato, muito trabalho comprovado no próprio exterior e licenciado há anos da própria Igreja Universal. Além disso, com uma proposta de “cuidar das pessoas”, exatamente o que mais o povo brasileiro precisa para acabar, em especial, com o extermínio na área da saúde. Além da falta de respeito por parte de uma classe política da pior qualidade, verdadeira predadora. Desumana. Mas e daí se Marcello Crivella é sobrinho do Bispo Macedo? E que se preparem, os dois, se a administração do Rio deixar de atender um mínimo das necessidades do povo do Rio. Preconceito jamais visto. Odioso.