15.12.16

MACONHA E QUILOMBO

ANDRÉ BARROS -

Apesar da escravidão, os negros escravos criaram para si uma verdadeira comunidade ecológica, utilizando materiais que a natureza lhes dava para fabricar seus utensílios, moradias, colhiam seu próprio alimento e plantavam sua própria maconha. Entender essa história é entender a atual repressão policial quando pensamos em drogas e na população negra brasileira.


Ao longo de nossas pesquisas acerca das raízes racistas da criminalização da maconha, dentre várias notícias de jornais dos séculos XIX e XX, meu amigo Pacheco encontrou um artigo sobre o advogado e escritor Edison de Souza Carneiro (1912-1972). Membro do Partido Comunista Brasileiro, a partir da década de 1930, Edison foi um dos maiores etnólogos brasileiros, especializado em temas afro-brasileiros.

Foi ele quem escreveu o livro “O quilombo dos Palmares”, sobre o quilombo mais importante da História do Brasil, que chegou a ter vinte mil moradores em seu apogeu, no século XVII. Como os demais quilombos, era formado por negros que fugiam da escravidão em busca da liberdade, e teve em Zumbi dos Palmares seu maior líder. A lei federal 10.639 de 9 de janeiro de 2003 estabeleceu a comemoração do dia nacional da consciência negra para 20 de novembro, pois foi neste dia, em 1695, que o herói Zumbi foi assassinado. Ele comandou o quilombo, também conhecido como a República dos Palmares, situado no atual estado de Alagoas, entre 1678 e 1695. A lei estabelece que, no ensino fundamental e médio, em redes oficiais ou particulares, é obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira. Esta lei é desrespeitada em várias instituições brasileiras e o seu ensino é fundamental para entendermos porque a polícia entra atirando e matando negras e negros, nas regiões pobres onde moram, vivem e resistem até hoje a todo um sistema social racista desse nosso capitalismo periférico de raízes monarquistas e escravocratas.

Em seu estudo, Edison Carneiro demonstrou que os quilombolas conseguiam retirar do solo e da mata o necessário para seu sustento, vivendo de forma saudavelmente ecológica, e fabricavam com madeira, fibra e barro suas casas, potes, vasilhas, vassouras, esteiras, chapéus e cestas. Viviam de forma comunitária e plantavam sua própria maconha, consumindo o “fumo de Angola” em cachimbos feitos com cocos de palmeira.

O grande escritor comunista viu no Quilombo dos Palmares uma vida comunitária e tomo a liberdade de interpretar que a maconha influenciou na formação de uma sociedade comum e igualitária, que resistiu por mais de um século de escravidão.

*André Barros, advogado da Marcha da Maconha, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, membro do Instituto dos Advogados Brasileiros e terceiro suplente de Deputado Estadual pelo PSOL do Rio de Janeiro.